Livro dos Mortos

Volume 1 - Capítulo 44

Livro dos Mortos

Ele foi um tolo por vir aqui tão perto das terras devastadas. Tyron piscou e esfregou os olhos enquanto respirava lentamente para acalmar o coração. Suor escorria de sua testa e sua pele parecia coberta de terra. Suas roupas certamente estavam.

Conseguia sentir o efeito de distorção das terras devastadas afetando a periferia dos seus sentidos. Se avançasse trezentos metros para o norte, cruzaria o limiar e estaria no meio dele, mas ele não ousou.

Apesar do fato de um exército de Exterminadores ter invadido a área e massacrado tudo o que podiam, apesar de terem conseguido cruzar para o outro lado e estarem impedindo que novas criaturas da fenda aparecessem, ele ainda estava sob imensa pressão.

Mordeu o doce de Mago em sua boca e engoliu o fluxo de magika contido nele. Suas mãos se ergueram e passaram de sigilo em sigilo enquanto falava as Palavras de Poder, firmando um feitiço com velocidade.

‘Lâminas da Morte.’

A energia fluiu de seu corpo e se contorceu através dele em rastros escuros, infundindo-se nas armas que seus esqueletos seguravam. Felizmente, apesar do nome, não importava se os lacaios estavam de fato armados com lâminas; o feitiço também funcionava com uma maça ou lança. Seus nove lacaios golpearam com vigor renovado e o dano adicional fornecido pelo feitiço ajudou a repelir os monstros ao redor e deu aos seus esqueletos menos ágeis algum espaço para respirar.

Assim como para ele.

Tyron fez uma careta, mas não hesitou em pegar outro pedaço do doce de Mago de seu bolso e o jogar em sua boca, começando mais uma vez um feitiço voraz por magika. Combinadas com o dreno constante que seus lacaios lhe causavam, as conjurações repetidas estavam levando-o ao limite, mas ele tinha pouca escolha.

Confiando em seus esqueletos para protegê-lo, ele fechou os olhos brevemente e se concentrou antes de começar a falar mais uma vez. Outra magika desconhecida, outra situação em que tinha pouca escolha a não ser ir em frente. As palavras da maldição eram desconhecidas para ele, nada parecidas com o que havia estudado no passado. Quando tivesse tempo…

‘Neste ritmo, você nunca mais terá tempo livre pelo resto da vida!’

Não, ele teria! Ele estava animado para mapear e desenvolver sua compreensão deste novo campo da magika. Curioso o suficiente para se sentir tentado a escolher a Maldição Desconcertante apenas para expandir seu vocabulário.

Suas mãos se moviam pelo ar e, no momento crítico, ele mordeu novamente o cristal enquanto um fluxo de poder o percorria, formando um miasma escuro e brilhante que se apoderou do chão ao seu redor. Uma névoa negra coberta de flocos de gelo se expandiu em um círculo ao seu redor, passando pelos tornozelos dos seus esqueletos sem efeito, mas grudando nas criaturas das fendas que tocava.

Conforme observava a maldição surtir efeito, a névoa parecia penetrar em todos os monstros que tocava, desacelerando-os visivelmente, o que ajudou a diminuir a lacuna entre as criaturas e seus lacaios. Não mais superados em velocidade e capazes de cortar a quitina de seus inimigos, os esqueletos começaram a progredir, derrotando a multidão de monstros ao seu redor.

Exausto e com a garganta rouca, Tyron mais uma vez esfregou os olhos enquanto observava a batalha ao redor. Informações fluíam constantemente para sua mente, vindas de seus lacaios, mas ele os deixou lutar sem sua orientação. Fatigado como estava, tentar orientá-los provavelmente pioraria seu desempenho.

‘Havia mais alguma coisa que eu poderia fazer para ajudar?’

Ele manteve os olhos abertos enquanto a confusão continuava a ocorrer ao seu redor, buscando uma chance de lançar um raio magiko ou aplicar Suprimir Mente. Sentiu o enjoo aumentando, a sensação nauseante de envenenamento magiko começando a se espalhar por seu corpo e decidiu se conter. A menos que um de seus esqueletos precisasse de sua intervenção para salvá-lo, ele não forçaria. Precisava conservar o máximo possível de sua energia.

