
Volume 1 - Capítulo 44
Dominação do Abismo
A taverna estava lotada.
Soran ouviu algumas péssimas notícias através da multidão: os monstros na vizinhança estavam agindo de forma estranha ultimamente, como se todos tivessem ficado loucos. Eles começaram a migrar para os lugares que eram originalmente habitados por humanos, próximos à cidade, bloqueando todas as rotas para o norte.
Os monstros migraram para as planícies e colinas próximas ao Caminho Branco, fazendo a cidade aumentar o nível da segurança e enviar patrulhas armadas nas regiões próximas de tempos em tempos. Até a Guilda dos Aventureiros havia publicado uma missão de investigação de rank B, alocando 12.000 de fundos, com o intuito de contratar aventureiros para procurar a verdadeira razão do comportamento anormal dos monstros.
A guilda não estava solicitando para que os aventureiros resolvessem o problema, tudo o que eles queriam saber era o motivo por trás disso. Apesar de parecer simples, o resultado não foi o que eles esperavam, os primeiros grupos de aventureiros foram investigar, mas apenas um deles retornou, e eles não tinham nem alcançado o Pântano das Sombras antes de voltarem graças ferimentos graves causados por grupos de ogros no meio do caminho.
Aventureiros que escolhiam missões de rank B eram fortes, todos do time teriam classes avançadas e estavam pelo menos no grau três. Mesmo assim, eles foram forçados a retornar graças a baixas graves. Os ogros geralmente já estariam em uma classificação de desafio alta, mas havia com eles um ogro mago de duas cabeças.
Esse monstro tinha a aptidão de Lançamento Múltiplo. Os magos e aventureiros do time foram dominados e mortos rapidamente, após isso, o comandante ogro ordenou seus subordinados a cercarem os aventureiros.
Os aventureiros só conseguiram fugir após gastarem quase tudo que possuíam em mãos. Enquanto eles voltavam para o Caminho Branco em farrapos, descobriram uma pegada gigante, que aparentemente pertencia aos gigantes da montanha do Sudoeste. Eles suspeitavam que os gigantes das montanhas foram expulsos de seus lares por algum motivo, e tinham quase certeza de que os outros aventureiros já tinham sido aniquilados.
Mais de cem esquadras mercantes estavam presas no Caminho Branco. Algumas esquadras tinham guardas melhores e tentaram forçar seu caminho na rota sudoeste, mas encontraram aproximadamente 300 gnolls, e apenas um décimo dos guardas sobreviveram.
A maioria das estradas já estava fechada, impedindo que mais pessoas se apressassem em direção ao grupo de monstros. Sem considerar a rota em que Soran havia vindo, todas as rotas, inclusive as rotas para a Descida do Outono e para o mar, estavam ocupadas por monstros.
Goblins, kobolds, gnolls, ogros, homens-lagartos, e muito mais. Alguma coisa horripilante havia aparecido, a maioria das criaturas que residiam próximo às Montanhas Bárbaras haviam migrado de seus lares. Rumores de que havia um dragão surgiram, mas infelizmente ninguém conseguiu validá-lo.
Soran estava carregando Vivian nos braços enquanto descia uma estrada de terra lamacenta. Como a maioria dos mercantes estavam presos no Caminho Branco, todas as tavernas e pousadas da cidade estavam completamente lotadas, mais e mais mercantes chegavam na cidade, apenas para descobrir que não seria possível alcançarem seus pretendidos destinos.
As únicas opções disponíveis seriam esperar do lado de fora ou voltarem de onde vieram. Mesmo que eles oferecessem o dobro do valor, seria muito difícil encontrar alojamentos descentes, ainda mais nessa época caótica, onde pessoas tendiam a rejeitar forasteiros. Sem muitas opções, Soran pagou para que cuidassem de seu cavalo em um estábulo, então retornou para o distrito antigo da cidade, para as favelas.
Essas eram péssimas notícias para Soran.
Ele havia planejado seguir em direção a Descida do Outono, mas essa rota também foi bloqueada pelo fluxo de monstros. As coisas seriam mais fáceis se viajasse sozinho, mas agora ele estava viajando acompanhado, não seria possível garantir a segurança de Vivian durante uma batalha.
O dragão ancião vermelho… essa foi a primeira coisa que veio em sua mente.
Dragões adultos, Soran só conseguia pensar nessa opção para causar tal migração de larga escala. Julgando pelo padrão de dispersão dos monstros, ele deduziu que a localização que os monstros escaparam estava próximo de onde o dragão ancião vermelho havia aparecido no jogo.
A comunicação era lenta devido ao baixo nível de tecnologia. Considerando o tempo que as pessoas precisariam para confirmar a existência dos dragões vermelhos em comparação ao jogo, o tempo de aparição foi o mesmo.
O dragão tinha sagazmente se disfarçado como um dragão comum e muitas pessoas morreram em suas mãos. Após coletar e analisar os dados, os jogadores notaram que de fato era um dragão ancião vermelho com uma classificação de desafio de 25. Se o dragão não tivesse irritado um Santo, uma deidade descendida, e sido eventualmente morto, toda a região sul teria sido destruída.
[Dragão ancião vermelho (Grau 7)
Classificação do desafio: nível 25 (Nível do monstro: 34), pode usar ataques de sopro.
Atributos estimados: Força 42, Destreza 10, Constituição 35, Inteligência 25, Sabedoria 24, Carisma 24.
