
Volume 1 - Capítulo 51
Livro dos Mortos
— Você não consegue enxergar? Que pena.
Suave e musical, a voz que chegou aos ouvidos de Tyron era brincalhona, feminina e, num nível primitivo e instintivo, aterrorizadora.
— Dove? — chamou Tyron, com a inquietação transparecendo em seu tom. — O que está acontecendo?
Incapaz de ver o que acontecia, ele tentou manter seu equilíbrio e garantir que não sairia do círculo protetor que havia criado. Havia aprendido a lição de suas tentativas de contatar o Abismo e teceu o máximo de camadas defensivas possíveis. Com a ajuda de Dove, estava confiante de que as medidas de segurança que haviam implementado eram suficientes para protegê-lo do que quer que acontecesse, mas não antecipou que perderia tanto sangue.
Sentia tonturas, vertigens e lentidão.
— O que está acontecendo deve ser muito perigoso, garoto — a voz um tanto oca de seu mentor ecoou —, mas ao mesmo tempo, é sexy para caralho.
— Dove — gemeu Tyron, segurando o ferimento em seu braço, depois pegando a bandagem que havia preparado e enfaixando-o.
Sua visão estava retornando devagar. Alguma luz penetrava pelas bordas, mas tudo o que tinha a impressão era de vermelho.
— Sabe, meu senso de preservação está desregulado, visto que estou morto. No futuro, você não poderá confiar em mim para uma avaliação precisa do tamanho da bosta em que você se meteu.
— Não. Está. Ajudando — o Necromante forçou por entre os dentes cerrados.
— Ora, ora. Vocês, garotos, amam conversar. Estou bem aqui, por que não falam comigo diretamente? Eu tenho tanto a dizer.
Tyron acompanhou a voz enquanto ela parecia mudar de posição e chegou a uma percepção horripilante. Um arrepio percorreu sua coluna.
— Dove… — ele engasgou. — Ela está na sala?
Um estalo seco e um clarão de luz atingiram a borda dos olhos de Tyron.
— Fale comigo — sibilou aquela voz, e o som era como unhas sendo cravadas em seu cérebro.
— Sinto muito! — ele implorou, e a pressão diminuiu. — Eu não percebi o que estava acontecendo. Nunca conjurei esse ritual antes.
— Oh, nós sabemos. Estávamos começando a nos sentir… negligenciados.
A voz era tão sensual e suave, mas com um subjacente que parecia algo que ele sabia que não queria. Ele escutou com atenção enquanto ouvia passos circulares. Não ousou se virar, com medo de perder sua posição dentro do círculo protetor. A luz brilhante devia ser ela se chocando contra as proteções, ele tinha certeza.
‘Se não as tivesse incluído…’ ele estremeceu.
— A Corte te observou, jovem. Um espécime tão promissor. Ficamos desapontados quando você escolheu o Abismo. O que eles podem oferecer além de loucura e delírios? Nada. O que podemos fazer, e o que você pode fazer por nós… é muito mais.
Como dedos deslizando por suas costas, as palavras dela o provocaram e o tentaram. Tyron parou para refletir, tentando adiar para dar mais tempo para sua visão retornar.
— Eu não tenho ideia do que aconteceria se eu usasse qualquer um dos três rituais — desculpou-se, esforçando-se para ser educado. — Ou o que eu poderia ganhar em troca por eles. Não havia materiais que eu poderia usar para aprender sobre sua Corte.
— A Corte — ela o corrigiu, como se repreendesse um jovem rebelde. — Sua ignorância não é desculpa. Como um praticante da morte, você deveria ter sido atraído por nós, como um pai buscando seus filhos.
O Necromante franziu o cenho.
— Eu tenho pais. Ótimos pais.
Talvez fosse um exagero chamar Magnin e Beory de “ótimos pais” – eles certamente tinham boas intenções, mas estavam ausentes com muita frequência. Ele achava difícil culpá-los por isso, sabendo a natureza que tinham, mas ainda sentia um pouco de arrependimento às vezes.
Agora conseguia enxergar um pouco melhor e pôde distinguir vagamente a silhueta da pessoa com quem estava falando, enquanto ela caminhava na sua frente. Manteve a cabeça baixa, sem querer correr o risco de ficar tonto e cair.
A figura continuou a circulá-lo devagar, às vezes estendendo as mãos para tocar no círculo protetor. Quando a luz começava a se formar, indicando que a barreira resistia, ela recuava casualmente, como se nada tivesse acontecido.
— Agora seu erro foi corrigido — disse ela —, e podemos colocá-lo no caminho certo. Agora, ofereça sua súplica, implore pela intercessão da Corte, então acertaremos o preço.
Ela parecia muito satisfeita, tão feliz pelas coisas terem chegado a este ponto, mas tudo o que Tyron podia era piscar em confusão.
‘Súplica? Intercessão? Eu não tenho ideia do que ela está falando. Porém, se eu disser isso, ela vai se ofender? E se ela me atacar de novo?’
Ele olhou para os pés.
‘A proteção deve resistir, ela não deve ser capaz de me ferir. Mesmo assim, melhor jogar pelo seguro.’
