Livro dos Mortos

Volume 1 - Capítulo 45

Livro dos Mortos

— O seu cérebro virou merda ou algo assim? — Dove tossiu. — O que caralhos você estava pensando?

Tyron não conseguia levantar a cabeça.

— Eu senti que deveria ajudar de alguma forma, já que tudo o que está acontecendo é minha culpa…

— Sua culpa? Sua culpa, meu pau! — gaguejou Dove enquanto pressionava a bandagem contra o ferimento no estômago. — Eu te disse para correr, desgraça. Nada disso é sua culpa. Que pensamento imbecil.

— Não adianta discutir com você — murmurou Tyron.

— Claro que não! Eu estou certo, arrombado!

Dove gemeu quando a dor o atingiu e caiu para o lado, com a respiração acelerada e o suor brotando em sua testa.

— Tente não ser tão burro a ponto de eu precisar gritar com você — ofegou ele. — Estou ferido.

Os dois estavam sentados dentro da cabana abandonada. Havia anoitecido e o estrondo distante da fenda ainda podia ser sentido enquanto paravam para descansar. O lobo estelar havia sido dispensado para descansar no astral e Tyron havia caído no chão, com as pernas fracas depois do que acabou de vivenciar. À distância, ainda conseguia sentir as conexões com seus lacaios enquanto eles se aproximavam. Esperava que todos sobrevivessem, embora fosse improvável. Lentos como eram, eles seriam alcançados pelas criaturas das fendas à medida que emergiam.

— Não temos muito tempo — disse Dove, com a tensão evidente na voz. — A maioria dos monstros terá perseguido os outros Exterminadores até a Fortaleza, mas logo esta área estará tomada por eles. Mais dez minutos e então partiremos.

— Você conseguirá se mover? — perguntou Tyron, preocupado. — Há algo que eu possa fazer para ajudar?

— Cai fora — Dove tentou rir, mas, em vez disso, tossiu. — A menos que você tenha alguma cura milagrosa escondida na sua cueca, você não pode fazer bosta nenhuma. Deixa para lá, eu dou um jeito.

Apesar da fachada que estava usando, o Mago claramente estava em péssimo estado. Ele não deveria estar se movendo.

— Monica te tratou?

— Monica está morta, garoto, Rogil também.

Mais uma vez, Tyron abaixou a cabeça enquanto essas palavras o inundavam. Aqueles dois eram boas pessoas. Por que isto estava acontecendo? Se a culpa e a vergonha aumentassem, poderiam acabar com ele. Eles morreram por sua causa. Não havia como convencê-lo do contrário.

— Vai se foder — disse Dove.

Tyron soltou uma risada enquanto esfregava os olhos.

— O que foi? — ele perguntou.

— Posso praticamente sentir o cheiro da culpa em você. Aqueles dois, Monica e Rogil, eram Exterminadores, até a medula, caralho. Quase chegaram ao rank ouro. Sabe quantos de nós sobrevivem tanto tempo? Quantos chegam tão longe? Eles estavam preparados para morrer desde o dia em que se alistaram na Fortaleza e receberam a marca. Não é sua culpa e eu não te disse para parar de ser burro?

O Invocador teve um longo acesso de tosse enquanto se recuperava do seu discurso e Tyron tentava se controlar. Muita coisa estava acontecendo ao mesmo tempo e ele estava sofrendo para encontrar equilíbrio. Ele não era tão irracional ou emocional normalmente, mas, de novo, quantas vezes já foi colocado nesta situação? Tentando se tornar útil, deixou Dove recuperar o fôlego e começou a empacotar seus suprimentos da melhor forma possível.

Enquanto fazia isso, sentiu a conexão com seus esqueletos se fortalecer, forte o suficiente para ele conseguir determinar quantos haviam retornado. Ele fez uma careta. Apenas quatro. Seu glorioso exército de nove foi reduzido a menos da metade por causa de sua indecisão e estupidez. Tinha restos mortais suficientes para ressuscitar mais um, talvez dois, mas não tinha tempo. Poderia ser capaz de fazer os esqueletos carregarem os ossos que precisava, se os embrulhasse primeiro. Tinha um cobertor sobrando em algum lugar.

