Livro dos Mortos

Volume 2 - Capítulo 3

Livro dos Mortos

A paisagem rural se estendia adiante. De vez em quando, Tyron levantava a cabeça das anotações, ou do pedaço de osso em que trabalhava, para olhar para a paisagem arruinada e suspirar.

Não era uma visão bonita. As hordas de criaturas das fendas liberadas pela ruptura se concentraram no leste, mas isso não significava que nenhuma delas tivesse vindo ao sul, para essas planícies. À sombra das Montanhas Fronteiriças, pequenas vilas pontilhavam a paisagem, comunidades agrícolas espalhadas como um mosaico.

Após a colheita, a maior parte das plantações e gado era transportada para Foxbridge e de lá levada rio abaixo para as cidades maiores em barcaças lotadas.

Não este ano.

As pequenas vilas eram alvos fáceis. Os monstros haviam devastado a paisagem, destruindo os campos e matando todos que encontravam pelo caminho. Uma perda devastadora de vida e terra que atrasaria o desenvolvimento destas terras por décadas.

— Acho que isso é fumaça — murmurou Tyron após outra olhada rápida no horizonte.

— Isso é um pouco estranho. Nada deveria estar queimando nesse ponto — comentou Dove.

— Sobreviventes?

— Improvável, mas possível. São durões se ainda estiverem se virando para sobreviver por aqui.

Isso era verdade. Sem o apoio da comunidade e com a maioria dos animais abatidos, não havia muito com o que viver. Havia, no entanto, outra possibilidade.

— Uma moeda de ouro que são bandidos — disse Dove.

Tyron revirou os olhos.

— O que você vai fazer com ouro, Dove? Você não pode comer, não precisa de roupas, não pode transar nem fazer nada útil. Por que você quer meu maldito ouro?

— Primeiro, esse ouro pertencia aos Exterminadores de Woodsedge. Não diga “meu maldito ouro” como se você tivesse algum direito legítimo sobre ele. Segundo, isso foi ofensivo. Não preciso que você me lembre da minha falta de pênis. Terceiro, estou entediado e quero apostar. Está dentro ou não?

— Fora — disse Tyron, enquanto estendia a mão para trás para pegar sua espada pela bainha, puxando-a para frente e colocando-a em seu colo.

— Esperto.

Em comunidades remotas como estas, a lei era mais uma sugestão do que uma garantia. A única época do ano em que viam oficiais do estado era durante a cobrança de impostos. Agora, até mesmo essa fina camada de proteção havia desaparecido, já que atacavam outros sobreviventes, saqueavam fazendas e faziam tudo o que podiam até o retorno da civilização. Então, varriam tudo para debaixo do tapete e voltavam a viver como era antes.

— Vou levar os lacaios e dar uma olhada.

— Você vai me deixar aqui? Eu não quero perder a diversão!

— Pode não haver nenhuma diversão, Dove. Só alguns fazendeiros tentando sobreviver com plantações pisoteadas e tentando enterrar seus mortos.

— Enterrar os mortos? Que desperdício completo.

— Além disso, aparecer com um crânio brilhante meio que grita “Necromante”, não acha?

— Ter dez esqueletos te seguindo, não?

— Não vou até lá com eles!

Tyron fez seus lacaios pararem de se mover com um comando mental e desceu da carroça. De um embrulho amarrado em um pano grosseiro, retirou o pequeno arsenal que havia reunido e o distribuiu. Os esqueletos seguravam as armas que ele entregou com seus dedos frios e ossudos, sem emitir nenhum som, exceto pelos ranger ocasional de ossos contra ossos. A fumaça que viram ainda estava a dois quilômetros, longe demais para que alguém pudesse ver a verdadeira natureza das criaturas que estavam com ele. Era arriscado, mas ele precisava deixá-los a certa distância se quisesse ocultar sua identidade.

— Volto em breve — disse ao crânio posicionado na carroça. — Não faça nenhuma loucura.

A luz nos olhos do crânio tremeluziu em sinal de desaprovação.

— Suas tentativas de humor, direcionadas às minhas custas, são indesejadas.

— Obrigado, Dove.

— Vá lá e se mate.

— Vai se foder também — sorriu Tyron enquanto terminava de prender a espada na cintura.

