Livro dos Mortos

Volume 2 - Capítulo 1

Livro dos Mortos

Era minúscula, tão pequena que, se fosse menor, não poderia ser considerada existente. Uma partícula de energia arcana que vagava por caminhos imperceptíveis até que, de repente, desaparecia.

‘Desapareceu mesmo? Não. Lá está.’

Uma partícula que parecia nova, imperceptivelmente maior do que a anterior, havia surgido, mas um em outro lugar.

‘É a mesma? Ou a antiga morreu para dar lugar à nova, sacrificando-se por esse singelo crescimento?’

Tyron se inclinou mais perto, embora não ajudasse. Era com magia que se sentia todas as minúsculas mudanças de energia dentro dos ossos diante dele; ainda assim, sentia que a proximidade fazia diferença.

— Vamos lá — sussurrou ele.

Lá estava de novo. Outra mudança ocorreu, um desaparecimento de um lado e um reaparecimento no outro, um crescimento insignificante surgindo mais uma vez. Era estranho dizer isso, mas, para Tyron, isso era magika. Conjurar feitiços era como construir um prédio; os meios e métodos eram conhecidos, os materiais confiáveis e compreendidos. Podiam ser empregados com graça, até mesmo com arte, mas, no fim das contas, ainda era construção. Porém isto? Isto era desconhecido, era misterioso. O processo de pegar algo estranho e decompô-lo em algo que compreendia.

Novos materiais, novas ferramentas para trabalhar. Uma mudança fundamental no que era possível e no que não era. As estranhas maravilhas que poderia criar, se fosse capaz de extrair uma fração de conhecimento útil dessa investigação, eram quase inimagináveis. Torres impossíveis de majestade arcana. Feitiços que adentravam territórios antes considerados fantasiosos e impossíveis. Uma ponte cintilante feita de vidro. Um castelo erguido sobre o ar.

‘Quem sabe?’

No momento, eram apenas minúsculas bolas de Magika de Morte, sumindo em um lugar e crescendo em outro, mas ele esperava que pudessem se tornar muito, muito mais.

— Não vamos nos precipitar — disse, sorrindo, enquanto continuava a se inclinar sobre a coleção de ossos à sua frente. — Um passo de cada vez.

— É assustador para caralho quando você fala com os ossos. Sabe disso, certo?

A voz estranha e distante de Dove soou à sua direita. Com a concentração interrompida, o jovem Necromante se inclinou para trás e se virou, com frustração estampada em seu rosto.

— Dove, eu também estou falando com ossos quando falo com você, não é? — comentou ele.

— Isso é verdade.

O crânio repousava com orgulho sobre as páginas abertas de um livro, os orbes brilhantes em seus olhos sendo o único sinal do espírito aprisionado em seu interior. Um orgulhoso Exterminador de rank prata, um Invocador, criador de contratos com seres celestiais do Mar Astral, reduzido a um fantasma preso em seus próprios restos mortais.

— Aliás, não sei se você já explicou por que diabos me prendeu apenas no meu crânio. Não que eu esteja reclamando… tudo bem, eu estou, mas seria bom para caralho ter, sabe, mãos e pernas. Mãos são coisas boas de se ter. E pernas! Nem me fale.

Tyron pressionou as palmas contra as têmporas, lutando contra a dor de cabeça. Não era apenas a conversa irritante de Dove, mas sim as longas horas de concentração que ele dedicou ao seu último teste.

— Dove… Tenho certeza de que já expliquei isso… várias vezes — respondeu ele. — Consegui inserir seu espírito no crânio, mas eu não tinha, e ainda não tenho, ideia de como conectá-lo ao resto de seu corpo de forma que lhe desse controle. Não tenho ideia de como vincular mana a mais de um objeto! O fato de eu ter conseguido fazer tudo isso é…

— Um milagre, sim, sim. Você adora se gabar, garoto, alguém já te disse isso? Você deveria parar com isso. Gabar-se demais faz muito mal à saúde. Você vai ficar cego.

— Certamente você era a prova viva de que não é o caso.

— Oh, ho! Retrucando, é? O que aconteceu com o tímido garotinho Mago que conheci nos arredores de Woodsedge?!

Uma pausa se seguiu enquanto Tyron começava a refletir sobre a questão, mas, antes que pudesse dizer algo, Dove o interrompeu mais uma vez.

— Não ouse dizer “ele morreu”. Isso seria tão clichê que eu teria que manifestar um corpo só para vomitar. Está brincando comigo? Sem mencionar que você é um Necromante! A ironia dramática por si só já me obrigaria a matá-lo e depois a mim mesmo. De novo.

— Justo — Tyron deu de ombros.

Olhou ansiosamente para seu experimento, suspirando, e se virou. Na verdade, não precisava observar o processo, apenas medi-lo após mais cinco horas. Mesmo assim, ele gostava de observar. Medir o resultado era uma coisa, mas compreender por que acontecia daquela forma era muito diferente, e algo para o qual não estava nem perto de encontrar uma resposta.

