Livro dos Mortos

Volume 1 - Capítulo 49

Livro dos Mortos

Algumas pessoas diziam que um bom Mago era similar a um bom músico. Um bom músico compreendia a estrutura da música, era capaz de manipular harmonias para criar sons que tocavam corações e faziam mulheres se apaixonarem. Essas pessoas afirmavam que um Mago, de forma parecida, conhecia sigilos e Palavras de Poder como a palma de sua mão, podendo entrelaçá-los como se estivesse tocando um instrumento para criar um som de magika.

Na opinião de Dove, essas pessoas eram estúpidas.

Músicos e bardos eram uns idiotas analfabetos na metade do tempo e uns idiotas arrogantes na outra metade. Cem por cento das vezes estavam mais interessados em transar do que em serem úteis. Ainda mais irritante, sem exceção, achavam que eram as dádivas dos Divinos no mundo. Felizmente, estar morto significava que ele não teria que ouvir outro bardo discursar sobre o poder de sua arte e sua capacidade de fazê-los sentir.

Em mais de uma ocasião, Dove se ofereceu para usar sua arte para fazer os bardos sentirem alguma coisa, mas eles sempre recusavam. Uma pena.

Não, feitiçaria não tinha nada a ver com dedilhar cordas e fazer as pessoas chorarem. Era controlar a estrutura fundamental do universo e matar pessoas.

Não tinha ideia de onde vinha a insistência de conectar magos e músicos, ou por que ela persistiu por tanto tempo. Provavelmente, os bardos a difundiam para elevar o status de suas músicas.

Uma semana havia se passado e Dove dedicou a maior parte desse tempo a discutir magia, elaborar teorias sobre diferentes aspectos da Necromancia e ajudar o garoto a ampliar seu repertório de sigilos.

Na verdade, isso ajudou a consolidar quão monstruoso era o talento prodígio de Tyron.

Um músico talentoso era capaz de ouvir uma melodia e compreender qual deveria ser a próxima nota. Ou então, podia ouvir uma música apenas uma vez e reproduzi-la perfeitamente, com uma memória para altura e tom tão impecável que conseguia absorver grandes quantidades de música de uma vez só.

Tyron não era assim.

Como todos os grandes magos, ele não era um artista, era um engenheiro.

Quando examinava o padrão de um feitiço, não buscava a próxima nota perfeita, mas considerava centenas de opções, cada uma com seus próprios méritos e falhas. Ele compreendia que novas Palavras de Poder não eram frases ou acordes, mas materiais que poderiam ser moldados e reformados em um milhão de diferentes coisas.

Ele era um construtor que, com um único cinzel, podia transformar uma pilha de rochas em uma catedral.

Com mais tempo e ferramentas à disposição, o garoto criaria algo que ninguém jamais tinha visto. Dove estava certo disso.

O caderno que Tyron carregava consigo tinha sido muito usado nos últimos sete dias. Página após página foram cobertas por rabiscos rúnicos, enquanto os dois debatiam, refinando ideias ou as expandindo, dependendo do conhecimento específico que Dove podia contribuir.

Era uma pena que não pudessem testar muitas de suas teorias, trancados no porão, encolhidos sob uma horda de criaturas das fendas que parecia infinita. Se usassem muita magika, poderiam enfraquecer o selo que os mantinha escondidos. Agora, o barulho acima havia começado a diminuir e era hora de emergir.

Tyron estava nervoso. A última semana fora – considerando tudo – os melhores sete dias que ele teve desde o seu Despertar. Finalmente poder desenvolver suas teorias com um Mago experiente foi um prazer e agora tinha tantas possibilidades para testar que, para ser honesto, não sabia por qual começar.

O canal de magia refinado que haviam criado poderia reduzir a quantidade de energia necessária para manter um lacaio em até cinco por cento! Se funcionasse como eles pensavam, o ganho de eficiência seria tremendo.

Porém, agora, depois de uma semana encolhido em um porão mofado, era hora de voltar ao mundo real. Um pouco de sol lhe faria bem. Sua pele estava ficando pálida e o ar úmido começava a entrar em seus pulmões. Mais uma vez, tinha motivos para agradecer sua constituição relativamente alta. Uma pessoa normal seria frágil demais para lidar com o que ele foi forçado a suportar, mas, apesar das privações, ele estava bem.

— Como eu quebro isso com segurança? — ele perguntou ao amigo, gesticulando para as runas que protegiam a porta do porão. — Há algo com que devo ter cuidado?

