Livro dos Mortos

Volume 2 - Capítulo 8

Livro dos Mortos

— Então você conversou com o líder dos bandidos e o mandou se foder?

— Basicamente — confirmou Tyron.

— Você pretende mesmo morrer por um grupo de mulheres e crianças? Quero dizer, nobre para caralho, até mesmo admirável, mas não acho que esse seja seu objetivo. Você não tem outras coisas que deseja fazer?

Dove soou exasperado, e estava mesmo. Ele simpatizava com a posição de Tyron; não era um monstro. As pobres viúvas que encontraram foram abusadas, estupradas e forçadas a ver suas famílias morrerem, junto com seus filhos. Era desumano e cruel em um nível quase cômico. Por que diabos um bando de trabalhadores rurais idiotas estava submetendo as pessoas a esse nível de sofrimento?

Então, o garoto queria protegê-las, esse era um impulso natural. Porém, Dove não conseguia se livrar da ideia de que, se ele ficasse e lutasse, provavelmente morreria.

— Tyron, por mais que você se sinta um fodão, você precisa manter em mente quão fraco você é — o crânio tentou explicar. — Você ainda não está no nível vinte, ainda está com sua Classe base. O seu ganho de atributos é um monte de estrume de cavalo e você não tem acesso a habilidades e feitiços avançados. Você é tão fraco quanto o mijo que vendiam como cerveja lá no Canto do Cavaleiro.

‘Puta merda, aquele pub era horrível.’

— De qualquer forma. Se você tentar lutar contra aqueles homens sozinho, mesmo que sejam peões, você vai levar uma surra. A propósito, isso não é nada bom.

O Necromante franziu o cenho, irritado.

— E daí se você estiver certo? Só porque eu talvez perca, eu deveria fugir? Deixar essas pessoas sofrerem e depois serem assassinadas por essa escória?

— Você estaria vivo, o que lhe daria muito mais autonomia do que estar morto, tá? Assim que morrer, acabou… para a maioria das pessoas. Minha situação parece um pouco única. Você não seria capaz de se ressuscitar.

Tyron colocou as mãos abertas sobre a mesa.

— Eu sei que você só está preocupado comigo, e mais do que isso, sei que você está certo. Eu acho que não posso vencer. É provável que eu me mate e esse seja o fim. Dove, eu prometi, quando comecei, que usaria minha classe para ajudar as pessoas. Seria quase impossível encontrar uma decisão moral mais clara que essa. Eu tenho que ficar e provar que Necromantes não precisam ser maus, que eu posso salvar vidas e contribuir, mesmo com essa Classe.

Os olhos do jovem queimavam com determinação, e Dove só pôde suspirar ao perceber que não conseguiria convencê-lo.

— Sinto muito em dizer isso, garoto, mas eu duvido que eles algum dia mudem de opinião sobre a legalidade dos Necromantes.

— Isso não significa que eu não possa tentar — declarou Tyron. — Agora, chega dessa bobagem, só estamos desperdiçando tempo. Precisamos pensar em como vencer. Qual é o primeiro passo?

— Rezar?

— Dove…

— Tudo bem. Vamos aguardar até a noite, esperar que não ataquem antes disso, e conversar com Yor. Se tiver sorte, ela vai deixar você perder sua virgindade com ela antes de arrancar sua garganta com os dentes. Esta é a única forma que vejo você ter sorte antes de morrer, garoto.

O jovem grunhiu e se inclinou para frente até que sua testa descansasse contra a superfície de madeira da mesa.

— Olha, minha capacidade de avaliar a situação e levá-la a sério é um pouco limitada, e não acho que a culpa seja inteiramente minha — Dove se defendeu. — Se você quer alguns conselhos de verdade, mesmo que não vá ajudar você a transar, converse com as viúvas e peça ajuda a elas. Se alguma delas souber utilizar um arco e flecha, já será uma grande ajuda.

— Eu conversei com elas antes de voltar para cá — falou Tyron, sem levantar a cabeça da mesa. — Suas vidas estão em risco, eu tinha que avisá-las primeiro.

— Isso foi surpreendentemente maduro da sua parte. Como elas receberam as notícias?

— Como você acha?

— Acho que foram traumatizadas de novo.

— Exato.

— Mas, isso é crucial, alguma delas sabe atirar com um arco?

