Livro dos Mortos

Volume 2 - Capítulo 5

Livro dos Mortos

Tyron recostou-se na mesa com um suspiro. Levou a mão à testa para enxugar o suor, mas hesitou ao ver as próprias mãos. Procurou o balde de água que havia enchido e fez uma careta ao notar a cor vermelha.

‘Há também pedaços flutuando na água?’

Antigamente, tal visão teria feito o Necromante correr para um arbusto próximo. Agora, mal provocava um ronco em seu estômago em sinal de protesto. Progresso.

— No entanto, não consigo ficar feliz por isso — murmurou para si.

Com as duas mãos ensanguentadas erguidas à sua frente, empurrou a porta com seu quadril e olhou ao redor do pátio.

Parecia muito melhor do que há dois dias. A primeira grande melhoria era a ausência de cadáveres em estacas. Ele os havia removido e decidido dar um bom uso aos restos mortais em vez de os enterrar. Os fazendeiros não mereciam a morte que tiveram, mas não precisavam mais daqueles ossos. Os danos mais críticos da luta haviam sido reparados, e os bandidos caídos mais do que mereciam seu lugar na tábua de corte.

Ele tinha pouca escolha a não ser segurar a alavanca da bomba com uma mão para fazer a água fluir e, a partir daí, conseguiu se esfregar para se limpar. Sujeira e sangue espesso haviam grudado em sua pele, e ele teve que usar força para removê-los. Água vermelha fluía ao redor do seu pé enquanto se levantava, espalhando-se pela terra compacta em rastros oleosos.

— Ah… desculpa por incomodá-lo — disse uma voz suave, de trás dele.

Tyron se virou bruscamente e viu uma mulher magra, de cabelos castanhos, segurando um balde atrás dele.

— Preciso de água para a cozinha — murmurou ela.

Tyron se xingou. Estava muito distraído e não percebeu ela chegando atrás dele.

— Uh… sem problema — respondeu ele. — Só vou… sair do seu caminho.

Ele saiu de forma desajeitada do caminho e balançou as mãos secas, tentando não olhar para a água avermelhada que se espalhava.

‘Espero de verdade que aquele não seja o marido dela.’

Assim que esse pensamento lhe ocorreu, ele precisou ir para outro lugar, então balbuciou um pedido de desculpas e recuou apressado. Assim que voltou para dentro, fechou a porta atrás de si e respirou fundo para se recompor.

— Cacete, espero que aquele não seja o marido dela — comentou Dove.

— Meu Deus, eu sei — resmungou Tyron.

— Você poderia só tê-los enterrados. Uma pequena e fria homenagem aos seus familiares, que estão do outro lado do pátio.

— Foi ideia sua, seu magricela idiota!

— Você não precisava concordar.

— Isso é… verdade, mas eu preciso dos ossos.

E ele pegou. Seus testes tinham que continuar. A única forma de aprimorar suas habilidades era praticar e tentar novos métodos. Para isso, precisava de um suprimento constante de restos mortais.

— Eu salvei a vida delas — disse ele —, então tenho direito a…

Ele não conseguiu dizer isso, mas isso não impediu que Dove terminasse para ele.

— Aos cadáveres dos seus maridos? Caralho, Tyron, isso foi frio. Meus mamilos espirituais estão murchando aqui.

— Oh, cala a boca — disse ele.

Ignorou o crânio enquanto começava a arrumar tudo. Com alguns comandos mentais, fez os esqueletos à sua disposição reunirem os vários baldes e banheiras que havia enchido para levar lá para fora e despejar no monte de lixo que havia mandado cavar.

Feito isso, tentou deixar todo seu constrangimento para trás enquanto reunia os ossos e os levava ao segundo andar. Lá em cima, movia-se de cômodo em cômodo, adicionando ossos aos seus vários testes e experimentos.

Ter um segundo andar inteiro à sua disposição para trabalhar era um verdadeiro luxo que nunca teve antes. Certamente era muito melhor do que ficar agachado sobre pilhas de ossos no chão de uma caverna. Era uma pena que não pudesse ficar muito tempo, mas, por ora, aproveitaria as instalações.

Após distribuir sua última apreensão, fez mais uma ronda pelos cômodos, checando o progresso dos seus vários testes.

Com mais tempo em mãos, pôde avaliar cada osso. Procurando por danos ou rachaduras e os consertando, selando quaisquer vazamentos de magika, garantindo que estivessem limpos e secos, tudo o que podia pensar para que estivessem na melhor condição possível.