Com algumas moedas de cobre em sua bolsa, um pouco de comida e água em sua mochila, ele parecia um viajante qualquer, embora um pouco mais bem armado. Esperava que não o testassem com sua espada, já que Tyron permanecia inapto com ela. Se precisasse se defender, seriam seus feitiços que fariam o trabalho pesado. Enquanto caminhava pela estrada, a origem da fumaça se tornou mais clara à distância: parecia ser um assentamento, ou o que costumava ser um. Não muito tempo atrás, devia abrigar cinco ou seis famílias. Agora, quem poderia dizer?

Quatro casas principais, alguns celeiros, até mesmo um estábulo. Parecia que era uma comunidade bem-sucedida; certamente os campos ao redor aparentavam ter sido bem cuidados e mantidos antes da ruptura. Na mente de Tyron, era possível julgar um fazendeiro pelo estado de suas cercas. Em Foxbridge, as cercas do prefeito Arryn estavam quase sempre retas como uma flecha e firmes como um tambor. Assim que um poste começava a mostrar sinais de apodrecimento, era arrancado e substituído; até as cercas mais antigas de pedra recebiam manutenção rigorosa. Em contraste, o fazendeiro Connal, que sempre perdia animais devido a buracos em sua cerca divisória deteriorada, permitia identificar quem era próspero com apenas um olhar.

Apesar dos danos óbvios que as criaturas causaram ao passar, Tyron podia dizer que essas cercas estavam boas.

Seu estômago de embrulhou. Se fossem fazendeiros ricos, isso não era um bom sinal para o que encontraria.

Um vento frio soprou sobre ele, então apertou a capa um pouco mais ao redor do corpo enquanto continuava a seguir pelo caminho desgastado em direção ao assentamento. Ainda era meio-dia, mas as nuvens acima significavam que a luz estava mais fraca do que o esperado. Com um pensamento, ordenou que seus lacaios se aproximassem mais. Nessas condições, eles não deveriam ser vistos se os trouxesse um pouco à frente. Seus olhos analisaram os prédios com atenção, esperando que uma flecha voasse em sua direção a qualquer momento.

As casas principais foram construídas em um padrão quadrado, protegendo um pequeno pátio entre elas, e era dali que vinha a fumaça.

‘Uma fogueira, talvez?’

Quando estava a cem metros, parou e esperou, observando com cuidado.

Nenhum movimento chamou sua atenção, nem ninguém o cumprimentou.

Por um longo período, considerou virar e se afastar. Essas pessoas não tinham nada a ver com ele, ele não tinha obrigações com elas e a situação parecia cada vez pior à medida que observava. Se não o cumprimentaram do lado de fora, provavelmente significava que queriam atraí-lo para perto, talvez trazê-lo para dentro do complexo antes de se aproximarem, e aí seria tarde demais para ele fugir. Claro, ele poderia estar sendo apenas paranoico. Pessoas inocentes tentando salvar o que restava de suas vidas. Talvez eles não tivessem ninguém observando esta direção…

‘Improvável…’

Tyron suspirou. Ele entraria, sabia que entraria e esperava que fosse porque queria ajudar as pessoas. Se fossem sobreviventes em dificuldade, poderia oferecer alguma ajuda, colocá-los em contato com outros grupos, talvez fazer algumas trocas antes de seguir seu caminho. Poderia deixá-los em uma situação um pouco melhor do que quando os encontrou; isso já havia acontecido algumas vezes.

Se fossem bandidos, então poderia livrar a área deles e tornar a vida mais fácil para outros que sofriam sob seu jugo. Não era bonito, mas era necessário para que as pessoas sobrevivessem aos próximos meses.

Não era porque ele precisava de cadáveres. Bem, esperava que não fosse.

Depois de terminar de questionar seus motivos, firmou sua determinação e voltou a caminhar devagar pela estrada de terra. Logo, os prédios se erguiam acima dele, mas, mesmo assim, nada podia ser ouvido, nem rostos eram vistos. As estruturas foram atingidas durante a ruptura. Rachaduras na alvenaria, persianas de madeira penduradas pelas dobradiças eram sinais claros de luta. As cercas ao redor haviam sofrido muitos danos. As criaturas não estavam interessadas nas construções, mas certamente teriam se concentrado nos sinais de vida no complexo. Corpos de criaturas de Nagrythyn ainda jaziam espalhados pelo chão. Mortos por flechas, ao que parecia, embora ninguém tivesse vindo pegá-las de volta.

