Livro dos Mortos

Volume 1 - Capítulo 48

Livro dos Mortos

O som do ar sendo sugado por entre os dentes preencheu a tenda. A dor era quase constante agora, e Magnin concentrava toda sua força de vontade em combatê-la. Há muito havia chegado ao ponto em que o domínio completo sobre seu corpo e mente se tornou uma segunda natureza para ele, mas sob a agonia constante, ele sentia seu espírito começar a rachar. Havia construído o que parecia uma fortaleza impenetrável ao seu redor e tentou acreditar que isso seria suficiente. Apesar de todos os seus preparativos, ainda estava chocado com quanto tormento a marca havia lhe infligido.

Eventualmente acabaria cedendo, sempre soube que isso aconteceria se as coisas chegassem a esse ponto, mas esperava aguentar mais tempo.

Seu rosto se contorceu num sorriso macabro. Mais uma semana seria o máximo que ele conseguiria aguentar, especialmente se a pressão continuasse a ser aplicada como vinha sendo ultimamente. Eles nunca conseguiam descansar. Na melhor das hipóteses, tinham pausas de dez minutos entre longos períodos de agonia indescritível que queimava suas almas. O ritmo implacável, sem nem mesmo essas breves janelas de descanso para se reunirem, os consumia cada vez mais rápido.

Beory seria capaz de aguentar mais do que ele. Dos dois, ela sempre foi a mentalmente mais forte. Só podia esperar que ela conseguisse suportar depois que ele sucumbisse e conseguisse mais tempo para Tyron.

— Como você está, amor? — ele disse com a voz rouca, um esforço frustrado para mostrar seu charme usual, ainda que frágil, mal transparecendo em seu tom.

— Cala a boca, idiota — Beory rugiu, com o rosto estampado de concentração. — Cada vez que você fala, distrai minha meditação.

— Por que sou bonito?

— Não. Porque você é irritante.

— Irritantemente bonito?

— Cala. A. Boca. Magnin.

Eles mergulharam novamente em silêncio, concentrando-se em seus próprios pensamentos. O breve momento foi a maneira que encontraram para se conectar e compartilhar seu sofrimento. Era importante para Magnin que Beory estivesse ciente de que ele estava ali com ela, e ela com ele. Era fácil de se esquecer às vezes, quando imersos na dor. Assim continuou, um tormento sem fim, sofrimento sem pausa. Se Magnin fosse condenado ao inferno quando morresse, ele duvidava que pudesse ficar muito pior do que isso. Pelo menos teria um pouco de prática antes de chegar lá.

Quando a dor finalmente diminuiu, foi tão abrupta que Magnin quase caiu para o lado com o alívio repentino da tensão. Não só a agonia perfurante não o queimava mais, como a sensação constante de queimação da marca também havia cessado. Chocado com a estranha sensação de não sentir mais dor, Magnin piscou para a esposa, perplexo.

— O que diabos é isso? — disse ele.

Apesar da mudança, Beory havia conseguido manter sua postura meditativa. Ela franziu a testa para nada em particular.

— Mais jogos mentais. Devemos estar prontos para qualquer coisa. Temos dez minutos, então vamos aproveitá-los ao máximo.

— Certo — respondeu ele.

Os dois tinham estabelecido uma rotina. Eles podiam se mover muito mais rápido do que uma pessoa comum, mesmo sem se esforçarem, então conseguiam fazer muitas coisas em pouco tempo. Primeiro vinha a comida e a bebida — seus estoques estavam quase vazios, mas ainda eram suficientes — seguido por um banho rápido e uma troca de roupas. Limpar o suor e a sujeira acumulada durante os últimos dias de tortura ajudava a revigorar seus espíritos e mentes de forma surpreendente. Depois, alongavam-se para liberar a tensão em seus corpos, massageavam os ombros um do outro, e então arejavam a tenda antes de se acomodarem de novo, preparados para o começo da próxima sessão.

Eles cumpriram os rituais, mas nenhum dos dois conseguia se livrar da sensação de que algo havia mudado. Haviam sido submetidos constantemente ao tormento da marca por duas semanas — os Magistrados não tinham motivo para ceder agora, ainda mais depois de investir sabe-se lá quanto esforço. em torturá-los.. O pensamento dos magistrados irritados e exaustos, jogados em suas camas, enchendo a boca de doces de Mago, trazia um certo prazer aos dois., mas não havia a menor chance de deixarem todo aquele esforço ir para o ralo.

