
Volume 1 - Capítulo 36
Livro dos Mortos
No fim, ele não conseguiu fazer isso. Não havia muito o que pudesse fazer, mas Tyron fez o seu melhor para enterrar Cilla a uma curta distância do local de sua morte. Mesmo com a ajuda de seus esqueletos, levou horas para cavar terra suficiente, não que suas mãos ósseas fossem de muita ajuda. Assim que o buraco foi cavado fundo o suficiente para que julgasse que os catadores não tentariam desenterrá-la, ele, sem cerimônia, segurou o corpo dela e o colocou lá dentro.
Parecia errado, como se não estivesse tratando os restos mortais dela com o devido respeito, mas tudo o que havia tornado a pessoa que ela era não existia mais na casca sem vida que ela abandonou. Ele conhecia bem a realidade do que permanecia após a morte. Ainda assim, tentou dela com algum resquício de graça e dignidade antes de jogar a terra macia sobre ela, cobrindo sua expressão congelada de terror e dor com argila.
Um graveto simples foi fixado para marcar o túmulo – ele não era habilidoso o suficiente para fazer algo mais decorativo.
Trabalho feio; ficou parado por um longo período em silêncio, olhando para o que havia feito, pensando na pessoa que agora descansava diante dele, a vários metros de profundidade sob a terra solta. Então se virou. Ele tinha coisas a fazer.
Não conseguia se obrigar a ressuscitar Cilla como um lacaio, arrancar toda sua carne e usar seus ossos, mas os outros cadáveres ainda eram alvos válidos. Foi tolo em permanecer na mesma área por tanto tempo, quando claramente havia criaturas da fenda poderosas vagando por aqui e não queria permanecer mais do que o necessário.
Encontrou dois galhos frondosos e empilhou os quatro cadáveres. Mesmo depois de despi-los de suas armaduras, eles ainda eram pesados para ele arrastá-los sem a ajuda de seus lacaios. A ajuda de seus esqueletos tornou o peso em seus braços mais leve, mas aumentou o consumo de sua magika, forçando-o a parar e descansar antes mesmo de alcançar a metade do caminho até o seu local de descanso.
Pegou um dos seus escassos cristais arcanos e o colocou em sua boca, sob a língua, para ajudar a recuperar sua energia mais rápido. Ele queria se afastar das fendas rapidamente. Era evidente que a situação estava se deteriorando mais do que havia antecipado.
Após cerca de meia hora, sentiu-se pronto para tentar de novo e, desta vez, conseguiu voltar para o seu bangalô antes de colapsar. Soltando as pontas grossas dos galhos no chão, fez com que os quatro corpos rolassem sem qualquer gentileza na terra. Ele não se importou, estava exausto de todas as formas possíveis. Com os braços trêmulos devido à fadiga, abriu sua mochila e desembrulhou algumas provisões, desesperado para recuperar um pouco de energia no seu corpo. Depois, sentou-se em seu cobertor e estudou, debruçando-se sobre suas anotações de Ressuscitar Mortos, marcando potenciais melhorias e mudanças nos símbolos arcanos usados no feitiço.
Tentou se convencer de que estava fazendo um bom uso do seu tempo, mas, no fundo, sabia que só estava evitando o que viria a seguir.
Se os quatro cadáveres que havia recuperado seriam transformados em esqueletos, então eles precisavam ser esqueletos. O que significa que não poderiam ter qualquer carne em seus corpos.
Ele sabia que esse era o caso quando escolheu a habilidade Açougue. Não só possuir um conhecimento básico da prática o tornaria uma contratação mais atraente para equipes em potencial, como também, ao escolher a habilidade como uma das suas preciosas escolhas de habilidade geral, ele se aprimoraria mais rapidamente. Como um benefício secundário, ele seria capaz de preparar os restos mortais exatamente da forma que planejava, mas, agora que chegou a hora, estava muito mais receoso do que esperava.
