
Volume 1 - Capítulo 46
Livro dos Mortos
No instante em que a voz de Dove ecoou do crânio, Tyron sabia que havia conseguido. Uma onda de alívio o percorreu enquanto a tensão, culpa e foco que o sustentaram durante as últimas vinte e quatro horas se dissipavam. Ele se curvou para frente, sorriu cansado para o crânio, depois grunhiu enquanto sentia uma onda de poder surgir dentro de sua cabeça.
Não entrou em pânico, já havia sentido isso uma vez. Conforme sua mente sucumbia à vontade do Invisível, ele caiu para o lado, apoiando a cabeça em seu braço antes de bater no chão.
— Fique de guarda — murmurou ele antes que seus olhos fechassem.
De dentro de sua nova casa, Dove observou com a visão estranha e etérea de um morto-vivo enquanto Tyron perdia a consciência.
— Você deve estar brincando.
Sua voz tinha um certo eco e era mais fraca do que em vida. Ele só havia retornado a essa existência ridícula por alguns segundos, mas já podia dizer que odiava isso.
— Garoto, levante-se e me liberte agora! Ei! Tyron!
Não houve resposta do jovem Mago e Dove desistiu de tentar acordá-lo. Já viu isso antes, a perda súbita de consciência, até mesmo a forma como os olhos do garoto piscavam por trás das pálpebras. O que quer que ele tivesse feito devia ser impressionante, mesmo que não tivesse absolutamente nenhuma ideia de como o Necromante conseguiu fazer isso. Bastava dizer que até o Invisível decidiu que era um ato digno de uma grande recompensa.
Com nada restando para fazer e desesperado para se distrair, Dove começou a contemplar a magika que o fizera retornar dessa forma.
Obviamente, estava em um círculo de ritual, o que não surpreendeu, mas de qual tipo? Ele não conseguia virar a cabeça, na verdade não conseguia se mexer, então, não importava o quanto quisesse se virar e olhar para trás, não conseguia. A julgar pelas runas que conseguia decifrar do seu ponto de vista, o ritual tinha algo a ver com vinculação ou armazenamento?
‘Então, o garoto, de alguma forma, conseguiu manifestar meu espírito e depois aprisioná-lo em um receptáculo? Como diabos?!’
Ele tinha um receptáculo simpático na forma do seu próprio crânio, o que deve ter ajudado, mas esse tipo de magika era… tão fora do alcance de um Necromante de primeiro rank que nem se comparava. Isso deveria ter sido impossível.
Para fazer isso, Tyron teria que ter inventado a maior parte da magika na hora. Talvez tivesse algumas referências, algumas habilidades e feitiços nos quais poderia se basear, mas estava completamente às cegas na maior parte. Se não tivesse funcionado, ele poderia muito bem ter se matado e para quê?
‘O garoto é louco. Completamente louco.’
— Pelas esferas superlativas da deusa, garoto, você é especial para caralho — ele tinha que admitir. — Mas assim que você acordar é melhor você me matar ou eu vou comer seus tornozelos.
—
Tyron sonhou. Imagens distorcidas, visões imperfeitas e palavras meio compreendidas passaram por sua mente em uma velocidade insana. Era vertiginoso, desorientador e maravilhoso ao mesmo tempo.
Isso já aconteceu uma vez com ele, quando o Invisível lhe concedeu uma visão e desbloqueou seu mistério. Apesar de ter experiência, tudo o que podia fazer era tentar captar um vislumbre do que lhe era mostrado.
Palavras de Poder ecoaram do céu, incendiando estrelas e lançando fogo sobre o mundo. A energia arcana pura e disforme dançou através do ar, entrando e saindo de todos os seres vivos, transformando-os e marcando-os à medida que passava. Vastas correntes de magika, tão vastas quanto oceanos, preencheram seus olhos enquanto se chocavam e varriam de reino em reino.
Uma imagem a outra passava diante dele, nunca permanecendo mais tempo do que o necessário para ele registrar o que havia visto antes de sumir. Algumas vezes, ele nem teve esse tempo. E assim continuou, até que Tyron sentiu como se sua mente estivesse sangrando devido ao estímulo constante que o invadia.
Então, desapareceu.
Seus olhos se abriram e ele tossiu várias vezes, com dificuldade. Seu rosto escorregou do braço e ficou prensado no chão durante a última parte da visão.
