Dominação do Abismo

Volume 1 - Capítulo 45

Dominação do Abismo

No canto da taverna havia uma pessoa gorda sussurrando para um criado que estava em pé, próximo a ele. O criado acenou, em resposta, então caminhou até a bancada do bar.

— Moroder deseja falar com você.

O homem musculoso franziu a testa, mas respondeu:

— Daqui a pouco eu vou lá. — Ele, então, sinalizou para um de seus homens para que assumisse seu lugar, caminhou em direção ao canto sombrio e se sentou em uma cadeira próxima ao homem que o havia chamado.

— Moroder, sua raposa astuta. Você realmente colocou seus olhos na garotinha de agora pouco?

Moroder não se importou com o comentário rude e continuou servindo vinho para si. Mesmo sendo gordo, ele não parecia ser lento.

— Calvin, essa garota é uma joia, muitos nobres gostam de brincar com esse tipo de garotinha nos dias de hoje. Se você conseguir pegá-la para mim, eu posso vendê-la por esse preço, no mínimo — disse Moroder enquanto o sinalizava o número cinco com os dedos. —, 500 Derahls de ouro. Com uma aparência tão fofa, eu tenho certeza de que aqueles pedófilos irão pagar esse tanto.

Calvin franziu o cenho e olhou atentamente para os olhos de Moroder.

— Você está tentando quebrar minhas regras, você sabe, né? Eu não faço esse tipo de coisa em meu estabelecimento.

Moroder riu e deu de ombros, então se aproximou de Calvin. 

— Você já vendeu algumas centenas de mulheres e crianças através de mim. Não diga que seus ideais são de uma pessoa “limpa”. Tudo irá depender de você, posso garantir que consigo vendê-la rapidamente.

Calvin ainda estava hesitando.

— Não será fácil de lidar com a quele cara, ele é muito vigilante com os seus arredores, provavelmente é um ladino! Eu não posso ter pessoas morrendo aqui, senão os guardas definitivamente irão fechar meu estabelecimento.

Moroder respondeu com um sorriso assustador no rosto e disse em tom grave.

— Você não precisa se preocupar com isso, somos apenas homens de negócios, não assassinos, certo? Acabei de comprar essa droga de um mago, após aplicar um pouco em uma toalha e cobrir o nariz e boca de alguém, ele perderá a consciência rapidamente. Quando esse cara com a garota estiver apagado, apenas envie alguém para drogá-la e transportá-la para longe em uma mochila. Um mero forasteiro não poderá fazer nada aqui. Se for preciso, podemos sempre fazer aquilo…

Moroder traçou uma linha no seu pescoço, e continuou.

— Quinhentos Derahls de ouro não é, de forma alguma, uma pequena quantia. Eu sei que você está tentando limpar suas mãos desse tipo de coisas sujas, só mais uma vez e você poderá comprar uma pequena mansão para si.

Calvin pensou um pouco, apertou seus dentes e respondeu.

— Certo, mas deixe que seus homens façam o trabalho sujo, além disso, 600 Derahls de ouro. Essa garota é uma pedra preciosa de alto nível, tenho certeza de que ela crescerá e será uma beleza deslumbrante.

— Seu cão ganancioso! Feito! Eu vou te pagar após vendê-la. Não se preocupe muito, ela é de um tipo muito popular entre os ricos. — disse Moroder enquanto estendia a mão.

— Feito. — Calvin apertou a mão de Moroder, se levantou e entrou na cozinha.

O assassino de aluguel alto e magro se aproximou de Moroder.

— Chefe, vale apenas mesmo o risco só por uma garotinha? Os guardas no Caminho Branco estão muito rigorosos recentemente, além disso, ela vale mesmo 600 Derahls de ouro? Ela pode ser vendida por no máximo 100 ou 200, no melhor dos casos, se me perguntassem.

— Você não sabe de nada! — Moroder insultou. — Ela é diferente. Claro que eu não a venderei para aqueles nobres imundos, eu conheço uma pessoa, ou melhor, está mais para uma criatura, que pagaria um preço muito alto por alguém especial, como ela.