Bom sinal. Pelo menos alguém havia sobrevivido ao ataque inicial.

Caminhando com cautela, Tyron se moveu entre dois prédios; a lacuna entre eles só era ampla o suficiente para uma carroça passar. Conseguia ouvir o fogo crepitando enquanto consumia a madeira ainda úmida, os estalos e chiados ocasionais, pontuando o som das chamas. Manteve a mão no cabo da sua espada enquanto preparava um feitiço, com a magia o envolvendo em resposta ao seu chamado.

— Saudações, amigo — uma voz alegre soou de trás.

‘Caralho.’

Tyron quase pulou enquanto se virava para ver um homem de aparência humilde sorrindo para ele a alguns metros de distância. Com o coração martelando seu peito, tentou discernir aquela nova figura o mais rápido possível. Roupas de fazendeiros, mãos sujas de terra, talvez de meia-idade.

‘Será um dos donos daqui ou um trabalhador rural?’

— Você quase me assustou até a morte — disse Tyron, enquanto fingia relaxar sua postura, com um sorriso forçado no rosto. — Você se aproxima sorrateiramente de todos os visitantes desse jeito?

— Sim, com o melhor que eu posso — o homem levantou as mãos para mostrar que estava desarmado, mas sem se aproximar. — É preciso ter cuidado hoje em dia. Desde que os monstros vieram, as pessoas estão recorrendo a medidas desesperadas para conseguir comer, sabe como é.

Desta vez, Tyron teve o cuidado de ficar de olho atrás dele, ficando de lado para quem o recebia.

— Claro — disse. — É uma pena — ele gesticulou para a fogueira atrás dele. — Eu vi o fogo e me perguntei se eu poderia ajudar. As pessoas precisam cuidar umas das outras se quisermos superar isso. Há algo que você precise? Alguma mensagem que eu possa transmitir por você?

O homem sorriu.

— Bem, acho que há algumas coisas que você pode fazer — respondeu. — Por que não entramos e nos aquecemos perto do fogo para que possamos discutir?

A expressão do jovem Necromante se fechou.

— Claro — assentiu, então gesticulou com a mão à sua frente. — Depois de você.

O fazendeiro abaixou as mãos até colocá-las no quadril e balançou a cabeça.

— Você primeiro, viajante — disse ele com a voz endurecida. — Eu insisto.

‘Lacaios, venham.’

Demoraria um pouco para os esqueletos chegarem até ele. Ele tinha que prolongar. Tyron considerou atacar a pessoa na sua frente, mas decidiu não fazer isso. Havia a chance de estar sendo observado por outros. Se tentasse fugir, seria atingido por uma flecha nas costas vinda de uma das janelas do andar de cima. Movendo-se devagar, Tyron retirou as mãos do cabo de sua espada.

— Não quero problemas — afirmou ele. — Podem me deixar ir embora.

— Talvez eu não queira — resmungou o homem enquanto os outros se revelavam. Dois homens de aparência suja e semblantes sombrios saíram da esquina e se aproximaram de Tyron por trás.

Ele se tensionou, com os feitiços prontos, mas não os disparou ainda. Os dois recém-chegados o agarraram pelos braços com força, um deles estendeu as mãos para desabotoar seu cinto e jogá-lo no chão.

— O que quer que a gente faça com ele, Davon? — disse um deles.

Tyron se inclinou para trás. Pelos Cinco, esse cara tinha um hálito insuportável.

— Levem-no. Monty vai querer vê-lo antes que qualquer coisa seja feita.

— Podemos nos livrar dele agora — comentou o outro ao lado de Tyron astutamente —, esconder o corpo dele e dividir as moedas entre nós.

O homem chamado Davon balançou a cabeça, franzindo a testa.

— E se Monty descobrir, você seria enforcado e deixado para os corvos. Acha que vale a pena por alguns cobres? Não seja um idiota.

— Prefiro não ser morto — disse Tyron —, se não se importarem.

— Cala a boca.

