Livro dos Mortos

Volume 1 - Capítulo 50

Livro dos Mortos

Levou um dia inteiro de trabalho árduo para Tyron terminar a musculatura de todos os dez esqueletos. Trabalhou a noite inteira sob a iluminação dos globos de luz, apesar de Dove ter avisado que era uma má ideia. Como de costume, ele se recusou a pegar atalhos durante o processo tedioso. Em vez disso, investiu mais tempo do que o necessário para concluir o que considerava seu maior trabalho até então.

Idealmente, gostaria de ter mais tempo para preparar os restos mortais antes de ressuscitá-los. Queria examinar a quantidade e a natureza da Magika de Morte que se acumulou neles durante a última semana, especialmente por terem estado tão próximos uns dos outros, mas o tempo ainda o pressionava. Talvez ele tivesse tempo para estudar isso quando o próximo lote de lacaios tivesse assegurado a área e tivesse recuperado mais restos mortais. Não queria pensar muito nisso, mas sabia que encontraria mortos equivalentes aos de uma cidade inteira em Woodsedge.

Tyron afastou esses pensamentos e estudou seu trabalho mais uma vez. Nunca ficaria satisfeito se não dominasse todas as habilidades que considerava importantes para sua arte, e isso significava mais do que prática mecânica e repetição. O Invisível recompensava aqueles que se esforçavam, experimentavam e não se acomodavam. Se ele quisesse que a Costura Óssea alcançasse o nível 10, então tinha que tentar coisas novas, criar tramas mais intrincadas e ver o que funcionava. Então, refinar até alcançar a perfeição que pudesse visualizar.

Seu trabalho atual estava longe de ser perfeito, mas representava mais um passo adiante em seus métodos, e ele estava satisfeito com isso. À medida que progredia, mais convicto ficava de que a musculatura eficiente e funcional era a base de um bom esqueleto. Quanto menos energia seus lacaios precisassem para mover seus ossos, mais esqueletos ele poderia sustentar. Assim como seriam capazes de golpear com mais força, mover-se mais rápido e tropeçar menos.

Quando pensou nos movimentos desajeitados de seus dois primeiros lacaios adequados (o zumbi não contava), ele ficou envergonhado.

— Certo — murmurou para si mesmo. — Levarei isso de volta para o porão e começarei a ressuscitá-los.

Ele se inclinou para frente para pegar o primeiro dos ossos, mas foi interrompido por uma tosse. Confuso, virou-se para encontrar o crânio de Dove parado em uma rocha por perto e percebeu que havia esquecido que o invocador estava ali.

— Talvez seja melhor fazer uma pausa, garoto. Você já está nisso há muito tempo.

— Estou bem — Tyron franziu a testa. — Posso trabalhar muito mais do que isso.

— Não estou dizendo que você não consegue, mas por que você deveria? Ressuscitar um morto é uma coisa complicada, eu sei, nós desmontamos o feitiço durante a última semana. É difícil parar de trabalhar no meio, mas confie em mim, você precisa dormir.

Frustração e uma pitada de raiva borbulharam no peito do Necromante. Dove estava certo, mas ele não queria parar, estava pronto, ansioso para continuar, para trabalhar em sua magia e aprimorar sua arte. Alguns dias sem dormir não eram nada, não quando o tempo era tão limitado.

— Para um Mago, sua mente é sua arma. Mantenha-a afiada, filho, e ela nunca o decepcionará.

As palavras de sua mão, faladas anos atrás, ecoaram em sua cabeça. Ele hesitou por um instante, mas conseguiu conter sua impaciência e a reprimiu.

— Você está certo — ele cedeu ao crânio. — Preciso de uma cabeça limpa para um feitiço como esse. Vou dormir.

— Bom — Dove ficou satisfeito que seu conselho foi ouvido. — Você ainda não se explodiu, mas não vamos abusar do destino.

Tyron reuniu seus esqueletos com um pensamento e voltou para o porão, fechando-o com cuidado. Depois colocou Dove em sua caixa favorita e se preparou para dormir. Despiu-se, lavou-se antes de entrar em suas cobertas e fechou os olhos.

Só que sua mente não parava de raciocinar. Seus pensamentos passavam de um sigilo para o outro, tentando encaixá-los de formas diferentes, moldando-os em formas de feitiços complexos necessários para criar Mortos-Vivos. Tentou ignorar por um tempo, tentou forçar sua mente a parar, mas desistiu e usou o feitiço para adormecer. Oito horas depois, acordou e saiu do seu saco de dormir.

‘Hora de magika’, pensou ele, alegre.

— Ei, garoto? Que porra é essa? Eu conheço esse olhar. O que diabos você pensa que está fazendo?

