
Volume 1 - Capítulo 52
Livro dos Mortos
— Uma vampira?
— É lamentável que nunca tenha ouvido falar de nós. Somos a forma mais elevada de mortos-vivos. Você é um Necromante, não é?
Yor estreitou os olhos, desafiando a falta de conhecimento dele, mas Tyron apenas deu de ombros, impotente. E continuou a desviar o olhar.
— Tem certeza de que não quer vestir algumas roupas? Eu agradeceria se você…
A vampira riu e passou a mão sedutoramente pelo peito dela.
— E por que eu deveria? — disse ela. — Minha carne foi moldada à perfeição. Não tenho motivos para me cobrir. Você não gosta da minha forma?
Não era que ele não gostasse, mas sim que achava tudo aquilo muito desorientador. Ele não podia se dar ao luxo de ter sua inteligência entorpecida quando lidava com esses poderes sombrios, muito menos por algo tão perfeitamente formado…
— Ahem! Tudo bem. Manterei meus olhos no telhado.
Ele tentou se recompor. Seu pescoço começava a doer.
— Então, se eu entendi o que você disse, você era uma humana e foi transformada em… sua forma atual por algum tipo de ritual. E agora está oferecendo fazer o mesmo por mim?
— Deveria se sentir honrado — disse Yor, arqueando sua sobrancelha delicada e escura para ele. — Muitos apelam à Corte, desesperados por nossa aprovação, buscando obter nossa bênção e se juntar às nossas fileiras. Alguns são obrigados a servir por muitos anos antes de receberem a oportunidade, outros nunca são aceitos. Os menos talentosos muitas vezes são transformados em escravos, para que sirvam seus superiores pela eternidade, como convém à sua posição.
‘Escravidão sem fim?’
Só de pensar nisso, Tyron se sentia incomodado, embora pudesse ver por que alguns o acusariam de hipocrisia, ao considerar sua própria profissão. Ele não via a ideia de ressuscitar os ossos de alguém em um esqueleto como algo semelhante a escravizá-los. O que havia feito com Dove?
‘Isso… está muito mais próximo.’
‘Irei liberá-lo, então isso não conta’, ele disse a si mesmo, ‘Ele nem me pediu para soltá-lo esses dias, então não deve estar o incomodando muito.’
— Eu não vejo a necessidade de mudar de raça… — Tyron disse com honestidade. — Tenho certeza de que ser um vampiro tem suas vantagens, mas eu tenho planos.
Anátema havia se provado uma Subclasse muito poderosa, mas ter-lhe sido imposta diminuiu sua utilidade. Ele precisava daquele terceiro espaço de Subclasse se quisesse compensar suas fraquezas e aumentar sua versatilidade.
Yor o encarou como se ele fosse um inseto malcomportado.
— Estamos oferecendo a vida eterna — disse ela. — Você nunca envelhecerá, nunca definhará. Mesmo que este reino seja reduzido ao pó, pisoteado pelas criaturas das fendas daqui a dez mil anos, você ainda perdurará.
Ela se inclinou para frente para enfatizar suas palavras, o que fez Tyron se inclinar ainda mais para trás para evitar… para se manter concentrado. Neste ponto, ele estava quase curvado em um ângulo reto.
— Mas deve haver desvantagens significativas, estou certo? — comentou ele. — Nada que é dado pelo Invisível é de graça.
‘Sempre há um custo, um contrapeso. Você pode não envelhecer, mas qual é o preço que tem que pagar por esse privilégio?’
— Você fala de custo em comparação à imortalidade? — zombou ela. — Há incontáveis milhões que pagariam qualquer preço por aquilo que ofereço.
— Você não está falando com eles — disse Tyron —, você está falando comigo.