O assassino estremeceu, enquanto se lembrava de algumas memórias ruins. Com tantas mulheres e garotas sendo sequestradas regularmente, não seria possível vender todas elas como escravas ou como brinquedos para os nobres de Caminho Branco. 

Existiam criaturas que pagariam altos preços por jovens garotas puras e virgens: aqueles do Reino Neutro. Eles eram, basicamente, pessoas que ganhavam a vida através de negócios sombrios, fazendo acordos com o maléfico Reino Sombrio frequentemente. Criaturas que escondiam sua presença na superfície, na verdade, eram os maiores traficantes de seres humanos por trás das cenas.

Para as pessoas que vendiam mulheres, eles eram grandes clientes. Assim que eles comprassem as mercadorias, não haveria problemas, nem se elas morressem. Eles cuidariam de tudo.

Moroder olhou de relance para o assassino.

— Como você fará muito dinheiro se tem medo de tudo? Nós sairemos daqui após fazer isso. As coisas têm piorado ultimamente. Faça isso o mais rápido possível.

Soran desceu Vivian e olhou em volta após entrar no quarto, no segundo andar. Ele retirou algo da bolsa multidimensional, então se ajoelhou e falou com a Vivian.

— Esse lugar está cheio de caras perigosos. Quando eu sair, seja cuidadosa, mesmo quando você estiver no quarto.

Soran pegou uma adaga e mostrou a Vivian.

— Você ainda se lembra das coisas que eu te ensinei?

— Sim — Vivian acenou, enquanto recebia a adaga. —, me lembro. Eu vou ficar bem!

Soran não conseguiu se sentir à vontade. Com tal alto Carisma, Vivian era definitivamente atrativa, estaria tudo bem se ela fosse uma adulta que pudesse se proteger, mas ela tinha apenas 8 anos, aqueles imundos traficantes de pessoas deviam estar de olho nela quando entrou na taverna. Traficantes de humanos eram a maior fonte de renda do Reino Neutro, no fim das contas. 

Nobres, bordeis, escravos e até pior: vampiros. Como ele jogava como ladino no jogo, Soran sabia muita coisa sobre o lado sombrio de muitas cidades, por isso ele mantinha Vivian em seu campo de visão o tanto que fosse possível. 

Talvez por ter andado demais no lado sombrio e se encontrado com muitas pessoas com alinhamento do mal, Soran tinha pouca fé nesse mundo e era cauteloso com tudo. Este era um mundo imundo e em turbulência, leis e regras eram meras decorações. Crenças e valores morais eram as coisas que realmente restringiam o comportamento das pessoas e as impediam de praticar o mal. Contudo, ambas as coisas eram vagas e variavam de pessoa para pessoa.

Soran planejava ir para a Guilda dos Aventureiros para ver ser alguém estava indo em direção à Descida do Outono e pegar algumas informações sobre o que estava acontecendo do lado de fora do Caminho Branco. 

A jornada para a Descida do Outono seria difícil, especialmente com os eventos recentes. Agora que ele tinha muitos Derahls de ouro sobrando, ele poderia ir para alguns locais “especiais” e tentar colocar as mãos em algumas armas proibidas. Não seria a melhor ideia levar Vivian com ele quando fazia negócios sombrios, mas deixá-la sozinha também era perigoso.

— Irmãozão — Vivian agarrou a mão de Soran, pois ela sabia das preocupações dele e disse em voz baixa: — eu vou ficar no quarto quando você sair. Eu não irei correr por aí!

Soran ainda hesitava, mas eventualmente acenou e disse:

— Certo. Eu vou checar o que está acontecendo e ver se poderemos sair da cidade. Tenha certeza de ficar no quarto, tudo bem? Você não deve sair desse lugar. Voltarei em meio dia, e tentarei encontrar algum alojamento para ficarmos amanhã. 

