Livro dos Mortos

Volume 2 - Capítulo 2

Livro dos Mortos

— Tem certeza de que pegou todos?

— Você pediu dez, então dez é o que receberá.

Sr. Allop, o prefeito ranzinza e calvo de Ridgernton, mexeu no bigode e assentiu devagar.

— Isso é verdade — disse ele. — Então vou te agradecer, embora eu não consiga entender como você fez isso.

Tyron olhou para a fileira de dez cabeças no chão antes de voltar para o prefeito.

— Sr. Alô, tenho quase certeza de que não quer saber.

Havia uma pitada de medo nos olhos do homem quando assentiu mais uma vez.

— Você está certo. Aqui está o pagamento. Está tudo aqui.

Ele entregou um pequeno saco de pano que tilintava com o som agradável de moedas, do qual Tyron ficou feliz de receber.

— Ainda preciso de suprimentos — disse, enquanto guardava o saco no cinto. — Há alguma chance de eu gastar minha riqueza recém-adquirida na vila?

Ele tentou exibir um sorriso desarmante, o tipo de sorriso que viu Worthy mostrar muitas vezes ao lidar com clientes truculentos. Provavelmente o fazia parecer constipado, mas valia a tentativa. Para seu alívio, o prefeito concordou.

— Os aldeões vão ficar muito satisfeitos com isso. O dinheiro está escasso agora.

‘Sem dúvida.’

Após a ruptura que dizimou dezenas de vilas mais a oeste, interrompendo o comércio, os bandidos exploraram o pouco que restava dessas pessoas. De certa forma, Tyron simpatizava com os criminosos, fazendeiros que perderam seus campos, trabalhadores sem poder comprar comida, transportadores que perderam suas casas e famílias durante entregas. Que opções essas pessoas tinham? Para alguns, a escolha era muito simples: roubo ou morte.

No fim das contas, a escolha seria a mesma. Se Tyron não os tivesse caçado, outra pessoa teria.

Pelo menos dessa forma, os restos mortais poderiam ser bem aproveitados.

Vestindo uma capa, ele circulava pela cidade, distribuindo as moedas que recebeu do prefeito. Ele não pechinchou, embora alguns cobrassem preços exorbitantes. Em troca, aceitava comida, cobertores, alguns utensílios de cozinha, mudas de roupa, algumas cordas e qualquer outro suprimento de viagem que pudesse precisar nas próximas semanas.

Ele não precisava do dinheiro que eles pagaram para remover os bandidos que os atormentavam, considerando a riqueza que pegou das ruínas de Woodsedge. Era muito melhor trocar por coisas que precisava e devolver o dinheiro à comunidade com dificuldades.

Embora confiassem pouco nele, eles estavam mais do que felizes em se desfazer de alguns objetos e recuperar a prata. Quando terminou todas as trocas, apertou a mão do prefeito e partiu, com seus bens nas costas e pouco receio de ser roubado.

Pensavam que ele havia matado dez homens, afinal.

Levou uma hora para voltar à caverna. A luz ainda brilhava, embora fraca, enquanto abaixava a cabeça sob a pequena abertura e entrava. Depois de algumas voltas, encontrou o acampamento quase como o deixou; Dove dormindo em uma rocha e Yor… dormindo… onde quer que dormisse.

Pelo menos os esqueletos estavam acordados.

— Como estamos, pessoal? — perguntou aos dez lacaios, ciente de que eles não podiam respondê-lo.

Eles existiam no fundo de sua mente, um pequeno nó de conexões que os vinculava a eles, permitindo que transmitisse seus pensamentos e que se sustentassem com sua magia. Sentia essa conexão sempre, agora quase não se lembrava de como era ficar sem ela. Era como um cobertor quente, uma presença confiável.

Estava começando a entender por que Dove defendia tanto os Invocadores e seus semelhantes. Fossem seres astrais ou mortos-vivos irracionais, era bom saber que você tinha aliados ao seu lado.

Ele não sabia quanto “sono” Dove precisava em sua forma atual, mas decidiu deixar o Invocador descansar. Em silêncio, comandou seus lacaios a ajudar a desmontar o acampamento, amarrando seus pertences e empacotando seu saco de dormir.