‘Seu burro. Dove está machucado e tudo o que você consegue pensar é em ressuscitar os mortos. Que ótimo Necromante você se tornou.’

Ele suspirou para si. Por mais que doesse, não podia fazer nada pelo Invocador. Não sabia nada sobre medicina. Seus lacaios não eram do mesmo nível das invocações de Dove, mas com o Mago na condição em que estava, talvez fossem a melhor proteção que os dois poderiam obter.

Com pressa, terminou de colocar tudo em suas costas e guardou seu saco de dormir, depois colocou os ossos em um pacote organizado, que embrulhou em preparação para a chegada dos esqueletos. Isso feito, ele voltou para checar Dove e o encontrou respirando suavemente, com os olhos fechados enquanto descansava contra as paredes apodrecidas da cabana.

— Dove, você está bem? — perguntou baixinho.

— Claro que não estou, mas vou ficar. Está na hora de ir?

— Quase, tenho alguns esqueletos a caminho. Eles devem chegar em alguns minutos.

Dove abriu um olho e olhou para ele por um momento.

— Você está uma merda, garoto… e vindo de mim, isso significa alguma coisa. O que aconteceu?

—… muito cristal.

Dove fechou o olho e balançou levemente a cabeça.

— Seu imbecil.

— Isso é duro.

— Não, não é.

Eles ficaram em silêncio por um momento enquanto Dove continuava concentrado em sua respiração, com as mãos pressionando um curativo grosseiro na barriga. Tyron não tinha visto, mas o sangue seco que encharcava o pano não era um bom sinal.

— Certo. Precisamos decidir para onde vamos — o Invocador tossiu. — Se voltarmos para a cidade, provavelmente deixariam você entrar, mas deve haver criaturas das fendas por todo o lugar. Com apenas nós dois, as chances de chegarmos até lá são baixas. Nossa melhor aposta é ir para o sul e tentar conseguir o que precisamos em qualquer pequena comunidade que encontrarmos no caminho. Felizmente, ainda temos tempo até a ruptura, mas não muito.

— Espera… — disse Tyron. — Aquilo não foi a ruptura? Já não aconteceu?!

Dove soltou uma risada chorosa antes de se inclinar e cuspir um pouco de sangue no chão de terra.

— Cacete, não. Os reinos estão se aproximando, mas ainda não colidiram. Está perto, provavelmente a menos de um dia de distância. Precisamos nos afastar o máximo possível antes disso e encontrar um lugar para nos abrigarmos. Não conseguiremos fugir dos monstros, mas se pudermos encontrar um lugar para nos abrigarmos… Tenho algumas proteções que posso usar para nos esconder.

Ele parou por um instante para respirar devagar.

—… Se você está pensando em alguma última resistência heroica ou em ajudar a defender a cidade, tire essa merda da cabeça. Todos em Woodsedge, todos na Fortaleza, já estão mortos. Não há chance de conseguirem resistir e, mesmo que tenham começado a fugir há dois dias, não conseguirão escapar — ele fez uma careta de dor enquanto se sentava um pouco mais ereto. — O destino de todos foi selado quando falhamos além da fenda. A menos que alguns Exterminadores poderosos caiam do céu, então todos estão fodidos. Tudo o que podemos fazer… é correr e nos esconder… e tentar juntar os pedaços depois.

Tyron se sentou e absorveu as palavras do Mago em silêncio. Por mais que quisesse ajudar, por mais que sentisse que precisava fazer algo, ele era apenas uma pessoa pequena e insignificante diante do desastre iminente. Sabia que o velho estava certo e que era hora de parar de agir como um tolo. Não poderia ajudar ninguém se morresse aqui.