Seu estômago embrulhou de forma desagradável e ele sentiu o gosto da bile em sua garganta, mas resolutamente ignorou enquanto tentava se concentrar no estudo da sua mágica de assinatura.
Ajudava que Ressuscitar Mortos era um feitiço fascinante e complexo. Centenas de sigilos dispostos em uma ordem precisa formavam o componente verbal, com marcações adicionais para os gestos correspondentes. Era um feitiço potente e flexível, realmente intricado em sua aplicação, muito mais difícil de executar e compreender do que os truques básicos que havia aprendido sozinho. Com esse padrão, ele conseguia ressuscitar dois tipos diferentes de mortos-vivos, esqueletos ou zumbis, e acreditava que, com os preparativos corretos, ainda mais variantes seriam possíveis.
O feitiço em si era adaptável, respondendo aos restos mortais que lhe foram apresentados – o que fazia a diferença era o que ele fazia antes e não o que fazia durante o lançamento em si.
Isso que deu origem a uma linha de pensamento interessante. Talvez fosse possível eliminar, ou pelo menos modificar, algumas partes do feitiço, agilizar o processo com o objetivo de especializá-lo para criar apenas seu tipo preferido de mortos-vivos. Ele não tinha intenção de criar zumbis por enquanto, até mesmo no futuro — era um uso ineficiente do seu tempo e dos materiais, ainda mais ao considerar sua escolha de talento. Tal especulação exigiria uma análise profunda de todas as porções do feitiço, enquanto tentava compreender cada fatia individual em um nível granular.
Ele não tinha tempo para isso agora, não quando os benefícios eram, na melhor das hipóteses, nebulosos ou, na pior, inexistentes. Seria melhor continuar suas tentativas de modificar seu feitiço, aprimorando os três componentes principais de sua estrutura: a mente artificial, a conexão com ele mesmo e a infusão de magika que animava os restos mortais.
Por ora, tinha pouca ideia de como aprimorar a mente – era complexo e envolvia muitos elementos que ele não compreendia totalmente – mas seu trabalho aprimorando a eficácia da conexão, assim como alcançar maior saturação da magika, melhorava constantemente.
Finalmente, ele suspirou e fechou seu livro. Não poderia adiar mais. A luz estava começando a sumir e, se não começasse agora, ficaria escuro demais para trabalhar. A última coisa que queria era criar uma luz a céu aberto e pintar um alvo em suas costas nestas florestas perigosas.
‘Melhor terminar o trabalho do que ter de me mudar de novo.’
Se tivesse sorte, poderia encontrar um abrigo melhor para completar seu trabalho e criar seus quatro novos lacaios. Neste momento, não seria capaz de sustentar muitos, mas, se tivesse sorte e subisse alguns níveis da Classe Necromante, talvez até um em Anátema, talvez fosse possível.
Sem mais distrações, ele caminhou até sua mochila e retirou suas ferramentas de açougueiro antes de hesitar. Após uma pausa para firmar sua determinação, virou-se e caminhou até os restos mortais, ainda onde os havia deixado.
Fazia vários dias desde que esses Exterminadores morreram e eles já fediam. Talvez a tarefa fosse mais fácil se eles estivessem em um estado mais avançado de decomposição – talvez fossem menos reconhecíveis como pessoas. Como estavam, ele pôde reconhecê-los como os Exterminadores que recrutaram Cilla e saíram de Woodsedge não muito antes dele.
Sua mão apertou o cabo do seu cutelo enquanto seu estômago embrulhava.
‘Eu realmente não quero ter que fazer isso.’
Por um instante, ele vacilou e buscou desesperadamente outras opções. Certamente havia outros restos mortais aos quais poderia ter acesso com segurança. Se procurasse ao redor de sua localização atual, poderia ser capaz de encontrar alguns. Qualquer coisa que encontrou durante a patrulha com o time de Dove estava fora dos limites, a menos que estivesse realmente desesperado. Procurar em sua localização atual levaria tempo. Muito tempo. Ele já estava caçando ao redor do seu bangalô havia dois dias e não encontrou nada.
