Livro dos Mortos

Volume 1 - Capítulo 53

Livro dos Mortos

Woodsedge já teve dias melhores, Tyron tinha certeza. Estava de pé na borda da clareira, seus dez esqueletos formando um círculo frouxo ao seu redor enquanto olhava o que outrora foi uma orgulhosa cidade fronteiriça. As muralhas haviam sofrido danos enormes durante a ruptura; grandes seções pareciam ter desabado durante o tremor. Não que as criaturas das fendas não tivessem feito seu trabalho: grandes buracos foram abertos na muralha em dois pontos visíveis daquele lado. O tamanho e a força do monstro necessários para causar tal dano à estrutura estavam muito além da sua experiência.

— Porra — disse Dove. — Eles capricharam mesmo. Vamos entrar e ver o que encontramos.

— Tem certeza de que nenhuma criatura poderosa está por perto?

— Sim, tenho certeza. Elas não ficam por aí cutucando ruínas. Criaturas das fendas são insanas, criaturas bárbaras, levadas à loucura pela mana selvagem em seus reinos. Querem caçar e matar, e depois caçar e matar ainda mais. Quando não houver mais nada com que lutar, elas vão embora para encontrar outra coisa. É por isso que são tão destrutivas. Elas não se estabelecem, não se entrincheiram nem se cansam. Assim que encontram e destroem tudo o que podem, partem correndo para encontrar algo mais que possam destruir.

— Certo — a mão de Tyron apertou o cabo de sua espada um pouco mais forte. — Vamos entrar.

A grama havia crescido mais alta ao redor da cidade, sem que ninguém a limpasse, embora permanecesse baixa. Normalmente, era cortada toda semana para evitar que até mesmo as criaturas menores se esgueirassem pelos portões através do mato. À medida que se aproximavam da muralha, Tyron flexionava os dedos e mantinha a mente alerta. Se algum monstro surgisse de repente, queria estar preparado. Com dez esqueletos ao seu redor, ele estava o mais seguro possível.

Caminhando em direção às ruínas do que, apenas uma semana atrás, era uma próspera cidade fortificada, ele sentiu que não era suficiente.

Saber que as criaturas das fendas eram capazes desta escala de destruição era uma coisa, mas era tão raro que presenciar isso era chocante. Woodsedge era considerada uma área de baixo risco, principalmente para Exterminadores de rank bronze, com alguns de rank prata. Nem sequer era a fenda mais perigosa na Província Ocidental, e ainda assim aqui estava ele, contemplando um nível de devastação que jamais esperou ver.

Quando chegou à muralha, Tyron decidiu contorná-la até encontrar o que restava dos portões no lado sul. Sempre que encontrava uma brecha na muralha, espiava com cuidado para ver se conseguia avistar algum movimento. Seu olhar percorria os prédios quebrados e os escombros que cobriam as ruas antes limpas.

— O que você está fazendo? Entre aí, seu covarde amaldiçoado pelos deuses.

— Cala a boca — Tyron xingou.

— Não há nada aqui, seu idiota. Entre aí, eu quero ver.

Tyron segurou o crânio e abriu sua mochila e enfiou Dove dentro dela, fechando-a. Jogou-a por cima dos ombros e tentou ignorar os protestos abafados do antigo Invocador. Não importava o que Dove disse, ele queria ser cuidadoso. Estava cansado de correr riscos desnecessários.

Quando encontrou o portão, ele estava bastante intacto, embora ainda entreaberto. Algumas lascas eram visíveis na borda, onde os monstros haviam arranhado a madeira, e foi ali que encontrou seus primeiros restos mortais. Parou atentamente ao redor dos corpos que jaziam no chão e tentou observar com cuidado cada indivíduo, passando por cima das formas menores em meio à carnificina.

As moscas infestavam o ar, assim como o fedor. Tyron se distanciou um pouco enquanto tentava entender o que havia acontecido aqui. Era triste e previsível. Quando os residentes fugiram de Woodsedge, devem ter saído pelo portão sul, sendo o mais distante da fenda. Parecia que os marechais e os Exterminadores restantes estavam posicionados aqui, tentando proteger os cidadãos até o último minuto enquanto fugiam do desastre.