— Puta merda — ele murmurou enquanto respirava fundo.
Ele se ergueu fracamente, apoiando-se nos joelhos, com a cabeça baixa. Sentia como se sua cabeça tivesse levado uma pancada com um sino. Seus olhos lacrimejavam.
Por um longo período, continuou ajoelhado no chão, tentando se orientar.
— Uh, eu odeio interromper quando você está se recuperando, mas por acaso você não colocou as proteções, colocou?
A voz de Dove irrompeu e Tyron levantou a cabeça bruscamente.
— MERDA!
— Para um gênio, você é realmente estúpido, sabia?
Tyron cambaleou e se levantou, olhando ao redor às cegas.
— As proteções estão na minha bolsa. Onde quer que você tenha a deixado, vá agora! Bem no meio, tem uma caixinha de madeira. Se apresse! — gritou Dove.
A urgência em sua voz impeliu o Necromante exausto a se mover rapidamente. Ele se virou e subiu cambaleando os degraus, desaparecendo da vista do espírito aprisionado ao crânio, então Dove só pôde esperar ansiosamente até que Tyron retornasse vários minutos depois, com uma caixinha de madeira em mãos.
— Isso mesmo, agora faça o que eu te digo e não foda com tudo. Se errar, você morrerá na hora ou a magika terá o efeito oposto, atraindo as criaturas das fendas para nós.
— Como isso funciona?
— Desgraça, isso importa agora? — Dove gritou antes de ceder. Explicar poderia ajudar o garoto a se concentrar. — Se você não criar a formação corretamente, então as proteções não se mascaram, o que significa que elas basicamente se revelam sozinhas. Ao sentirem a magika, as criaturas das fendas virão para cima de nós como uma praga.
O jovem mago assentiu e fechou os olhos enquanto escutava com atenção a explicação de Dove. Montar as proteções não era complexo, mas a precisão era de extrema importância. Felizmente, essa era a especialidade de Tyron e Dove observou, maravilhado enquanto ele executava os passos metodicamente e com propósito. Suas mãos não vacilaram, suas palavras não hesitaram. A confiança necessária para realizar magika assim era absurda, beirando a insanidade. Quantas pessoas poderiam agir com tal clareza e foco quando suas vidas estavam em risco? Quantas pessoas conseguiam dominar o arcano, uma energia efêmera além da compreensão mortal, com tanta facilidade? O garoto tinha uma Classe há menos de um mês.
Quando as últimas palavras foram ditas e as pedras colocadas em configuração, a entrada do porão foi protegida. Se tudo funcionasse como pretendido, os monstros a ignorariam, nenhum sinal ou odor vindo de dentro passaria para o exterior e as portas de madeira seriam invisíveis para eles.
Obviamente, nada era garantido. Logo toda esta área estaria inundada de criaturas e, se um número suficiente delas passasse por aqui, havia a chance de uma delas tropeçar na proteção. De qualquer forma, eles haviam feito tudo o que podiam.
— Você não tem muito tempo, garoto — Dove falou enquanto Tyron se curvava, respirando fundo para recuperar sua energia. — Assim que a ruptura ocorrer, estaremos mortos se colocarmos o nariz para fora da porta. Sei que você está cansado, mas precisa subir e juntar comida e água suficiente para nós… — ele parou por um instante —…para você durar pelo menos alguns dias. Uma semana se possível. Faça os seus ossudinhos ajudarem a carregar as coisas e trazê-las aqui.
— Quanto tempo você acha que vai demorar? — Tyron perguntou com a voz rouca.
— Estou surpreso que ainda não aconteceu. Pode ser a qualquer instante. Devemos estar longe o suficiente para que a construção não desmorone em nossas cabeças, o que significa que só precisamos aguentar o suficiente para as criaturas das fendas se dispersarem. Vai lá e pegue o que precisar. Depois você terá todo o tempo do mundo para ficar aí sentado de bobeira.
Ele assentiu exausto antes de se endireitar e subir a pequena escada de volta para dentro da casa. Apesar de sua fadiga avassaladora, Tyron conseguiu reunir bastante coisa. Os fazendeiros criavam seus próprios animais e não faltava carne curada e fresca. Havia um poço cavado dentro da propriedade e, com a ajuda de seus esqueletos, ele conseguiu assegurar comida e bebida suficientes. Cansado como estava, ainda vasculhou o local em busca de algo interessante, livros, dinheiro e qualquer coisa que pudesse precisar se sobrevivesse. Então, ele se lembrou do recurso mais precioso de todos.