Ele tinha que fazer isso.
Com o rosto marcado por rugas sombrias, aproximou-se do primeiro corpo e o arrastou para um pedaço de terra vazio. Então, cavou um buraco ao lado e, após pensar por um instante, cavou outro usando sua pequena pá. Havia pensado em um local para descartar a carne quando terminasse, mas decidiu que poderia precisar de outro para o conteúdo do seu estômago.
‘Não tem como eu passar por isso com o conteúdo em meu estômago.’
Com uma última careta, segurou a faca e começou a trabalhar.
—
Dentro das terras devastadas.
— Em uma escala de um a fodido, quão ruim está? — Rogil perguntou enquanto olhava para as fendas.
Os portais para Nagrythyn crepitaram com uma energia que não possuíam da última vez que vieram. O tamanho e o número das criaturas das fendas que vagavam ao redor também eram maiores. Pior ainda, na paisagem nebulosa e enevoada além das fendas, as hordas de criaturas se amontoavam, pressionando contra os limites entre os mundos.
— Estamos além de fodidos — Dove reportou, sem que seu modo irreverente de sempre estivesse à mostra. — Vocês estiveram aqui há basicamente uma semana e já virou isso? A instabilidade das fendas está aumentando, e rápido. Para descobrir o porquê, precisamos atravessar para o outro lado, mas não tenho certeza se isso é uma boa ideia.
— Se conseguirmos atravessar, quais as chances de você conseguir identificar o problema? — o líder do time perguntou, ainda estudando as fendas distantes.
— Não tão altas. Posso ser adjacente a um Mago Dimensional, mas não sei tanto quanto eles sobre coisas importantes. Honestamente? Em circunstâncias normais, acho que os Steelarms já teriam sido chamados para lidar com isso.
O lutador robusto assentiu, enquanto seus olhos continuavam a percorrer de detalhe em detalhe, analisando o ambiente e usando suas décadas de experiência para filtrar o que era importante da escória. Por fim, fechou os olhos por um breve instante.
Seu time era forte, próximo da promoção, mas superar os números abaixo sem qualquer apoio seria maluquice. Nagrythyn era considerado um dos mundos mais fracos em termos de ameaça – as criaturas que emergiam das fendas normalmente eram criaturas semelhantes a insetos, da altura dos joelhos à cintura, que poderiam ser ameaçadoras em grandes números, mas que não tinham força suficiente para lidar com Exterminadores mais poderosos. Com o estado das coisas agora, muitas conseguiram atravessar e as criaturas maiores estavam se tornando comuns. Tão altas quanto uma pessoa, ou até mesmo um cavalo em alguns casos, eram muito mais perigosas. Mais mortais e difíceis de matar, tais criaturas eram ameaças com as quais até mesmo cabeças velhas, como Rogil, precisavam ter cuidado.
Se as realmente grandes atravessassem, então precisariam dos ranks de ouro para lidar com elas, e não havia nenhum dentro de centenas de quilômetros.
— Você não acha que Magnin e Beory serão enviados? Mesmo se pedirmos a ajuda deles? — ele se virou para o Mago e perguntou.
Dove hesitou antes de prosseguir e cuspir.
— O que estou preocupado é que eles não venham, mesmo se chamados. Por que eles arriscariam seus próprios pescoços aqui enquanto o único filho deles ainda está foragido?
— Eles negariam a marca? — Rogil questionou, como se afirmasse que eles explodiriam o sol.
— Rogil, eles já estão fazendo isso.
O Mago permitiu que suas palavras fossem assimiladas por um momento antes de continuar.
— Realmente acha que o filho deles aguentaria mais de um dia ou dois se eles estivessem o procurando de verdade? Pense de quem estamos falando por um segundo. Se eles quisessem capturá-lo, ele já teria sido pego. Não sei como, mas eles estão resistindo. Quanto tempo eles podem aguentar, não tenho ideia, mas eles estão fazendo do mesmo modo.