Eles já estavam mortos, é claro. Não havia chance para essas pessoas escaparem da ruptura, mas óbvio que tentariam. Presenciar a morte sem sentido e perda de vidas inocentes despertou a antiga culpa no estômago de Tyron, mas junto dela surgiu uma nova emoção: raiva.

Não precisava ter sido assim. Seus pais poderiam ter impedido que isso acontecesse. E era isso o que eles faziam. Eles eram solucionadores de problemas, os heróis. Quando havia um problema que ninguém conseguia resolver, um desastre que não podia ser impedido, eram eles que galopavam rumo ao pôr do sol, com largos sorrisos no rosto, enquanto se lançavam ao perigo e o deixavam sozinho em casa.

Apesar da decomposição e das larvas, ele ainda conseguia distinguir as expressões de horror e medo que distorciam os rostos dessas pessoas desesperadas. Algumas carregavam mochilas ou pertences, o pouco que haviam tentado levar consigo ao fugir de suas casas. Outras haviam caído perto de carroças e vagões, muitos dos quais agora estavam marcados com o sangue das crianças que se amontoavam dentro.

Sem palavras, ele tirou o crânio amaldiçoado de sua mochila e o apontou para a cena trágica na estrada do sul. Dove a contemplou por um longo tempo antes de falar.

— Esses babacas arrombados. É difícil pensar que eu poderia odiá-los mais, mas aqui estamos.

— Você acha mesmo que eles deixariam isso acontecer? Uma ruptura? Eles não se importam que uma cidade inteira seja varrida do mapa?

—… eles não teriam previsto a ruptura. Não é como se pudessem saber de antemão quando uma fenda está prestes a entrar em colapso. No entanto, eles podiam ter feito algo sobre isso, podiam ter salvado essas pessoas, mas, para isso, teriam que inocentar seus pais e desistir de caçar você. Não tenho certeza por que se recusaram a fazer isso, mas fizeram. O resultado era evitável, mas você precisa enfrentar a realidade. Eles se importam mais com seus poderes e autoridade do que com as pessoas que supostamente deveriam proteger. Dezenas de milhares de pessoas morrerão por conta desta ruptura, ou serão deslocadas e fugirão de suas casas apenas para voltar e encontrar ruínas e ter que reconstruir do zero. Levará alguns meses, mas logo terá uma nova Fortaleza, Exterminadores recém-graduados na ocupação e voltarão a patrulhar; talvez alguns times de rank ouro sejam enviados da capital para protegê-la pelos próximos anos. A cidade voltará, os negócios voltarão, os mercadores retornarão. As terras agrícolas ainda estão aqui, as pessoas vão comprá-las baratas e tentarão recomeçar suas vidas fora da cidade. Daqui a dez anos, talvez você nem perceba que isso aconteceu.

— Exceto pela fenda que aumentou.

— Exceto pela fenda que aumentou. Criaturas mais poderosas surgirão, o risco de outra ruptura é maior e, um dia, alguém cometerá um erro e isso se repetirá, permitindo que o mundo todo deslize um pouco mais para o desastre.

Conforme se aproximava, Tyron foi forçado a passar por cima dos restos mortais, com uma mão segurando o nariz para tentar impedir o fedor. A luta aqui foi intensa, isso era muito claro. O número de criaturas caídas era assustador, pilhas delas deixadas para apodrecer sob o sol. A carnificina se espalhava pela estrada em manchas. Bolsões isolados de resistência que colapsaram sob o número avassalador de monstros estavam por todo o horizonte.

Tyron virou as costas para a cena sem dizer mais nada e começou a caminhar pela cidade. As ruas, antes organizadas, estavam cobertas de cadáveres e escombros de prédios desabados ou destruídos. Carregou Dove pelas ruas arruinadas sem dizer nada, como observadores da ruína que havia caído sobre Woodsedge. Havia sinais de lutas nas ruas, prédios foram arrombados pelas criaturas enlouquecidas para que pudessem destruir os seres vivos que lá estavam.