À medida que observava seus esqueletos lutarem, abatendo as criaturas das fendas menores e se agrupando para enfrentar as maiores, Tyron considerou mais uma vez que foi um erro para ele estar aqui. Havia muitas criaturas das fendas e elas eram fortes demais para seus lacaios lidarem.

Se não tivesse mastigado seu último doce de Mago e usado seus novos feitiços, poderia muito bem ter morrido ali, incapaz de escapar depois que seus esqueletos caíssem. Eles estavam vencendo a luta, mas não sem custos. Seus lacaios sofriam danos que ele não tinha como reparar. Ele queria ficar e ajudar os Exterminadores a recuar, mas, se tivesse que lutar por muito mais, perderia todos os seus lacaios e teria exaurido por completo sua magika.

Neste ponto, seriam os Exterminadores que teriam de resgatá-lo, o que dificilmente fariam durante uma retirada de combate.

Durante os próximos minutos ele observou com ansiedade enquanto seus lacaios continuavam a batalha até que a última criatura da fenda foi derrotada. Ele não havia perdido um único esqueleto, embora todos estivessem com ossos rachados e outros danos.

‘É melhor eu conseguir uma habilidade de reparo ósseo logo. Aparentemente consigo fazer o que quer com a carne, mas não consigo fazer nada com ossos.’

Claramente, o Invisível estava mostrando sua parcialidade. Ou, mais provavelmente, como os esqueletos eram lacaios mais fortes, ele precisava de um nível mais alto antes de conseguir mais escolhas relacionadas a eles.

Cansado demais para sequer se dar ao trabalho de recuperar os núcleos dos monstros caídos, Tyron reuniu seus mortos-vivos e tentou avaliar a situação. Estava quase sem energia. Era provável que sofresse as consequências do uso excessivo do cristal em breve e seus esqueletos estavam enfraquecidos.

Levaria uma hora, talvez mais, para recuperar sua magika, isso se seus esqueletos permanecessem parados, minimizando o gasto em suas reservas. Aqui, na borda da fenda, onde as criaturas ainda vagavam em grande número, não havia a menor chance de ele ter uma hora de paz para si.

Sabia o que devia fazer. Devia recuar, retornar à cabana, empacotar suas coisas e fazer o que Dove lhe disse. Se começasse agora, havia uma chance de que pudesse evitar o perigo. A sudoeste, poderia abraçar as montanhas e se refugiar nas comunidades rurais de lá. Pelo que sabia, essas pessoas eram resistentes, muito independentes das maquinações da província. Com um pouco de sorte poderiam não ter ouvido sobre um Necromante fugitivo.

Quando as criaturas das fendas avançassem, incendiariam milhares de quilômetros quadrados de terra, mas era provável que não subissem as montanhas. Eles seguiriam pelo terreno para o oeste, em direção à região mais vulnerável, onde todas as comunidades agrícolas da província praticavam seu comércio. Havia uma dúzia de ‘Foxbridges’ e centenas de vilarejos menores entre Woodsedge e a capital, Kenmor.

A bile revirou em suas entranhas. Apesar de seus melhores esforços, Tyron não conseguiu se livrar da culpa que o atormentava desde sua conversa com Dove. O Invocador havia dito que nada disso era sua culpa, que ele deveria correr e se esconder até que tudo terminasse, mas ele realmente conseguiria fazer isso? Seria capaz de virar as costas para esta tragédia, ir embora e abandonar as pessoas ao destino? Por mais que tentasse, não conseguia se livrar da acusação que fazia a si mesmo, de que nada disso estaria acontecendo sem o seu envolvimento. Se não tivesse tomado as atitudes que tomou, se não tivesse se recusado a se entregar, todas essas pessoas, dezenas de milhares delas, estariam seguras.

Quanto mais pensava nisso, mais distorcidos e confusos seus pensamentos se tornavam. Seu desejo de fazer o certo entrava em conflito com seu anseio por autopreservação. Para complicar ainda mais, ele não tinha a mínima ideia do que seria o certo. Estava preso em um beco sem saída, onde desejava desesperadamente que pudesse fazer algo para ajudar, mas era incapaz de aceitar que era impotente demais para isso. O resultado o deixou paralisado, querendo avançar, mesmo sabendo que deveria recuar.

