
Volume 2 - Capítulo 10
Livro dos Mortos
As flechas continuaram a ser disparadas, mas pouco resultou. Afinal, elas não eram arqueiras profissionais nem mesmo caçadoras casuais, mas isso obrigou os bandidos a se aproximarem com um pouco de cautela, e Tyron ficou grato pelo tempo extra.
— Algum conselho? — perguntou ele com a voz trêmula.
— Na verdade, não. Tente manter a calma. Permaneça ciente dos seus arredores… só isso.
— Eu… vou tentar.
— Esse é o espírito. Agora, vamos lá, mate esses filhos da puta.
As palavras de seu amigo lhe causaram um leve desconforto. Apesar de tudo o que aconteceu, ele ainda achava difícil matar pessoas.
‘É você ou eles, Tyron. Você nem piscaria se Yor os matasse. Faça isso!’
O jovem necromante cerrou os dentes e firmou sua vontade. Ele não morreria aqui, se recusava a permitir isso.
Os bandidos avançavam constantemente, agrupados com seus escudos rudimentares levantados. Quarenta metros. Trinta metros.
Assim que cruzaram esse limiar, Tyron avançou. Pronunciou as palavras, executou alguns gestos e estendeu a mão. O Raio Magiko disparou, atingindo a coxa de um dos homens à frente. O bandido gritou e caiu de joelhos enquanto outros desviavam o olhar das janelas para o jovem Mago.
As mãos de Tyron já estavam se movendo quando alguém, possivelmente Monty, gritou.
— Corram! — e o segundo raio acertou um dos escudos que foi abaixado apenas o suficiente para absorver o golpe.
Como um grupo, eles avançaram, atravessando a última lacuna enquanto o Necromante retornava para trás de seus esqueletos, movendo as mãos enquanto Palavras de Poder saíam de sua boca.
As duas fileiras se chocaram com gritos de raiva vindos dos bandidos e o aço frio e sem emoção dos esqueletos. Com seus escudos levantados, a linha de frente de lacaios absorveu os ataques iniciais, mas foi empurrada pelos homens beligerantes. Tyron sentiu suas reservas de magika diminuírem vertiginosamente enquanto os esqueletos se fortaleciam com seus poderes.
Calcanhares ossudos afundavam no solo, e os dedos esqueléticos envolviam os cabos de suas armas, enquanto o fogo roxo em suas órbitas brilhava ainda mais.
No espaço relativamente estreito entre as duas casas, os bandidos não conseguiam usar todos os seus números para derrotar os lacaios, mas podiam se proteger e pressionar a linha da frente. Incapaz de resistir à força aplicada a eles, sua linha de frente começou a ruir.
Ele não podia entrar em pânico. Se perdesse sua compostura e falhasse na conjuração, estava morto.
‘Lâminas da Morte.’
A energia sombria da morte se manifestou ao redor das lâminas de seus lacaios, fazendo com que os bandidos recuassem ligeiramente. Quando os esqueletos atacaram, suas lâminas penetraram mais fundo do que antes, já que estavam fortalecidas. Foi um fator de equilíbrio, mas não o suficiente por si só.
Sem tempo para descansar. Tyron pegou um cristal arcano do bolso, colocou entre os dentes e recomeçou a conjuração.
O som do metal, os gritos e urros do combate, os rostos contorcidos de raiva à sua frente, tudo isso combinado sobrecarregava seus sentidos. O jovem Mago levou sua concentração ao limite e deu mais um longo passo para trás, distanciando-se ainda mais da briga enquanto continuava a trabalhar.
A Maldição do Tremor ajudaria ainda mais a equilibrar o campo de batalha, desacelerando e enfraquecendo os bandidos. Assim que o feitiço estivesse ativo, ele estaria livre para conjurar raios ou tentar dominar as mentes para inclinar ainda mais a balança.
— Peguem o fodido! — ele ouviu Monty gritar enquanto os bandidos avançavam novamente, investindo com força contra a parede de esqueletos. — Assim que ele morrer, acabou!
‘Você precisa passar pelos lacaios primeiro, idiota’, zombou Tyron em sua mente enquanto continuava a conjurar seu feitiço.
