Livro dos Mortos

Volume 1 - Capítulo 43

Livro dos Mortos

Tyron levou longas horas de trabalho para preparar seus lacaios, nem de perto tanto quanto ele gostaria. Ele quase conseguia imaginar como seria para um novo Necromante tentar aprender em um ambiente sem perseguição. Ele dedicava tempo para praticar cada técnica, sem ter que apressar cada passo. Ele poderia passar uma semana testando diferentes métodos de infundir magika nos ossos, ou costurando um esqueleto e depois dissolvendo os fios para tentar novamente.

O que ele daria por esse tipo de ritmo relaxado, em que pudesse pesquisar e dedicar seu tempo para descobrir cada passo do processo, elevando seus feitiços e habilidades para o nível 10 antes mesmo de chegar ao nível vinte em sua Classe. Talvez até mesmo se dedicando a escolher uma Subclasse que fosse adequada para ele, combinando as duas para criar algo maior do que a soma das partes. Se tudo estivesse segundo os planos que havia imaginado antes do Despertar, ele estaria fazendo isso agora. Enclausurado em uma academia de mago, praticando magika e ajustando seu caminho para o nível 80, onde se juntaria à elite, como Magnin e Beory.

Ele não tinha nada disso. Em vez disso, fez o melhor que pôde, tecendo os tendões e articulações necessários para a criatura se mover usando fios de pura magika. Sua compreensão da técnica havia melhorado mais uma vez, uma conquista reconhecida pelo Invisível, e ele sentia esse ganho enquanto trabalhava. Quando se recordava de quão difícil foi quando teceu seu primeiro esqueleto – o número de vezes que se atrapalhou e teve que refazer seu trabalho – era quase um milagre que a criação final tenha sido capaz de se mover. As articulações estavam desleixadas, os fios não estavam alinhados corretamente, a musculatura estava, na melhor das hipóteses, deformada e, na pior, simplesmente errada.

Comparando com o presente, ele conseguia tecer com competência um esqueleto inteiro sem ter que parar nem uma vez. Ele se movia metodicamente de osso em osso, começando com a perna esquerda, depois a direita, unindo os tornozelos, dedos dos pés e joelhos. Esses eram componentes essenciais da trama final; se as pernas não fossem feitas corretamente, o esqueleto se desintegraria ou seria esmagado em combate por ficar desequilibrado ou por ser muito lento. Os joelhos em particular precisavam de um trabalho minucioso, pelo o peso que sustentavam.

Com as pernas concluídas, ele passou para a cintura e o peito, depois para a coluna. A coluna era de longe a seção mais tediosa de se trabalhar; cada um dos ossinhos precisava ser cuidadosamente encaixado no próximo com um trabalho de costura delicado, mas descomplicado, necessário para permitir que os ossos flexionassem como necessário. Por fim, o crânio era, estranhamente, o mais simples de completar. Fazia sentido quando se pensava nisso; os músculos faciais usados para expressões, comer ou falar eram completamente desnecessários para seus lacaios. Muito pouco trabalho era feito ao redor do maxilar. A maior parte do tempo era gasto na base do crânio, onde se conectava à coluna.

Assim que a costura foi concluída, ele começou a inspecionar e infundir os ossos da melhor forma que podia. Usou uma nuvem de energia arcana sem forma para deslizar sobre os ossos, procurando por imperfeições e vazamentos, depois fechando-os da melhor maneira possível. Assim que a tarefa foi concluída, ele trabalhou para infundir os restos mortais com o máximo de Magika de Morte que conseguia. Em circunstâncias ideais, ele passaria alegremente uma semana nessa etapa, tentando diferentes abordagens e buscando trazer as coisas a um estado ideal. Mesmo que deixasse apenas os ossos ao lado uns dos outros ao longo do tempo, permitiria promover aquela troca estranha de magika que observou no passado.

Ainda não sabia se o processo continuava depois de ressuscitados, algo que adoraria investigar se tivesse tempo. Do jeito que a situação estava, ele não tinha tempo para fazer mais nada além de ressuscitar lacaios e lutar.

Examinar quatro conjuntos de ossos dessa maneira era demorado e mentalmente desgastante. Se não tivesse se concentrado ao máximo, duvidava que conseguiria se concentrar por tanto tempo. Era um trabalho extenuante e detalhado, mas ele cerrou os dentes e se esforçou até finalmente terminar. O único passo que restava era conjurar Ressuscitar Mortos quatro vezes consecutivas para ter seus lacaios mais recentes prontos para batalha. Fez uma pequena pausa para regenerar sua magika, comer alguma coisa e reunir energia, depois se lançou naquilo.