— Sei onde podemos encontrar uma fazenda — ele disse lentamente. — Bem isolada e cercada. Talvez tenham uma câmara fria ou um porão para armazenar carne que podemos usar. Fica a pouco menos de um dia a sudoeste de Woodsedge.

Dove assentiu.

— Vale a pena tentar. Como você descobriu esse lugar?

O rosto de Tyron ficou branco.

— Tentei comprar água e comida deles, mas me espancaram e roubaram minhas moedas.

Dove soltou uma risada, então gemeu enquanto segurava o ferimento.

— Argh, bosta! Seu… estúpido… de merda. Grandes peitos, isso dói. Você é péssimo nisso, não é?

Tyron sorriu e assentiu.

— Não sou o melhor. Ainda bem que tenho alguém para me aconselhar, certo?

— Não faz mal que você seja um Mago nato, se é que já existiu algum. Seu imbecil. Acho que ouvi seus ossudinhos. Se são eles, vamos andando. Vou chamar o lobo e podemos partir.

— Você… você vai conseguir conjurar?

— Sim, consigo conjurar, caralho. Sai.

Tyron saiu para cumprimentar os poucos soldados restantes e ficou satisfeito de notar que foram suas quatro criações mais recentes as únicas a voltarem, com suas armas de sobra. Finalmente, um pouco de sorte. Sem descanso para os mortos, porém; rapidamente os carregou com os suprimentos e os fez seguir para o sul. Assim que Dove invocasse o lobo, ele os alcançaria rapidamente. Quando voltou para dentro, encontrou Dove ofegante e caído de lado enquanto o majestoso lobo estelar se aconchegava em sua bochecha e lambia seu rosto.

No fim, ele precisou da ajuda de Tyron para sentar-se nas costas da invocação. Uma vez prontos, começaram a jornada. Apesar do caos que, sem dúvida, reinava atrás deles, a lenta jornada foi relativamente pacífica. Pequenos grupos de criaturas das fendas errantes foram eliminados pelos esqueletos com bastante facilidade, em especial porque Tyron tinha magika sobrando para apoiá-los com feitiços e maldições.

O Mago magricela respirava dolorosamente, enquanto o movimento do balanço do lobo inflamava seus ferimentos. Conforme viajavam, eles conversavam de forma intermitente, com Dove ocasionalmente oferecendo sabedoria ou revelando sigilos ou Palavras de Poder específicas com as quais tinha experiência. Por mais que não quisesse cansar o homem, Tyron estava feliz por ter a chance de discutir magika com alguém. Aprendeu muito durante a última semana, mas havia tanto sobre o que tinha dúvidas, tantos novos aspectos da feitiçaria que não teve a chance de explorar.

Ainda não havia usado alguns dos novos feitiços e rituais que aprendeu, algo que o atormentava profundamente. Conseguia refletir sobre eles e rabiscar algumas anotações aqui e ali, mas não havia tempo para uma investigação profunda.

Estava especialmente ansioso para tentar falar com os mortos. Magika desse tipo era algo totalmente novo, falar com os espíritos do além-túmulo. Dove estava menos impressionado.

— Falar com os mortos? — ele ofegou. — Pra que? Eles estão mortos.

— Acho que isso provavelmente levará à capacidade de recrutar fantasmas ou espíritos como lacaios — teorizou Tyron.

O Invocador grunhiu.

— Pelo que entendo, Necromantes não costumam fazer muito “recrutamento”, mas entendi o que você quis dizer. Espíritos são uma má notícia, eles geralmente guardam algum conhecimento e personalidade do falecido.

— Você viu alguns? — Tyron ficou surpreso.

— Algumas vezes. Se você morrer em um lugar com Magika de Morte suficiente, todos os tipos de merda podem acontecer. Aparentemente, há uma fenda na Província Norte que leva a um mundo cheio dessas coisas, não lembro o nome. Todo tipo de desgraçado fantasmagórico sai de lá, incluindo metade dos Exterminadores que entram e morrem.