Quando Yor surgiu à vista, como se emergisse das sombras, ele havia quase terminado.

— Espero que nossos negócios tenham sido concluídos neste lugar? — perguntou ela.

— Tudo pronto. O pagamento foi recebido e os bens comprados.

— Você encontrou algum vestido adequado?

Tyron balançou a cabeça, apologético.

— Sinto muito, Yor. As pessoas aqui não possuem muito. Encontrar algo que você considere apropriado será… difícil.

Ela assentiu, desapontada, mas compreensiva.

— É uma pena que seu reino tenha tão pouco entendimento da minha espécie. Existem lugares onde reis e rainhas se apressariam para satisfazer todos os meus desejos, apenas ao saberem da minha presença.

— Suponho que você possa criar mais vampiros enquanto está aqui — disse Tyron —, se estiver disposta a isso.

Ela olhou para ele de soslaio.

— É preciso permissão para trazer outro ao grupo. Ainda mais para alguém do meu sangue. Como a Corte possui alguma influência aqui, a presença de um vampiro é necessária, mas precisamos operar nas sombras. É assim que costuma acontecer. A Corte gosta de governar abertamente, com punho de ferro, mas também aprecia manipular nos bastidores. Parece que esta última abordagem foi adotada aqui.

Será que uma conspiração secreta de vampiros estava no comando? Com tudo o que tinha acontecido ultimamente, Tyron não ficaria surpreso.

— Bem, está na hora de nos movermos. Assim que eu terminar de empacotar tudo, planejo ir às planícies. Caçar um pouco, trabalhar em algumas coisas. Você vai viajar conosco dessa vez? Ou prefere… fazer seus próprios planos?

Tyron não tinha ideia de como a vampira se deslocava de um lugar para outro, mas ela fazia isso de forma muito rápida e silenciosa. Parecia que ela queria preservar seus segredos, no entanto, já que permanecia escondida enquanto viajavam. Depois que ele montava o acampamento, ela surgia, impecável, e se sentava à fogueira logo após o sol se pôr. Se ela lhe dissesse que era capaz de teletransportar, ele quase acreditaria.

— Viajarei separadamente — disse ela após um momento de reflexão. — Não gosto de ficar sentada na… carroça.

Sua expressão se fechou ao pensar no meio de transporte que usariam. Tyron sorriu.

— Tem um certo charme rústico quando você se acostuma — adicionou ele.

—… Tenho certeza — disse ela, com uma expressão que deixava transparecer suas dúvidas.

— A escolha é sua — comentou ele. — Eu jamais ousaria dizer como você deve viajar.

— Sábio.

Tyron não sabia o que a vampira queria com o tempo que passava viajando com ele, mas esperava que tudo terminasse logo. Ela era inteligente, articulada e, de vez em quando, dava bons conselhos. A companhia dela podia ser bastante agradável, contanto que conseguisse esquecer o que ela era. Por outro lado, ela era um monstro morto-vivo que se alimentava de sangue; sua beleza impecável nada mais era do que uma ferramenta para atrair presas.

Estar perto dela era perturbador na melhor das hipóteses e um tanto aterrorizante na pior. Ele não ficaria muito triste se ela desistisse de sua missão e voltasse para seu reino.

— Você deveria realizar o ritual antes de sair — aconselhou ela. — Terei interesse em ver o progresso que você teve.

Essa seria a primeira vez que realizaria o ritual em uma semana. Cruzava os dedos para que seu trabalho duro tivesse valido a pena.

***

Eventos:

Você interagiu com outras pessoas e criou laços com elas. Raça: Humana alcançou o nível 13.

Suas tentativas de cozinhar aumentaram sua proficiência. Culinária alcançou o nível 2.

Desmembrar restos mortais aumentou sua proficiência. Açougue chegou ao nível 4.

Estudo e aplicação intensos aumentaram sua proficiência. A Avaliação de Cadáveres alcançou o nível 7.