Assim como suas habilidades de costura, sua habilidade de conjurar Ressuscitar Mortos havia melhorado drasticamente desde aquela primeira tentativa. Estava muito mais confortável com os ritmos do feitiço, os gestos e as entonações necessárias para moldar a energia arcana nas formas necessárias. Em muitos aspectos, o feitiço que conjurava agora não se parecia em nada com aquele que usou da primeira vez. Frases foram mudadas, a ordem modificada, certas seções foram resumidas enquanto outras foram expandidas. Com a ajuda do seu foco ritualístico, o fluxo de energia era suave e ininterrupto, fluindo para os ossos enquanto criava cada um dos elementos necessários para formar um morto-vivo funcional.

Conjurar quatro vezes seguidas era demais, mesmo para sua vasta reserva de magika, e depois da terceira, ele precisou recorrer ao seu estoque cada vez menor de doces do Mago para produzir a energia necessária. Com a quarta conjuração concluída, Tyron estava trabalhando há oito horas seguidas, mas se recusava a descansar. Com seu último avanço, esses quatro esqueletos representavam o pináculo de suas conquistas mais uma vez, os únicos quatro que se beneficiaram da ajuda adicional do Invisível fornecida pelo seu segundo talento. Ele odiava que a força dos seus lacaios fosse tão desequilibrada. Se possível, preferia esqueletos inteiramente novos, apagando os antigos para dar lugar a outros, mas não podia se dar ao luxo de tal desperdício.

Tyron se levantou e saiu da cabana, convocando rapidamente todos os seus nove lacaios para o seu lado. Logo, distribuiu as armas que tinha disponíveis entre eles e era hora de sair. Ele havia recuperado um segundo escudo no dia anterior e certificou-se de que suas últimas criações os empunhassem. Eles eram de longe os mais ágeis e resistentes dos seus esqueletos: se algum deles fosse sofrer algum golpe, queria que fossem eles. Encostou no bolso em que guardava uma pequena bolsa de doces de Mago. Precisava se esforçar bastante nas próximas vinte e quatro horas; os Exterminadores já teriam chegado à fenda naquela altura. Se quisesse ser útil de alguma forma, precisava chegar lá rapidamente e fazer sua parte para remover os monstros na área.

Não era muito, mas era tudo o que podia esperar fazer.

Ele partiu em um ritmo acelerado e ficou satisfeito de notar que os nove esqueletos ao seu lado drenavam magika mais lentamente do que esperava. Não sabia por que, mas talvez o segundo talento, Foco em Esqueleto, tivesse reduzido o custo para manter seus esqueletos mais do que esperava, ou sua crescente habilidade tivesse tornado o processo de alimentá-los com energia mais eficiente. Independente do motivo, ele estava feliz por isso, afinal poderia ter suportado um décimo, mas não se arrependia da ausência do lacaio adicional. Com a magika extra, poderia utilizar outros feitiços e elevar seus níveis. Era provável que poder conjurar Suprimir Mente com mais frequência ou fazer uso de sua nova maldição ajudasse mais a manter seus esqueletos vivos do que lutar com um a mais.

Decidido a fazer o que pudesse, Tyron marchou em frente, com as formas silenciosas dos mortos-vivos dispostas ao seu redor.

***

Nas terras devastadas Na opinião de Dove, era lindo quando os Exterminadores trabalhavam junto. Competidores na maioria do tempo, lutando por missões, acumulando recursos e tentando subir de rank antes dos outros, a cooperação não era algo comum entre eles. Ainda assim, quando chegava a hora da verdade, ele gostava de pensar que todo Exterminador sabia que podia contar com o apoio dos outros. E quando a merda realmente batia no ventilador, quando as coisas ficavam feias, eles se uniam e davam uma surra em qualquer coisa que precisassem, ou morriam tentando.

Foi quase suficiente para fazê-lo se sentir sentimental.

— Dove, você poderia parar de brincar e colocar o seu traseiro magricelo na luta? — rugiu Monica para ele, abandonando qualquer vestígio de seu decoro usual.