Assim, continuaram pelo caminho, mas Tyron ficou cada vez mais preocupado com o Mago ferido. Seu rosto estava pálido e suor escorria enquanto ele se curvava cada vez mais sobre o lobo. Depois das primeiras vezes em que perguntou se Dove precisava de ajuda e foi repreendido, ele deixou o homem, mas isso não o impediu de se preocupar.

Após longas horas de caminhada, viajando a maior parte do dia, Tyron começou a se mover à frente do lobo estelar, varrendo da esquerda para a direita na tentativa de localizar a fazenda. Conhecia a localização geral, mas não era como se tivesse marcado o local em um mapa ou anotado pontos de referência. Quase a perdeu, tendo passado pela fazenda, mas a avistou enquanto voltava para se juntar aos esqueletos que viajavam junto do lobo.

Pelo que se lembrava, a fazenda estava cercada por uma alta cerca de madeira com plataformas elevadas simples em intervalos internos. Ele avistou algumas pessoas olhando por cima da cerca, mas se escondeu entre as árvores, esperando não ser avistado. Com o aumento das criaturas das fendas vagando pela área, não era surpresa que estivessem em alerta. Tyron não estava com muita vontade de levar uma flechada na perna de algum fazendeiro nervoso.

Quando retornou e reportou a Dove, um pouco de vida voltou para o rosto dele enquanto se endireitava um pouco.

—… encontrou? Bom. Vamos dizer ‘oi’.

— Estou surpreso que ainda haja alguém aqui. Eles já não teriam sido avisados para irem embora?

Dove balançou a cabeça.

— Sem avisos. Não queremos assustar a população, queremos? Malditos Magistrados. Monstros, cada um deles.

O Invocador começava a arrastar as palavras, com uma luz febril brotando em seus olhos durante as últimas horas. Ele não estava bem, seu ferimento possivelmente estava infeccionando, mas ele não deixava Tyron se aproximar. Os dois se aproximaram do portão, uma visão familiar para o jovem Necromante, mas, desta vez, ele não se incomodou de esconder seus esqueletos. Conseguiam ouvir os fazendeiros chamando e se reunindo enquanto eles se aproximavam, até que um homem mais velho, com o rosto marcado pela desconfiança, subiu para falar com eles por cima da cerca.

— O que vocês querem? — perguntou ele.

‘Não vou me preocupar com sutilezas. Essas pessoas estão nervosas.’

Tyron olhou para Dove e o Invocador lhe deu um aceno cansado antes de responder.

— Eu sou um Exterminador… Estou ferido. Em menos de um dia, talvez só algumas horas… haverá uma ruptura. Precisamos… nos refugiar…

Com a menção de uma ruptura, os olhos do Fazendeiro se arregalaram e uma pitada de medo pôde ser ouvida em sua voz.

— Uma ruptura? Não ouvimos nada sobre uma ruptura. Só que há mais criaturas do que o normal.

Dove cambaleou nas costas do lobo e Tyron correu para ajudá-lo a se equilibrar.

— Por favor. Este homem está gravemente ferido. Ele precisa de ajuda.

— Estou… ótimo.

— Os Exterminadores já batalharam na fenda e perderam! Podemos ajudar a proteger vocês quando os monstros vierem, mas precisam nos deixar entrar!

Os olhos do Fazendeiro percorreram os dois e depois os quatro esqueletos parados atrás deles antes de pararem no lobo estelar por um instante. O espírito astral gigante permaneceu o mais imóvel que pôde para não derrubar seu mestre, olhando por cima do ombro com preocupação com o Mago a quem concordou em servir.

— Bem, isso pode ser verdade, ou não. Nós simplesmente não podemos acreditar em suas palavras.

Tyron olhou boquiaberto para o homem, que se inclinava para falar com alguém lá dentro.

— Você não pode estar falando sério! — ele gaguejou. — Você realmente acha que este homem não é um Exterminador? Ou que ele não está ferido? Use os olhos em sua cabeça! E por que mentiríamos para você?