— Ah, merda — ele resmungou para si mesmo.
Não faria isso pessoalmente, então ordenou que seus esqueletos reunissem todos os corpos massacrados pelo lobo estelar. Ele não queria passar uma semana preso em um porão com eles enquanto apodreciam, então encontrou um quarto no lado oposto da residência e fez com que os esqueletos os escondessem embaixo das camas. Com um pouco de sorte, eles não seriam esmagados pelos monstros enlouquecidos e ele poderia ressuscitá-los depois. Os adultos, pelo menos. Os outros ele enterraria.
Com um último olhar para o norte e para a tempestade violenta que agora era visível mesmo tão ao sul, ele se virou e desceu para o porão.
— Acho que temos o que precisamos — ele disse com a voz rouca, olhando para o crânio ainda parado no centro do círculo de ritual.
Inclinou-se contra a parede e deslizou devagar até se sentar no chão. Quase imediatamente sua cabeça pendeu para frente enquanto seus olhos começavam a se fechar, mas Dove se recusou a deixá-lo dormir.
— Ei, ei! Garoto, você poderá dormir daqui a pouco.
Tyron levantou a cabeça devagar.
— O quê? O que foi agora?
— Me mate.
O Necromante o encarou por um instante.
— O quê?
Como ele deveria matá-lo? Dove estava completamente morto, ele mesmo havia arrancado e esfolado sua cabeça. Não conseguia se recordar muito do processo; sua mente estava confusa, na melhor das hipóteses, como se estivesse inebriado pela magika que percorria seus pensamentos. Francamente, ele não queria se lembrar. Desossar pessoas não era algo com que desejava se familiarizar, embora fosse quase inevitável.
— Você sabe o que quero dizer — o crânio disse. — Você já se divertiu, as proteções estão ativadas, você está o mais seguro possível, apesar das circunstâncias. Me liberte. Liberte meu espírito, ou o que quer que seja, deste crânio e me deixe cuidar da minha vida. Tem alguns caras que me devem dinheiro que eu não me importaria de assombrar. Ou talvez exista uma vida após a morte. Eu passei tanto tempo orando para a Deusa e seus atributos que tenho certeza de que ela me deixaria dar uma olhada na coisa real. Então, vá em frente. Foi bom te conhecer e fiquei feliz em te ajudar, mas acabou.
Tyron escutou o fantasma de Dove falar, com sua carranca se aprofundando cada vez que a voz continuava. Quando o outrora invocador terminou de falar, um silêncio longo e estranho se instalou sobre eles. Tyron abaixou a cabeça, evitando olhar para os orbes brilhantes no crânio enquanto Dove ficava cada vez mais incrédulo.
— Tyron. Ei. Ei!
Ainda sem resposta.
— Você está brincando comigo, cacete — Dove gritou com raiva. — Você não vai fazer isso? Vai me manter assim?
— Não para sempre — respondeu Tyron com a voz rouca. — Só por agora. Algumas semanas, eu prometo. Eu preciso de ajuda, Dove. Tenho feito tudo sozinho e, por melhor que eu seja, uma hora vou cometer um erro. É um milagre que nenhuma das besteiras que eu fiz tenha se voltado contra mim. Você pode me ensinar. Só um pouco.
— Garoto, escuta. Eu não gosto muito da vida como um crânio. Você entende? Eu nem tenho mãos! Como é que eu vou… sentir as coisas? Porra, eu nem tenho pele! Não dá para viver assim. Eu quero sair daqui.
— Você vai. Tudo bem? Você vai… só não agora — implorou Tyron. — Eu preciso de um pouco de tempo. Uma chance de colocar minha vida em ordem. Você sabe que as chances estão contra mim, como vou conseguir ter sucesso sozinho?
Dove estava preparado para retrucar quando fez uma pausa. Mesmo nesta forma, ainda conseguia sentir a mudança no ar.
— Você sentiu isso? — sussurrou.