— Annette disse que fariam o que pudessem. Elas sabem que não podem fugir e não estão felizes com a ideia de voltar a ficar sob o controle de Monty. Elas estão agindo como vigias para nós. Há alguém no segundo andar de cada um dos quatro edifícios.

— Certo. Isso é incrível.

Tyron levantou a cabeça, com a pele avermelhada por ter ficado pressionada contra a superfície dura.

— Alguma outra ideia brilhante? — perguntou ao crânio.

Dove pensou por um instante.

— Não muito, para ser honesto. Você precisa de mais lacaios, sabe disso. Ou espera mais algumas horas e trabalha com os que estão lá em cima, ou começa a trabalhar com alguns ossos frescos agora. Além disso, não há muito que você possa fazer. A menos que tenha… outra magika que possa usar em caso de necessidade.

— Uh… — hesitou o Necromante.

Poderia usar um ritual e contatar um de seus patronos, o único problema com isso era que não tinha ideia se a intervenção deles seria uma ajuda ou um obstáculo. O que aconteceria se contatasse a Corte de novo? Outro vampiro aparecendo de surpresa? Talvez um menos disposto a esperar antes de transformá-lo em um pesadelo morto-vivo, sedento por sangue.

‘Não, obrigado.’

O abismo… ele poderia aprender algo útil, mas poderia perder sua sanidade em troca. Ele não era tão tolo para assumir que havia experienciado o pior que aquele estranho reino tinha a oferecer.

‘Quanto aos Sombrios… quem sabe?’

Apesar das circunstâncias terríveis, não sentia que podia justificar o risco de realizar um dos rituais aprendidos com Anátema.

E estava confortável com isso. A decisão que tomou foi evitar depender o máximo possível da Subclasse, e queria continuar com ela.

— Não — balançou a cabeça. — Não tenho nada que eu possa usar.

— Então, voltamos aos ossudinhos — disse Dove. — Se alguém está de vigia por você, então suba as escadas e trabalhe nos ossos. Você não serve para muita coisa além disso.

Por mais que Tyron quisesse argumentar, ele não conseguia. Neste nível, com as habilidades e feitiços que tinha, sua única utilidade era criar lacaios.

— Certo, você também subirá comigo.

Ele agarrou o crânio com uma mão e subiu até o segundo andar. Checando seus testes, pôde dizer que os ossos estavam quase totalmente saturados. Em poucas horas, seria capaz de usá-los para ressuscitar novos esqueletos, mas ousaria esperar tanto tempo?

Ele precisava mesmo?

— Você consegue pensar em algum motivo pelo qual não posso reunir os ossos e começar a costurá-los? — perguntou o garoto.

Dove pensou por um momento.

— Nada me vem à cabeça careca e brilhante. Pelo que sabemos, os ossos não começam a formar mortos-vivos selvagens a menos que haja esqueleto suficiente para criar um funcional. Se você colocar os ossos da perna juntos, eles não deveriam começar a se unir e caminhar por conta própria.

Tyron beliscou a sobrancelha enquanto considerava o problema.

— Podemos ser cautelosos o suficiente para que nem isso seja um problema. Posso reunir alguns pés e canelas em uma sala, mãos e antebraços em outra, então as costelas, coluna e quadris em outra. Manterei os crânios separados e só os trarei no último minuto. Dessa forma, posso fazer quase toda a costura com antecedência, e os ossos devem acumular Magika de Morte mais rápido, considerando que haverá mais deles próximos uns aos outros.

— Faz sentido para mim. Vamos lá.

E foi isso que ele fez. Com as viúvas e as crianças de vigia, ele se concentrou em seu trabalho. O Necromante quase corria de sala em sala, reunindo os ossos o mais rápido que conseguia e os colocava em suas novas configurações. Assim que tudo estava no lugar, ele começou a trabalhar na costura, começando com as articulações do tornozelo.

Reunir os muitos ossos pequenos do pé e conectá-los à perna era algo doloroso, complexo e demorado. Porém, também era de extrema importância, sem um pé funcionando, o lacaio resultante não conseguiria nem andar, o que não era nada útil, e Tyron passou boa parte do tempo pensando em formas de criar articulações ainda melhores. Não diria que as dominava totalmente, mas havia percorrido um longo caminho desde seus primeiros dias. Seus lacaios mais recentes eram mais equilibrados e possuíam uma marcha muito mais suave, o que significava que conseguiam andar muito mais rápido.