Caminhou até o livro que estava em cima de uma rocha relativamente plana, que servia como o trono de Dove, e segurou o crânio em uma mão.

— Como está indo? — perguntou Dove.

— Promissor. Consegui confirmar o fenômeno. Mesmo que apenas dois ossos pequenos sejam colocados juntos, esse processo começa a ocorrer. Pequenas partículas de Magika de Morte aparecem, então começam a passar de um para o outro, fortalecendo-se em incrementos microscópicos ao longo do caminho. Quanto mais ossos estão juntos, mais rápido o processo começa e mais acelera.

— O interessante é de onde vem a Magika de Morte — refletiu o crânio enquanto Tyron o carregava em direção à panela. — Ela não pode surgir do nada, precisa ser convertida da energia ambiente.

— Eu concordo, mas não sabemos como isso pode ocorrer com tanta naturalidade, sem influência externa. Mudamos a magia o tempo todo quando conjuramos feitiços, mas esse é um processo manual, guiado pela nossa vontade. Existe alguma influência externa? Existe algo inerente aos restos mortais que causa a mudança na magia. Não é como se a Magika de Morte estivesse flutuando por aí, ela sempre é encontrada em lugares associados à morte.

— Portanto, esta é nossa nova hipótese.

— Certo. Existe algo inerentemente mágico nos mortos. Alguma faísca, ou influência, que faz com que a energia ao redor deles mude. Assim que o processo começa, ele se acelera até que os corpos, ou ossos, se tornem saturados, e é assim que os mortos-vivos naturais são criados.

— Eu adoraria saber como os esqueletos formam sua musculatura na natureza — disse Dove.

— Você está brincando comigo? Meus dedos doem o tempo todo. Se eu não tivesse que fazer os fios por conta própria, isso pouparia muito tempo.

Nenhum dos dois mencionou a oportunidade que perderam de testemunhar o processo. Quando Tyron se empolgou demais e deixou dois conjuntos completos de ossos lado a lado em um de seus testes, acabou desmaiando de exaustão enquanto o processo continuava. Quando acordou, encontrou os esqueletos reduzidos a pedaços, com seus próprios lacaios parados de forma protetora ao seu redor. Após monitorar o processo até quase sua conclusão, ele perdeu a consciência no exato momento em que a transformação final começou. Se seus próprios mortos-vivos não tivessem intervindo, teria morrido para os esqueletos “selvagens” e descontrolados que ele mesmo havia criado.

Decidiu interromper quaisquer experimentos que envolvessem a criação de mortos-vivos totalmente desenvolvidos, até que pudessem ser feitos sob condições mais seguras. Seu estoque atual de ossos havia sido separado e armazenado em um local onde não interagissem entre si. Só para garantir, ele ainda os checava todo dia.

Colocou Dove em uma nova rocha, uma das poucas que circundavam a fogueira ainda fumegante e que servia como assento, ainda que desconfortável. Depois de se mexer, pegou uma concha de ensopado e se serviu antes de se sentar.

— Há quantos dias você fez esse ensopado, garoto? — questionou Dove.

Tyron encarou fixamente a lama marrom avermelhada em sua tigela enquanto pensava.

— Dois dias? — o tom crescente em sua voz tornou isso mais uma pergunta do que uma afirmação.

— Talvez seja melhor não comer isso. Ver você se decompor depois de morrer de tanto se cagar não está no topo da minha lista de “coisas para fazer depois de morrer”.

— Está tudo bem — zombou o jovem e começou a comer. Ele fez uma careta. — Tem gosto de merda… mas está bom.

— Foi você quem cozinhou isso, garoto. Você está zombando de si mesmo.

Isso era verdade; Tyron era o único membro do grupo que ainda tinha que comer. Dove sendo um crânio, e Yor sendo… o que ela era.

— Sabia que minha tia e meu tio administram uma pousada? Eu costumava aparecer na cozinha e pegar um prato quente e fresco do que quer que estivessem preparando. A tia Meg cozinha muito bem. Com certeza, era a pessoa com maior nível em Culinária de toda a cidade.

— Pff. Eu estive na capital. A comida lá faz com que a comida da sua tia pareça resto de comida de porco depois de ter passado pelo traseiro de um porco.

— Que se dane — zombou ele. Então, deu mais uma colherada. — Quer saber, comida de porco não me parece tão ruim agora.

Felizmente para ele, sua constituição era tão alta que era provável que não sofresse nenhum efeito adverso, mesmo se o ensopado estivesse estragado. Um dos benefícios de ser um Necromante era que a Classe garantia que você fosse resistente o suficiente para sobreviver às privações inerentes a ela.

— Alguma ideia de onde Yor está? — disse ele depois de forçar outra colherada. — Ela já deveria ter voltado ontem.

— Ela deveria. Suspeito que ela possa ter sido um pouco mais minuciosa do que a tarefa exigia.

Os dois se entreolharam.

— Quero dizer que ela os torturou muito — reiterou Dove.

— Eu sei o que você quer dizer, Dove! Sangue e ossos, não preciso que esfregue isso na minha cara!