Tyron olhou para o teto de terra e inclinou a cabeça, como se estivesse escutando. Um som que não era som nenhum surgiu, ficando cada vez mais alto. Como uma brisa soprando entre as árvores, ou uma onda quebrando na orla, cada vez mais alto. Ele não conseguia entender o que era a princípio, mas então a ficha caiu: Magika. A energia arcana que permeava o ar ao redor deles estava se movendo. Devagar no começo, depois com velocidade crescente, começou a se transformar, unindo-se em correntes que corriam pela terra e pelo céu, todas convergindo para um ponto: a Fenda.
— Segure-se em algo, garoto. Isso vai ser louco para caralho.
O jovem Necromante engoliu em seco e se posicionou ao lado de uma viga de sustentação, envolvendo ambos os braços ao redor dela. Por precaução, ordenou que seus esqueletos se reunissem ao seu redor, protegendo-o de qualquer detrito que caísse. O som continuou a se intensificar, atingindo um crescente que ameaçava subjugá-lo, até que, de repente, parou.
‘Lá vem’ O mundo mudou. Pelo menos foi o que pareceu. Tyron sentiu o chão tremer sob seus pés e caiu de lado quando uma chuva de terra solta caiu sobre ele. Ele ficou imóvel por um segundo antes que o estrondo começasse. Rapidamente, o estrondo se transformou em um rugido ensurdecedor que quase estourou seus tímpanos. Tapou os ouvidos com as mãos, mas não ajudou. De novo, o chão tremeu. E de novo. Não tanto quanto da primeira vez, mas em uma onda constante que ficava cada vez maior até que o chão tremesse sem parar. Seu corpo quicava para cima e para baixo, batendo dolorosamente na terra várias vezes. Ele se encolheu, desesperado para proteger sua cabeça, mas era muito difícil pensar. Tudo era tão alto!
Mais do que seus ouvidos, sua mente gritava. Toda a magika que antes fluía para dentro agora explodia na direção contrária. Uma grande onda de energia que sobrecarregou seus sentidos e esvaziou sua mente. Sangue escorreu de seu nariz, mas Tyron não percebeu, sua consciência esmagada pelos estímulos.
Assim continuou, até que ele teve certeza de que estava morto, até que ele tinha certeza de que o mundo havia acabado. Ele desmaiou mais uma vez e, quando sua consciência retornou, nada havia mudado. O chão tremia, a magika o esmagava e o rugido continuava. Partes da casa acima, sem dúvida, haviam desmoronado. Tudo o que ele podia fazer era esperar que o porão suportasse. Ele era bastante profundo, cavado para armazenar carne em local fresco, o teto era reforçado com vigas, mas não havia sido construído para suportar isso.
Quando finalmente tudo acabou, Tyron não confiou em si mesmo para soltar sua cabeça. Depois que algum tempo se passou, percebeu que não era o chão que tremia, mas sim ele mesmo e aos poucos se acalmou. Seus esqueletos ainda estavam agachados ao seu redor e ele os instruiu a se afastarem e lhe darem um espaço. O porão estava um caos. Tudo o que antes estava cuidadosamente empilhado estava espalhado pelo chão, até Dove estava meio enterrado sob a terra solta. Seções do telhado haviam de fato caído, mas, por sorte, não havia desabado por completo, embora pudesse antes que ele saísse. Precisava ter cuidado.
Cada membro doía, cada articulação protestava enquanto ele avaliava a situação. Mais importante de tudo, checou as proteções e ficou aliviado de ver que elas aguentaram, mantidas no lugar pela magika.
— Aquilo foi impressionante — comentou Dove. — Que caralho. Eu nunca pensei que viveria para ver isso. Embora suponha que eu não tenha vivido mesmo.
Tyron assentiu, com alívio estampado em seu rosto.
Eles haviam sobrevivido à ruptura.
— Não fique feliz ainda, garoto — avisou Dove. — O pior ainda está por vir.
Como se invocados pelas palavras dele, um grito perfurante soou de longe. Após um instante, juntou-se a ele um segundo, depois um terceiro e um quarto e assim por diante, até que ele não conseguiu mais contar quantos contribuíram para aquele grito sobrenatural.
— Esses arrombados — disse Dove baixinho. — Eu nunca tinha visto um até outro dia. Os caras mais perigosos de Nagrythyn.
— O que são eles? — perguntou Tyron.
‘Eles devem estar nas terras devastadas. Isso fica a quase dois dias de distância. Como diabos eu consigo escutá-los?’
— Confie em mim, garoto — avisou o crânio. — Você não quer saber.
…