Dominação do Abismo

Volume 1 - Capítulo 43

Dominação do Abismo

Caminho Branco era uma cidade muito desenvolvida, que superava em muito a cidade Âmbar. Mesmo que a viagem até lá não fosse muito conveniente, ela era uma das mais antigas cidades do sul. 

No centro da cidade tinha um crânio de dragão-vermelho, o símbolo da cidade. Certa vez, aventureiros mataram um dragão-vermelho do mal nessa região, e com a riqueza obtida com isso, construíram uma cidade, que se tornou Caminho Branco, o centro comercial do Sudoeste.

Havia mansões luxuosas ao norte da prefeitura da cidade. O barão anterior, que era proprietário de uma mansão, havia morrido de uma doença peculiar, então essa mansão havia sido passada de mãos havia pouco tempo.

Era falado que uma nobre viúva causou uma comoção quando se mudou para lá, não apenas por sua riqueza, mas também por sua beleza estonteante. A viúva vivia em isolamento e raramente aparecia em público. Ela não se interessava pelos banquetes feito por outros nobres, nem se importava em fazer negócios com eles, sendo esse o motivo deles a terem rejeitado. As pessoas apenas viam sua carruagem de tempos em tempos viajando da mansão para sua vila, que ficava fora da cidade.

Era de conhecimento comum que ela era extremamente rica, afinal, ela não só havia comprado as melhores lojas da cidade, como também possuía uma grande vila fora dela. Não era difícil para as pessoas perceberem que ela tinha bastante apoio, pois uma nobre viúva normalmente não conseguiria possuir e assegurar tamanha prosperidade e riqueza.

No momento, a senhora da esquadra mercante chegou a esta mansão mencionada anteriormente. Servos estavam prontos a frente da mansão esperando por sua chegada. Uma empregada retirou seu véu e levou-a para um dos maiores quartos da mansão.

Um tapete de alta qualidade de pelo de garça cobria o chão. Esse tipo de produto alquímico era muito popular entre os nobres de classe baixa, pois eles pagariam uma fortuna para obtê-lo. Contudo, o quarto era luxuosamente coberto com tal item como se fosse um pano barato. Uma encantadora dama, dona de um ondulante cabelo preto, estava sentada em uma larga cadeira de balanço feita de madeira de lixa avermelhada, lendo um livro. Ela estava vestindo uma camisola branca de colarinho ligeiramente aberto, que revelava seus seios fartos.

A senhora misteriosa da esquadra mercante se curvou para a dama, enquanto falava com ela.

— Eu trouxe o item solicitado, contudo, eu não compreendo. Por que você me fez viajar por todo esse caminho apenas para lhe trazer uma carta do Baralho de Muitas Coisas? Você sabe que estou fazendo uma pesquisa importante, certo?

A encantadora dama se levantou e sua camisola escorregou lentamente. Ela não se preocupou em levantá-la, como se a pessoa a sua frente fosse uma filha. Com um tom brincalhão, ela respondeu:

— Glória, como você não notou, mesmo depois de tanto tempo? Isso não é uma carta do Baralho de Muitas Coisas, mas sim uma carta do Baralho do Destino! O ápice da alquimia! O sonho de todos os alquimistas!

A mulher também era uma bruxa do norte, sua idade não podia ser determinada apenas por sua aparência. Ela andou em direção à senhora mercante e recebeu de suas mãos a caixa preta de metal.

— Aquelas idiotas do Conselho das Bruxas a tiveram por tanto tempo, mas não conseguiram descobrir nada. Elas deveriam tê-la me dado antes.

Com seus dedos brancos, a encantadora dama acariciou a misteriosa carta na caixa, com deleite crescendo em seus olhos.

— Baralho do Destino… a chave para se tornar a criança do destino!

A carta desapareceu repentinamente na palma da mão da charmosa dama. Essa era uma magia normalmente usada por bruxas e magos avançados: o Armazém. Ele abriria um espaço dimensional, permitindo que o feiticeiro guardasse itens nele.

— Minha querida filha — disse a charmosa dama enquanto se deitava preguiçosamente em uma grande cama macia e mexia em seus cabelos —, você encontrou alguma coisa digna de menção durante a sua jornada dessa vez? Faz um tempo que ouvi alguma coisa interessante desde que fui aprisionada aqui, sabe? Seriamente, eu quero sair daqui.

A filha franziu a testa e falou em tom sério.

— Por favor, não se esqueça que você atualmente está sendo punida pelo Conselho das Bruxas, porque você conduziu um experimento proibido na Raiz da Árvore da Morte, tudo dentro de 50 quilômetros foi aniquilado, tornando-a em uma terra de ninguém, se o concelho não tivesse a acobertado, os druidas do norte já teriam te caçado. Tudo o que lhe esperaria agora seria o julgamento da natureza, e eu tenho certeza de que você sabe o que isso significa.

Sua mãe, contudo, riu encolhendo os ombros como uma adolescente. Com um tom perverso, ela respondeu.

— Glória, foi apenas um pequeno incidente enquanto eu estava tentando fazer algo divertido. Aqueles druidas são muito cabeça dura!

A senhorita estava obviamente agitada pela resposta de sua mãe e começou a falar como se estivesse repreendendo-a.

— O descontrole da energia elemental da Raiz da Árvore da Morte causada pelo seu “experimento divertido” causou danos sérios naquela região. A estrutura geológica sofreu uma mudança completa, além da energia elemental radioativa ter subido para grau A! Até agora a energia continua sendo espalhada pelo Plano Elemental, e aquela área será uma terra dos mortos, vazio de qualquer tipo de vida, pelos próximos 500 anos! Você chama isso de pequeno acidente?! Se sua majestade, o Olho do Norte, não tivesse pedido desculpas pessoalmente, até mesmo o Lendário Metamorfo, que vive recluso nas Montanhas de Gelo, teria feito algo contra você! 