Com tempo e prática, sua habilidade de usar seus sentidos mágicos para detectar fraquezas nos ossos estava se tornando mais evidente. Poderia não gerar muita diferença no desempenho do lacaio, talvez apenas alguns pontos percentuais, mas isso importava para Tyron.

Para ser o mais eficiente possível, ele precisava dos melhores mortos-vivos. Se eles usariam sua energia para lutar, então que a usassem da melhor forma. Além disso, sentia que estava sendo desrespeitoso com os mortos se não se esforçasse ao máximo para criar os lacaios perfeitos a partir de seus restos mortais.

Se ia profanar seus ossos, que fizesse um trabalho impecável.

Afastou o sentimento estranho enquanto caminhava de sala em sala, usando sua mente para analisar as energias sutis e mutáveis contidas nos diferentes grupos de ossos.

Estava prestes a fazer uma descoberta, graças a Dove, e tudo precisava ser confirmado e medido antes que pudesse comemorar. Após checar tudo duas vezes, desceu as escadas e se jogou na cadeira de madeira na cozinha.

— Quando foi a última vez que você dormiu, garoto?

Tyron pensou na resposta.

— Eu não durmo desde o ataque — admitiu ele. — Eu sei. Vou descansar logo.

O crânio ficou em silêncio por um instante.

— Você quer falar sobre isso?

— Não.

— Você matou muita gente nesse ataque. Isso abala qualquer um.

— Eu disse que não quero falar sobre isso, Dove.

— Sei, e o que caralhos vai fazer a respeito disso? Me matar? Você me prendeu nesta prisão porque queria um mentor, então engula esse seu orgulho de merda, sugue suas bolas até o esterno e aceite minha sabedoria. Se não, tudo bem, me liberte logo.

O Necromante cerrou os dentes por um instante e inspirou fundo antes de expirar de uma vez. Não queria ter essa conversa, mas também não queria perder o conselho do Invocador. Sem Dove, seriam apenas ele e Yor, e esse pensamento era mais assustador do que podia admitir.

— Certo. Pode falar, Dove. O que você tem a dizer?

Os olhos roxos do crânio brilhavam com uma luz estranha.

— Que tom é esse? Eu sou seu pai? Você está na fase rebelde ou algo do tipo? Tyron, você está fugindo das autoridades, tomando decisões de vida ou morte em uma corrida contra o tempo para aumentar seu poder. Você não pode ficar se lamentando por matar um bando de idiotas.

— Eu não estou lamentando!

— Minhas bolas etéreas que não estão! Você está se esforçando, e perdão pelo trocadilho, até os ossos nos últimos dois dias.

— Dove, eu sempre fiz isso. Mesmo antes de Despertar.

— Do que você está fugindo então?

Silêncio.

— Foi o que pensei. Olha, não estou dizendo que você não deve se esforçar, você precisa dar o seu máximo, mas precisa trabalhar na sua mentalidade. Se está fugindo do estresse, ele vai afetar seu trabalho, se acumular e, com o tempo, você vai explodir na pior hora possível. Você vai matar pessoas antes de sua jornada terminar. Provavelmente pessoas para cacete. Quanto mais cedo você aceitar isso, melhor será.

— Eu não queria matar ninguém, Dove — disse Tyron, com a voz rouca. — Eu queria caçar criaturas das fendas para subir de nível. Eu queria proteger as pessoas. Eu queria provar que eu posso usar essa classe como uma força para o bem!

— Não é isso que você tem feito? Boas pessoas tendem a limitar o número de pessoas que coloca na fogueira a quase zero. Eu não acho que você tenha assassinado algum santo outro dia.

— Não diga assassinado — resmungou Tyron.

— Eliminado? Matado? Massacrado? Colocado para descansar? Expulso deste mundo? Enviado para o abraço dos Cinco? Esfaqueado o torso com uma espada? Eu tenho mais.

— Quer saber? Assassinado é melhor do que alguns desses.

— Pelo menos você não tentou dizer que foram os lacaios em vez de você que os matou. Isso seria pura covardia.

— Os lacaios estão literalmente na minha cabeça. Não podemos ser considerados como entidades separadas…

— Covardes tentam qualquer coisa — disse Dove com naturalidade. — Sei que você prefere não encarar essa realidade, garoto, mas você vai ter que encarar. E logo, a menos que eu esteja enganado. Os sobreviventes ou voltarão em maior número, ou fugirão para o leste até encontrarem a lei e voltarão para caçá-lo com os marechais.