Após Soran sair da taverna, dois homens sentados no canto se entreolharam. O gordo Moroder sinalizou para que o assassino viesse e lhe entregou uma garrafa. 

— Aja rápido — disse Moroder. —, quando terminar, vamos nos encontrar no lugar de sempre. Tenho que entrar em contato com o comprador.

O assassino hesitou.

— Calvin não ficará bravo se eu agir agora?

Moroder olhou para ele.

— Aquele maldito vendeu a própria irmã, se receber o dinheiro, ele não irá se importar.

No quarto, Vivian estava mexendo com a adaga. Se Soran a visse, ele ficaria definitivamente surpreso. Ela estava girando a adaga como se já estivesse muito familiarizada com ela, que era exatamente o que Soran fazia em suas horas vagas para treinar a flexibilidade de seus dedos.

— Eu quero crescer rápido!

Vivian inclinou sua cabeça enquanto girava a adaga em sua mão. Mesmo que sua mão fosse pequena, isso era muito difícil de fazer. A velocidade não era tão boa quanto a de Soran, mas ela não cometeu nenhum erro, ela poderia cortar a própria mão caso errasse.

*Toc Toc!*

Vivian ficou de pé e em alerta, segurando a adaga nas costas, e disse alto.

— Quem é?

— Serviço de quarto — o homem respondeu —, o chefe disse para trazer comida para esse quarto.

Comida?  

Vivian ficou em dúvida.

— Tem comida de graça?

Normalmente as tavernas não ofereciam serviço de quarto, clientes tinham que descer as escadas até o balcão do bar por comida. 

Vivian segurou a adaga firmemente enquanto abria um pouco a porta para olhar no lado de fora. Havia um homem segurando uma bandeja cheia de comida e uma toalha.

Vivian relaxou um pouco.

— Por favor, coloque em cima da mesa.

O homem olhou em volta para confirmar que não havia mais ninguém no quarto, ao confirmar que ela estava sozinha, ele mostrou um sorriso maléfico enquanto se aproximava da porta. Segurando a toalha com entorpecente, ele se lançou em direção a Vivian.

Contudo, Vivian imediatamente se abaixou para evitar a investida. Quando o homem se aproximou da porta, ela tinha certeza de ter sentido que alguma coisa estava errada. Ela apontou o dedo para o homem enquanto cantava uma sílaba estranha, revidando contra o homem que a atacava com uma adaga.

A luz explodiu em seu dedo, junto ao sangue do rosto do homem.

O assassino ficou cego com a luz forte. Quando ele se abaixou para drogar Vivian, ele foi cortado da bochecha direita até o olho direito.

O homem gemeu e cobriu seu olho com a mão enquanto suprimia a dor em sua mente. Recuperando a visão em seu olho esquerdo, ele mais uma vez se jogou na direção da garotinha. Embora Vivian tenha desviado do primeiro ataque, a postura dela foi quebrada após balançar a adaga com força total. Ela não conseguiu desviar dessa vez.

— Choque elétrico!

De repente, o assassino, que estava prestes a estrangulá-la, começou a se contorcer incontrolavelmente. Uma faísca elétrica cintilava entre os dedos de Vivian. O homem soltou seus braços, pois ele convulsionava como se estivesse em uma crise epilética.

Vivian traçou uma linha brilhante no ar com a adaga, enquanto ela esfaqueava rapidamente o olho esquerdo do homem, empurrando o mais profundo possível. O corpo dele ficou rígido e duro no chão.

Vivian estava chocada, olhou para o sangue nas mãos e, com medo, deixou cair a adaga.

Após respirar profundamente algumas vezes, ela se acalmou um pouco. Vivian pegou a adaga e embalou seus pertences, fugindo da sala. Ela olhou em volta para ter certeza de que ninguém a estava vigiando, então foi para o quintal dos fundos em vez da porta da frente, pois tinha certeza de que não a permitiriam sair pela porta da frente.

Vivian viu um buraco, que geralmente era usado por cachorros, no muro do quintal. Sem se preocupar com a sujeira, ela passou pelo por lá.

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