Estudo e aplicação intensos aumentaram sua proficiência. Preparação de Cadáveres alcançou o nível 7.

Sua criação de novos mortos-vivos e sua manipulação da forma do feitiço aumentaram sua proficiência. Ressuscitar Mortos alcançou o nível 8.

Seu uso do Feitiço Costura Óssea aumentou sua proficiência. Costura Óssea alcançou o nível 6.

Seu uso e estudo da Magika de Morte aumentaram sua proficiência. Magika de Morte alcançou o nível 6.

Você ressuscitou lacaios e eles lutaram em seu nome. Necromante alcançou o nível 17. Você recebeu +2 de Inteligência, +1 de Sabedoria, +1 de Constituição e +1 de Manipulação.

Seus patronos continuam a se deleitar com as sementes do caos que se espalham por onde você passa. Seu chamado é aguardado.

Nome: Tyron Steelarm

Idade: 18

Raça: Humana (Nível 13)

Classe:

Necromante (Nível 17)

Subclasses:

1. Anátema (Nível 10)

2. Nenhuma

3. Nenhuma (bloqueado)

Talentos Raciais:

Nível 5: Mão Firme

Nível 10: Coruja Noturna

Atributos:

Força: 12

Destreza: 11

Constituição: 49

Inteligência: 69

Sabedoria: 37.

Força de Vontade: 33

Carisma: 16

Manipulação: 26

Postura: 13

Habilidades gerais:

Aritmética (Nível 5) (Máx.)

Caligrafia (Nível 5) (Máx.)

Concentração (Nível 5) (Máx.)

Culinária (Nível 2)

Funda (Nível 3)

Esgrima (Nível 1)

Furtivo (Nível 3)

Açougue (Nível 4)

Seleções de habilidades disponíveis: 2

Habilidades de Necromante:

Avaliação de Cadáveres (Nível 7)

Preparação de Cadáveres (Nível 7)

Magika de Morte (Nível 6)

Reparação Óssea (Nível 3)

Feitiços Gerais:

Globo de Luz (Nível 5) (Máx.)

Sono (Nível 5) (Máx.)

Raio Magiko (Nível 4)

Feitiços de Necromante:

Ressuscitar Mortos (Nível 8)

Costura Óssea (Nível 6)

Comunique-se com os Espíritos (Nível 3)

Maldição do Tremor (Nível 3)

Lâminas da Morte (Nível 3)

Armadura de Ossos (Nível 2)

Visão de Lacaio (Nível 2)

Feitiços de Anátema:

Perfure o Véu (Nível 4)

Apelo à Corte (Nível 2)

Comunhão Sombria (Nível 1)

Suprimir XX (Nível 4)

Repositório (Nível 2)

Medo (Nível 2)

Talentos de Necromante:

Foco em Esqueleto II

Bateria Magika I

Talentos de Anátema:

Repositório

Muralha de Pensamentos I

Mistérios:

Modelagem de Feitiços (Inicial): INT +3, SAB +3.

Palavras de Poder (Inicial): SAB +3, CAR +3.

***

Enquanto analisava os números, Tyron sentiu uma onda de triunfo. Suas três habilidades principais, os alicerces da Necromancia, estavam progredindo bem. Após semanas de estudo, estava se aproximando do cobiçado nível 10.

Para ele, parecia muito lento, dada a pressão que sofria, mas reconhecia que aquele ritmo era muito rápido. Alguns levavam anos para dominar sua fundação antes que pudessem avançar suas classes. Ele mal havia começado há dois meses.

E ainda por cima, na hora certa. Ele tinha alcançado o nível dezessete depois de ter criado seus últimos lacaios, apenas mais três antes de passar pelo avanço de classe.

Era um consenso que a maioria das classes só começava a brilhar depois de alcançar esse ponto. Talentos melhores, habilidades aprimoradas e mais atributos por nível contribuíam para um rápido aumento de poder para aqueles que conseguiam avançar além desse ponto.

Seu pai também o avisou várias vezes que também era nesse ponto em que a maioria dos Exterminadores morria.

