
Volume 2 - Capítulo 4
Livro dos Mortos
Com seus captores distraídos, Tyron sabia que era a hora de agir. Se eles decidissem remover uma complicação potencial, ou seja, ele próprio, antes de lidar com a nova ameaça, então não terminaria bem para ele. Isso significava que precisava lidar com a corda. Tinha um método em mente, embora não fosse seu favorito.
Raio Magiko era um feitiço simples e versátil. Uma bola de energia, moldada e direcionada para voar e descarregar sua força em um alvo. Era comum para os magos apontarem ou virarem a palma da mão na direção em que queriam dispará-lo, mas isso não era necessário. O ponto de origem poderia ser qualquer lugar perto da pessoa conjurando-o, dentro de alguns centímetros de seu corpo.
Apesar do crescente alvoroço ao seu redor, ele fechou os olhos e se concentrou, formando o feitiço logo acima da corda que prendia seus pulsos. Não ser capaz de ver o alvo adicionava outra camada de dificuldade, e foi necessário todo o seu foco para garantir que a magika assumisse a forma desejada. Assim que estava pronta, ele a disparou.
De imediato, sentiu uma ardência nos pulsos quando o raio foi disparado para baixo, rasgando as fibras da corda e levando consigo várias camadas de sua pele antes de acertar o chão atrás dele. Antes que a corda caísse, ele estalou os dedos, tentando não mostrar qualquer sinal de dor em seu rosto.
— O que foi isso? — Davon se virou.
Tyron não olhou para cima, sua cabeça estava baixa enquanto deixava seus braços suportarem seu peso. Queria parecer derrotado e, aparentemente, conseguiu.
— Markus, fique de olho neste idiota para mim. Vou ver que bagunça é essa — cuspiu Davon, se virando e correndo para o prédio de onde veio o aviso.
— Ah, mas… — gaguejou Markus enquanto seus dois companheiros o deixavam, depois chutou a terra de frustração.
Então teve uma ideia melhor e chutou Tyron no estômago.
— Hrk! — grunhiu o garoto enquanto o sapato do trabalhador rural afundava em sua pele.
Os Divinos abençoaram sua constituição alta.
— Você está todo amarrado. Por que eu preciso ficar de olho nessa merda? — resmungou ele, querendo saciar sua curiosidade e descobrir o que era a perturbação.
‘São dez ossudinhos marchando pela estrada para abrir sua cabeça, idiota.’
Sem pensar muito, Tyron decidiu o que fazer. Podia conjurar Medo, mas seu bom amigo Markus poderia gritar e choramingar, atraindo a atenção dos outros, o que era o oposto do que queria. Poderia usar Suprimir Mente, mas não tinha mais uma arma. Se esmagasse a vontade dele e o reduzisse a um idiota babando, de boca aberta… ou algo mais, então como ele o mataria?
A outra opção seria bombardeá-lo com raios…
Flexionou os dedos enquanto considerava o que fazer e sentiu os restos da corda, ainda em sua mão. Isso também era uma opção… Ele sorriu.
— Puta merda — exclamou Tyron, ofegante —, que merda é essa?
Ele encarou por sobre o ombro do homem com os olhos arregalados e, por algum milagre, Markus se virou.
— O quê? — murmurou o homem.
Quase sem acreditar na própria sorte, o Necromante entoou as Palavras de Poder, erguendo as mãos de trás das costas para lançar alguns sigilos rápidos. Antes que seu captor pudesse soar um aviso, o feitiço estava pronto. Os olhos de Markus se arregalaram ao ver que seu prisioneiro não estava mais preso, mas então algo acertou sua mente e ele não soube de mais nada.
Não podia se dar ao luxo de ser gentil ou amável com essas pessoas, então Tyron usou todo o seu poder mental. Apesar de seu baixo nível, ele tinha força mental mais que suficiente para esmagar a vontade de um simples fazendeiro que havia se tornado um bandido. Em instantes, Markus foi reduzido a um corpo imóvel, com os olhos vidrados e a expressão vazia, enquanto Tyron controlava sua mente com um aperto de ferro.
Ele se moveu para tirar proveito da sua vantagem. Havia aprendido a se mover enquanto mantinha o feitiço, mas não rápido, pois movimentos bruscos quebrariam sua concentração. Tinha que ser cuidadoso. Moveu as cordas em sua mão até que encontrou uma seção grande o suficiente para usar, então a passou pela cabeça do homem e pelo seu pescoço, puxando-a, arrastando o corpo inerte de sua vítima para o chão e depois arrastando-o para um local fora de visão.
