
Volume 2 - Capítulo 11
Livro dos Mortos
As camponesas furiosas avançaram na briga com qualquer ferramenta que tivessem em mãos. Atordoado como estava, Tyron não teve tempo para contemplar o espetáculo. Enquanto o homem à sua frente cambaleava com o forcado preso em sua lateral, o Necromante cortou sua garganta e avançou para enfrentar outro.
Com a Armadura de Ossos fornecendo pelo menos alguns níveis de proteção, ele preferia que os bandidos o atacassem em vez das mulheres desprotegidas.
Mas essas mulheres não pareciam compartilhar suas preocupações. Enquanto avançava para a luta, ele foi confrontado com a cena de mães enfurecidas esfaqueando, golpeando e cortando, atacando sem qualquer consideração pela sua própria segurança. A confusão era tão brutal que ele não via oportunidade de disparar um Raio Magiko sem correr o risco de ferir as pessoas que queria proteger.
— Seu pedaço de merda! — gritou Glynnis enquanto avançava, com sangue escorrendo dos dentes de seu forcado.
Os cinco esqueletos de Tyron já haviam sido reduzidos a três quando a ajuda chegou, mas agora a vantagem em números estava a favor deles. Soltando um palavrão, ele ajustou seu aperto e contornou o confronto, procurando uma abertura.
Assim que encontrou uma, avançou, colocando todo seu peso na lâmina com o melhor que conseguia com um braço ferido. De novo, sentiu a ponta deslizar pela carne enquanto perfurava um ser humano, sentindo o ar escapar dos pulmões do homem enquanto colapsavam.
Tyron arrancou a lâmina a tempo de desviar de um golpe amplo e horizontal que ameaçava decepar sua cabeça. Os olhos do bandido estavam selvagens e o rosto contorcido em um rosnado que Tyron não percebeu ser igual ao seu. Maior e mais forte, o criminoso investiu contra ele, com a arma empunhada de forma defensiva e ombros baixos.
O Necromante mal conseguia se recordar do jogo de pés que seu pai o havia ensinado, mas conseguiu desviar a tempo. Sua lâmina fez um corte desajeitado enquanto ele se movia, mal o suficiente para ferir, e ele xingou sua falta de velocidade.
O ferimento enfureceu ainda mais seu oponente, que rugiu como um animal e investiu de novo.
Neste momento, outra pessoa gritou por perto e um lamento agudo entrou nos ouvidos de Tyron.
‘Alguma das viúvas se feriu?’
Este pensamento o distraiu por uma fração de segundo, suficiente para que, desta vez, fosse muito lento para se mover.
Atento aos movimentos dele, o bandido o acompanhou melhor enquanto ele tentava desviar para o lado. Tyron arregalou os olhos ao ver o aço se aproximando. No último segundo, girou os pulsos e tentou bloquear.
Uma dor aguda o atingiu no quadril direito e ele sibilou enquanto o bandido se chocou com ele, fazendo com que ambos caíssem no chão. Sangue jorrou do novo ferimento, encharcando suas calças. Ele já estava começando a sentir frio, o que era a última coisa de que precisava.
Havia deixado cair sua espada ao pousar, batendo com força no chão e perdendo o fôlego. Seu oponente era mais ágil e o perseguiu de quatro, com um olhar assassino. Tyron inspirou fundo, suas mãos começaram a se mover e sua língua o obedeceu.
Raio Magiko.
Apontou sua mão e disparou o míssil, que acertou a cabeça do homem a menos de um metro de sua mão. Sangue respingou em seu rosto, forçando-o a piscar e limpar os olhos enquanto tentava clarear sua visão. Tyron levantou-se e recuperou sua espada antes de cambalear de volta para o bandido, que agora se contorcia no chão, agarrando o que restava de seu rosto.
Uma estocada rápida no peito o finalizou, e o Necromante, atordoado, virou-se para encontrar seu próximo oponente. Exceto que não havia um. Os esqueletos, o que restava deles, arrastaram-se até ele enquanto as viúvas insultavam os bandidos que haviam fugido, deixando metade de seus membros mortos no chão.
Não sem causar baixas. Mais da metade dos corpos caídos na terra não pertencia aos atacantes.
— Certifiquem-se de que eles não voltem — disse ele com a voz rouca, para alguém em particular. — Estou voltando para o outro lado.