— Excesso de confiança — ele balançaria a cabeça e dizia. — Você adquire habilidades mais poderosas, mas não as domina. O que mais poderia acontecer? Algumas criaturas te dão uma surra, e pronto. Mais um de rank prata que vai para o inferno.

Para Tyron, tudo isso era irrelevante. Ele ainda tinha alguns passos a dar antes que fosse se preocupar. Dominar as habilidades básicas, só então avançaria para o nível vinte. Para isso, precisava de mais restos mortais.

Avaliação de Cadáveres e Preparação de Cadáveres estavam no nível sete. Faltavam apenas mais três níveis… os mais difíceis… ainda assim, só três. Ele não tinha muito tempo para testar suas outras habilidades, mas houve alguns poucos ganhos que ficou feliz de ver.

Culinária foi inesperada, mas bem-vinda. Ele estava preparando toda a comida sozinho agora, e o gosto era… digamos, menos que estelar.

Mais um nível em sua raça foi incrível. Estava perto de escolher outro talento racial. Suas escolhas atuais, Mão Firme e Coruja Noturna, haviam se provado escolhas adequadas para um Necromante. Sem dúvida, haveria outras opções que seriam muito úteis.

Ressuscitar Mortos estava no nível oito, um resultado fantástico. Costura Óssea alcançou o nível seis, junto da Reparação, aumentando para o três. Sua capacidade em lidar com ossos continuava a crescer, e os ganhos seriam visíveis quando criasse seu próximo grupo de esqueletos; já as outras mudanças foram pequenas. Ficou feliz por ter alcançado o nível máximo com o feitiço Sono e sua habilidade Caligrafia. Todos os rabiscos que havia feito na carroça se pagaram. Essas melhorias não teriam um grande impacto, mas ver o Invisível reconhecer que ele havia atingido o limite do que podia oferecer era, no mínimo, agradável.

Ao alcançar o nível quinze, ele escolheu Bateria Magika I, decidindo expandir sua reserva pessoal de magika. Apesar do ganho que poderia obter criando lacaios mais eficientes, concluiu que ter magika extra para utilizar sua variedade surpreendentemente grande de feitiços em batalha seria mais útil.

Sua nova habilidade, Visão de Lacaio, não havia subido de nível, o que não o surpreendeu. Não a havia praticado desde seus experimentos iniciais, afinal. Era um feitiço simples que o permitia perceber o que um lacaio fazia. Foi assim que descobriu quão ruim a visão deles era.

Acontece que aqueles orbes roxos brilhantes eram uma péssima desculpa para olhos. Só mais uma coisa que precisava aprimorar em suas criações.

Ele contou aos outros seus maiores ganhos e eles reagiram de forma positiva.

— Parece bom, garoto — comentou Dove. — Você deve alcançar seu objetivo se continuar se esforçando.

— De fato — adicionou Yor. — Sua velocidade de desenvolvimento tem sido… notável.

Tyron sorriu, feliz pelos elogios e satisfeito com os resultados de seus esforços.

— Ainda há um longo caminho a percorrer — suspirou ele —, mas chegarei lá.

Sem demora, destruiu as evidências do ritual, jogando o papel nas brasas e observando-o queimar. Teve que cutucar algumas vezes com a bota, só para garantir que nenhum vestígio da escrita restasse.

— Qual é o plano agora, moleque? — perguntou Dove.

— Preciso de recursos para continuar a estudar, e acho que estou pronto para aumentar o número de lacaios que possuo.

— Não faltam cadáveres por aí — comentou Dove. — A situação está uma merda nas planícies.

— Verdade — suspirou Tyron. — Vamos descer até lá e ver se podemos encontrar uma vila ou comunidade agrícola. Se estiverem vivos, posso ajudá- los, talvez conseguir algumas moedas e suprimentos. Se não… terei mais com que trabalhar.

Logo depois, pegaram a estrada. A carroça sacudia por conta da trilha de terra mal conservada, puxada por esqueletos enquanto Tyron se sentava na parte de trás, com Dove ao seu lado, colocado sobre suas anotações.

As coisas estavam indo bem. Com esperança, conseguiria um pouco mais de tempo.

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