Quando terminou de falar com alguém dentro do portão, o fazendeiro se endireitou e olhou para eles mais uma vez.

— Eu não saberia dizer. Talvez você esteja tentando nos roubar e tudo isso seja uma farsa. Por enquanto, vamos deixar vocês entrarem, mas quero que entreguem suas armas e pertences para os meus rapazes primeiro.

O porão se abriu com um rangido alto e seis jovens, alguns dos quais Tyron infelizmente reconheceu, emergiram de dentro, cada um segurando um porrete ou uma arma simples. Eles tinham expressões feias enquanto se aproximavam e Tyron sentiu um aperto no estômago.

— Não deveríamos ter vindo aqui — ele disse enquanto recuava lentamente. — Nós podemos sair.

Com um comando mental, aproximou seus esqueletos, os quatro mortos-vivos fizeram os seis assaltantes hesitaram por um momento.

— Eu não acho que você deveria — o Fazendeiro disse a ele e Tyron olhou para cima e viu que vários outros fazendeiros, homens e mulheres, todos com arcos prontos. — Pelo menos, não enquanto carrega todos esses fardos.

‘Quantos roubos esses babacas cometem? Isso é loucura!’

— Você realmente vai atacar um Exterminador? — Tyron questionou, incrédulo. — Isso é suicídio!

O Fazendeiro riu.

— Eles não podem revidar, então parece perfeitamente seguro para mim.

Dove caiu para frente, mal conseguindo se segurar nas costas do lobo enquanto esticava o pescoço e sussurrava algumas palavras nas orelhas dele. Então, pressionou o ferimento e olhou para fora de suas costas, pousando no chão com um baque. Tyron se ajoelhou ao seu lado, tentando ajudar, mas o Invocador o empurrou fracamente.

— Me dê algum espaço, garoto — ele sussurrou. — Isso vai ser… uma bosta.

O lobo rosnou para eles, com os dentes à mostra, enquanto avançava lentamente em direção aos trabalhadores rurais que se aproximavam. Antes que Tyron compreendesse o que acontecia, antes que conseguisse sequer reagir, o lobo avançou, com as mandíbulas se fechando e os gritos começaram. Quem era mais barulhento, os Fazendeiros ou Dove, Tyron jamais conseguiria dizer.

O fedor de sangue pairava no ar quando tudo terminou. Insensível a tudo aquilo, Tyron tentou não olhar para os corpos mutilados espalhados por todo o complexo. Especialmente, não queria notar os mais jovens. Em vez disso, concentrou-se em Dove. O Exterminador reagiu no instante em que seu lobo atacou, gritando de dor e se contorcendo no chão até desmaiar completamente perto do fim. Quando o lobo voltou, com o focinho e pelos cobertos de sangue, Tyron tentou o seu melhor para carregar o Mago para dentro do complexo e acomodá-lo confortavelmente em uma cama.

Vasculhou a casa em busca de bandagens, água fresca e quaisquer ervas que pudesse encontrar que parecessem remotamente medicinais antes de retornar e remover o pano incrustrado e o que restava da camisa de Dove. Só então conseguiu dar uma boa olhada na verdadeira extensão do ferimento e respirou fundo ao vê-lo. Quando a bandagem foi retirada, o cheiro nauseante de infecção preencheu o ar, com sangue preto escorrendo pela sujeira e bagunça que restava do estômago do Invocador.

— Puta merda — Tyron gaguejou ao tentar limpar o melhor que podia. — Puta merda.

O homem deveria estar morto. Sem a resiliência sobrenatural que alguém do seu alto nível poderia alcançar, ele provavelmente estaria, mas mesmo Exterminadores de alto nível não eram imortais, algumas coisas simplesmente não podiam ser resistidas.

— Garoto — Tyron ouviu um sussurro e olhou para baixo para ver os olhos do Mago abertos de novo. — Deixe para lá… e… escute.

