
Volume 1 - Capítulo 35
Dominação do Abismo
Após limpar brevemente a bagunça da batalha, a esquadra mercante retomou viagem para o próximo destino.
Devido a seu ferimento, Soran não podia montar um cavalo, então se sentou na carroça de carga. A senhora não convidou Soran para sua carruagem, pois eles ainda não eram próximos o suficiente, mas chamou Vivian para se juntar a ela. Contudo, Vivian balançou a cabeça rejeitando a oferta, subindo na carroça de carga e sentando-se ao lado de Soran.
Como a esquadra estava se movendo, os guardas continuaram a explorar os arredores. Vozes de mercadores podiam ser ouvidas de tempos em tempos, ordenando aos trabalhadores para taparem os buracos da estrada à frente.
As roupas de Soran estavam bastante sujas pela batalha com os ankhegs. Considerando que ele tinha rolado no chão para desviar dos ataques, era até natural suas roupas estarem lamacentas, e Vivian removeu os pedaços de lama seca e tirou o resto da poeira das roupas de Soran, esfregando suas mãos para tirar a poeira delas.
Os outros estavam ocupados com seus próprios negócios, mas não podiam deixar de sorrir quando viam os irmãos sentados na carroça. Todos tinham gostado dos dois, especialmente a misteriosa senhora da esquadra. Ela abria frequentemente as cortinas da carruagem para olhá-los, e na maioria das vezes focava sua visão em Vivian, como se alguma coisa sobre a garotinha estivesse atraindo sua atenção.
Era uma cena pacífica em contraste ao encontro anterior com os ankhegs.
Soran pegou um pano esfarrapado e começou a limpar sua espada curva. O sangue dos ankheg era ácido e podia causar dano as armas, caso as manchas de sangue não fossem removidas da espada o mais rápido possível. Ele não parecia se incomodar com Vivian, que ainda estava tentando seu melhor para limpar as roupas, tentando soprar a poeira presa entre os espaços dos tecidos da camisa larga. Manchas marrons e cinzas ainda podiam ser vistas na camiseta e Vivian estava insatisfeita por isso.
— Use isso — o guarda líder disse sorridente, enquanto pegava algo de uma pequena sacola e jogava para Soran. — Esse é um tipo de óleo refinado que ajuda a preservar armas.
Obviamente, preservar uma espada era muito mais complicado do que meramente limpá-la e afiá-la de tempos em tempos. Para aqueles que viviam se direcionando para as batalhas, ter uma boa arma era essencial para se proteger do perigo.
Soran recebeu alegremente a sacola do guarda líder. Usando seus dedos, ele cuidadosamente aplicou o óleo refinado na espada curva, para preservar as armas da ferrugem, o melhor era trazer óleo refinado quando se aventurava, pelo menos antes de adquirir uma arma de grau raro. Mesmo que armas de grau raro não precisassem de manutenção, até as armas encantadas precisavam de um certo cuidado regularmente, mas não necessitavam de cuidado constante. Esse era o tipo de cuidado com armas que alguém deveria propriamente seguir caso fosse um aventureiro ou um combatente.
Soran embainhou a espada curva depois de limpá-la novamente com o pano. Talvez porque ele usou muita energia na batalha anterior e a perda substancial de sangue pela coxa ferida, ele estava cansado e adormeceu não muito tempo depois. Vivian ficou sonolenta depois de olhar por um tempo seu irmão dormindo, então ela deitou sua cabeça no peito de Soran, enquanto tomava cuidado para não tocar na ferida de seu irmão.
Assim, a esquadra mercante continuou viajando.
Quando os guardas que estavam a cavalo passavam perto da carroça onde os irmãos dormiam, eles tentavam reduzir o barulho, em respeito a Soran. Ele provavelmente não conseguiria derrotar um guarda em uma luta mano a mano, mas ele ainda conseguiu respeito durante a batalha com os ankhegs.
Soran não estava em sono profundo, ele não dormia completamente quando viajava pela selva. Ele estava apenas tirando um cochilo, onde sua mente estava metade acordada, enquanto seu corpo dormia. Assim ele ficava consciente do perigo, pois ele nunca deixaria sua guarda baixa e um pequeno barulho poderia alertá-lo.
Já era muito tarde e a esquadra mercante não mostrava nenhuma intenção de parar.
Vivian estava em sono profundo nos braços do irmão, quando Soran finalmente acordou, então ele tentou sair sem acordá-la. Seu esforço foi em vão, pois Vivian bocejou e abriu os olhos, enquanto perguntava:
— Irmãozão, você acordou?
Soran sorriu e acariciou os cabelos dela em resposta.
Um dos guardas mercantes que tinha batalhado junto dele contra as ankhegs, cavalgou ao lado e jogou um saco de pão e carne defumada. O pão tinha sido preparado, então a textura estava bem dura. A carne defumada foi fácil de comer, pois era mais saborosa e estava um pouco quente.
Viajar pela selva era uma tarefa difícil, então viajantes não se importavam muito com a qualidade da comida que eles comeriam durante a jornada. A maioria carregava a comida dentro de suas roupas para manter as refeições protegidas do frio, e era efetivo até certo ponto.
Soran rasgou um pedaço de pão e deu a Vivian, junto de um pedaço de carne defumada. Como a esquadra não tinha parado e acendido um fogo para preparar refeições, não tinha sopa ou ensopado disponível.
Soran comeu o pão e tomou um gole de água para engolir, então disse à Vivian em voz baixa:
— Eu vou trazer para você algo gostoso quando acamparmos à noite.