— Garoto… me vire para que eu possa ver, por favor? — reclamou o crânio.

— Um segundo.

Tyron levantou Dove com facilidade. Os dois haviam se acostumado com a ‘não existência’ do Invocador durante o tempo que passaram juntos e movê- lo de um lado para o outro havia se tornado parte da rotina deles.

— Certo. Desmontar isso com delicadeza é um pouco problemático. Eu recomendo que faça isso com cuidado. Se desmoronar muito rápido, a magika vai vazar, virando um sinal de fumaça para as criaturas da fenda. Se você errar, nós morremos.

Tyron assentiu com seriedade.

— Você morre — Dove se corrigiu. — Eu recebo a doce libertação da minha existência amaldiçoada.

— Acho que os monstros te deixariam em paz e você ficaria preso nesse crânio para sempre — disse Tyron, com o cenho franzido.

Dove pensou a respeito por um momento.

— Você está certo, não foda com tudo.

O Mago morto-vivo guiou o jovem pelo processo delicado. Tyron desconectou um “nó” da matriz de cada vez, drenando aos poucos a magika da formação, peça por peça, até que não restasse nada. Pela primeira vez em uma semana, os dois estavam desprotegidos, sem nada que os separasse das hordas que haviam devastado o exterior.

— Os ossudinhos na frente, vamos dar uma olhada — disse Dove e Tyron assentiu.

— Certo, vamos fazer isso.

Os esqueletos mal se moveram nessa semana, mas isso pouco importava para eles. A musculatura formada por pura magika tinha suas vantagens, afinal – os fios fundidos com os ossos jamais tinham espasmos ou travavam. Depois de um instante de hesitação, Tyron ordenou que seus esqueletos empurrassem a porta e começassem a subir as escadas, abrindo a porta do porão e emergindo no interior da casa.

Pelo menos, do que restava do interior da casa.

Com seus quatro lacaios na frente, Tyron vinha logo trás, carregando Dove na mão esquerda. Ambos ficaram em silêncio com o que viram. A casa, que outrora se erguia com quatro paredes robustas de madeira, agora estava em ruínas. Buracos haviam sido feitos e roídos na madeira. A residência organizada de uma família pioneira agora estava quebrada e repleta de lixo. Quase nenhum móvel permanecia inteiro: pedaços de madeira lascada estavam por toda parte.

Com os esqueletos na liderança, Tyron avançava com cuidado, atento a onde pisava. Através dos buracos nas paredes, era possível vislumbrar cercas destruídas e animais mortos. O lugar parecia abandonado e saqueado há meses, e não apenas uma semana.

Ansioso para checar se seus recursos mais valiosos ainda estavam intactos, ele correu até o quarto onde havia escondido os corpos. Olhou para as ruínas do que até pouco tempo eram aposentos arrumados, ainda que simples, agora destruídos, junto dos vários corpos que havia tentado esconder.

Olhou para os membros dilacerados e mastigados dos fazendeiros e sentiu-se exausto. Eles poderiam não ser as melhores pessoas, sabe-se lá quantos haviam roubado, mas mereciam algo melhor. Certamente, até ser ressuscitado como um lacaio era melhor do que ser despedaçado por criaturas das fendas.

O fedor era horrível e Tyron levantou a mão para cobrir o nariz.

— Puta que pariu — xingou ele. — É por isso que zumbis nunca foram uma opção.

— Quase me sinto feliz por não conseguir cheirar mais — brincou Dove. — As criaturas das fendas destruíram este lugar. Não consigo imaginar quantas passaram por aqui. Normalmente, elas não se importam com os mortos, mas deviam estar em frenesi.

— Espero que elas tenham deixado algo com que possamos trabalhar — murmurou Tyron.

— É melhor verificar o rancho primeiro. Garanta que nada esteja escondido lá. A maior parte das criaturas está aproveitando a onda, por assim dizer, mas ainda haverá muitos babacas para lidarmos.

— Certo — assentiu Tyron.

Era um bom conselho. Ele reuniu seus lacaios e se preparou para conjurar magias de suporte, se necessário. Com Dove em mão, saiu da casa e, pela primeira vez, contemplou a escala total da devastação. A maioria das cercas havia desabado, assim como os celeiros e depósitos. Pedaços de animais mortos, frutos de uma vida inteira das pessoas que aqui viviam, estavam por toda parte.