Demorou um pouco, mas eventualmente ele chegou ao açougue, onde fez seu breve aprendizado. Para sua surpresa, estava, em grande parte, intacto. Com a ajuda de seus esqueletos e raios mágicos bem posicionados, quebrou a porta e entrou. Pelo que parecia, não havia ninguém dentro, então as criaturas o deixaram intocado. Até a carne no fundo da loja, que parecia ter sido deixada às pressas, não foi tocada. Uma pena, pois já estava começando a apodrecer, embora talvez um pouco tivesse sido armazenado em um local frio suficiente para ser comestível.

Notou que as preciosas facas de Hak haviam desaparecido. Com esperança, isso significava que ele havia escapado cedo para evitar a ruptura. As chances eram pequenas, mas se tivesse sentido o perigo no ar e saído quando os Exterminadores ainda planejavam manter a posição, talvez tivesse conseguido escapar, junto de Madeline e sua esposa Penelope.

— Algum motivo para estarmos olhando para toda essa carne? — questionou Dove.

— Foi aqui que aprendi a dissecar corpos — respondeu Tyron enquanto passava as mãos pelas bancadas. — Não fiquei muito tempo aqui, mas o dono, Hakoth, era um bom homem.

— Entendo. Eu também aperfeiçoei a arte de lidar com minha carne não muito longe daqui. No distrito da luz vermelha, deveríamos dar uma olhada.

— Você quer visitar os bordéis? Agora?

— Agora que mencionou, acho que não faria muito sentido. Será que teríamos a chance de encontrar algum crânio bem feminino onde pudéssemos aprisionar um espírito? Eu não me importaria com um pouco de companhia. E quando digo companhia…

— Você não observou Yor o suficiente? — Tyron revirou os olhos. Apesar de estar morto, o Invocador parecia manter-se bastante imperturbável em sua atitude e humor.

— Yor é bonita de se ver, embora um pouco pálida. Sabe, agora que ela não está por perto, acho que posso ser honesto. Ela é pálida demais. Não no sentido de ser pálida demais para o meu gosto, quero dizer, ela é pálida demais para ser real. Até os lençóis a invejam. Se ela fosse mais branca, seria transparente. Sinto que deveria ser capaz de ver cada veia do corpo dela.

— Não há sangue, por que você veria veias? — perguntou Tyron, perplexo.

— As próprias veias têm cor, não é?

— Eu… acho? Na verdade, não tenho certeza.

— Quantas pessoas você precisa desmembrar antes de responder a uma questão simples dessa? Vamos lá, Tyron, recomponha-se.

— Podemos… não… falar sobre isso assim? — perguntou ele, fazendo careta.

— Não há vergonha alguma nisso, garoto. Quando a vida te dá Necromancia, você encontra restos mortais e os destrói. Sem maldade, sem problemas.

— Tudo bem. Vamos apenas… continuar olhando em volta.

Dove não respondeu, o que Tyron interpretou como uma concordância silenciosa, e os dois continuaram a vagar pelo que restava da cidade, entrando e saindo de prédios e eventualmente chegando à Fortaleza. O forte de pedra, construído para abrigar os Exterminadores que arriscavam suas vidas para manter as criaturas afastadas, também estava quase intacto. Havia poucos danos estruturais: a maioria das paredes não havia desabado, apesar de algumas pedras terem caído com o tremor.

— Não deveria haver muitos Exterminadores por perto quando as criaturas invadiram, então suponho que a Fortaleza em si não recebeu muita atenção. Ainda devia haver alguns funcionários de suporte aqui, mas não muitos outros. A maior parte dos monstros deve ter devastado a cidade e depois se espalhado ao longo da estrada sul. Pelo lado positivo, isso significa que há um monte de itens valiosos por aqui. Uma pena você ser tão magricela.

— Os esqueletos podem lidar com parte disso.

— Verdade.

Enquanto o sol castigava a Fortaleza, os dois, junto com os dez lacaios mortos-vivos, vasculharam o local e, de fato, havia bastante coisa. Exterminadores eram ricos e muitos morreram na fenda, deixando seus pertences. Para não ficar sobrecarregado, Tyron pegou uma quantidade generosa de moedas de alto valor, substituindo o bronze em sua bolsa com ouro e prata sempre que possível.

