
Volume 1 - Capítulo 42
Dominação do Abismo
A esquadra mercante sairia para a cidade Caminho Branco bem cedo pela manhã, então Soran já tinha empacotado seus pertences e até mesmo preparado o café da manhã quando Vivian acordou.
— Irmãozão… — disse Vivian enquanto puxava as próprias mangas, pois estava nervosa. — Me desculpe, eu não vou beber de novo.
Essa pequena pirralha… bebendo álcool quando eu não estava olhando, Soran pensou. Ele pensara em dar um sermão na Vivian, mas decidiu por não o fazer após ver a carinha fofa e suplicante dela.
— Uma última chance, se eu a vir fazer isso novamente, eu vou te bater com uma vara! — disse ele com uma voz severa.
A garotinha deu um suspiro aliviado e até mostrou a língua quando Soran não estava olhando. Então, ela seguiu Soran enquanto desciam as escadas até a sala de espera.
Vivian tinha tomado apenas algumas goladas de cerveja por curiosidade, pois desejava entender o motivo das pessoas gostarem tanto de beber álcool, contudo, ela não esperava ficar bêbada tão rápido. Ela se sentiu afortunada por seu irmão não a repreender.
Sua bunda ainda estava ligeiramente dolorida, mesmo após dormir a noite toda. Soran deveria estar extremamente bravo para ter batido nela com tanta força. Ela fez uma nota mental de nunca mais beber álcool novamente.
Soran não gostava de beber, ou melhor, ele nunca tinha bebido nenhum tipo de álcool. Ele era o maior inimigo dos ladinos, pois essa substância enfraqueceria seus sentidos, força de vontade, agilidade e consciência.
Enquanto alguns guerreiros aumentavam sua força de combate após ficarem um pouco embriagados, não era o mesmo para os ladinos, em vez disso, as vantagens de sua classe se dissipavam. Soran uma vez viu um ladino do nível 19, tão perto do Reino das Lendas, ser cortado em pedaços por meros novatos de nível 6 por estar completamente bêbado.
Para aqueles que as classes dependiam grandemente de habilidades, no lugar de poder bruto, era essencial manter a mente limpa o tempo todo. O Álcool nesse mundo era muito forte, os magos haviam criado um processo similar à destilação, e técnicas de purificação eram usadas por alquimistas para fazerem bebidas alcoólicas, mas combinando os dois, o licor obtido era tão forte, que até Guerreiros Lendários ficavam bêbados com só um ou dois copos. Devido a isso, Soran apenas fumava o tabaco feito pelos hobbits para relaxar do estresse, por isso, ele sempre carregava consigo um cachimbo.
Soran foi à cozinha e pegou o pote de porcelana, que fora mantido quente a noite toda. Uma doce fragrância encheu o lugar imediatamente, fazendo todos voltarem sua atenção para ele. Soran sorriu enquanto derramava o conteúdo na panela, guardando uma porção para ele e outra para Vivian antes de dar o que sobrou para os guardas mercantes, eles prepararam refeições secas para toda a jornada, então Soran ao menos os possibilitou sentir o sabor de uma comida fresca novamente. Ele também pagou a pousada para fritar dois ovos e preparou duas tigelas de mingau, e Vivian deveria comer o máximo que ela pudesse agora, porque a difícil jornada logo recomeçaria.
A misteriosa senhora apareceu e se sentou no lado oposto ao de Soran. Sem pedir permissão, ela começou a provar a comida que ele havia feito. Ela parecia tão casual que Soran ficou perplexo por um segundo, mas não pôde dizer nada.
— Você não irá tirar o seu véu para comer? — Soran disse enquanto comia. — Não é muito inconveniente comer com isso?
A senhora segurou graciosamente a colher, pegou um pouco de sopa e soprou para resfriá-la. O véu flutuou, mostrando um pouco de seu queixo pontudo.
— Está ótimo, eu não esperava que você tivesse talentos para culinária. — respondeu calmamente.
Contudo, ela comeu pouco. O olhar dela pousou em Vivian, que estava ocupada tomando o café da manhã como se fosse uma besta raivosa. Vivian viveu na pobreza desde o nascimento, então ela não era exigente com comida. Mesmo que o sabor fosse comum, já seria uma comida enviada pelos deuses para ela.
Por alguma razão, a senhora misteriosa falou muito mais do que antes. Soran não estava esperando que ela conversasse com eles durante o café da manhã, o que o fez suspeitar dela. Teria que ser algum motivo oculto para ocorrer essa mudança de comportamento repentina.
Soran rapidamente terminou sua porção, então olhou para senhora.
— Você não deveria desperdiçar comida.
Ele pegou a tigela dela e colocou o resto de comida em sua própria tigela e voltou a comer. Esse foi um ato extremamente arrogante e desrespeitoso, especialmente quando a outra parte era uma dama da alta sociedade.
A senhora olhou irritada e com indignação. Ela respirou fundo, fazendo seu busto abundante balançar um pouco, então, recuperou sua compostura e continuou sentada ali como se nada tivesse acontecido.
Alguma coisa estava errada.