A luz surgiu nas órbitas vazias do crânio de Dove, e a voz do antigo Invocador ecoou assim que Tyron ajeitava suas roupas para vestir.

— Hã, o quê? — perguntou Tyron. — Eu ia pegar os ossos e preparar para ressuscitar os esqueletos. Qual é o problema agora? Eu dormi bastante, assim como você sugeriu.

Um suspiro de desgosto irrompeu do crânio.

— Você está brincando comigo, porra? Coma alguma coisa. Beba água. Você é como um bebê que não resiste a um brinquedo brilhante. Cuide de si mesmo, seu burro. Já vi Exterminadores com três vezes o seu nível, Exterminadores que conseguiam ficar um mês sem um copo d’água, dormindo e comendo mais do que você. Sabe por quê? Porque eles sabiam que deveriam fazer isso quando tivessem a chance. E eles não eram completos idiotas. Esta segunda parte é importante.

— Certo! — corou Tyron — Já entendi. Sou estúpido. Vou comer.

Por mais irritado que estivesse, ele sabia que era um bom conselho. Não comia desde ontem e,quando parou para pensar, estava faminto. Enviou seus esqueletos para checarem o lado de fora do porão e vasculhou suas mochilas em busca de algo para comer. Sob o olhar atento do crânio brilhante, comeu um café da manhã escasso e bebeu alguns copos d’água e se virou para o seu mentor.

— Feliz?

— Não, seu idiota, sou um crânio. Nunca mais sentirei amor, alegria ou felicidade. Estou satisfeito que você não se matará mais ao conjurar agora? Talvez. Agora, se apresse, não temos o dia todo. Eu fervi meu cérebro incorpóreo tentando aprimorar aquela merda de feitiço e quero ver o resultado.

Tyron fez uma careta e subiu as escadas, voltando mais tarde com os braços cheios de ossos.

— Vou pegar o resto — disse ele ao crânio antes de colocá-lo no chão.

Várias viagens depois, ele tinha dez esqueletos posicionados no chão e um espaço livre para trabalhar.

— Certo — comentou ele —, vamos ver como isso vai ser.

Ele não precisou consultar suas anotações – havia revisado o feitiço tantas vezes durante os últimos dias que conseguia reproduzir três versões diferentes com perfeição em sua memória. Com confiança, deu um passo adiante, levantou as mãos e começou a falar.

Assim que começou, pôde sentir que algo estava diferente.

A magika respondeu aos comandos enquanto as Palavras de Poder saíam de seus lábios. Tyron nunca tivera dificuldade em comandar a linguagem da magika, mas agora a sentia fluir como nunca. Cada sílaba crepitava com poder arcano, energia etérea que fluía de uma palavra para a próxima com graça e sem esforço.

Ele sentiu como se não estivesse mais falando essas palavras como uma segunda linguagem, mas como um falante nativo. Não precisava pensar para falar, as palavras fluíam com muita naturalidade.

Isso era o mistério, a mão extra do Invisível que o sustentava, concedendo-lhe um dom que ele não possuía antes.

‘Esse é apenas o estágio inicial’, pensou ele, maravilhado. ‘Não consigo imaginar como será sua melhoria.’

Apesar de sua surpresa, ele afastou o pensamento da cabeça. Não podia se dar ao luxo de se distrair no meio de um ritual complexo, nem mesmo por algo assim. Concentrou-se no processo, certificando-se de construir cada parte do ritual como queria. Suas palavras e mãos cooperavam juntas para moldar o feitiço com uma precisão quase inumana. Esses eram feitiços de alto nível, os quais apenas classes poderosas conseguiam conquistar, suas habilidades elevadas a outro patamar através do poder que cultivaram.

Era um ritual longo. Embora os dois tivessem arquitetado muitas formas de encurtá-lo por meio da remoção de certas partes e aprimorando outras, Tyron decidiu que essa não era a forma como queria prosseguir. Claro, poderiam retirar certas frases, encontrar melhores usos para certos sigilos, mas em vez de usar esses ganhos para reduzir o tempo de conjuração, ele escolheu adicionar mais elementos e manter a duração do ritual a mesma. Dove lhe deu muito o que pensar no que diz respeito às formas como fortalecer a conexão que seus lacaios usavam para extrair energia deles, adicionando camadas que poderiam ajudar a prevenir que magika fosse perdida durante a transição. Estas mudanças adicionavam complexidade, o que se traduziu em aumentar o tempo do ritual e, ao mesmo tempo, dificultar sua conjuração.