Foi difícil manter a mente sob controle enquanto estrangulava o corpo. Em vez de se debater e lutar fisicamente, Markus lutou com sua vontade, forçando Tyron a pressionar ainda mais enquanto mantinha seu aperto firme na corda. Tentou não observar enquanto o rosto à sua frente ficava azul, mas concentrou-se internamente, dominando a vontade de seu oponente enquanto ele se debatia e gritava, depois enfraquecia, até que a resistência diminuiu e sua consciência se apagou como uma vela extinta.
A corda caiu de suas mãos trêmulas, os dedos se fechando enquanto o jovem Necromante se recompunha. Não podia se distrair; estava vulnerável até que conseguisse se reunir com seus lacaios. Eles estavam perto, ele podia sentir, e se aproximavam a cada segundo.
‘Estou exposto, preciso me esconder por um tempo.’
Os outros não tinham vindo investigar esse lado do pátio; eles foram bloquear a abertura entre os prédios no caminho por onde Tyron entrou, ou então seguiram para os edifícios daquele lado do complexo. Mesmo assim, ele não queria arriscar; se alguém olhasse para trás e o visse encolhido ali, levaria uma flechada na cara. Assim, contornou a cerca e encontrou uma janela que não estava trancada. Abriu-a e pulou para dentro, examinando a escuridão ali dentro.
Ninguém estava dentro, o que era bom. Com um momento para si, agachou-se e conjurou outro feitiço: Visão de Lacaio. Seguindo a conexão que tinha com todos seus mortos-vivos, permitiu-se ver o que eles viam, um por vez. Estavam se aproximando das casas da fazenda agora, talvez a apenas algumas centenas de metros. Os esqueletos na vanguarda tinham seus escudos erguidos, defendendo-se das flechas disparadas do telhado e dos andares superiores. Os mortos-vivos não conheciam o medo e continuaram avançando diante dos arqueiros, mas os humanos não eram tão resilientes. Mesmo através dos olhos turvos dos mortos, Tyron conseguia ver o espírito vacilante dos bandidos.
Havia medo, e ele poderia se aproveitar disso.
Estava no lado oposto de onde seus lacaios se aproximavam. Se quisesse ajudá-los, precisava se aproximar. Tyron se levantou e começou a caminhar pela casa escura de aparência abandonada, desejando ter uma arma. Preferia não usar sua magia a menos que fosse obrigado a isso, e se pudesse evitar o estrangulamento… melhor ainda.
O barulho continuou a aumentar enquanto os homens gritavam uns com os outros, urros de raiva e gritos de medo. Os esqueletos chegariam em breve, e Tyron sabia por experiência própria que encarar as órbitas vazias dos mortos era uma experiência enervante, uma que poderia quebrar mais de um defensor.
Quando se aproximou do fim da construção, Tyron destrancou a porta e a abriu por dentro, apenas para encontrar um bandido parado no vão entre os prédios.
Os dois se encaram surpresos; o bandido enlameado se recuperou primeiro e brandiu sua lâmina enferrujada. Tyron cambaleou para trás quando sentiu uma dor aguda na mão esquerda, praguejando baixinho. Um instante depois, um Raio Magiko foi disparado e acertou o peito de seu atacante, com um estalo úmido marcando o contato. Cheio de desespero, Tyron avançou e golpeou sua testa na garganta do atacante. Incapaz de gritar por ajuda, o bandido mal pôde fazer algo além de ofegar enquanto o Necromante o agarrava pelos cabelos e o puxava para dentro da porta.
Um minuto depois, Tyron emergiu, com uma bandagem improvisada amarrada na palma da mão e o rosto contorcido de frustração.
Os esqueletos haviam chegado e estavam envolvidos em uma luta com os bandidos. Os defensores bloquearam às pressas a entrada entre os dois prédios no lado norte, onde os mortos-vivos haviam atacado. Tyron poderia fazer com que todos ou alguns deles se movessem para cá, afinal, havia quatro entradas para o pátio, mas preferia deixá-los em um lugar para atrair a atenção enquanto se esgueirava.
‘Se apenas aquele idiota não estivesse de vigia deste lado.’
A mão não deveria ser um problema, se fosse cauteloso. O corte não era tão profundo, ele conseguiria formar sigilos com ela sem problemas. Esgueirou- se para dentro do pátio e encontrou outra janela pela qual pôde passar, entrando de forma desajeitada com a mão nesse estado. Uma vez dentro, correu para encontrar as escadas. Ele precisava chegar ao segundo andar o mais rápido possível. Quanto mais tempo a luta se prolongasse, mais danos seus esqueletos sofreriam dos arqueiros acima.