Mesmo assim, Soran continuou comendo como se nada tivesse acontecido, fingindo ser simples e mesquinho. Ele intencionalmente também espiou pelo decote dela, pois queira se disfarçar como uma pessoa suja.
Pelo ponto de vista de Soran, a senhora estava agindo estranhamente, então ele manteve a guarda alta contra ela. Ela, por ser uma bruxa, tinha uma atitude ligeiramente arrogante, não foi especialmente fria com os irmãos durante a viagem, mas também não foi tão amigável com eles. A senhora estava obviamente ofendida pelo comportamento de Soran, mas ela suportou e continuou agindo normalmente por alguma razão. Bruxas e magos eram pessoas racionais, existia razão em suas ações. Soran pôde notar que a senhora não estava interessada nele, mas claramente estava mirando em Vivian.
Ela descobriu os talentos de Vivian?
Aparentemente Soran havia adivinhado. Assim que retornaram à viagem, a senhora casualmente perguntou sobre suas origens, mas ele poderia facilmente ver suas intenções. Essas coisas eram brincadeira de criança para ladinos, isso era técnica básica de obtenção de informação. Apesar disso, Soran não conseguiu dizer se ela era uma amiga ou inimiga.
A senhora poderia estar tentando levar Vivian como sua aprendiz por notar seus talentos, o que explicaria o motivo de sua aproximação, pois queria aprender mais sobre o passado de Vivian. Contudo, a possibilidade de ela ter outros motivos ocultos não eram baixas, Soran simplesmente não podia confiar em estranhos que agiam amigavelmente com eles do nada, especialmente quando eram bruxas.
Deveríamos deixar a esquadra e viajarmos sozinhos?
Bruxas do norte não eram consideradas pessoas gentis, seria ruim se ele a esperasse se mover e pedir à Vivian para ser sua aprendiz. Bruxas não eram pessoas que se limitavam ao senso comum e elas não se comprometiam com os outros, em vez disso, elas forçavam seu jeito de pensar neles. Pelo menos elas não negociavam com pessoas com pouco poder e força, a maioria, senão todos os conjuradores, tinham atitudes arrogantes. Ainda mais essa senhora, que era uma bruxa de alta posição social, sem mencionar o fato dela ser uma mulher.
Atualmente, eles estavam muito perto de alcançarem Caminho Branco, assim que chegassem na cidade, eles teriam que se separar. A esquadra mercante continuaria seu caminho de volta para as regiões do norte, enquanto os irmãos partiriam para a Descida do Outono, onde entrariam na Terra dos Elfos e atravessariam a Floresta Fantasmagórica. Portanto, seria suspeito se os irmãos saíssem da esquadra nesse momento, pois eles se separariam em breve, de qualquer maneira.
O tempo passava suave e pacificamente, os monstros raramente apareciam em grandes grupos próximos das grandes cidades, eles até se encontraram e formaram um time com um anão barbudo no meio do caminho. As Montanhas Ferruginosas ao norte eram antigamente ocupadas por ogros, mas a tribo dos anões se mudara para lá e construíram uma cidade. Os anões que residiam lá eram conhecidos como os anões de ferro, e frequentemente faziam trocas com outras raças, principalmente com humanos e meio-elfos, encantando armas com altíssima qualidade por licor e comida. Anões odiavam agricultura, e eles preferiam sentar-se na frente de uma rocha e trabalhar nela.
De fato, apenas os humanos estavam dispostos a fazer um trabalho tão cansativo como a agricultura. Os homens-fera? Eles simplesmente espalhavam sementes aleatoriamente e tinham a esperança de colher algo do solo. Se eles não tivessem tempo para arar a terra, eles caçariam alguns animais selvagens, afinal, eles preferiam carne a vegetais, os elfos eram conhecidos por perseguirem a beleza de forma extrema, eles nunca sujariam suas mãos em fazendas, o que era um grande desperdício, pois tinham terras muito férteis.
Viajar podia ser cansativo, especialmente quando não tinha nada de especial para fazer durante o caminho, nada além de caminhar até chegar ao destino, mesmo assim, isso não era uma coisa ruim. Incidentes especiais na selva, por outro lado, sempre causavam problemas, sem mencionar casualidades e até mortes.
Por essa razão, todos, guardas e mercantes, mostraram sinais de alívio após ficarem próximos do Caminho Branco, pois eles finalmente alcançaram seu destino, por agora. A esquadra mercante ficaria parada por um mês ou mais no Caminho Branco, durante esse tempo os mercadores agiriam separadamente para vender seus bens e comprar produtos para os próximos destino, alguns iriam aos vilarejos dos meio-elfos nas proximidades para vender seus produtos de estilo élfico por alto preço, embora os produtos fossem falsificados ou de segunda linha.
A esquadra se reagruparia quando todos tivessem terminado seu trabalho, e fariam outra rota de volta ao norte. Eles deliberadamente viajariam perto do mar para vender seus produtos e conseguir frutos-do-mar, que eram raros no norte.
Soran sairia da esquadra mercante assim que recebesse o dinheiro pela eliminação dos ankhegs. Esse seria o fim da viagem compartilhada, e já era tempo de eles irem por caminhos separados.
Isso é, se as coisas ocorressem bem.
…