Um estalo baixo e persistente podia ser ouvido e Tyron ficou tenso, com a mão livre levantada, pronto para conjurar.

— Garoto, me ponha no chão — sibilou Dove com urgência. — Você precisa das duas mãos.

— Está tudo bem — Tyron manteve os olhos aguçados, escaneando a área. — Consigo conjurar o básico com uma.

Claro que você consegue — murmurou Dove.

A maioria dos magos não se dava ao trabalho de aprender a conjurar com uma mão só, mesmo para as magikas básicas. Para quê, se com as duas mãos será mais rápido? As coisas básicas podiam ser feitas apenas com palavras, ou só a mente, mas quando se tratava de usar as mãos, duas eram sempre melhor.

Tyron se virou ao ouvir algo se mexer à sua direita e se deparou com um monstro rastejando para fora de uma vaca. Coberto em tripas, a besta rosnou de forma ameaçadora enquanto avançava.

— Não — rugiu Tyron.

Magika passou por sua mão e fluiu para sua língua. Antes que a criatura pudesse atacar, ele esmagou a mente dela, usando Suprimir Mente para congelá-la.

Era repugnante – ele podia sentir a fúria fervente do monstro, seu ódio cego enquanto se debatia e lutava dentro do seu aperto. Tyron não mostrou misericórdia.

Congelado no lugar, não havia nada que a criatura pudesse fazer para resistir aos dois esqueletos, derrubando-a com estocadas afiadas que dilaceravam seu couro.

Ele repetiu o processo várias vezes enquanto patrulhava a área, verificando cuidadosamente cada cadáver no caso de esconder outra criatura das fendas. Por sorte, não foram atacados em grupo e ele não precisou recorrer a uma estratégia mais complexa. Preservar os quatro lacaios que lhe restavam era sua maior preocupação. Sem eles, ficaria em um estado tão vulnerável que nem queria pensar.

Assim patrulharam a propriedade, mas Tyron hesitou em ultrapassar o limite da cerca externa, da qual quase nada restava de pé.

— Podemos cuidar do resto depois — concordou Dove. — Contanto que não seja atacado enquanto cria mais lacaios, está bom. Recomendo que não conjure nenhuma magika mais intensa do que essa até que limpe uma área maior.

Tyron acenou a cabeça em concordância, por mais que adorasse continuar a experimentar com seus rituais mais poderosos, especialmente Perfure o Véu e Apelo à Corte. Com os refinamentos e conhecimento sobre sigilos relacionados à magia inter-reinos e interplanares que Dove lhe forneceu, ele estava ansioso para testar ambos para criar uma forma de feitiço mais seguro. Se de fato conseguisse se comunicar com o Abismo, em vez de apenas ter seus sussurros tentando destruir sua mente, quem sabe o que poderia aprender? E certamente a Corte proporcionaria oportunidades parecidas, sem dúvida acompanhadas de perigos semelhantes.

Retornaram à casa e Tyron moveu alguns pedaços de madeira para abrir espaço, sentou-se e ordenou que seus esqueletos continuassem com a tarefa.

— Mantenha um por perto — aconselhou Dove. — Você fica um pouco impotente sem eles. Aprendi isso da pior forma possível quando era um Invocador. Sempre tenha um truque na manga para se manter seguro, não importa a situação. Com pelo menos um esqueleto ao seu lado, você tem muitas mais opções do que teria sem ele.

O Necromante hesitou antes de assentir e aproximar um de seus lacaios. O crânio falava a verdade. Mesmo sendo seu truque mais poderoso no momento, usar Suprimir Mente para incapacitar uma única criatura das fendas era inútil sem um lacaio para aproveitar a vantagem, já que ele próprio não conseguia agir quando usava o feitiço.

— Você já se preocupou em ser muito dependente de suas invocações? — perguntou ele.

— Pff. Porra, de jeito nenhum — retrucou Dove. — Primeiro de tudo, seres astrais são parceiros de seus Invocadores, somos um pacote completo que entra em um contrato vinculativo. Eu os protejo e eles me protegem; é como ter amigos em quem se pode confiar.

— Amigos que, por contrato, têm o direito de te comer se você os irritar.

— Justo, justo — observou o crânio. — Segundo, invocações são fodas para caralho. Seres imortais de pura energia de outro plano de existência? Cacete. Com certeza. Nunca me senti mal por depender daqueles bastardos maravilhosos.