— Peço desculpas — disse ele com cuidado —, mas, como eu disse, não sei nada sobre a Corte, o que podem oferecer ou o que podem buscar em retorno. Se não for muita indelicadeza da minha parte perguntar, você poderia me ensinar? Talvez possa começar com você me dizendo seu nome? A propósito, sou Tyron Steelarm.
A risada dela soava como sangue pingando.
— Eu sei o seu nome. Minha senhora o observa há algum tempo, afinal. Devo dizer, é raro para a Corte receber um suplicante que não sabe o que está pedindo. Que delícia. Talvez nossa influência em seu reino não seja tão ampla quanto gostaríamos. Não importa, terei prazer em informá-lo.
A forma borrada começou a se mover mais uma vez e Tyron tentou se manter firme enquanto sua visão melhorava aos poucos. Conseguia distinguir um pouco mais agora, mas ela continuava sendo pouco mais que um borrão branco aos seus olhos.
‘Em algum tipo de vestido?’
O frio que havia se apoderado de seus membros recuava à medida que o sangramento parava. Antes do seu Despertar, essa perda de sangue o mataria sem dúvida, mas agora já estava se recuperando. O poder que uma classe e níveis conferiam não era desprezível e ele mal havia começado.
— Certifique-se de ouvir — a voz dela o perfurou mais uma vez, como se sentisse seus pensamentos dispersos relaxarem de novo. — Não seria bom me fazer repetir, certo?
— Quero dizer, se isso te mantiver por mais tempo… — Dove falou ao lado.
— Silêncio.
Sem mais fingimento, neste instante ela soava como uma fera enfurecida.
— Não há proteções ao seu redor. Fale de novo e eu consumirei sua alma.
Uma pausa.
— Peço desculpas pelo meu desabafo. Deixe-me preencher as lacunas infelizes em seu conhecimento.
Suor frio escorria pela testa de Tyron enquanto ele assentia. Não sabia o que havia chamado para o reino desta vez, mas claramente era tão perigoso quanto qualquer coisa que o Abismo havia enviado.
— A Corte é, como posso dizer, uma reunião de seres de alto nível. Criaturas da perfeição.
— Vocês acreditam ter alcançado a perfeição? Vocês são deuses? — questionou Tyron.
— Não somos algo tão grosseiro, nem sou tão arrogante a dizer que somos perfeitos. A perfeição é um estado ao qual nos aproximamos infinitamente com o passar do tempo. É o nosso destino, a nossa paixão e a nossa busca. Além da vida, além da morte, a Corte existe para refletir os desejos de seus membros, e o que desejamos é algo que transcende a compreensão mortal.
— Vocês são uma reunião de seres poderosos — Tyron franziu a testa —, mas estão além da vida e da morte? Isso significa que são mortos-vivos?
— Claro — disse a voz com um tom suave —, como eu disse, é normal que você nos estenda a mão. Em todos os reinos, não há mortos-vivos que se elevem acima da Corte. Como um Necromante iniciante, você está brincando na lama do nosso castelo. O que oferecemos é estender a mão e puxá-lo para cima.
A mente de Tyron estava raciocinando freneticamente. Ela havia confirmado que era uma morta-viva e ele havia lido tudo o que pôde sobre todos os tipos conhecidos dentro da província. Era evidente que ela não era um zumbi ou um esqueleto – ela mantinha sua inteligência e capacidade de comunicação muito além de qualquer criação básica. Ela era algum tipo de forma avançada de espírito? Um revenant? Um wight? Um espectro? Cada um desses requeria os restos mortais de uma raça senciente para ser criado e eram muito raros, segundo seu entendimento. Não havia muitos lugares com a Magika de Morte bruta necessária para criar um revenant natural, muito menos um espectro.
Ele queria perguntar o que ela era, mas hesitou. Não queria ofender esta mensageira da Corte. Fossem o que fossem, eram poderosos. Comparáveis a qualquer criatura que habitava o Abismo, seus nomes também rivalizavam com os Sombrios. Não se devia brincar com eles.
E, para dizer a verdade, ele se sentia atraído pela perspectiva de ter lacaios mais poderosos. O morto-vivo “perfeito”? Seria algo que ele poderia comandar? Precisava aprender mais.
— Me puxar para cima de que forma? — perguntou Tyron com um tom razoável. — Vocês possuem feitiços ou rituais que eu possa aprender? Ou recursos que posso usar para criar lacaios mais poderosos? Qualquer um desses seria algo desejável para mim, embora eu não tenha certeza se o que eu possuo interessaria como pagamento.
A figura passou à sua frente e Tyron vislumbrou um par de olhos carmesins queimando com uma luz sobrenatural. Havia uma energia naquele olhar que beirava a insanidade. Isso o perturbou mais do que ele poderia descrever.
— Rituais e feitiços? — ela riu, seu tom gutural soando pelo ar. — Isso é tudo que você busca de nós? Minha Senhora está preparada para oferecer muito mais. E o preço? Não vamos discutir isso ainda. Não até que entenda o peso daquilo que lhe é oferecido.