Na verdade, o Necromante esperava que eles tivessem vindo noite passada. Com pouco tempo para planejar ou se recuperar do choque, teriam sido presas fáceis. Dois dias sem sinais dos bandidos, ou do aparente líder deles, era preocupante.

— Quanto tempo até nos movermos? — perguntou ele.

— No máximo mais dois dias. Esse é um bom lugar para trabalhar, mas muitas pessoas já viram você e os ossudinhos. Quando os Exterminadores vierem, eles saberão que você esteve aqui. Você precisa ter a maior vantagem possível até lá.

— A menos que… — disse Tyron devagar. — Eu consiga encontrar e eliminar todos os bandidos. Ninguém pode falar se não estiver vivo.

— Há um minuto você estava se sentindo péssimo por ter matado pessoas, e agora quer cometer um massacre? Isso sim é evolução de caráter, garoto. Estou impressionado.

— Estou tentando permanecer vivo, Dove — zombou Tyron. — Isso é diferente do outro dia. Eu poderia ter ido embora.

— Você deveria ter feito isso, mas aqui estamos. Olha, mesmo se você matar todos esses babacas, você quer mesmo colocar as mulheres e crianças na posição de terem que mentir para os marechais? Isso é um crime, caso tenha esquecido. Acho que a vida delas já vai ser difícil o suficiente, não acha?

Tyron deixou-se cair na cadeira. Era verdade. Quando encontrou os sobreviventes da comunidade agrícola trancados nos quartos, as coisas pelas quais eles tinham passado estavam escritas em seus rostos. Ele não achava que algum dia esqueceria seus olhares vidrados. Mesmo as crianças…

Com seus maridos mortos e os trabalhadores rurais tendo se rebelado, seria quase impossível para elas cultivarem a terra, ou mesmo mantê-la. Essas famílias levaram gerações para construir o que tinham, e agora tudo estava perdido.

Ele não podia pedir nada delas.

— Você tem razão — admitiu ele, triste. — Farei planos para partirmos amanhã.

— Se puder, fale com Yor hoje à noite. Ela vai concordar comigo.

— Eu vou.

Os dois ficaram em silêncio por alguns minutos, enquanto Tyron se concentrava em si mesmo e tentava acalmar suas emoções turbulentas. Sentia-se um pouco melhor depois de falar com Dove. Não achava que jamais se sentiria confortável com a ideia de matar pessoas, e esperava que não, mas também não podia negar que os bandidos mereciam o que aconteceu com eles.

Ele só desejava que outra pessoa tivesse feito isso.

— Chega dessa merda deprimente — disse o crânio. — Como estão os ossos? Eu estava certo?

Com uma oportunidade de falar sobre outro assunto, ainda mais sua arte, os olhos de Tyron brilharam enquanto se endireitava, com entusiasmo cintilando em seus olhos.

— Acho que sim — ele respondeu com entusiasmo. — Só saberemos com certeza daqui um dia, mas sim, acho que você estava certo.

— Ha! Simplicidade pura. Não subestime um invocador, garoto, estamos um nível acima. É mais fácil para mim ver por que estou olhando para baixo de um ângulo mais alto, só isso.

A ostentação do crânio não era nenhuma novidade, mas Tyron deveria ter pensado nisso sozinho.

A principal questão que haviam considerado era como os mortos-vivos selvagens eram criados. Alguém morria na natureza, em algum lugar com magia forte, e o processo começava.

Isso era óbvio.

Eles não sabiam como começava, mas a magia começava a se transformar em energia sintonizada com a morte, a partir de uma partícula minúscula. Então, essa partícula começava a saltar de um osso para outro, crescendo e se multiplicando com o tempo até que o esqueleto se tornasse saturado. Neste ponto, o tecimento ocorria naturalmente; uma mente simples, talvez um espírito remanescente, era infundida com o esqueleto e, pronto, um esqueleto selvagem.

Graças aos testes realizados, eles também sabiam que não era possível iniciar o processo sem um esqueleto completo. Tyron não podia colocar um saco cheio de fêmures em uma sala e, ao voltar, encontrá-los pulando pelo chão.

O que era algo bom; caso contrário, como poderia armazená-los com segurança?

Mas então Dove teve uma ideia: e se começassem o processo, mas depois removessem parte do esqueleto? Ele continuaria até que os ossos estivessem saturados e criaria um meio-esqueleto? Ou se encheriam de energia até a metade?