O Necromante passou a mão pelos cabelos escuros enquanto encarava o carvão, com uma melancolia o envolvendo. A ideia de algo que ele invocou para este reino causar tamanha dor e sofrimento não o agradava. De forma alguma. Porém, o que poderia fazer sobre isso? Ele não conseguia enviá-la de volta, nem sabia como fazer isso. Além de não conseguir derrotá-la em batalha, disso tinha certeza, afinal havia visto a velocidade com que ela se movia.

Talvez depois que avançasse sua classe, o que estava perto agora; só precisaria que mais algumas coisas se encaixassem. Desde que deixaram Woodsedge há três semanas, ele vinha trabalhando sem parar para se preparar para a mudança. Era imperativo que levasse suas habilidades principais para o nível dez antes de atingir o nível vinte. Esse era o básico para uma progressão de classe adequada, todos sabiam disso.

Até dominar Avaliação de Cadáveres, Preparação de Cadáveres e Ressuscitar Mortos, ele se recusava a progredir.

Mesmo sob a pressão do tempo que o oprimia como um sino anunciando sua morte, ele não abriria mão disso. Ele não podia. Que diferença faria alcançar o nível vinte se, dali em diante, só teria opções abaixo do ideal, limitando seu potencial? Seria dar um passo para frente e três para trás.

— Falarei com Yor quando ela voltar — decidiu ele. — Ela não pode continuar fazendo o que quiser.

— O que eu quero pode estar além da sua compreensão, querido.

A voz fria da vampira veio de fora da caverna e logo sua figura perfeita pôde ser vista se aproximando da escuridão, com um grande fardo pendurado sobre o ombro. Assim que chegou ao fogo, ela jogou o cadáver no chão sem cerimônia, sacudindo a terra do ombro com uma expressão de sofrimento.

— Espero que você deixe de viver em cavernas em breve, Tyron. Essa é uma fase da qual logo me cansarei.

— Ei, se esse é o caso, tenho ótimas notícias para você — disse Dove entusiasmado. — Acontece que você tem uma opção – e isso pode parecer loucura – de voltar para o lugar de onde você veio, a qualquer momento que quiser! Incrível, não é?!

— Ainda não sei por que eu não extingui essa imundice repugnante que você chama de alma, humano.

— Calem a boca, vocês dois.

Tyron deixou sua comida de lado para se levantar e se aproximar do corpo que Yor havia trazido de volta. Mais experiente na prática do que jamais imaginou, o Necromante passou os olhos pelo corpo enquanto o movia, inspecionando cada membro, a coloração da pele, até checando a condição dos dentes.

Um homem desnutrido, provavelmente na faixa dos vinte. As mãos calejadas sugeriam trabalho braçal regular, e a falta de dentes indicava ou uma péssima higiene bucal, ou que este indivíduo se envolvia em muitas brigas e era péssimo nisso. Não havia ferimentos evidentes nele, nenhum que pudesse ter causado sua morte. Na verdade, era interessante que havia um corte em sua perna que parecia estar infectado. Sem tratamento, isso por si só o teria matado…

Outro detalhe notável do corpo era a ausência total de sangue. Ele foi completamente exsanguinado.

— De novo? — perguntou ele.

Yor levantou uma das suas elegantes sobrancelhas enquanto olhava para ele, agachado sobre o cadáver.

— Eu tinha que comer — declarou ela. — Não pode esperar que eu morra de fome por causa dessas… — gesticulou — criaturas.

— Elas não são criaturas, são pessoas — disse Tyron, com o peito apertado.

— Elas são comida. E antes que reclame, nós concordamos, não lembra? É tarde demais para se arrepender do acordo.

As palavras o acertaram como um martelo e ele se curvou, a raiva se esvaindo dele.

— Você está certa. Eu concordei.

— Se eu tiver que ser honesto, garoto, você está levando isso muito a sério. Esse homem estava morto, não importa o que aconteça. Você precisa se fortalecer, e essa é a pura verdade — disse Dove.

Eles estavam certos. Ele sabia disso. Só precisava de tempo para ajustar sua mentalidade, só isso. Não podia passar de… uma pessoa normal para uma visão tão banal de assassino da noite para o dia.

— Pelo menos o prefeito ficaria feliz — suspirou.

— Não acho que aquele babaca foi feliz em sua vida — comentou Dove. — Já vi maçanetas com mais personalidade.

— Devo concordar — zombou Yor. — Agora, se me dão licença, irei me limpar.

Bem, pelo menos era mais um conjunto de ossos para trabalhar; outro bandido para adicionar à pilha. Sem mais fome, ele recolheu o prato e esvaziou a panela. De manhã, precisaria lavá-la melhor, mas não ia arrastá-la até o riacho no escuro. Sem mais nada para fazer, pegou suas ferramentas de açougueiro e se preparou para trabalhar.

— Ei, garoto.

— Não.

— Vamos lá. Você não pode dizer que não está curioso.

— Dove, eu não vou te levar para espiar Yor enquanto ela se lava.

— Às vezes você é insuportável, Tyron. Sabia disso?

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