Um impacto seco sacudiu seu lado esquerdo, afetando seu ritmo. Surpreso, ele olhou para baixo para ver um machado de mão alojado em sua armadura de ossos. Um instante depois, a dor se intensificou quando o sangue começou a jorrar.
Ele congelou em choque por um segundo completo antes de se abaixar para o lado, bem a tempo de evitar outro machado arremessado da retaguarda do grupo de bandidos.
— Porra! — xingou enquanto usava a mão direita para retirar o machado rudimentar do seu ombro.
Um rugido ecoou dos bandidos quando eles perceberam que ele estava ferido e avançaram novamente. Os esqueletos foram empurrados, drenando ainda mais poder de seu mestre para lutar. Tyron fez uma careta e chupou o doce de Mago com força, tentando repor sua energia.
Um rápido movimento da mão esquerda revelou a extensão do nado. Ele poderia usá-la, mas doía para caralho. Se não tivesse a armadura, teria sido muito mais profundo, talvez até alojado no osso.
‘Seu idiota maldito’, xingou a si mesmo.
É claro que eles podiam arremessar essas merdas nele. Eles podiam não ser soldados treinados, mas eram espertos o suficiente para arremessar um machado ou uma faca. Ele os subestimou.
Estremeceu ao sentir um de seus esqueletos cair. Eles conseguiram agarrar seu escudo e puxá-lo para longe dos outros. Exposto, um golpe afiado em seu crânio foi suficiente para eliminá-lo.
‘Não vou morrer assim. Nem fodendo.’
Para se tornar um alvo mais difícil, Tyron deslizou de joelhos e começou a conjurar Maldição do Tremor mais uma vez. A dor em seu ombro era intensa, mas se obrigou a suportá-la. Não podia se dar ao luxo de ter o atraso causado por conjurar com apenas uma mão.
Outro esqueleto foi eliminado enquanto a luta na linha de frente se intensificava. Monty estava incentivando seus homens a avançarem, sua voz se elevando acima do barulho enquanto xingava e gritava para que todos lutassem com mais força. A situação não estava boa.
‘Não pense nisso. Concentre-se!’
Nada mais importava além do feitiço.
‘Termine o feitiço!’
‘Maldição do Tremor.’
Quando o feitiço foi completado, sentiu o calor ao seu redor se dissipar. No epicentro da magika, certamente a sensação seria muito pior. O ar frio e denso começou a penetrar nos bandidos, desacelerando seus movimentos e fazendo Tyron ganhar mais tempo.
— O que diabos é isso?!
O leve tom de medo nessa voz era música para os ouvidos de Tyron. Se um colapsasse e fugisse, outros o seguiriam. Ele se levantou, mas manteve a cabeça baixa, com medo de ser atingido de novo. Sangue continuava a fluir de seu ferimento e só conseguiu cuspir, frustrado por não ter trazido uma bandagem para estancar o sangramento.
Ele ergueu os olhos rapidamente. Ainda estava claro, mas não por muito tempo. A cada minuto, o sol se punha no horizonte.
— Ignorem isso! Atravessem! — berrou Monty.
A segunda fileira de esqueletos brandia suas armas de forma desajeitada, sem coordenação suficiente para aproveitar as aberturas estreitas quando elas surgiam. Mesmo assim, conseguiam acertar um alvo ou outro. Vários bandidos sangravam, e vários outros haviam sofrido ferimentos infligidos pelas arqueiras acima.
Annette ainda gritava e berrava como um demônio, assim como algumas outras, mas Tyron não conseguia ouvir direito para entender o que estavam dizendo. Talvez fosse melhor assim.
Agarrou a espada na cintura, mas a soltou rapidamente. Com sua péssima habilidade, não havia sentido em desembainhá-la. Precisava de outro feitiço.
O Necromante encontrou o olhar de um dos bandidos na fileira da frente, um homem barbudo e desgrenhado que não parecia ter mais de vinte e cinco anos. Musculoso como um ferreiro ou peão, exibia um sorriso selvagem enquanto golpeava repetidamente com seu escudo rudimentar contra os esqueletos, tentando romper a linha.