Viver para sempre poderia tê-lo tentado muito em melhores circunstâncias, mas aqui e agora? Estava sob uma sentença de morte, caçado por dois Exterminadores que o superavam em todos os aspectos. Mesmo se fugisse através das fendas e para outros reinos, não havia lugar onde pudesse ir que eles não pudessem alcançar. Sua mãe era uma Maga renomada por todo o império, não apenas na província ocidental. Mesmo se o Abismo ou a Corte tentassem escondê-lo, ele tinha poucas dúvidas de que ela o encontraria. Ele precisava de poder agora – a perspectiva de não envelhecer pelos próximos poucos meses de sua vida significava menos do que nada.
— Você entende um pouco a minha situação — comentou ele, tentando ser razoável —, se tem me observado como disse. Não estou interessado na vida eterna ou em nada disso. Estou interessado em me tornar um Necromante melhor o mais rápido possível.
A vampira o encarou com seu olhar vermelho flamejante.
— Claro que existem desvantagens por abraçar minha oferta — respondeu ela —, embora sejam insignificantes. Para começar, não podemos viver sob a luz do sol e temos que nos sustentar com o sangue dos vivos.
Ela sorriu de forma sedutora e revelou suas presas pontiagudas mais uma vez. De repente, elas faziam muito mais sentido para Tyron.
— Se consegue suportar essas pequenas inconveniências, então pode ter a vida eterna — disse ela em um tom de zombaria.
‘Viver sem o sol?’
Ele podia lidar com isso, era uma pessoa noturna antes mesmo de se tornar um Necromante. E ainda tinha o talento necessário. Mas “sustentar-se com o sangue dos vivos”?
— Vocês bebem sangue? — ele fez uma careta.
— De fato — disse ela —, o prazer é indescritível. O gosto da própria vida descendo por sua garganta – ela estremeceu. — A comida que eu desfrutava como humana não se compara.
— Como é que se consegue… isso? Sangue… quero dizer.
— O reino da Corte foi adaptado para atender às nossas demandas. Nenhum raio de sol toca o chão e nossas necessidades são supridas pelos bens que mantemos. Eles são mantidos vivos para nos oferecer sua essência quando a desejamos. Sangue corre como um rio na Corte e mesmo os mais sedentos não ficam sem socorro.
A imagem que ela transmitiu… era infernal. Um mundo de noite eterna? Escravos mantidos para sustento?
— Isso soa… interessante — disse ele.
— É o paraíso dos mortos-vivos — insistiu ela. — O estado mais elevado que alguém da nossa espécie pode alcançar. Deseja rastejar pelo chão pelo resto da sua vida mortal, para depois morrer uma morte lamentável? Está é a sua chance de ascender, de saltar da lama para os escalões mais altos. Sua notável habilidade com magika chamou a atenção da Corte, mas apenas um membro decidiu fazer esta oferta. Minha Senhora arrisca muito para te dar esta chance enquanto é tão inexperiente, mas ela acredita que você conquistará grandes feitos, se lhe for dada a oportunidade.
Sem dúvida, havia mais nessa oferta do que Yor estava disposta a revelar. A forma como ela falava da Corte insinuava que era maravilhosa, cheia de grandes magos compartilhando sua sabedoria, mas ele sentia que isso estava longe da verdade. Sentia que devia haver facções entre os vampiros, dado que esta oferta foi oferecida por apenas um membro.
— Terei de recusar respeitosamente sua oferta — disse ele, formal. — Não desejo ofendê-la, mas não desejo mudar minha raça. Por favor, transmita meus sinceros cumprimentos à sua senhora.
Yor franziu suas delicadas sobrancelhas.
— Recusa? — disse ela, como se nunca tivesse ouvido esta palavra antes. — Uma raridade. Espero, pelo seu bem, que minha senhora não se ofenda por você rejeitar sua generosidade. A chance de experimentar o Beijo Final não é oferecido a qualquer um, e quase nunca mais de uma vez.
Com a menção de um beijo, Tyron corou de vergonha. Francamente, seu pescoço estava começando a doer tanto por causa da inclinação para trás que a excitação estava fora de questão, não importava o que a vampira dissesse, mas algo na maneira como ela disse aquilo fez um arrepio descer sua espinha.