Havia tantos gritos, palavrões e choques de aço que não importava muito quanto barulho ele fazia enquanto subia a velha escada de madeira. Subiu o trecho final a toda velocidade para encontrar um corredor à sua frente que terminava em uma janela, com um bandido tremendo enquanto se debruçava sobre ela para disparar contra os lacaios abaixo. Sem pensar demais, juntou as mãos e formou um Raio Magiko. O feitiço zuniu quase invisível pelo ar antes de atingir as costas desprotegidas do alvo, a força arremessando o arqueiro pela abertura, gritando muito para confusão embaixo.
Tyron não hesitou. Correu até a janela, com as mãos já se movendo enquanto as Palavras de Poder saíam de seus lábios.
Antes que alguém pudesse interromper sua conjuração, progrediu rapidamente no feitiço, formando sigilos e construindo a magika com uma velocidade imprudente. Sua mão ardeu de dor e quase o derrubou, mas cerrou os dentes e forçou os dedos a se alinharem antes que as coisas dessem errado. Mesmo assim, suor frio escorria pela sua testa enquanto terminava o feitiço.
‘Lâminas da Morte.’
Uma energia arcana que exalava morte começou a envolver as armas dos esqueletos, ondulando ao redor das lâminas como uma fumaça negra. Gritos de pânico soaram entre os bandidos diante desse desenvolvimento, mas Tyron não havia terminado.
‘Não posso deixar vocês fugirem.’
Afastou-se das janelas e observou os arredores. No caos, era impossível dizer o que acontecia, mas não pensou que houvesse outros bandidos neste andar. Era provável que tivessem ido ao telhado ao perceberem que não conseguiam mais disparar nos esqueletos pelas janelas voltadas para o lado de fora. Como esse era o caso, ele decidiu apostar que tinha tempo suficiente para conjurar mais um feitiço.
Cauteloso com o deslize quase desastroso da última vez, dedicou um pouco mais de tempo para o próximo feitiço. Quando o último sigilo se encaixou e ele o completou, um suspiro de alívio saiu de seus lábios.
‘Maldição do Tremor.’
Mirou nos homens que repeliam seus esqueletos no chão e viu o feitiço surtir efeito antes de se afastar da janela para não ser visto.
No chão, os bandidos sentiram como se o próprio ar tivesse esfriado ao redor deles, congelando seus membros, endurecendo o sangue em suas veias. Seus movimentos estavam rígidos, as articulações travaram e a respiração congelou em seus pulmões. Confrontados com o avanço silencioso e implacável dos mortos à sua frente, foi a gota d’água para mais de um deles.
Com um lamento desesperado, um após o outro, na retaguarda da batalha, se viraram e correram. Os homens que foram deixados no combate gritaram de raiva e medo, mas era tarde demais para eles. Alguns também queriam fugir, mas foram lentos demais, abatidos pelos guerreiros de ossos impiedosos à sua frente. Em questão de segundos, os esqueletos ganharam acesso ao pátio, dizimando os últimos defensores restantes.
Só restavam os bandidos no telhado e, pelos sons, eles estavam fugindo; um deles inclusive se jogou da casa.
Tyron fez o que todo necromante orgulhoso deveria fazer: encontrou um cômodo vazio e se escondeu em um canto enquanto comandava mentalmente os esqueletos pelos prédios até os telhados. Só quando teve certeza de que não havia mais bandidos, saiu e inspecionou os danos.
Perdeu dois lacaios na luta, seus crânios racharam e a luz em seus olhos se extinguiu. Foi uma perna, mas não uma que não pudesse absorver. Em troca, tinha seis bandidos frescos para trabalhar, já que o resto havia fugido. Havia uma grande probabilidade de que eles se reagrupassem e retornassem – parecia que alguns deles já haviam partido –, com o líder, Monty. Com sorte, eles não retornariam hoje, e amanhã ele poderia mais do que recuperar suas perdas.
Ainda assim, toda a situação deixou um gosto amargo na boca do jovem.
No futuro, ele poderia muito bem abandonar qualquer tentativa de esconder sua natureza e apenas avançar com seus lacaios. Não valia a pena correr o risco e as coisas ficavam cada vez mais sem lei, não menos, com o passar do tempo nas planícies.
— Sangue e osso — praguejou ele.
Sem inimigos óbvios por perto, enviou quatro esqueletos para buscar a carroça e trouxe os quatro restantes com ele para vasculhar os prédios. Várias portas estavam trancadas, especialmente no andar de cima, e ele demorou um pouco para encontrar as chaves. Davon estava com elas, como se constatou; as primeiras pessoas que encontrou ali agora jaziam mortas na terra, com um ferimento horrível nas costas e o peito aberto, onde foram atravessadas por uma espada. Tyron se abaixou e recuperou a espada com uma satisfação macabra.
Quando abriu as portas e conseguiu ver o que havia dentro, Tyron não sentiu mais culpa. Afinal, encontrou as mulheres e as crianças.
…