‘Você vai conseguir.’
Com destreza, ele teceu uma magia mais curta, desesperado para interromper o ímpeto dos seus inimigos.
‘Medo.’
Suprimir Mente poderia ter funcionado, mas ele não queria se expor a uma possível batalha de vontade no meio de um combate. Ele seria incapaz de se concentrar em si mesmo e provavelmente seria atingido por um tijolo ou alguma outra besteira.
Em vez disso, queria enfraquecer a linha de frente dos bandidos. Que forma melhor de infligir medo a eles?
Ele soltou um grunhido irônico de satisfação enquanto sentia o feitiço ser concluído e surtir efeito. De imediato, seu alvo enrijeceu, arregalando os olhos. Havia muitos aspectos no feitiço que Tyron não entendia, mas sabia o suficiente para compreender que a magika era de certa forma semelhante a um espinho, um que penetrava fundo na mente do alvo e liberava algo nela.
O bandido de porte físico poderoso começou a tremer enquanto seus olhos selvagens saltavam de um ponto para outro, como se visse coisas que não existiam. Gemidos baixos e lamentáveis saíram dos seus lábios, quase inaudíveis em meio ao barulho, e seus braços caíram ao lado do seu corpo enquanto tentava fugir dos esqueletos à sua frente.
Raio Magiko.
O feitiço acertou a cabeça exposta do homem com um estalo repugnante, e ele caiu. Gritos confusos ecoaram entre os bandidos enquanto puxavam o homem, mas a voz de Monty se elevou sobre todos eles.
— Peguem aquele desgraçado!
Tyron se abaixou quando uma onda de armas arremessadas veio em sua direção, meia dúzia delas atingindo seus esqueletos e os desequilibrando, enquanto as outras erravam seus alvos.
— Quem é o próximo?! — gritou o jovem de volta para eles.
Colocou toda a confiança que podia reunir em seu tom, mas, por dentro, não se sentia assim. Agarrou o ombro ferido com a mão direita. Neste momento, suas roupas estavam encharcadas de sangue, e ele estava começando a se sentir tonto. Isso não era bom.
Estava preparando outro feitiço quando percebeu alguém puxando sua capa. Girou rapidamente, empurrando o pequeno menino que estava atrás dele e o derrubando na terra. O garoto olhou para cima com medo e se encolheu.
— O que foi? — demandou Tyron. — Rápido!
O menino estremeceu antes de levantar a mão trêmula, apontando para o pátio.
— M-Mais estão vindo — gaguejou ele. — Do sul!
‘Merda’.
— Volte para dentro, rápido — instigou o menino, puxando-o com seu braço bom e o empurrando em direção à casa.
Uma rápida conjuração de Visão de Lacaio confirmou o que o garoto havia dito. Seus cinco esqueletos reservas podiam ver homens se aproximando, embora não tivesse certeza de quantos eram. Em um minuto, eles estariam no pátio.
‘O que eu posso fazer? Pelos Cinco, o que posso fazer?!’
Tentou se acalmar e pensar. Ele poderia abandonar a luta aqui e tentar lidar com esse novo grupo. Porém, seus esqueletos se sairiam muito pior sem seu apoio, além de que as Lâminas da Morte e a Maldição do Tremor não durariam para sempre, e quando acabassem, os bandidos restantes terminariam rapidamente com seus lacaios. Mas se ele conseguisse terminar com os outros e voltar antes que isso acontecesse, talvez ainda conseguisse resistir.
Poderia ordenar que seus lacaios recuassem e protegessem suas costas desse novo grupo? Estaria lutando em dois lados, mas, pelo menos, estaria cercado pelos esqueletos e seria capaz de influenciar ambas as frentes.
No entanto, isso significava que nada impediria o novo grupo de entrar nas casas.
— Droga — disse ele com a voz rouca.
Ordenou que seus lacaios restantes mantivessem posição, virou-se e disparou para longe, desembainhando sua espada. Agora, sua mão esquerda já estava dormente, mas ele ainda podia movê-la. Isso teria que servir.
Correu até onde estavam seus cinco lacaios e os direcionou para confrontar o novo grupo.