O valor real que encontraram estava no arsenal, que havia sido praticamente esvaziado na defesa de Woodsedge, mas ainda havia muitas armas. Quando terminaram, Tyron conseguiu equipar cada um dos seus dez esqueletos com armas de uma mão e escudos.

Se tivesse magia suficiente, talvez tivesse conseguido colocar armaduras em alguns deles, mas o peso extra drenaria sua energia muito rápido.

Conforme as horas se passavam, Dove resolveu falar.

— Este seria um lugar incrível para se estabelecer. Há bastante comida por perto. Uma caça decente nas proximidades. Equipamentos e recursos para seus esqueletos e uma quantidade absurda de restos humanos frescos. Deve haver centenas deles espalhados por aí. Pense na pesquisa. Pense nos níveis!

— Claro que não é tão fácil assim — resmungou Tyron.

— Não. Os nobres ainda vão querer este lugar funcionando assim que derrotarem as criaturas das fendas. Enterrar os mortos, voltar aos negócios como sempre, aqueles canalhas. Isso significa que os magistrados já estão trabalhando para que outra pessoa limpe a bagunça deles. Dependendo de quem estiver no caso, não podemos saber quão rápido chegarão a este lugar e você não pode estar aqui quando chegarem. Para ser honesto, devemos sair daqui o mais rápido possível.

— Certo — respondeu Tyron. — Se possível, quero aproveitar um ou dois dias para acumular o máximo que conseguirmos antes de sair.

— Estamos no limite. Se precisar trabalhar durante a noite, faça isso e podemos nos mandar daqui de manhã. Você precisa deixar este lugar e encontrou outro para se estabelecer.

— Okay. Primeiro de tudo: quero tomar um banho.

Dentro da Fortaleza, ele encontrou aposentos equipados com todos os encantamentos necessários para se lavar e, pela primeira vez em muito tempo, Tyron se permitiu um banho completo, removendo camadas de sujeira da pele. Após saquear um baú em busca de roupas limpas que lhe servissem bem, sentia-se como um novo homem.

Feito isso, arregaçou as mangas e se pôs a trabalhar. Com a ajuda de seus esqueletos, conseguiu desenterrar uma carroça intacta do distrito comercial e começou a carregá-la com suprimentos. Comida enlatada, água, uma pequena quantia de moedas, armas extras e armaduras ocupavam o espaço da carroça, mas não muito. O resto foi reservado para a mercadoria mais importante.

Do meio daquele dia até a noite, Tyron cerrou os dentes e se dedicou a dissecar cadáveres. Junto de seus lacaios, vasculhou a cidade, mas encontrou a maioria dos melhores candidatos no portão sul. Com tantos restos mortais à disposição, podia se dar ao luxo de ser exigente e, apesar dos danos que muitos receberam, ainda conseguiu montar esqueletos inteiros com relativa facilidade.

Depois que os ossos foram descarnados e lavados, ele os colocou para secar em conjuntos completos, pedindo aos esqueletos que os organizassem e separassem. Quando a manhã chegou, conseguiu arrumar vinte esqueletos completos em pilhas organizadas no chão. Depois de secos, cada um foi colocado em seu próprio saco e, então, colocado na carroça.

Ficou tentado a tomar outro banho depois do trabalho macabro, mas sabia que não tinha tempo para isso. Levou um pouco mais de tempo para Dove e ele encontrarem uma forma eficiente de prender os esqueletos à carroça. Se conseguisse ressuscitar cavalos, não teria problemas, mas ainda não tinha essa capacidade.

Assim, seus esqueletos foram forçados a servir de mulas, seis deles dispostos em duas fileiras de três para puxar a carga pesada. Foi um verdadeiro assassinato de sua magika, deixando apenas quatro de seus lacaios para defesa, se necessário. Com isso, teria tudo o que precisava para o futuro.

Por conta da lerdeza com que se moviam, já era crepúsculo quando voltaram para a fazenda.

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