Especialidade: Dragão Ancião, Magia Lendária, Criatura Gigante, Poderoso Sopro de Dragão, ??? (Desconhecido)
Dificuldade: S.]
A classificação do desafio e dificuldade dos dragões anciões vermelhos eram comparadas a de deidades menores. A única diferença entre eles era que o dragão não tinha divindade, mas tinham fortalecimentos exclusivos para dragões anciãos.
No jogo, alguém tentou sobrecarregá-lo com números, mas os resultados foram catastróficos, como esperado. Só com o bater de assas, dúzias de jogadores morreram. Outros 100 ou 200 foram dizimados com um simples ataque de sopro. Depois disso, ninguém mais tentou derrotá-lo dessa forma.
Mesmo que fosse perigoso, muitos queriam roubar os tesouros escondidos no lar do dragão ancião. Mais de cinco milhões de Derahls de ouro, cargas de itens de grau raro e épico, e dúzias de itens de grau lendário. Obter uma pequena porção do tesouro era suficiente para as pessoas colocarem suas vidas em risco.
Existia até a possibilidade de encontrar itens de grau Divino no covil. Se havia ou não, era discutível, pois a maioria desses itens estavam guardados nos santuários. Sem considerar um deus caído que o produzisse, normalmente esses itens não seriam adquiridos, até mesmo para um poderoso dragão ancião.
Uma coisa era certa: alguém conseguiu roubar alguns itens de grau lendário do covil do dragão ancião. Esses itens foram as chaves para caçar deuses no futuro.
Contudo, nesse momento, Soran era apenas um ladino no nível 5, ele não conseguiria nem ficar de pé diante de um dragão vermelho devido sua aura assustadora, quanto mais lutar contra um.
Naturalmente, ele não considerou lutar com um dragão. Ele estava mais preocupado com os monstros que estavam obstruindo as rotas, pois ele não conseguiria levar Vivian para a Descida do Outono caso esse problema persistisse.
Pelo que ele se lembrava, esse dragão ficou caçando nas redondezas por um bom tempo, significando que as estradas ficariam fechadas por semanas, ou até meses. A menos que alguém eliminasse todos os monstros, Soran não teria como cruzar as colinas do Caminho Branco com apenas os dois.
Soran segurou Vivian nos braços, enquanto entrava em uma taverna barulhenta e lotada, onde aventureiros andavam totalmente armados para todo lado, além de algumas pequenas esquadras mercantes.
— Aqueles malditos gnolls! — Um homem musculoso bateu a caneca na mesa e disse em voz baixa. — Eles até comeram o Meyer, quando encontrei o que sobrou do corpo dele, eu não consegui nem juntar as partes.
Todos estavam reclamando e murmurando sobre essa situação repentina. Esse êxodo em massa de monstros aconteceu inesperadamente, e ninguém estava preparado. Até os homens-lagartos, que viviam no Pântano das Sombras, atacaram os assentamentos e vilarejos no perímetro do pântano, forçando as pessoas a fugirem de lá.
A única coisa que as pessoas sabiam era que alguma criatura ou monstro havia forçado os homens lagartos a saírem de seus locais de origem. Como seus lares se foram, eles tinham que atacar os humanos nas proximidades, pois precisariam de um novo território.
De repente, um homem aparentemente bêbado esbarrou em Soran.
— Desculpe! — o homem disse.
No momento que ele embarrou em Soran, suas mãos foram em direção a sua bolsa, mas ele não permitiria isto. Com uma chave de ombro, Soran agarrou os braços do bandido e pisou em seu joelho, prendendo-o no chão.
Toda a taverna ficou em silêncio, e os gemidos de dor do bandido puderam ser ouvidos. Soran deslocou impiedosamente os ombros do homem.
— Cuidado com quem você mexe.
Soran colocou Vivian no chão e desembainhou a espada curva da cintura, cutucando levemente o ombro do ladrão com a ponta da lâmina. Alguns homens, membros da mesma gangue cruzaram, seus braços enquanto se aproximavam de Soran.
— Chega! — um homem, que estava sentado no bar, se levantou e disse enquanto olhava para Soran. Ele apontou para o bandido, que ainda estava preso no chão. — Quebre os braços dele e o jogue-o lá fora. Saiba o seu lugar! Como você ousa, tentando roubar coisas na minha taverna!
Homens surgiram de todos os cantos da taverna, eles acenaram para Soran, avisando-o para deixá-los cuidar do resto. Os homens quebraram os braços do bandido, virando-os brutalmente, e o bandido gritou e chorou de dor, mas os homens não se importaram e simplesmente o jogaram na sarjeta da taverna.
Eles eram os pistoleiros contratados da taverna, esse lugar provavelmente fazia alguns acordos ilegais por baixo dos panos. Isso era razoável para Soran, pois era quase impossível encontrar uma loja adequada que seria 100% limpa nas favelas.
— Jovem, você possui boas habilidades, quer passar a noite aqui? — o homem musculoso de pé na frente do balcão perguntou a Soran. — São dois Derahls de prata por noite. Se você não gostar, pode ir dormir em outro lugar.
Soran olhou em redor, antes de jogar duas moedas de prata no balcão, pegando Vivian em seus braços novamente. O homem acenou enquanto pegava as moedas.
Logo, uma criada bem maquiada guiou os irmãos para um quarto no segundo andar. A maioria das criadas trabalhava apenas meio-período, servindo na taverna como balconistas e camareiras, mas isso não era tudo. Dependendo de quanto as fosse oferecido, elas também proveriam alguns serviços noturnos especiais.
…