Essa era a floresta, caçar um coelho ou dois era muito fácil para Soran, que tinha reflexos e agilidade extraordinárias. Não ter sinal de atividade humana em lugar nenhum implicava que ele poderia encontrar uma grande variedade de caça selvagem.
Vivian não reclamou sobre a comida e apenas comeu sua refeição quieta ao lado de Soran.
De repente, ela ficou tensa e olhou para a floresta próxima. Vivian puxou as roupas de Soran com suas pequenas mãos e disse, assustada:
— Irmãozão, alguma… coisa está nos olhando.
Soran se levantou vigilante e pousou sua mão no punho da espada curva. Ele analisou seus arredores cuidadosamente, mas não encontrou nada. Contudo, Soran ainda conseguia supor que alguém os observava, por suas experiências passadas.
— Está tudo bem — ele disse, acariciando a cabeça da mocinha, e continuou. — Nessa área há alguns gnolls. Eles provavelmente foram alertados, pois nós estamos passando por seus territórios. Não há nada do que se preocupar, eles não irão atacar uma grande esquadra mercante como nós, então ficará tudo bem quando nós saímos do território deles.
Gnolls eram um dos tipos mais comuns de monstros da floresta.
Eles tinham garras e dentes afiados e corpos ágeis, além disso, também eram considerados inteligentes, sendo mais perigosos do que goblins ou kobolds.
Gnolls tendiam a atacar aqueles que viajavam sozinhos e raramente assaltavam uma esquadra mercante de larga escala, a menos que eles estivessem completamente confiantes.
Gnolls eram carnívoros e eram propensos a formar tribos com números muito pequenos. A maioria dessas tribos apenas tinha entre 30 e 50 gnolls, sendo divididas em famílias de cinco a oito. Em vez de lutar contra guardas totalmente armados, eles preferiam caçar goblins e kobolds para encher seus estômagos. Pelo menos, caçar goblins e kobolds era uma escolha segura.
Caso eles atacassem humanos armados, na maioria das vezes eles sofriam mais baixas. Desde que pessoas viajassem em grupos de cinco ou mais, os gnolls os deixariam passar, e mesmo que escolhessem atacar o grupo, eles primeiramente seguiam suas presas por um tempo antes de iniciar um ataque furtivo durante a noite.
A floresta ficou mais densa enquanto a esquadra mercante continuava a viagem, e os guardas reduziram seu alcance de busca e aumentaram para cinco os números de guardas que lideravam o caminho. Essas medidas foram feitas para assegurar que poderiam prover suporte suficiente em caso de emergência.
Alguns mercadores começaram a resmungar em insatisfação, pois viajar nas sombras era perigoso e problemático. As vacas e cavalos diminuíam a velocidade quando ficava escuro.
Como se em resposta as suas reclamações, uma lua cheia brilhante apareceu no céu. A gélida e frígida luz lunar iluminava a estrada, facilitando a viagem do esquadrão.
Os guardas mercantes acenderam suas tochas, enquanto os trabalhadores começaram a fixar as suas nas carroças. A senhora misteriosa silenciosamente pisou fora da carruagem e olhou em volta, então apontou o dedo para o topo de sua carruagem e cantou uma estranha meia silaba.
Luz. Um globo de luz se materializou no topo da carruagem.
Considerando que seu feitiço tinha um alcance de efeito de aproximadamente trinta metros, a senhora certamente tinha um nível considerável na classe de Mago.
A esquadra mercante se animou quando ela terminou de lançar o feitiço. Poderes mágicos era a fonte de encorajamento de muitos, e os mercantes também se sentiam seguros depois de testemunhar as aptidões da senhora.
— A irmãzona é tão boa em magia — Vivian se rastejou para perto de Soran. — É tão pequeno quando eu uso Luz, mas tudo está tão iluminado quando ela usa!
Soran olhou para a carroça, enquanto pensava profundamente. Ele achou difícil acreditar que a misteriosa senhora era de fato uma bruxa avançada que estava pelo menos no nível 15.
A iluminação trouxe comodidade a esquadra, mas também expôs sua localização. Pares de olhos verdes escuros podiam ser vistos olhando fixamente para eles na floresta sombria. Eles pertenciam à vizinhança dos lobos e bestas selvagens.
*Aaaaoooooooooo!*
O uivo alto ressoou claramente por toda a área e um lobo alfa, do tamanho de uma vaca, emergiu por detrás de uma colina. Esse era um worg selvagem.
Ele olhou para a esquadra mercante a distância, fixando seu olhar na longa carruagem no centro. Como se ele pudesse sentir o olhar da senhora, o worg estremeceu de medo e soltou um uivo baixo, e uivos em resposta ao líder podiam ser ouvidos dos lobos escondidos na floresta. Os pares de olhos verdes desapareceram, enquanto eles deram meia-volta e seguiram o worg líder, que recuava.
Worgs tinham inteligência boa, comparado às bestas selvagens, com alguns deles sendo mais inteligentes que cavalos de guerra. Havia muitas presas disponíveis na natureza, por isso, não havia necessidade de se incomodar com tal esquadra mercante de guardas severamente armada, sem mencionar o fato de uma bruxa estar junto deles.
Isso era como se o medo de conjuradores estivessem gravados em seu sangue. Incontáveis experiências passadas permitiram a essas bestas aprender que aqueles que podiam lançar feitiços não eram seres insignificantes.
Contando que eles não fossem provocados, bestas selvagens raramente atacariam inimigos que conseguissem lançar feitiços.
…