Magnin se preparou para o retorno da dor, mas, após dez minutos, ela ainda não retornou. Ele franziu a testa.

— Se essa é uma nova forma de tortura psicológica, que continuem, está funcionando — ironizou ele.

— Não consigo imaginar o que estão tramando — lamentou Beory, franzindo o cenho, normalmente impecável. — Eles devem saber que se nos derem tempo suficiente, nos recuperaremos. Levará dias para nos trazer de volta a este ponto.

— Bem, não vamos nos precipitar — avisou Magnin. — Algum idiota deve ter dormido demais. Eles devem voltar ao trabalho em breve.

Isso não explicava a ausência da dor crônica habitual. Os Magistrados precisariam desligá-la conscientemente, mas nenhum deles conseguia imaginar algum motivo para fazerem isso.

Então, sentaram-se e esperaram que seu sofrimento continuasse, determinados a enfrentá-lo até a inevitável e amarga conclusão. Assim, mais uma hora se passou.

Nada.

— Quase me sinto negligenciado.

— Cala a boca, Magnin.

Continuaram esperando, mas nada mudou.

— Devemos… dormir? — sugeriu Magnin.

Beory olhou para ele por entre os olhos semicerrados.

— Você consegue dormir agora?

Magnin tentou dar de ombros com indiferença.

— Quero dizer, podemos tentar, certo? É importante descansar quando conseguimos. Não sabemos quando eles podem recomeçar. Faz quase uma semana desde que dormimos, né? Devíamos aproveitar a oportunidade e ir para a cama.

Era um conselho bom e sensato, o que deixou Beory imediatamente desconfiada. Magnin era inteligente e capaz quando ele queria ser, mas, na maioria das vezes, fazia papel de bobo quando ela estava por perto para compensar suas falhas. O que ele disse fazia sentido, mas algo no tom em que foi dito sugeriu algo mais. A Maga poderosa refletiu a respeito por alguns segundos, com o olhar fixo na aparência inocente do marido.

— Magnin… — disse ela. —… você?

As sobrancelhas do Exterminador do Século se levantaram enquanto seu rosto assumia um aspecto de pura inocência infantil.

— Você! — ela exclamou incrédula. — Não, você não vai transar! Eu fui torturada por duas semanas!

Ambas as mãos se levantaram, com as palmas para fora, oferecendo uma defesa sólida.

— Ninguém sugeriu isso, meu bem — comentou ele com sensatez. — Só estou tentando garantir que estejamos o mais preparados possível.

— Certo — zombou ela. — Você não está errado, deveríamos dormir um pouco, se pudermos…

— Como eu estava dizen- —… mas você pode dormir do lado de fora.

Duro, mas nada que um Exterminador poderoso não fosse capaz de lidar. Pego em flagrante, ele só pôde rir, lançar uma piscadela atrevida para a esposa, o que lhe rendeu um resmungo em resposta, antes de sair da tenda e encontrar um pedaço confortável do chão para se deitar. Na verdade, no nível dele, com todos os talentos e atributos físicos enormes que recebia de sua Classe, dormir ao relento era quase igual a dormir em uma casa. Ele não ficaria dolorido ou rígido, seus músculos não se contrairiam nem teriam cãibras. Pelo contrário, o chão se adaptaria a ele, não o oposto, algo que Beory entendia perfeitamente.

— Não é minha culpa que você seja tão bonita — ele resmungou enquanto deitava a cabeça em seu braço.

— Eu consigo te ouvir — gritou Beory.

— Eu sei, sua raposa gostosa — sussurrou ele, sabendo que ela também conseguia ouvir isso.

— Sono — ela conjurou, e Magnin deu uma risadinha ao sentir o feitiço o envolver.

Ele poderia repeli-lo, mas permitiu que o afetasse e logo estava roncando. Beory Steelarm só balançou a cabeça, exasperada, antes de conjurar a magika mais uma vez em si mesma. Esperava ser acordada por aquela agonia desesperadora, mas estava exausta. Mesmo uma hora de sono ajudaria.

Para seu completo espanto, acordou seis horas depois, completamente descansada e livre de dor. Confusão e suspeita floresceram em sua mente quando arrancou os cobertores e encontrou Magnin ainda roncando lá fora.

— Acorde — sibilou ela, e os olhos do Exterminador se abriram de imediato.

— O que foi? — perguntou ele, com um tom mortalmente sério.

Instantes depois, seus olhos se arregalaram ao perceber que ainda estavam livres. A mesma realização horrível começou a surgir em seu rosto quando percebeu o que isso poderia significar.