— Monica? — ofegou ele. — Pensar que eu ouviria uma linguagem tão horrível de você, quando há outros por perto para ouvir o que você diz?!

Ela resmungou e lançou outra bola de fogo em direção à linha de frente.

— Estarei morta ao fim do dia, a reputação pouco importa agora.

— Tsc-tsc. Podemos não ter esse papo de derrota aqui. Nós teremos sucesso! A vitória é praticamente garantida! Sinto isso na minha bola esquerda.

Uma mistura de confusão e repulsa passou pelo rosto da amiga enquanto ela processava as palavras dele.

— Por que a esquerda? — ela finalmente perguntou.

Dove sorriu e levantou um dedo.

— Ora, a esquerda pode ver o futuro, é claro, enquanto a direita pode espiar o passado.

— E seu pau pode dividir o presente, nós entendemos. Agora, lance alguns feitiços ou vou te queimar, como eu deveria ter feito no dia em que te conheci.

Desapontado por ter perdido sua piada, Dove fez beicinho, movendo as mãos e agitando o arcano dentro dele.

— Eu estava esperando minha magika se recuperar, você devia saber. Invocar exige muito de mim, como você bem sabe.

— Ótimo, agora use sua Subclasse e taque fogo em alguma coisa.

Foi um erro se aventurar em magika de combate com sua terceira Subclasse. Os atributos eram ótimos e o poder de fogo adicional o tornava útil em muitas mais situações, mas ele odiava nunca ter tempo livre. Se não estivesse controlando suas invocações, esperava-se que estivesse lançando fogo e gelo ao redor como um soldado de ferro sem cérebro em sua primeira expedição.

Palavras de Poder saíam de sua boca enquanto suas mãos se moviam e, em instantes, uma bolsa de fogo apareceu no ar diante dele. Ela ficou mais quente e mais brilhante ao longo de vários segundos, antes que ele empurrasse as mãos para frente e a chama disparasse para longe, projetando-se sobre os guerreiros à sua frente para detonar em meio à massa de monstros além.

— Você sabe que esta seria uma boa oportunidade para subir alguns níveis em uma circunstância normal — disse ele para Monica. — Minha falta de pontaria não é particularmente relevante nessas condições.

— Cale a porra da boca e conjure! — ela gritou de volta.

O barulho vindo da batalha aumentava e diminuía enquanto feitiços e habilidades eram liberadas com efeitos devastadores. Luzes brilhavam, criaturas rugiam e sibilavam, e gritos de guerra ecoavam repetidamente enquanto os Exterminadores em massa avançavam em direção às terras devastadas. O barulho atraiu as criaturas das fendas como uma chama atrai mariposas, que saíram da floresta para atacar os humanos, sibilando e gritando de raiva. Exterminadores de olhos frios ajustaram seus escudos, prepararam suas armas e atacaram, cortando grupos de criaturas, mas sofrendo ferimentos em troca.

No centro da linha e da luta mais intensa, lutavam os Exterminadores de rank prata, aqueles acima do nível 40 em suas Classes principais, que enfrentavam de igual para igual os maiores e mais cruéis inimigos. As criaturas de Nagrythyn eram monstros insetoides retorcidos, feitos de quitina e carne deformada e agora Dove via bestas que nunca havia encontrado, nem mesmo do outro lado da fenda. Brutos corpulentos do tamanho de uma casa, com conchas tão grossas quanto o corpo de um homem, rugiam e se debatiam entre as massas de criaturas menores. Eles só podiam ser abatidos quando vários Exterminadores avançavam para cercá-los, evitando suas lâminas mortais e dentes afiados como navalhas e cortando a armadura espessa pedaço por pedaço para finalmente infligir dano fatal.

Os núcleos desses monstros valeriam uma fortuna, suficiente para sustentar cada Exterminador aqui por um ano, especialmente se fossem capazes de colher e vender a quitina, mas esta não era uma aventura por dinheiro. Não era nem mesmo a luta por sobrevivência, que ainda estava por vir. Esta batalha só servia para ganhar acesso à fenda. A luta durou horas enquanto Dove continuava a esvaziar a mana que possuía lançando feitiços ou invocando seus contratos. Cada invocação que tinha disponível era invocada até que a energia que formava o corpo da criatura neste plano fosse dispersada e retornassem ao astral, quando começaria a invocar a próxima.

