Livro dos Mortos

Volume 2 - Capítulo 9

Livro dos Mortos

Vinte esqueletos. Esse foi o número que Tyron conseguiu criar depois de seus esforços desesperados para dominar sua Classe Necromante. Estava orgulhoso do que havia conquistado. Não queria parecer arrogante, mas tinha certeza de que, sob suas circunstâncias, a maioria teria dificuldade em fazer ou aprender o que ele havia aprendido.

Cada um dos seus lacaios estava armado com armas simples, espadas e machados, embora só oito tivessem escudos. Enquanto os esqueletos se reuniam no térreo da casa, ele sentiu o dreno em sua magika aumentar de forma vertiginosa. Vinte esqueletos talvez fossem mais do que ele conseguia suportar, afinal.

Correu até sua mochila e vasculhou até encontrar alguns cristais arcanos, os quais enfiou no seu bolso. Era provável que precisasse deles antes que a luta terminasse.

— Garoto, leve-me com você.

Tyron parou bruscamente. Ele se virou para encarar o crânio imóvel sobre a mesa, com os dois olhos brilhando com magika.

— Você quer mesmo ir lá fora comigo? — perguntou ele, confuso.

— Claro que sim. Você acha mesmo que eu quero ficar sentado aqui na mesa e dormir enquanto há uma luta de vida e morte ocorrendo? Além do medo de perder a diversão, na verdade, eu tenho uma razão válida para esse pedido.

— Que é? — perguntou Tyron, bastante desconfortável.

— Eu me recuso a ficar preso neste crânio pelo resto da minha vida após a morte, garoto. Você concordou em me libertar, lembra? Se parecer que vai perder, eu quero que esmague meu crânio e quebre o ritual. Não serei usado como um ornamento de mesa por um fazendeiro pervertido e assassino pelos próximos anos, entendeu? Então, leve-me com você.

— Dove… — murmurou Tyron, com as mãos balançando ao lado do corpo.

Ele não teve tempo para processar como se sentia sobre o pedido de seu amigo, então pegou o crânio da mesa com a mão esquerda enquanto corria para terminar seus preparativos.

— Preciso descobrir uma forma de te prender ao meu cinto ou algo assim — resmungou ele. — Quero as duas mãos livres para isso.

— Eu preferiria que não. Não sinto nenhuma necessidade de me aproximar de nenhum “osso”, se é que me entende.

— Entendi.

— Estou falando do seu- — Eu disse que entendi!

Assim que ficou pronto, ele ordenou que seus vinte esqueletos entrassem no pátio e os seguiu. Preferia não exibir seus mortos-vivos, onde as crianças pudessem vê-los, mas tinha maiores preocupações no momento.

Quando pisou no cascalho arenoso do pátio, encontrou Annette do lado de fora, junto com algumas outras viúvas, cada uma delas estava armada com um arco de caça pequeno, comum nas comunidades agrícolas da fronteira.

Enquanto se aproximava, ele pôde ver o medo nos olhos delas – várias tremiam – mas também tinham determinação. Essas mulheres estavam preparadas para lutar.

— Como estão as outras? — perguntou ele.

Annette balançou a cabeça.

— Não estão bem. Eu deixei Donna e Bridget para observá-los e cuidar dos pequenos. Elas estão muito assustadas para ajudar.

— Não podemos culpá-las — disse Dove —, aqueles bastardos precisam de um chute nas bolas.

Quando o crânio falou de repente, as viúvas pularam, chocadas de ouvir uma voz emanando de restos mortais.

— Oh. Uh. Este é o meu amigo, Dove. Eu… vinculei o espírito dele ao próprio crânio… depois que ele morreu.

Com essa explicação, quatro pares de olhos horrorizados se voltaram do crânio para ele.

— Isso aí. Eu realmente não acho que uma explicação ajude neste caso, garoto. Deveria ter dito a elas que você me encontrou ou algo do tipo.

— Ele é… inofensivo? — perguntou Annette, hesitante.

— Quem, Dove? — Tyron olhou para o crânio que segurava na mão esquerda. — Completamente. Ele nem consegue se mover; só consegue ver e falar, mas só isso.

— Em vez de me lembrar do quão merda são as minhas circunstâncias atuais, talvez devêssemos nos preparar para lutar contra esses pau no cu? O que acha? — cortou Dove.

— Certo! Annette, você e as outras mulheres devem ir para o segundo andar. Esse é o lugar mais seguro para atirar, mesmo que a vista não seja das melhores.