Enquanto permanecia ali, paralisado pela indecisão, com os olhos fixos no céu retorcido e agitado acima das terras devastadas, a decisão lhe foi tirada.

Um gemido profundo ecoou da fenda, aumentado de volume até parecer que o ar ao seu redor começou a vibrar. Despertado de seus pensamentos, Tyron olhou para cima e viu algo que nunca imaginou: outro mundo estava descendo.

Tão perto das terras devastadas, as árvores da floresta eram escassas, mas adiante delas ele conseguia ver. A imagem era fantasmagórica, uma aparição, mas, começando a se sobrepor à tempestade acima, estava um horizonte diferente, o de um mundo despedaçado com o céu em chamas. Como se a própria terra fosse um tambor tocado pela mão de deus, o solo sob seus pés começou a tremer. As árvores ao seu redor tremeram, o sussurro das folhas se movendo e se elevando a um rugido ensurdecedor. Ele se agachou instintivamente e olhou para cima com horror para a aparição que se adensava diante de seus olhos.

‘A ruptura? Agora? Não pode ser! É muito cedo!’

Dove lhe disse que haveria dois dias após o fracasso da expedição. Ainda deveria haver tempo. Por outro lado, Tyron não sabia como uma ruptura realmente se parecia, nunca tinha visto uma antes. Seria um sinal de que estava acontecendo agora ou que aconteceria logo?

Ele foi forçado a se agachar para se equilibrar enquanto o mundo continuava a tremer ao seu redor, e ordenou que seus servos fizessem o mesmo. Podia ouvir ao longe o estalo da madeira enquanto as árvores começavam a tombar, mas mesmo esse barulho calamitoso não podia se comparar ao som de Nagrythyn se aproximando.

‘Corra!’

Confrontado com este evento que abalou o mundo, não havia nada que ele pudesse fazer, afinal quem era ele? Um Exterminador solitário de nível dez, sem treinamento e sem experiência. Ele não faria diferença aqui e foi um imbecil em pensar que podia. Tentou correr, mas tropeçou rapidamente. O chão estava tremendo demais para permanecer em pé. Mesmo seus esqueletos estavam com problemas, vários haviam caído e se impulsionavam do chão com seus membros ossudos enquanto tentavam se levantar.

Se o tremor era tão forte agora, o que aconteceria quando a ruptura em si ocorresse? Tyron tinha um medo crescente de que, quando isso acontecesse, estando tão perto do epicentro, o impacto por si só o mataria, sem precisar das criaturas da fenda que emergiriam.

— Malditas pernas, movam-se! — ele rugiu para si mesmo enquanto se forçava a se levantar.

Passo a passo, trêmulo, ele começou a recuar para a floresta. Não ousou olhar para trás, com medo do que poderia ver. Dois céus se sobrepondo, duas tempestades furiosas sobrenaturais ocorrendo ao mesmo tempo era uma visão entorpecente e aterrorizante. Se piorasse, ele poderia simplesmente congelar no lugar. Poderia não chegar muito longe, mas tinha que se afastar o máximo possível.

‘Sou muito burro. Por que estou aqui?’ ele se repreendeu.

Não havia nada a ganhar com o arrependimento. Ele voltaria para a cabana, reuniria seus suprimentos e escaparia. Ele sobreviveria! Recusava-se a cair aqui e agora.

Um estrondo ensurdecedor explodiu atrás dele, acompanhado de um clarão que iluminou as árvores ao redor, apesar das nuvens fervendo acima. Tyron estremeceu quando uma dor aguda perfurou seus ouvidos, mas cerrou os dentes e continuou caminhando sem olhar para trás, tentando desesperadamente se manter de pé. Então, ouviu um rugido fraco, mas que o fez parar imediatamente. Seria um humano? Ele parou os passos, tropeçando enquanto o chão continuava a se mover sob ele, e esperou. Ali, escutou de novo, e aquele som estridente, o choque de armas?