— Você acha que eles- — Não ouse pensar nisso — Beory o respondeu bruscamente. — Só vou acreditar quando eu ver o corpo frio dele na minha frente.

Os Magistrados não teriam mais motivos para continuar a torturá-los se Tyron tivesse sido morto.

*KAW!* O grito ensurdecedor de um grande pássaro soou, e ambos voltaram seus olhares para o céu. Com seus olhos excepcionalmente aguçados, avistaram com facilidade o ro’klaw se aproximando. O pássaro enorme de quatro asas cortava o ar na direção deles, com um olhar tão penetrante quanto as garras. que se estendiam da ponta de cada um dos seus pés curvados.

— Com certeza, existem pássaros mais simpáticos para entregar mensagens — reclamou Magnin. — Esses bandidos emplumados são sempre uns idiotas mal-humorados.

— Acho que estamos prestes a obter uma resposta para nossa pergunta — disse Beory.

Poucas pessoas tinham permissão para usar pássaros mensageiros. A aristocracia os utilizava com frequência quando a comunicação por meios mágicos era muito cara ou desnecessária. Certas guildas ricas pagavam caro para usá-los. E, claro, os Magistrados, que criavam essas malditas coisas.

Ao sobrevoar o local, a besta lançou um tubo fino de uma de suas garras antes de bater as asas e dar meia-volta. Com várias batidas poderosas de asas, a criatura odiosa já estava em voo de retorno, com outro de seus gritos penetrantes quebrando a paz por onde passava.

Magnin pegou o cilindro que caía com facilidade, suas mãos estavam firmes apesar do que podia estar carregando. Esta mensagem poderia muito bem informá-lo sobre a morte do seu filho. Beory olhou para o cilindro com temor. O Espadachim girou os ombros e abriu o lacre, deslizando o papel enrolado dentro para suas mãos. Querendo terminar o mais rápido possível com isso, desdobrou a página e leu seu conteúdo.

Então, começou a rir.

— O quê? — questionou Beory. — O que diz? Tyron está bem?

Magnin se inclinou para trás e soltou uma gargalhada estrondosa até que lágrimas começaram a escorrer por suas bochechas. Incapaz de impedir, estendeu a mensagem para a esposa enquanto continuava a rugir. Com uma carranca feroz no rosto, a Maga pegou o papel de seu marido e o leu. Sua expressão foi substituída por uma de alegria selvagem.

— Esses idiotas devem estar vomitando na própria barba — zombou ela.

— Uma ruptura! — Magnin exclamou, rindo. — Dá para acreditar nessa sorte? Um caralho de ruptura… agora?!

Era demais para ele. Incapaz de conter o riso incrédulo, ele caiu no chão e rolou para frente e para trás. O pensamento dos Magistrados sendo forçados a abandonar a tortura, à beira do sucesso, para salvar cidadãos comuns… deve ter sido como engolir agulhas de ferro.

— Duas semanas — Beory sorriu maliciosamente. — Duas semanas inteiras. Com um pouco de sorte, talvez consigamos prolongar um pouco mais.

Mesmo lutando contra as piores criaturas. que Nagrythyn tinha a oferecer, eles seriam capazes de recuperar sua condição nesse período. Quando a dor inevitavelmente retornasse, os magistrados teriam que recomeçar do zero. Temiam que Tyron tivesse sido encontrado e morto, mas as coisas nunca pareceram tão brilhantes para ele. Contanto que se mantivesse longe da ruptura, ele teria muito tempo para continuar a crescer.

— Pensar que a situação mudou, de repente — Magnin enfim conseguiu conter. sua risada. Estava estirado no chão, encarando o céu matinal com um sorriso radiante no rosto.

— Você só está feliz por poder lutar.

Ele não negou.

— Estou com muito estresse acumulado — ele sorriu. — Graças a alguém.

— Você está me culpando, e não a agonia inimaginável que aqueles idiotas nos causaram?

Com um suspiro de satisfação, Magnin se levantou com leveza.

— Bem, podemos desmontar o acampamento e partir. Eu cuido disso enquanto você entra em contato com seu pessoal.

— Tem certeza?

— Sem problemas. Termino isso num instante.

Eles se dedicaram às suas tarefas, com o coração leve e sorriso no rosto.

Em toda a província ocidental, as criaturas das fendas avançavam implacavelmente, destruindo fazendas e vilas em seu rastro.

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