Será que poderiam juntar dez esqueletos, colocá-los juntos para iniciar o processo, então retirar todos os ossos das pernas e deixá-las em uma sala, todos os braços em outra sala, os crânios em outra? A saturação continuaria depois disso?

Acontece que sim, continuava.

Vinte tíbias juntas em uma sala trocavam Magika de Morte. Vinte canelas em outra faziam o mesmo. Levaria mais um dia para que saturassem completamente, mesmo com a ajuda de Tyron para acelerar o processo, mas ele mal podia esperar para ver o que aconteceria.

Será que os esqueletos tentariam se juntar, vindo de salas diferentes, para formar um morto-vivo selvagem? Ou permaneceriam no lugar? Se ele os juntasse, a costura começaria naturalmente?

Ele esperava que não.

O melhor resultado seria se os ossos não se juntassem por conta própria, pelo menos por tempo suficiente para que ele concluísse o processo sozinho e ressuscitasse o lacaio como seu.

Ele criaria um morto-vivo com os restos mortais fortalecidos, imbuídos na energia da morte e com todos os benefícios de suas habilidades. Melhor costura significava melhores movimentos e maior eficácia. Sua maestria sobre Ressuscitar Mortos significava menos desperdício de condutos com seus lacaios.

Talvez ainda mais importante, se não tivesse que fortalecer os ossos com sua própria magia, poderia encurtar o ritual e conjurá-lo usando menos energia.

Isso diminuiria de forma significativa o tempo necessário. Ou, melhor ainda, poderia usar esse tempo para fazer melhorias em outras partes do feitiço. O conduto mágico sempre foi um objetivo, mas o constructo mental colocado no crânio era outro ponto em que poderia obter avanços consideráveis.

Infelizmente, não tinha ideia de como começar nisso. Mente mágica era algo que nunca tinha estudado, mas ele começaria. Estava confiante de que poderia desvendá-la, com tempo suficiente e algumas pistas.

Se esses métodos se provassem efetivos na criação de mortos-vivos melhores, estava confiante de que aprimorá-los seria tudo o que precisava para levar suas habilidades ao nível dez.

Dizer que estava entusiasmado era um eufemismo.

— Só não realize o ritual até ter certeza de que atingiu o que queria alcançar — aconselhou Dove. — Quando alcançar o vinte, acabou, você terminou. É hora de atualizar sua classe, quer esteja pronto ou não.

— Sei disso — zombou Tyron. — Quem em todo Império não sabe disso?

— Só um pequeno lembrete amigável, garoto. Não precisa torcer as bolas. Já vi muitos Exterminadores se atrapalharem e realizarem o ritual cedo demais. Depois de você ter eliminado todos aqueles caras outro dia, não pode arriscar. Eles podem ter lhe fornecido apenas um nível, mas podem ter sido três. Melhor não pagar pra ver.

— Não vou.

A luz nas órbitas do crânio brilhava.

— Bom. A única coisa com que precisa se preocupar é se aqueles idiotas voltarem e tentarem te matar.

Tyron suspirou enquanto apertava a ponta do nariz. Estava muito cansado.

— Para falar a verdade, pensei que eles já teriam voltado.

— Talvez estejam demorando um pouco para reunir coragem. Ou talvez tenham se assustado e não tenham conseguido reunir todo seu grupo.

Os dois continuaram sentados, pensando por um tempo, até o Necromante olhar ao redor de repente.

— Que horas são? — perguntou.

— Como diabos eu saberia?

— Sabe o que quero dizer, Dove. Quanto tempo até Yor voltar?

— Algumas horas, eu acho. Por quê? O que te incomodou? Yor? Eu não achei que ela fosse gostar disso… mas, pensando bem, ela tem uma personalidade muito dominante.

— Cala. A. Boca. Dove — disse Tyron, irritado. — Não é isso, só estou preocupado que ela devore os sobreviventes aqui. Não quero resgatar essas pessoas só para vê-las serem sugadas até a última gota por alguém que supostamente está do meu lado.

— Quem me dera se ela me sugasse até a última gota.

— Sugasse o quê?!

—… ectoplasma?

— Isso nem existe!

— Olha, você está estressado. Se está tão preocupado em ser atacado, por que não usa suas habilidades para aprender mais sobre quem eram esses caras e o que eles planejavam fazer?

— Como eu deveria fazer isso?

— Caralho, está brincando comigo? Você é um Necromante ou o quê? Vá, Necromante! Você pode falar com os mortos, não pode?! Não está fazendo isso agora mesmo?

— Oh, é mesmo.

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