— E o telhado? — perguntou ela.

— Muito aberto — ele balançou a cabeça. — Façam o máximo que puderem, mas tentem se manter seguras. Tenho mais lacaios comigo desta vez, então conseguiremos contê-los no chão.

Ele tentou soar mais confiante do que estava. Na verdade, não tinha ideia de quão bem seus lacaios sairiam contra oponentes humanos preparados. Se os antigos fazendeiros conseguissem superar o medo, eles poderiam derrotar seus esqueletos desajeitados em minutos. Ele teria que fazer um bom uso de seus outros feitiços para garantir que isso não acontecesse.

As mulheres correram até seus postos e Tyron fez o mesmo. Os bandidos estavam vindo pela estrada ao sul, mas, de novo, ele não podia levar todos os seus lacaios para esse lado, no caso de tentarem os cercar. Relutante, deixou cinco para trás e levou os outros pelo corredor entre os prédios para focarem do lado de fora do pátio.

Um grupo de homens aproximava pela estrada de terra, sem pressa e sem fazer qualquer tentativa de se esconderem. Enquanto contava seus números, o coração do jovem necromante começou a afundar.

— Quantos, garoto?

— Parece que… quase quarenta.

— Merda.

— Pois é.

— Pelo lado bom, eles possuem habilidades de combate mínimas, provavelmente não dominam nada além de agricultura, e não possuem talentos que não sejam relacionados a vegetais e vacas.

— Isso é verdade.

— Pelo lado negativo, são quarenta homens e apenas um de você. Vinte e um, se incluirmos os esqueletos. Vinte e cinco, se incluirmos as viúvas. Além disso, seus esqueletos são inúteis quando estão em menor número.

— Isso… também é verdade. Obrigado, Dove.

— Sempre que precisar de mim, garoto. Estou aqui por você.

Por mais idiota que fosse, o antigo Invocador estava certo. Seus esqueletos eram bons, até mesmo ótimos, mas ele sabia que eles se saíam muito melhor quando superavam em número seus oponentes, e não o contrário. Em uma luta de três ou quatro contra um, seus movimentos desajeitados e amplas aberturas seriam difíceis de serem exploradas, mas assim, eles teriam dificuldade em manter suas posições.

— As probabilidades são o que são — disse Tyron, com uma expressão sombria. — Podemos ser capazes de assustá-los e fazê-los fugir. Eles não são soldados profissionais, são só bandidos.

— Não os subestime, garoto — avisou Dove. — Se aquelas viúvas estiverem vivas quando os Exterminadores vierem, então eles são carne morta e sabem disso. Eles podem ser apenas bandidos, mas são bandidos desesperados. Se você não fosse ainda mais ilegal do que eles são, eles também iriam te querer morto.

A ideia de que ele era mais procurado do que uma gangue de assassinos e estupradores foi suficiente para arrancar um sorriso irônico de Tyron, apesar das circunstâncias. Se ao menos os crimes de uma pessoa aparecessem em sua folha de status, isso simplificaria algumas coisas. Infelizmente, esse não era o mundo em que viviam.

À medida que os bandidos se aproximavam, ele ignorou as objeções de Dove e o prendeu em um cinto solto preso à sua bainha. O crânio ficou em seu quadril direito, longe de sua virilha, mas isso não impediu o homem de reclamar.

— Teremos que conversar sobre isso mais tarde — resmungou ele.

— Você quer estar próximo o suficiente para que eu possa te esmagar, então tenho que fazer isso. Não é como se eu pudesse te usar como um chapéu.

—… Eu seria um chapéu fantástico.

— Esse não é o ponto. Agora, cale a boca, preciso me concentrar.

O Necromante deu um passo para frente e olhou para a direita e para a esquerda. Nas janelas com vista para a estrada que levava à fazenda, as viúvas, incluindo Annette, haviam se posicionado, segurando seus arcos com força. Ele tentou sinalizar algo para encorajá-las, mas acabou apenas acenando sem jeito.

Não era a primeira vez que desejava possuir um pouco do charme natural de seu pai.

Quando os bandidos estavam a cem metros de distância, eles desaceleraram e pararam, enquanto Monty saía da multidão e se aproximava mais alguns metros. O homem parecia quase igual a antes, exceto que agora carregava um escudo rudimentar que fora pregado com tábuas soltas. Contra arqueiros destreinados, sem habilidades e talentos, isso deveria servir… por pouco.