Quando os avistou, seu coração afundou. Eram três, sorrindo enquanto brandiam suas armas rudimentares em suas mãos calejadas e sujas.
— E aí, rapaz — riu um deles. — Pronto para receber o que merece?
Tyron disparou um Raio Magiko direto em seu estômago.
— Cale a boca e morra — cuspiu ele. — Eu não tenho tempo.
Enquanto um de seus membros colapsava com um gemido, agarrando a barriga, os olhares presunçosos desaparecendo dos rostos dos outros, que avançaram para enfrentar seus esqueletos.
Sem tempo para conjurar um feitiço, Tyron percebeu que sua magika estava sendo drenada muito rapidamente e mordeu o cristal em sua boca, quebrando-o num instante. Pegou outro de seu bolso e o jogou na sua boca, erguendo sua lâmina para desviar um golpe grosseiro.
Ele não treinava há muito tempo, e isso ficou evidente em sua forma desajeitada. Seu pai teria balançado a cabeça em desespero se tivesse visto a lentidão da resposta do filho, mas, no momento, Tyron não se importava. Por algum milagre, conseguiu acertar um golpe profundo no braço de seu atacante antes de recuar para ganhar espaço. Superado em número, seus esqueletos estavam sendo massacrados, e ainda havia mais dois homens vindo atrás dele, enquanto o que o havia ferido se levantava e trocava a arma de mão.
— Você está morto, filho da puta — rugiu o bandido.
— Você primeiro — Tyron rosnou de volta.
Os dois homens avançaram contra ele e Tyron tentou desviar para a direita, desferindo um golpe largo para desencorajá-los, mas seu jogo de pés era péssimo. Desequilibrado, o golpe carecia de poder e o trabalhador rural desviou dele com o que parecia um machado de lenhador.
‘Recolha o golpe mais rápido do que o lança’, a voz de seu pai sussurrou em sua orelha, ‘Ataque rápido, recupere a forma ainda mais rápido. Essa é a chave.’
Ele se moveu quase instintivamente, puxando a lâmina de volta para si enquanto o homem com o machado erguia sua arma com um urro.
‘A ponta causa mais danos do que a lâmina, filho. A lâmina é a parte vistosa, a ponta é para matar.’
Foi uma estocada terrível. Seu peso não foi totalmente utilizado no golpe, a posição dos seus braços não estava correta, o ângulo da lâmina não era reto, mas contra um homem sem armadura, isso pouco importava. Antes que o machado pudesse acertá-lo com força, a lâmina deslizou direto pelo corpo do bandido.
‘Entre a quinta e a sexta costela’, observou ele.
O ar escapou dos pulmões do homem e ele caiu. Tyron observou a luz sumir de seus olhos por um breve instante, antes que seu outro oponente o atacasse, golpeando seu lado esquerdo e derrubando-o.
Tyron se esparramou na terra, tentando evitar cair sobre o ferimento enquanto rolava. Tentou levantar sua lâmina, mas o bandido foi mais rápido. O metal reluziu na luz moribunda e Tyron se esquivou para o lado, mal desviando do golpe. Por sorte, conseguiu se levantar a tempo para aparar o próximo ataque com sua lâmina.
O bandido avançou, entrelaçando suas armas enquanto tentava usar sua arma para pressionar o garoto. A respiração fétida do homem soprou direto no rosto dele, e o Mago rapidamente percebeu que esta era uma luta que perderia. Com seu braço esquerdo ferido e com menos força física, seria subjugado em breve.
‘Caia para a esquerda e conjure um raio o mais rápido que conseguir.’
Assim que retirou a mão esquerda do cabo e começou a realizar os gestos necessários, algo perfurou seu oponente no canto da sua visão. O bandido ficou rígido, tão chocado quanto Tyron antes de cair para o lado.
Atordoado, Tyron se virou para ver uma viúva furiosa, com lágrimas escorrendo pelo rosto e um arado nas mãos.
— Glynnis? — ofegou ele.
— Matem os filhos da puta! — ela gritou enquanto corria para a batalha, com meia dúzia de outras em seu encalço.
…