— Eu posso ir com você — Glynnis deu um passo em frente, determinada a ajudar.
No entanto, Tyron balançou a cabeça.
— Você precisa estar pronta no caso de os esqueletos caírem. Se eu falhar, então vocês terão que lutar contra eles por conta própria.
Seus ferimentos ardiam de dor, mas ele cerrou os dentes e seguiu em frente. Se caísse agora, o que aconteceria com seus lacaios? Eles perderiam sem o seu suporte. Então, mancando e praguejando, dirigiu-se até o pátio e voltou para onde a briga continuava do outro lado.
— Garoto, você está vazando um pouco mais do que uma pessoa deveria — comentou Dove de sua cintura.
— A bom, sério? — tossiu Tyron. — Obrigado pelo aviso.
— Você deveria aplicar uma bandagem. Faça você mesmo ou deixe que uma das viúvas cuide disso. Se você sangrar até morrer, você não vai ajudar ninguém — a voz do crânio soava incomumente urgente.
O jovem Mago hesitou por um segundo e, neste instante, sentiu outro esqueleto cair.
— Não há tempo — resmungou, acelerando o passo. — Agora, cale a boca. Eu preciso conjurar.
Ele tinha dois lacaios sobrando da defesa lateral e os enviou até a luta. No total, restavam apenas onze esqueletos. Seu tempo longe dessa frente custou caro, os bandidos haviam conseguido pressionar suas criações e eliminá-las.
Quando voltou às fileiras de trás, seus lacaios foram forçados a recuar a ponto de estarem no próprio pátio. Um pouco mais e os bandidos seriam capazes de contorná-los e seria o fim se isso acontecesse, já que Tyron estaria preso em um círculo de mortos-vivos que diminuiria rapidamente.
Seus pensamentos estavam lentos, sua língua estava pesada. Conjurações complicadas talvez estivessem fora de questão, dadas as condições em que estava. Era melhor manter-se no simples.
Tendo cuidado para não ser um alvo fácil, ele escolheu um bandido aleatório e começou a conjurar Medo de novo. Os trabalhadores rurais rebeldes estavam cansados, mas conseguiam sentir que a vitória estava próxima. Entre as casas, estavam muito mais seguros das arqueiras. Se uma das mulheres se inclinasse sobre a janela para atirar, elas ficariam vulneráveis aos machados e facas de arremesso, que as mantiveram afastadas até então. Tudo o que tinha que fazer era eliminar mais alguns mortos-vivos e invadir o pátio.
Foi com essa confiança que Tyron atacou. Como uma adaga no cérebro, seu feitiço foi concluído e esfaqueou o terror na mente da vítima. Fraco demais para resistir aos efeitos debilitantes do feitiço, o homem começou a tremer, com os olhos encarando terrores que não existiam.
Foi quando um esqueleto, comandado por Tyron, o esfaqueou no estômago.
Enquanto ele caía, agarrando a barriga, o Necromante já havia escolhido um novo alvo. Conforme levantava as mãos e começava a conjurar, ele percebeu com horror quão baixas estavam suas reservas de magika.
Em algum momento, havia perdido o cristal em sua boca. Talvez quando foi derrubado? Não importava. Com as mãos trêmulas, retirou outro de sua bolsa e o colocou em sua boca.
Em vez de absorver a energia devagar, ele o mordeu de imediato, liberando a magika contida em seu interior.
— Força, rapazes! Estamos quase lá!
A voz de Monty se elevou sobre o barulho de novo e Tyron fez uma careta. Claro que essa pessoa desprezível ainda estava viva. Ele esperava encontrá- lo morto quando voltasse, mas não teve essa sorte. Tentou avistá-lo na multidão, na esperança de acertá-lo com um Raio Magiko, ou ainda melhor, enchê-lo de terror. Infelizmente, Monty era esperto o suficiente para permanecer escondido por seus capangas.
Enfraquecido como estava, o excesso de magika fluindo do cristal quebrado em sua boca fez seu corpo tremer. Assim que a energia entrava em seu corpo, ela era consumida, alimentando os lacaios para mantê-los em movimento. Em mais alguns minutos, estaria drenado e seus esqueletos cairiam no local, incapazes de se sustentarem.
‘Não há nada que eu possa fazer?’ pensou em desespero.