Tyron piscou para conter algumas lágrimas e se conter. Não podia continuar agindo como tolo, não faria coisas inúteis. Uma parte dele queria argumentar, continuar tentando tratar o ferimento e convencer Dove a continuar lutando, mas sabia que não ajudaria. Em vez disso, inclinou se o mais perto que podia para que pudesse ouvir o Mago falar.

Dove tossiu e cuspiu sangue no travesseiro ao seu lado.

— Porra… isso dói, mas não tanto… quanto a marca… puta merda… isso foi horrível — ele respirou fundo algumas vezes. — Assim que eu morrer… você deve procurar um porão… as proteções… estão na minha mochila… você… vai descobrir… seu filho da puta talentoso. Só se lembre, quem culpar… não foi você… Magistrados. Sempre… aqueles putos… não deixaram… seus pais virem ajudar… preferiram deixar… todo mundo morrer… do que admitir que… erraram.

Ele caiu em silêncio enquanto reunia sua força de novo.

— Fique escondido… — ele sussurrou… — Fique forte… então… faça alguma merda… contanto que você leve… alguns deles… com você…. então tudo valerá a pena…

Tyron assentiu enquanto os olhos ficavam turvos.

— Você é especial… garoto… o deus renascido…. da magika, cacete… estou te dizendo… bolas… grandes… pra caralho…

A voz do Mago sumiu quando sua consciência se esvaiu, mas Tyron permaneceu ao lado da cama por mais uma hora até que o Invocador faleceu.

Completamente entorpecido, Tyron encarou o cadáver do seu… amigo, incapaz de processar a culpa ou choque pelo que sua vida havia se tornado. Ele observou o rosto do Invocador por um longo tempo até seus olhos começarem a percorrer o quarto sem rumo, sua cabeça se movendo por conta própria.

Então, seu olhar recaiu em sua mochila, onde a deixou cair. O conteúdo havia se espalhado pelo chão e ele olhou para os que estavam ao lado. Alguma carne seca, seu foco ritualístico, uma caneta de aço e seu caderno. Quase como se estivesse em transe, dirigiu-se ao caderno e o pegou, folheando as páginas distraidamente enquanto seus olhos finalmente começavam a se concentrar em algo, as anotações, os sigilos e as runas que havia rabiscado dentro. Como tantas vezes fez em sua vida sem perceber, evitou a dor mergulhando em algo que sentia que podia controlar: Magika.

Um dia depois, Tyron, com as mãos nos joelhos, encarou o crânio polido diante dele. Globos de luz pairavam no ar do porão, iluminando os nove círculos concêntricos que havia desenhado no chão. De um lado, estava o foco ritualístico, abandonado agora que o trabalho estava finalmente completo.

O Necromante estava uma bagunça. Seus olhos estavam injetados de sangue e suas mãos tremiam, enquanto ele continuava a encarar o crânio, procurando por qualquer sinal de que tivera sucesso. Sentiu o gosto da bile na garganta, mas não se importou, isso o consumiu por vinte e quatro horas seguidas e ele não pensou em mais nada, não fez nada além de se preparar para este momento desde então. Seus olhos ardiam com uma luz maníaca à medida que encarava, com baba escorrendo pelo queixo enquanto concentrava todo o seu ser neste crânio.

A princípio, não havia nada, mas seus olhos não vacilaram. Então, um lampejo, um tênue indício de uma chama roxa se acendeu dentro das órbitas vazias. Lentamente no início, mas com velocidade crescente, a chama cresceu até queimar tão intensamente quanto a de qualquer outro lacaio.

Um sorriso irônico se espalhou pelo rosto de Tyron ao ver o crânio ganhar vida, mas ainda não se moveu. Ainda não havia conseguido.

O crânio permaneceu sem vida no chão, no centro do intrincado círculo de ritual, por muito tempo. Então, uma voz emanou dele.

— Ah, você não fez isso, filho da puta.

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