Assim que terminou, foi para outra sala e trabalhou com as mãos e pulsos. Outra tarefa que envolvia detalhes minuciosos. Empunhar e golpear com armas envolvia uma grande variedade de músculos e articulações em um ser humano, e embora ele não precisasse replicar esse nível de complexidade, ainda tinha que fazer muita costura antes que seus esqueletos pudessem articular todos os dedos e girar os pulsos de forma apropriada.

Completou dez mãos seguidas e correu para outra sala, começando a trabalhar com dez colunas. Enquanto isso, continuava checando a quantidade de Magika de Morte contida nos espécimes, esperando pelo momento em que atingissem a completa saturação, o que estava perto de acontecer. A energia cintilante que se movia entre eles continuava a pular de forma misteriosa, deixando traços de magika em seu rastro.

A qualquer momento, Tyron esperava que alguém entrasse correndo na sala em que estava trabalhando e lhe avisasse de que os bandidos estavam vindo, ou que gritasse de medo e dor ao ver Monty e seus capangas surgirem no meio da grama alta e atacarem, mas isso não aconteceu. Ele continuou a tecer segmento após segmento, com suor escorrendo de seu nariz, já que estava se concentrando muito, trabalhando com a maior velocidade e perfeição que conseguia, mas nenhum ataque aconteceu.

Talvez suas ameaças tivessem assustado os bandidos? Talvez eles estivessem esperando pelo anoitecer para atacá-los de surpresa? Ou talvez tivessem abandonado as fazendas, indispostos a lutar contra um mago que não conheciam ou compreendiam.

Qualquer que fosse o caso, eles lhe deram tempo suficiente para completar seu trabalho.

Tyron e Dove observaram com ansiedade enquanto os ossos acumulavam Magika de Morte, a energia em cada um aumentando até que ficaram cheios. Os dois observavam os ossos com nervosismo, com Tyron carregando seu amigo e conselheiro de sala em sala enquanto aguardavam para ver se algo aconteceria.

Se os braços de repente ganhassem vida e tentassem estrangulá-lo até a morte, ele gostaria de vê-los vindo, afinal.

Felizmente, isso não aconteceu. Pedaço a pedaço, ele começou a montar o primeiro esqueleto, trabalhando nas articulações enquanto juntava as pernas, conectando-as aos quadris, e depois encaixava os braços. Quando tudo estava pronto, ele pegou o crânio e o colocou em seu lugar.

Assim que o fez, sentiu uma estranha energia envolver os restos mortais. O ar ao redor dos ossos estava diferente e sentia um leve tremor de magika dentro deles. Antes que algo pudesse acontecer, ele terminou seu trabalho, costurando o pescoço e realizando o ritual.

Enquanto falava as palavras e sentia o fluxo de poder saindo dele, Tyron ficou chocado ao perceber que havia algo resistindo contra ele, mas, à medida que exercia sua vontade, essa resistência desapareceu e o feitiço surtiu efeito.

Sem a necessidade de preencher o esqueleto com sua própria magika, o feitiço foi fácil de conjurar, sem necessitar que investisse muito de sua energia arcana. Ele construiu cada um dos componentes necessários para um lacaio completo e encerrou o ritual, observando com cautela enquanto seu novo servo ficava de pé.

Na sua mente, o lacaio funcionava da mesma forma que qualquer outro e respondia da mesma maneira quando lhe dava instruções. Apesar disso, ele ainda sentia que algo estava… diferente nele, só não conseguia identificar o quê.

Mas, como o lacaio não tentou arrancar seu rosto com os dentes, ele decidiu que já estava bom o suficiente e foi trabalhar nos outros. Por várias horas, trabalhou sem descansar, juntando os ossos e completando os últimos elementos necessários em um ritmo frenético, até concluir o processo com o ritual. A cada tentativa, algo resistia, mas ele conseguia ter sucesso e prosseguia com a conjuração.

Ao pôr do sol, tinha dez novos lacaios, talvez os melhores que já criou, alinhados diante dele no segundo andar.

— Há algo diferente neles agora que estão todos juntos? — perguntou Dove.

Tyron encarou fixamente os esqueletos, então estendeu seus sentidos na direção deles.

— Há alguma coisa… só não consigo dizer o quê — murmurou ele, caminhando na direção deles. — Talvez se eu os examinar mais de perto…

Neste momento, ouviu-se um grito lá fora.

—… ou não — disse ele e ordenou que todos os seus esqueletos se reunissem no térreo.

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