Tyron aceitou o desafio. Quando as últimas palavras saíram de sua língua e suas mãos caíram ao lado do corpo, ele sentiu uma profunda satisfação. A conjuração foi perfeita. Melhor do que perfeita. Agora, possuía dois mistérios relacionados à feitiçaria, e embora ainda estivessem fracos, sentia que os dois haviam trabalhado juntos, um impulsionando o outro para elevar o feitiço a alturas ainda maiores do que ele pensava que poderia alcançar. Enquanto a magika se concentrava e se instalava nos ossos à sua frente, ele se deleitava com a sensação que o preenchia.

Só quando o tênue estalar dos ossos chegou aos seus ouvidos, ele abriu os olhos e testemunhou os frutos do seu trabalho.

O esqueleto se levantou para cumprimentar seu mestre, com o fogo roxo queimando em seus olhos. Tyron sorriu ao sentir a conexão entre eles se solidificar, o morto-vivo ressuscitado se tornando um pequeno nó no canto de sua consciência.

— Você pode ser o primeiro da nova geração — disse ele. — É bom ter você aqui.

— Não fale com os lacaios, idiota — comentou Dove de forma sarcástica. — E puta que pariu, essa conjuração foi fora de série! Eu conseguia praticamente sentir a energia vibrando no ar.

— Sim — sorriu o jovem Necromante —, agora, quanto ao resto…

— Calma aí, garoto. Uma pausa rápida, corrija os erros, descanse sua voz e depois continue.

Tyron resistiu à vontade de revirar os olhos para a cautela do velho Mago, mas entendia a sabedoria por trás dela. Prosseguiu com as conjurações, descansando entre cada ritual até que mais um dia se passou e o sol se pôs.

Seis esqueletos novinhos em folha, recém-armados com armas rudimentares que encontrou na fazenda, estavam em posição de sentido no porão. Com dez lacaios ao seu comando, ele se sentia confiante em sua própria segurança. Com a adição do seu suporte mágico, esses dez seriam capazes de lutar bem até mesmo contra grupos de criaturas das fendas de tamanho médio. Se Dove estivesse certo e a maioria delas estivesse devastando a província, então ele não devia ter que se preocupar muito. Ironicamente, estar tão próximo da fenda o mantinha um pouco seguro. Para chegar até ele, qualquer marechal ou exterminador teria que abrir caminho pela horda liberada pela fenda.

Isso não atrapalharia em nada os seus pais, mas, pelo menos, eles eram as únicas coisas com que tinha que se preocupar.

Após outra noite de descanso, dormindo no porão, Tyron reuniu Dove e seus lacaios antes de partirem para uma varredura mais ampla da fazenda. Querendo ter as duas mãos livres, improvisou uma tipoia que podia jogar sobre o ombro para manter Dove na altura do seu peito, embora inclinado, seus olhos roxos voltados para fora, absorvendo o mundo ao redor. A floresta parecia ter sofrido tanto quanto a fazenda, muitas árvores foram arrancadas devido ao tremor que se seguiu à ruptura, ou derrubadas pelos monstros em fúria.

Encontraram mais criaturas das fendas nesse dia, pequenos grupos ainda caçando, procurando por presas. Tyron não se conteve, liberando todo seu repertório de feitiços nas criaturas enlouquecidas. Contra grupos, ele aprimorava as armas de seus esqueletos com Lâminas da Morte, depois escolhia um alvo para suprimir ou, contra monstros mais poderosos, aplicar a Maldição do Tremor. Algumas vezes, tentou aplicar Medo nas criaturas, mas elas pareciam resistentes: a fúria irracional que possuíam era difícil de ser superada por seu feitiço. Com mais prática e níveis, era provável que conseguisse que o efeito funcionasse, mas, por ora, continuaria usando opções mais confiáveis.

Felizmente, nada com que não conseguisse lidar surgiu, e ele retornou à fazenda após um período prolongado lutando. Se realizasse o ritual de Status agora, poderia receber alguns níveis depois do trabalho que fez. Pelo menos um, mas ainda não estava pronto. Antes de mais nada, tinha mais um ritual que queria tentar.

— Garoto, eu não tenho certeza sobre isso.

— Já falamos sobre isso, lembra? Vai ficar tudo bem.

— Sim, eu sei, mas agora que chegou a hora, só não consigo ver algo bom vindo de um ritual que requer tanto sangue.

Após descansar, Tyron decidiu seguir seus instintos e passou aquela noite e o dia seguinte preparando-se para conjurar Apelo à Corte. Em parte, porque o ritual era inegavelmente uma magika sobre a qual estava ansioso para aprender mais e, em parte, porque sentia que os “patronos” que lhe concederam a Subclasse Anátema estavam tentando ajudá-lo de verdade. Talvez a ajuda deles fosse distorcida e capaz de levá-lo à loucura, mas, independentemente disso, eles tinham um interesse em vê-lo, se não tendo sucesso, então progredindo. Agora sabia, por exemplo, que o Abismo estava de fato tentando fornecer informações, o único problema era que o método deles era incompatível com sua sanidade.