— Esse cara pode se transformar em um dragão, mas não pode usar os ataques de sopro de dragão. Eu não tenho… medo dele, você sabe! — A mãe respondeu enquanto seu sorriso desaparecia, aparentemente oprimida pela sua filha.

Glória, que raramente sorria, sorriu como se aproveitasse a expressão preocupada da sua mãe.

— Os 50 anos no exílio não são suficientes? Comparado com o que você fez, até se escolhessem mais, eu não ficaria impressionada. A sua majestade foi parcial com você por seus talentos, como sempre! Contudo, mantenha em mente que se você fugir, os druidas terão o direito te forçar ao julgamento da natureza. Se isso acontecer, nem a sua majestade poderá te salvar. A Ordem dos Druidas continua tentando reequilibrar as energias elementais até agora. O Conselho das Bruxas já enviou mais de vinte bruxas avançadas para ajudá-los, mas foi insuficiente para acalmar a irá deles. Até o conselho ficou agitado, por isso eles estão tomando cuidado com essa bagunça!

— Chega — A mãe franziu a testa —, aqueles idiotas obstinados nunca irão entender o quão importante foi meu experimento. Se eu tivesse sucesso, uma nova era de magia chegaria para nós!

Sem abaixar a cabeça, Glória a combateu duramente.

— Mas você fracassou, e tem que ser responsabilizada por suas ações.

Como se ela tivesse tirado sua paz, a mãe de Glória jogou o livro no chão, gritando em insatisfação.

— CHEGA! Isso é jeito de falar com sua mãe?!

Glória relaxou um pouco, e começou a falar em tom mais suave, enquanto se abaixava para pegar o livro.

— Mãe, eu te respeito e te amo, mas isso não muda a minha opinião sobre você como uma bruxa! Uma vez você me disse: “Quando nossos poderes são insuficientes, a fé será sempre a nossa carta final”.

Sua mãe acenou em resposta e mexeu sua mão com uma expressão cansada.

— Tudo bem, pode sair agora.

— Ah, em meu caminho até aqui, eu encontrei algumas coisas interessantes. Se você quiser, eu posso te dizer. — Glória falou, hesitantemente.

Como se estivesse falando “Sou toda ouvidos”, sua mãe acenou para ela continuar.

Mesmo que ela estivesse exilada só no nome, ela ainda era constantemente monitorada pelo Concelho das Bruxas. Ela só tinha permissão para andar livremente na mansão, e quando o concelho a chamasse, para a vila fora da cidade. Se ela fizesse um pequeno movimento suspeito, o conselho a enviaria um aviso, e ela poderia ser realmente presa. A Ordem dos Druidas do Norte já a classificara em sua lista de alvos como a pessoa mais perigosa, espalhando notoriedade a ela entre todos os druidas do mundo. De fato, até esse momento ela estava exilada em Caminho Branco, e alguns druidas e elfos estavam a observando secretamente.

— Eu encontrei duas pessoas interessantes no caminho até aqui — Glória organizou seus pensamentos e continuou: —, um homem e uma garotinha, um par de irmãos. O homem é um ladino esperto, e eu pensei que ele fosse uma pessoa comum, inicialmente, mas descobri que a alma dele está até mais frágil que a maioria dos plebeus. Normalmente, ou eu teria pensado que ele fez pacto com demônios ou sofrido um severo dano na alma antes. O ponto é que ele teria o odor do Abismo se fosse o primeiro caso, e não teria sobrevivido se fosse o segundo.

A mãe ficou intrigada com o que a Glória havia dito. Ela interrompeu a filha.

— Oh, minha querida, por que você não o mata? Você saberá a resposta se aprisionar a alma dele e estudá-la.

Após ouvir o que sua mãe havia dito, Glória apresentou uma expressão descrente. Ela respirou fundo e continuou, em tom firme.

— Mãe, seria inapropriado fazer tal coisa, acabar com a vida de alguém apenas para satisfazer minha curiosidade.

— O que tem de tão valioso nessa alma? Certo, continue.

Glória suspirou mentalmente, irritada com o jeito de pensar de sua mãe.

— O que realmente me surpreendeu foi a pequena garota, ela é excepcional. Uma pessoa especial, não sei como colocar em palavras, mas ela tem talentos extraordinários. Se não fosse pela falta de divindade, eu poderia tê-la confundido com uma mística Descendente de Deuses. Eu queria aprender mais sobre eles, mas eles são extremamente vigilantes com os outros. Então consegui aprender apenas sobre coisas triviais.

— Muito cuidadosa… — a mãe disse, desinteressada. — Apenas use o Encantar Pessoa e os faça falar. Se eles possuírem grande força de vontade, use o Encantamento Terrível. Isso não irá lhe causar muitos problemas.

Glória franziu a testa e disse, lentamente:

— Nós não devemos abusar do poder mágico, eles não são maus, e eu posso dizer que os dois tem uma forte conexão, tão forte que eu até fiquei com inveja. Nunca se esqueça dos nossos valores, senão nós nos perderemos durante a jornada por força e poder.

A mãe de Glória riu enquanto arrumava sua roupa e cobria seus seios.

— Oh, minha querida filha, você está se desviando do alinhamento neutro que todas as bruxas seguem, oh, eu acredito até que você está cometendo o erro de ter a cabeça musculosa de um paladino!

— Eu apenas estou aderindo aos meus próprios valores. Você é quem deveria refletir sobre suas ações, mas só fica fazendo o que quer, o tempo todo.

Glória se virou e saiu da sala.

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