Suavemente, mas cada vez mais alto, detonações, gritos de guerra, armas colidindo. Os Exterminadores haviam retornado!

Com os olhos arregalados, Tyron se virou. A princípio, não conseguiu ver nada, mas então formas começaram a aparecer à distância, saindo das terras devastadas em pequenos grupos, serpenteando entre as árvores enquanto travavam uma batalha constante. Lá estava ele, cercado por esqueletos, a luz etérea dos mortos-vivos queimando em seus olhos, enquanto os Exterminadores se aproximavam de sua posição. Ele estava no sul da fenda e eles teriam que passar por onde ele estava para retornar para Woodsedge!

Ele veio determinado a ajudar, sabendo que isso o revelaria, mas agora que chegou o momento, não sabia como reagir. Mais uma vez, perguntou-se o que estava pensando quando decidiu isso, em quantos níveis poderia falhar em pensar logicamente?

O primeiro Exterminador a notá-lo foi uma mulher que ele não reconheceu. Sua armadura, feita de quitina, estava rachada em várias partes e ela sangrava em vários lugares nos braços. Em suas mãos, empunhava um machado de duas mãos, cujo fio brilhava intensamente, encantado de alguma forma. Os olhos dela estavam cansados além da conta, mas, no instante em que seus olhos se encontraram, ele sentiu o desejo ardente dela de sobreviver ao confronto e atravessá-lo como um raio. Em um instante, seus olhos se moveram dele para seus lacaios, então ela gritou.

— Corra, energúmeno! — ela gritou, sem desacelerar por um instante. — Elas estão vindo!

Apesar da terra tremendo, ela corria com facilidade, passando por ele em poucos segundos enquanto continuava a gritar e reunir os Exterminadores ao seu redor. Mais deles vieram, correndo para a segurança quando ele começou a ver os contornos vagos das criaturas das fendas na névoa.

— Levante-se!

— Corra, anencéfalo!

— Vamos, levanta!

Um Mago parou o suficiente para estender a mão para Tyron, ignorando completamente os esqueletos ao redor dele, puxando-o e o ajudando a se firmar enquanto o fazia se mover.

— Vá para o sul e não pare, garoto! — o Mago gritou e se virou, com as mãos iluminadas pela magika.

Segundos depois, ele empurrou a palma e disparou um raio que atravessou o ar.

— Corra! — ele gritou sobre o ombro.

Com medo, confuso e completamente consumido pela culpa, Tyron fez o possível para correr. Gaguejou e tropeçou enquanto lágrimas começavam a escorrer de seus olhos, obscurecendo sua visão e dificultando ainda mais a fuga. Enxugou-as com raiva à medida que se arrastava para frente, Exterminadores passavam correndo por ele ou viravam para lutar contra os monstros que se aproximavam demais. Por vários minutos, ele continuou assim, embora parecessem anos, seu progresso glacialmente lento, apesar de não parar, determinado a escapar.

Então, ele o ouviu.

— Seu filho da puta estúpido! — alguém rugiu atrás dele. — Vou cortar suas malditas bolas fora! LOBO!

Desorientado e cego, Tyron quase não percebeu quando sentiu algo prendê-lo em suas mandíbulas e levantá-lo do chão.

‘É isso’, ele pensou estupidamente. ‘Estou morto’.

Exceto que a morte não veio. Confuso, virou a cabeça para ver o desprezo queimando no olho do lobo estelar, com Dove montado em suas costas enquanto a besta massiva o segurava em suas mandíbulas. O Mago parecia um inferno, curvado com um braço agarrado à barriga, com vários cortes e arranhões no rosto.

— Você não deveria estar aqui, seu arrombado! Vamos dar o fora daqui!

O lobo disparou, a criatura incrível capaz de suportar o peso de dois homens e correr, apesar do chão ainda tremer. Tyron tinha a vaga consciência de que seus esqueletos estavam lutando para acompanhá-los e ordenou que os seguissem da melhor forma que pudessem, antes que a distância entre eles fosse grande demais. Sem mais nada para fazer, ele fechou os olhos e deixou tudo para o destino.

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