Um tapa na mandíbula foi sua recompensa por abrir a boca, e Tyron se xingou. Dove estava influenciando-o mais do que imaginava.

‘Não tente bancar o esperto com esses bandidos, seu idiota’, repreendeu-se.

Os dois o arrastaram para dentro, com Davon sendo o último a entrar. Sem querer ser espancado sem necessidade, Tyron cooperou na superfície, mas manteve sua magia pronta. As chances desses caipiras já terem visto um mago eram baixas, pelo menos um que não trabalhasse com irrigação. Se algum deles pudesse sentir a energia arcana que ele portava, pronta para ser disparada a qualquer momento, ficaria atordoado. Eles o seguravam pelos ombros e braços, mas ainda havia muito o que podia fazer sem usar as mãos. Um raio mágico poderia não ser suficiente para matar, mas ele dificilmente erraria desta distância e os derrubaria. Se isso falhasse, poderia usar Medo. Suprimir Mente era outra opção, mas ele não queria se envolver em uma batalha de vontades quando havia mais de um oponente.

Com Sono no nível cinco, havia uma chance de que conseguisse forçá-los a isso, mesmo se tentarem resistir. Tudo o que tinha que fazer era ganhar tempo. Assim que seus lacaios chegassem, poderia virar a situação.

Entraram no pátio e Tyron sentiu o peito esfriar e a garganta apertar. Embora parecesse que os habitantes originais pudessem ter sobrevivido às criaturas das fendas em boas condições. O complexo era bastante defensível, afinal. Com arqueiros acima e barricadas entre os prédios, poderiam repelir os monstros com bastante facilidade. Como nenhum dos maiores e mais perigosos veio ao sul, era mais do que possível. Infelizmente, parecia que a sorte deles havia acabado ali.

Os homens foram empalados.

Eles ainda estavam ali: cadáveres encharcados de sangue, suspensos em estacas de madeira afiadas que saíam de seus peitos. Parecia que haviam feito algum tipo de ritual ou esporte com aquilo. Oito estacas, cada uma adornada com seu próprio cadáver, cercadas por uma fogueira no centro do pátio. As poças de sangue que haviam pingado de seus pés haviam coagulado e secado no lugar. Eles estavam mortos há pelo menos uma semana, julgou Tyron ao analisar a cena.

— Não vejo as mulheres ou crianças — murmurou.

— É claro que não, né? — riu o homem à sua direita.

— Então, ainda estão vivos?

— Cala a boca.

Outro soco atingiu a lateral de sua cabeça enquanto o arrastavam em meio ao espetáculo fascinante. Havia alguns outros homens ao redor, relaxando perto da fogueira. Eles o observaram ser arrastado com interesse, murmurando entre si e rindo muito de suas piadas grosseiras. Tyron os contou com cuidado: seis, sete, oito. Definitivamente havia mais em cima dos prédios. Seria difícil.

‘Apressem-se, suas malditas pilhas de ossos!’

Os esqueletos não conseguiam correr. O melhor que podiam fazer era uma caminhada rápida, quase uma marcha. A julgar pelo gasto em sua magia, exagerado pela distância entre eles, eles estavam se movendo o mais rápido que podiam. Demoraria mais um pouco.

— Amarrem-no em um poste — disse Davon, entediado. — Vamos revistá-lo e deixá-lo aí até Monty voltar.

Tyron lançou um olhar por cima do ombro para ver que o homem agora empunhava sua espada, com a lâmina estendida da bainha enquanto inspecionava o fio.

— Ei, foi meu pai quem me deu essa espada — gritou ele.

— E agora você me doou ela. Obrigado por isso.

Sem cerimônia, ele se permitiu ser arrastado em direção à cerca próxima, onde foi chutado até cair de joelhos, teve as mãos puxadas para trás da cabeça e foi amarrado ao poste. Feito isso, revistaram seus bolsos, arrancando sua capa e roubando seus pertences.

— Ele não tem porra nenhuma, cara — reportaram a Davon.

— Então deixem ele.

Um grito de alarme soou de cima.

— Um grupo grande está se aproximando. Algo está errado com eles! — veio do segundo andar.

Os três ao redor dele se viraram para ver a origem da perturbação.

Tyron sorriu.

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