Quando a batalha terminou, todas as suas dez invocações estavam esgotadas e suas reservas de magika estavam completamente secas. Com uma careta, o Mago retirou um fragmento de doce de sua bolsa de viagem e o colocou em sua boca, uma ação repetida por uma dúzia de Magos ao longo da linha.

Quase mil e duzentos Exterminadores haviam se juntado à expedição às terras devastadas, e, olhando ao redor, Dove acreditava que já haviam perdido uma porção deles. Por mais que tentassem, um rank ferro que ainda não estava no nível vinte sempre seria de pouca utilidade em um lugar como este. Mesmo assim, ele saudou a coragem deles. Eles se ofereceram para vir apesar dos riscos. Eram heróis aos seus olhos.

— Dove! Venha aqui e dê uma olhada nisso.

A voz de Rogil se elevou sobre a luta em andamento e Dove caminhou até a fonte do som, onde encontrou seu amigo pingando suor, com uma expressão abatida enquanto olhava para as fendas.

— Pelos melões generosos da deusa, você parece uma bosta.

— É o braço — resmungou Rogil. — Quase arrancaram de novo. Dói para caralho.

— Aposto que sim.

Ele desejava que pudesse fazer algo, mas não podia e Rogil sabia que nada podia ser feito, então seguiram em frente.

— O que você precisa? — perguntou Dove, com um tom profissional incomum.

— Não temos nenhum Mago Dimensional puro, então queria que desse uma olhada na fenda. Ela está estável o suficiente para atravessarmos?

— Está muito estável, esse é o maldito problema.

A luta não havia parado, mas sim se acalmado. Todas as criaturas das fendas que haviam inundado este mundo através das terras devastadas foram destruídas, mas havia mais surgindo o tempo todo. Conforme apareciam, os Exterminadores se revezavam para derrotá-las enquanto os outros descansavam e reuniam forças para o verdadeiro teste que estava por vir.

Dove levantou as mãos e ativou sua visão magika. O que ele viu era quase cegante, mas ele suportou por vários segundos enquanto estudava a fenda.

— Está se estabilizando rápido. Muito rápido. Podemos atravessar, sem problemas, mesmo com todos aqui. Porra, poderíamos ter trazido o dobro.

— Não tínhamos o dobro para trazer — cuspiu Rogil.

Dove ficou em silêncio e seu líder de time olhou para ele. O Mago estava estranhamente abalado, seu rosto pálido e suor escorrendo pela testa.

— O que foi, Dove? — ele perguntou.

O Invocador estremeceu e olhou para o amigo.

— Oh. Eu só… nunca vi isso de tão perto. Nagrythyn, quero dizer.

— Conseguiu dar uma boa olhada? É o que acontece durante uma ruptura. Você sabe mais sobre isso do que eu.

Dove engoliu em seco.

— Mas eu não esperava ver isso, né? — murmurou ele com um toque sarcástico. — Não deste lado da fenda.

Dois reinos que nunca deveriam se tocar estavam se aproximando à medida que a fenda se estabilizava. Uma ruptura não era causada pela destruição da fenda, ou por qualquer tipo de fragmentação: era causada pelo contato entre os dois lados. Quando isso acontecesse, Nagrythyn se sobreporia ao mundo deles dentro do alcance das terras devastadas. De certa forma, a fenda deixaria de existir e qualquer coisa que caminhasse naquele reino amaldiçoado estaria livre para escapar, para devastar um lugar que ainda não havia caído.

— Certo, não podemos esperar mais. É hora de seguir em frente.

Rogil reuniu os outros capitães de times de rank prata e eles organizaram os Exterminadores. Depois de alguns minutos para se reagruparem, eles atravessaram a fenda e se encontraram em outro reino. Dove olhou para cima e contemplou a visão familiar dos céus verde-ácidos de Nagrythyn. Porém, desta vez, eles ferviam com uma energia frenética que ele nunca testemunhou antes.

Ao redor deles, as criaturas das fendas rosnavam e sibilavam enquanto os Exterminadores começavam a lutar para abrir caminho entre os monstros.

Mas seus números eram infinitos e, à distância, os verdadeiros gigantes se aproximavam, com o chão tremendo sob seu peso.

Dove esmagou o cristal na boca entre os dentes e sibilou enquanto a magika bruta inundava seu corpo. Levantou as mãos e começou a conjurar.

— Cacete, vamos dançar, seus putos.

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