— Eles não são imortais…

— Perder a forma neste plano e voltar para casa para se recuperar não pode ser considerado “morte” de forma alguma. Você não é um necromante? Não me venha com essa merda, como se você não soubesse a diferença entre a vida e a morte.

Tyron suspirou. Não havia muito o que argumentar contra Dove quando o assunto era Invocadores. Ele era um supremacista completo quando se tratava de classes. Invocadores no topo, seguidos por Necromantes, por terem semelhanças, depois Magos no geral separados por um abismo de cem quilômetros, então o resto da “plebe”, como ele os chamava. Aparentemente, classes do tipo “domador” não gozavam do mesmo favor de Dove: a ausência de nuances mágicas as condenava ao lixo junto com o resto.

Os dois descansaram em silêncio e observaram os três esqueletos trabalharem diligentemente, limpando o interior da casa e despejando o lixo em uma grande pilha a uma distância. Quando as coisas estavam um pouco limpas, ele transferiu seus lacaios para a tarefa mais desagradável de separar os cadáveres. Um por um, os corpos dos fazendeiros foram arrastados para fora da casa e colocados ao céu aberto. Quando terminaram, ele olhou para os doze cadáveres em estágios variados de decomposição, lado a lado na grama. O enxame de moscas que se agarrava a eles era surpreendente, e Tyron estremeceu ao pensar nas larvas rastejando pela carne morta enquanto ele permanecia ali.

Os restos mortais das crianças foram colocados do outro lado da casa e, enquanto ele ia buscar suas ferramentas de açougueiro, ordenou que os três esqueletos começassem a cavar túmulos.

— É por isso que eu não coloco a Necromancia no mesmo patamar da invocação — comentou Dove quando Tyron o colocou ao lado. — Não me importo de sujar as mãos de vez em quando, mas isto? De jeito nenhum.

O jovem deu de ombros antes de pegar um pedaço de pano e tampar o nariz e a boca. Por mais enjoativo que fosse, qualquer proteção contra o fedor e as moscas era mais do que bem-vinda. Com os preparativos feitos, cerrou os dentes e avançou.

‘Hora de trabalhar.’

— Ei, garoto! Me vire, eu não quero ver essa bosta! Ei!

Ele foi ignorado.

Várias horas depois, Tyron permanecia curvado, com as mãos nos joelhos, enquanto respirava fundo. Cuspiu na grama algumas vezes, para tirar o gosto da boca, uma mistura de carne morta e ácido estomacal. De certa forma, ele estava orgulhoso de si mesmo: vomitou só duas vezes durante todo o processo, um novo recorde, considerando como as coisas iam. Os esqueletos, tendo terminado a escavação e o preenchimento dos buracos, estavam de volta ao trabalho. Armados com pás roubadas da fazenda, estavam ocupados enterrando o monte que Tyron havia criado.

Conseguiu recuperar dez esqueletos completos dos fazendeiros, melhor do que temeu ao ver pela primeira vez o que os monstros fizeram. Provavelmente conseguiria ressuscitar todos e manter quatorze lacaios, mesmo que por pouco, mas percebeu quão importante era ter uma margem de sobra para conjurar feitiços de apoio. Ele se prepararia para ter dez lacaios e armazenaria o resto para quando perdesse alguns lacaios pelo caminho.

— Isso… foi nojento — apontou Dove. — Quando aquele olho saltou para fora, com as larvas dentro? Pensei que ia vomitar, e eu não tenho um estômago, meu deus! Puta que pariu.

O ácido queimou a garganta de Tyron enquanto sua bile subia de novo. Respirou fundo algumas vezes antes de encarar o crânio.

— Sério?

— É isso que você ganha por me fazer assistir.

Resmungando, o jovem Mago encontrou o poço e lavou sua boca, depois trouxe os ossos e os lavou, colocando-os com cuidado no chão em suas posições corretas, certificando-se de que nenhum se perdesse. Com essa tarefa concluída, prosseguiu para a próxima, flexionando os dedos enquanto invocava os fios de magika, tecendo-os em padrões complexos.

Dove observou o garoto trabalhar e maravilhou-se com facilidade com que ele o fazia. Não era nem mesmo o movimento ágil dos dedos que o impressionava, mas sim o fluxo constante e firme de magika. Este nível de controle não era fácil, muito pelo contrário, era tudo, menos fácil, mas Tyron o dominava sem esforço.

Pacientemente, tijolo por tijolo, o garoto construiu algo incrível. Uma engenharia primorosa, construção artística.

‘Nada como música, caralho.’

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