— Se não se importa, vou encerrar o ritual agora — disse ele, endireitando suas costas e mantendo os olhos fixos na visitante.
Os olhos dela tremeluziram com aquela luz enlouquecida, mas ela não respondeu, apenas assentiu com graça com a cabeça e recuou… em uma pose artística que melhor realçava seu físico deslumbrante.
Ela fez isso com tanta naturalidade que Tyron não tinha mais certeza se ela estava tentando. Mesmo assim, engoliu em seco, com a boca seca de repente, antes de se recompor e proferir as palavras finais, encerrando o ritual.
De uma só vez, as velas se apagaram, o sangue borbulhou e sibilou até desaparecer por completo. A luz na sala retornou ao normal, a escuridão sinistra e o tom vermelho estranho desapareceram.
Tyron respirou aliviado…
— Bem, isso foi emocionante — murmurou Yor —, mas como se sacia a sede neste reino?
Então, ele gritou de surpresa. Ao fazê-lo, tropeçou para fora do círculo de proteção que havia criado para si no chão.
— V-você ainda está aqui? — ele gaguejou enquanto encarava a figura sedutora da morta-viva na sua frente.
Ela colocou a mão no peito, fingindo indignação.
— Já quer que eu vá embora? Não é assim que se trata uma convidada — resmungou ela. — Se quiser fazer parte da Corte no futuro, terá que melhorar sua etiqueta.
— Mas eu pensei… o ritual… não deveria… te enviar de volta?
— Voltar? Quando eu finalmente tive a chance de sair e brincar? Acho que não.
Ela se aproximou de Tyron como um lobo, esgueirando-se em sua direção enquanto ele recuava. Só quando seus ombros se chocaram contra a parede é que ele percebeu que não tinha mais para onde ir. Sua mente raciocinou enquanto tentava invocar um feitiço para se defender, mas era tarde demais.
Com uma velocidade que desafiava a realidade, Yor estava sobre ele, com uma mão tapando sua boca e a outra segurando sua mão, entrelaçando os dedos com ele. Aqueles olhos flamejantes o encaravam profundamente enquanto ela se pressionava contra ele.
— A Senhora suspeitava que você pudesse estar relutante em aceitar a oferta. Caso isso acontecesse, ela pediu que eu ficasse, para garantir que o investimento dela não fosse em vão — ela se inclinou ainda mais perto até que seus lábios estivessem próximos à orelha dele. — Aquilo que a Corte deseja raramente é recusado sem luta.
Então, ela o soltou, dando um passo para trás com suavidade e recuando três passos rápidos, onde parou e observou com apreço.
Tyron estava boquiaberto.
— Então… você vai ficar? — disse ele, ainda perplexo.
— Graças aos doces melões da misericórdia — falou Dove de novo. — Sem ofensa, garoto, mas até um crânio precisa de algo legal para olhar de vez em quando.
— Dove… — respondeu Tyron, impotente — você nem tem mais um pênis, como ainda consegue pensar com ele?
— Ele está comigo em espírito! — declarou orgulhosamente o antigo Invocador. — Minha alma não pode ser separada do meu garotão, ou de seu desejo de contemplar. Algumas coisas são fundamentais para a natureza.
— Isso é ótimo — suspirou Tyron enquanto massageava a testa para aliviar a dor de cabeça que começava a surgir. — Poderia ao menos vestir algumas roupas?
— Que obsessão infantil. Esculpi minha forma à perfeição e você quer que eu a cubra? Por qual razão? Seu pudor não me diz respeito.
Claramente orgulhosa de sua aparência, Yor mostrou pouco interesse em se cobrir. Tyron precisava abordar a questão por um ângulo diferente.
— O crânio não vai parar de te encarar enquanto você não se vestir — afirmou ele.
— Isso é verdade pra caralho — confirmou Dove.
Yor olhou para as órbitas brilhantes no crânio por um instante.
— Tá bem — suspirou ela.
…