Ele havia feito tudo o que podia para fortalecer seus lacaios, mesmo assim, eles permaneciam desajeitados, lentos e frágeis.
‘Tenho mesmo que depender deles?’
Com uma mão pressionada em sua lateral para estancar o sangramento, Tyron avançou até que estivesse atrás da vanguarda dos esqueletos. Apenas alguns ainda tinham escudos; o resto permanecia exposto, golpeando sem parar, com espadas firmemente empunhadas em seus dedos ossudos.
Ele se juntou a eles, esfaqueando com seu braço bom sempre que via uma abertura, enquanto se esquivava e se movia atrás dos mortos-vivos. Repetidamente atacou, às vezes acertando, às vezes não, desesperado para encerrar a luta.
Com o Necromante tão exposto ao perigo, os bandidos redobraram seus esforços, tentando golpeá-lo com o que quer que tivessem em mãos. Enxadas transformadas em lanças, facões utilizados para cortar a vegetação, espadas rudimentares e qualquer outra coisa que conseguissem pegar eram arremessados contra ele.
Ele fez seu melhor para desviar, mas não foi perfeito, portanto, acabou sendo atingido e cortado várias vezes.
‘Pelo menos isso alivia a pressão sobre os esqueletos.’
E funcionou. Um minuto se passou, depois dois, e a linha de defesa se manteve firme. Apesar de mais dois esqueletos terem caído, os bandidos também estavam sofrendo. Era impossível para Tyron dizer, mas ele sentia que seus números estavam diminuindo. Não conseguia enxergar além dos poucos que estavam na sua frente enquanto xingava e cuspia, esfaqueando-os.
Ele estava com muito frio.
Os últimos resquícios de magika se agitavam em seu estômago, estava quase esgotado. Ele tentou se concentrar, tentou pensar no que precisava fazer, mas era muito difícil. Esfaquear, abaixar; esfaquear, abaixar; esfaquear, abaixar. Esse padrão simples consumia toda a atenção que conseguia reunir, e mesmo isso estava se tornando impossível. A espada em seu aperto estava tão pesada que quase não conseguia mais segurá-la.
Ouviu gritos e berros. Não conseguia dizer de onde vinham, mas, de repente, não havia mais ninguém na sua frente para esfaquear. Ele virou-se e tentou ver onde os bandidos estavam. Teriam ficado atrás dele? Sua magika havia se esgotado?
Os esqueletos ainda estavam de pé, embora por apenas um fio. A luz em seus olhos queimava fraca, quase uma faísca se comparada ao seu brilho normal. No entanto, se os esqueletos ainda estavam aqui, então aonde foram os inimigos?
Ele tentou se virar de novo, mas foi neste momento que seu quadril decidiu que não aguentava mais. A dor se intensificou e ele cambaleou para o lado até bater na parede e escorregar. Acabou sentado, com as costas apoiadas contra a parede e, neste momento, percebeu a gravidade da situação. Sentiu como se houvesse gelo em suas veias, suas mãos tremiam sem parar e sua visão estava turva.
Ele pode ter exagerado.
— Você teve um dia agitado, não é? — uma voz fria atravessou a névoa em sua mente.
Ele olhou para cima para ver Yor o encarando, com os lábios abertos revelando suas presas e os olhos ardendo com uma necessidade selvagem.
— Você morrerá em breve se não for tratado — disse ela, com os olhos finos nos dele, capturando sua atenção. — Você está disposto a morrer, jovem Necromante? Ou renascerá?
Tyron franziu a testa. O que ela queria dizer? Era difícil se concentrar. Tinha uma vaga consciência de outra voz falando, alguém que ele conhecia.
‘Dove?’
Ele não conseguia entender as palavras, pois algo naqueles olhos o prendia.
— Não entendo — respondeu ele, arrastando as palavras.
A vampira se inclinou para frente.
— Dê-me permissão e eu o transformarei em um de nós. Você viverá. Transformado, sim, mas ainda viverá.
O jovem Mago piscou devagar. Ele queria concordar, algo o dizia que deveria. Esses olhos eram como fogo. O que Dove estava dizendo? Ele falava mais alto agora.
Talvez não importasse.
Antes que pudesse falar, Tyron caiu para a esquerda enquanto a luz desvanecia. A escuridão o envolveu e ele não se lembrava de mais nada.
…