— E aí, rapaz! — gritou o bandido, com um sorriso no rosto enquanto acenava devagar. — Espero que não se importe, mas eu trouxe alguns dos meus camaradas comigo.

— Você poderia declarar o óbvio ou dizer logo o que quer — rugiu Tyron em resposta.

Ele desviou o olhar para os lacaios no pátio por um instante. Nada ainda. Talvez a escória estivesse tentando ganhar tempo, então ele precisava ficar atento.

Sua resposta apenas ampliou o sorriso no rosto de Monty, enquanto ele abria os braços.

— O mesmo de antes, rapaz. Você pode dar o fora, e nós ficamos com essa fazenda de volta.

— E as mulheres e as crianças?

O grupo atrás de Monty riu e o homem em questão gargalhou.

— Sim, nós também ficaremos com elas.

— Esses caras são uns fodidos — murmurou Dove. — Já vi babacas de primeira na minha vida, mas caralho.

— Como eu te disse antes, se vocês as querem, venham aqui e paguem o preço. Tudo o que eu quero são seus ossos! — Tyron estendeu a mão e agarrou um de seus novos esqueletos pelo pulso, levantando seu membro e fazendo o esqueleto balançar para frente e para trás. — Seus amigos parecem felizes com isso.

O riso se transformou em murmúrios de vingança desagradáveis enquanto ele zombava de seus amigos mortos. A expressão no rosto de Monty endureceu.

— Você sabe como é, rapaz, ter fazendeiro como sua classe?

— Você quer a minha simpatia? — disse Tyron, incrédulo. — Talvez seja um pouco tarde para isso, seu verme.

— Oh, sim. Nós fizemos coisas terríveis, mas é isso que preciso para mudar o nosso destino. Veja, a maioria dos rapazes foi criada aqui, fazendo alguns bicos até que conseguimos nossas classes Fazendeiro, peão ou comerciante. Depois, a gente devia construir uma vida para nós, mas é um pouco difícil ser um fazendeiro quando sua família nem consegue te alimentar, muito menos comprar uma fazenda.

Todos os homens assentiram, com os rostos sérios enquanto olhavam para as casas da fazenda.

— Então, o que devemos fazer? Nós nos inscrevemos como trabalhadores rurais para homens ricos e nos tornamos escravos, gerando lucros para os outros. Se me pergunta, isso não é vida. Aí vieram os monstros, e tivemos uma pequena chance. finalmente podíamos fazer algo para nós mesmos.

— Você queria terras, então matou os homens que eram donos delas. Vocês acham mesmo que poderiam se tornar os donos deste lugar e ninguém perceberia?

— Bem, quem pode afirmar que não foram as criaturas que fizeram isso? Não há ninguém por perto que possa dizer o contrário. Bem, não haverá.

— E suas esposas e crianças? Será que elas também tinham que sofrer como eles sofreram?

Monty levantou as mãos, com as palmas abertas, e deu de ombros.

— Isso é apenas um bônus, por assim dizer — riu ele.

O sangue fervilhava nas veias de Tyron.

— Venha e morra, Monty — gritou ele. — Não tenho mais nada a lhe dizer enquanto estiver vivo.

— Você pode até se achar um mago elegante, rapaz, mas você não pode derrotar tantos de nós. Desista e vá embora.

Tyron virou as costas para o homem e recuou para o anel protetor de esqueletos. O líder dos bandidos podia gritar todas as bobagens que quisesse, ele não iria a lugar nenhum.

Rapidamente repassou os feitiços que poderia usar nesta situação e tentou decidir qual deveria preparar primeiro.

Estava tão absorto em pensamentos que nem percebeu que Monty começou a falar com as viúvas.

O que quer que tenha dito foi ignorado por Tyron, mas a resposta não foi.

— Morra, seu filho da puta! — gritou Annette, debruçando-se sobre a janela, com o rosto contorcido de raiva enquanto disparava uma flecha.

A flecha atravessou o ar em um arco gracioso e penetrou fundo na perna de um bandido, que cambaleou para o lado com um grito de dor, agarrando o ferimento. Aquilo sinalizou para as outras viúvas, que também dispararam suas primeiras flechas das janelas. Sob fogo, os antigos trabalhadores rurais correram para se proteger, levantando seus escudos rudimentares. Depois de alguns momentos se posicionando, eles avançaram em direção à fazenda, gritando loucamente.

— Se eu morrer hoje em vez desses merdas, vou ficar muito irritado com você, Tyron — comentou Dove.

O jovem necromante apertou com força o cabo de sua espada.

— Eu também.

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