Ela desviou o olhar dele enquanto Tyron mantinha os olhos fixos à frente, apesar de ouvir com atenção.
— A Corte existe há milênios, sua idade se estende além de toda a história de seu império. Antes que as fendas atingissem este mundo, a Corte já governava desde tempos imemoriais. Nossos membros mais antigos podem traçar sua história até a própria fundação, uma época de sangue e glória nas origens sombrias do nosso reino. E…
Ela fez uma pausa para criar um efeito dramático.
—… esses membros continuam a existir até hoje. Isso o surpreende? Imortais, esses mesmos seres sobrevivem indefinidamente. Mortos-vivos? Imortais. Ser escolhido pela Corte é receber a oferta da vida eterna. Você estará entre augusta companhia se escolher aceitar a mão que lhe é estendida. Os magos mais poderosos que existem, que aperfeiçoaram sua arte ao longo de dezenas de milhares de anos, se tornariam seus pares. Imagine o que poderia aprender! O poder que poderia adquirir.
Magos antigos? Vida eterna? Magika que existia antes mesmo das fendas encontrarem este mundo? Tyron engoliu em seco. Essa era uma oferta tentadora.
‘Boa demais para ser verdade.’
— Apesar das suas palavras — disse ele —, não tenho evidência de que as declarações são verdadeiras. Não quero ofendê-la, mas seria tolice da minha parte aceitar um acordo sem aprender mais. Gostaria de estabelecer maior confiança e afinidade entre nós antes de chegarmos a um acordo.
O ritual terminaria em breve, contanto que conseguisse evitar colocar a Corte contra ele e ganhar tempo sem ser pressionado a um acordo, poderia considerar isso uma vitória.
Esses rituais estúpidos davam mais problemas do que valiam a pena. Poder era oferecido, claro, mas havia tantos obstáculos a superar que era quase inútil. O Abismo ofereceu conhecimento? Com certeza, mas você corria o risco de enlouquecer se tentasse escutá-los. A Corte aparentemente detinha a imortalidade em suas mãos, mas havia um preço terrível a se pagar. Pelo menos, assumiu que fosse terrível, já que esta criatura se recusava a lhe dizer o que era.
— Acabei de me lembrar que você ainda não me disse seu nome — disse ele.
— De fato, não disse. Você deve me achar rude. Pode me chamar de… Yor.
‘Claro, um nome falso.’
Ela nem se deu ao trabalho de esconder isso.
— E receio que você não compreenda a gravidade da minha oferta, jovem Necromante.
Ela caminhou até ficar na frente dele mais uma vez e, desta vez, os olhos dele estavam quase límpidos. Quando seus olhares se encontraram pela primeira vez, os olhos dela se arregalaram de prazer e um leve sorriso curvou o canto de seus lábios. Mais do que antes, aqueles olhos vermelhos- sangue queimaram, cheios de poder e vida, mas também com algo mais sombrio e frenético. Após um momento, a visão dele se expandiu e ele pôde contemplá-la por completo.
A pele branca e fantasmagórica chamou sua atenção. Não existia vestido, ela estava totalmente nua. Esculpida à perfeição, seu corpo estava exposto diante dele. Cabelos lisos e negros como a noite caíam em cascata por seus ombros delicados, terminando na metade de suas costas. Sem vergonha, ela posou com graça na sua frente, com aquele mesmo sorriso. Tyron corou e tentou desviar o olhar, mas se conteve no último instante. Não queria mover seus pés ou trocar de posição, correndo o risco de sair da proteção. Comprometeu-se, olhando para cima enquanto xingava Dove dentro de sua mente.
‘Esse idiota! Ele abandonou toda a cautela só porque ela está nua?’
— Po-… Ahem. Por que você não está vestindo roupas? — ele gaguejou enquanto tentava se recompor.
— Passei de um reino para outro. Trazer roupas comigo é… difícil e, muitas vezes, desnecessário — ela o provocou.
Ela deu um passo em frente.
— Agora que pode me ver, acho bastante ofensivo que desvie o olhar. Olhe para mim — ordenou ela.
Mais uma vez, aquelas unhas perfuraram seu cérebro até que desviou o olhar e encontrou de novo o olhar dela. Assim que o fez, a dor sumiu e ele respirou fundo, com um tremor.
‘Que magika é essa que permite que ela inflija tanta dor apenas com sua voz? Onde estão minhas proteções?
Ao ver o lampejo de pânico em seus olhos, o sorriso de Yor se ampliou até se tornar um sorriso feral, revelando presas pontiagudas. A luz selvagem em seus olhos se intensificou até que ele teve certeza de que não estava diante de uma mulher, apesar do que seus olhos podiam sugerir. Ela era uma fera em pele humana.
— O que… o que você é?
Ela se aproximou ainda mais, até que seu corpo pressionasse contra as proteções que o resguardavam, a poucos centímetros de distância. As mãos dela subiram para acariciar a luz que brilhava ao lado de seu rosto enquanto ela encarava fundo nos seus olhos.
— Eu… sou uma bela maneira de morrer.
…