Sem dúvida, haveria… desafios similares, tratando-se da Corte, mas ele estava determinado a tentar. Precisava de toda a ajuda que conseguia obter.

Depois de um dia preparando o círculo de ritual, discutindo fórmulas magikas com Dove e fazendo anotações detalhadas. Havia muitos elementos que se sobrepunham entre este ritual e Perfure o Véu, e muito do seu conhecimento deste último se aplicava ao primeiro. Ambos os feitiços giravam em torno de formar um portal dimensional, uma porta interplanar, por assim dizer. A diferença residia no destino onde Perfure o Véu se conectava. Dove não tinha experiência com nada relacionado ao Abismo e logo o mandou deixá-los em paz.

Na verdade, o crânio lhe deu uma longa e detalhada palestra sobre os muitos perigos variados do Abismo, com grande foco nos fins horríveis e macabros encontrados por aqueles que se atreveram a mexer com forças que não podiam controlar. Tyron decidiu não contar ao Invocador que havia conjurado o ritual uma segunda vez.

Por sorte, não precisou explicar onde encontrou um segundo ritual que se comunicava com poderes estranhos além da compreensão mortal, poderes esses que ele não deveria conhecer. Dove disse que não queria saber e eles seguiram em frente.

— Muito bem, vamos lá — murmurou ele.

— Isso vai ser nojento, mas não me vire. Eu quero ver o que acontece.

Tyron lançou um olhar de desgosto para o crânio antes de voltar a atenção para a faca que segurava na mão esquerda. Dove estava certo sobre uma coisa – este ritual necessitava de muito sangue e ele não tinha muitos lugares de onde pudesse retirá-lo. Julgou que sua constituição robusta o sustentaria, embora fosse mais arriscado do que gostaria.

‘Quem não arrisca, não petisca.’

Colocou-se no centro do elaborado círculo de ritual, com a faca na mão e o foco na outra, e começou a falar.

Suas palavras crepitavam no ar enquanto a magika na sala começava a fluir. Uma grande quantidade de poder era necessária para este feitiço funcionar e Tyron usou tudo o que podia, extraindo energia de dentro de si enquanto sigilo após sigilo tomava forma, sendo construído sobre o anterior. O espaço começou a se curvar, até mesmo o tempo se distorceu enquanto ele continuava a dar voz ao arcano.

A luz no porão foi diminuindo com o passar do tempo. Do canto dos seus olhos, Tyron jurou que conseguia ver o cômodo começar a adquirir um tom avermelhado, ou talvez fosse um truque de sua mente, prevendo o que estava por vir. Manteve a calma e continuou a realizar o ritual, sem jamais hesitar com sua voz.

Durante uma hora ele falou, dando forma ao feitiço enquanto a sala escurecia e sua visão se tornava cada vez mais escarlate, até que chegou a hora.

Com um movimento lento e deliberado, ele deslizou a lâmina e fez um corte longo e profundo. Queria gritar devido à dor, mas continuou a pronunciar as palavras com perfeição conforme o ritual continuava. Sangue quente e vermelho começou a escorrer por seu braço e pingar no chão. De forma quase sobrenatural, fluindo livre, como se fosse arrancado dele pelo próprio feitiço. A substância vital acumulou-se aos seus pés e começou a escorrer pelo chão, como óleo na superfície da água.

Ele continuou a sangrar e a falar enquanto sua visão escurecia cada vez mais. O sangue jorrava do corte e caía no chão, onde se movia e se contorcia até encontrar as linhas do círculo ritual, que logo ficaram cobertas pelo seu sangue.

Sua voz ecoou poderosa, apesar da energia em seu corpo se esvair. Tyron aguentou, mesmo depois de seus olhos ficarem negros e ele não conseguir enxergar mais nada. Quando a última palavra saiu de seus lábios, cambaleou, mas conseguiu se equilibrar. Com cuidado para não sair do centro do círculo, tirou uma bandagem do bolso e a enrolou em seu braço, desesperado para estancar o sangramento.

— D-Dove? — disse com a voz rouca. — Eu… eu não consigo ver. O que está acontecendo?

As primeiras ondas de pânico e inquietação começaram a surgir dentro dele. O ritual havia tido sucesso, ele sabia disso, mas não conseguia ver.

‘O que está acontecendo?’

— Garoto — a voz do Mago ressoou, grave. — Você se lembra, há alguns dias, quando eu disse que nunca sentiria nada de novo?

— Tem o quê?

— Eu menti. Acho que estou apaixonado.

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