— Você realmente acha que eles nos deixariam aqui para morrer?
Mesmo na situação terrível que se encontraram, Dove não pôde deixar de rir.
— Porra, o quê? Você sabe tão bem quanto eu que aqueles dois não estão nem aí, não mesmo. O que eles fizeram, fizeram por eles mesmos. Eu os respeito profundamente, mas não sou cego à realidade. Sabe que é assim, Rogil, não o contrário.
O homem mais velho assentiu lentamente e abaixou a cabeça, pensativo.
— Vamos voltar para os outros — ele disse enquanto se levantava.
Os dois caminharam pelo mato até que encontraram Aryll e Monica escondidas na sombra de uma árvore quebrada.
— Como está? — Monica sussurrou, nervosa.
— Uma merda — Dove respondeu.
Ela enviou um olhar irritado para o Invocador antes de olhar para Rogil, com questionamento em seus olhos.
— Realmente uma merda — o líder do time confirmou com uma voz profunda e retumbante. — As fendas sairão de controle rápido. Se nada for feito, elas podem explodir em menos de uma semana.
— Uma semana? — Monica empalideceu. — Você não pode estar falando sério.
O lutador assentiu.
— Já vi isso antes. Quando a situação começa a se acumular, se você não agir imediatamente, ela vai piorar muito rápido.
— O que faremos então? — Aryll interrompeu. — Iremos ficar sentados ou vamos resolver isso?
A batedora parecia impaciente, mas sob essa superfície Rogil conseguia sentir o nervosismo que ela tentava esconder. Ela estava assustada, como qualquer um ficaria.
Ele olhou diretamente nos olhos dela conforme falava.
— É muito perigoso para nós quatro fazermos isso sozinhos. Não vai dar certo.
Ele se repetiu enquanto Aryll tentou interrompê-lo. Ele a encarou até que ela cedesse e estivesse pronta para ouvir.
— Mas precisamos nos mover rápido. É isto o que faremos: limparemos esta área, tentaremos aliviar a pressão ao redor das fendas antes de voltarmos para a Fortaleza e trazer vários times para cá o mais rápido possível. Então, com números suficientes, podemos atravessar e tentar limpar o outro lado. Devo avisá-los: o número de criaturas vagando ao redor das fendas é alto; será uma luta difícil só para eliminá-las.
Dove assentiu em confirmação.
— Então, vamos com tudo, manteremos tudo limpo e dentro das regras. Não podemos ajudar se estivermos mortos. Entendido?
Os outros indicaram sua concordância e Rogil rapidamente esboçou um plano de ataque antes que se afastassem e seguissem para suas posições.
Agachado atrás de um tronco caído, Dove contemplava a paisagem distorcida das terras devastadas. A tempestade ondulante acima não era estranha para ele após seus longos anos como Exterminador. Marcava mentalmente o tempo enquanto preparava seus rituais de invocação. Um minuto antes dos cinco combinados, ele começou a conjurar. Poderia não ser tão talentoso como o maldito garoto, mas ele conhecia esses feitiços como a palma da sua mão. Extremamente bem.
As Palavras de Poder saíram continuamente de sua língua enquanto ele estendia a mão para se conectar com o plano astral e promulgar os contratos que havia forjado ali.
Como sempre faziam, seus parceiros, seus amigos, responderam ao seu chamado.
Um lobo gigantesco e brilhante se formou ao seu lado, seguido por uma serpente encapuzada e enrolada que se envolveu nele. Acima, um grito estridente de pássaro soou, alertando os outros de que ele havia terminado de se preparar.
— Vão pegá-los — ele encorajou suas invocações e as criaturas inteligentes de outro plano responderam às suas palavras. O lobo avançou com uma velocidade estonteante, mais rápido do que os olhos conseguiam acompanhar, antes de cair sobre o monstro mais próximo e começar a rasgá-lo em pedaços com suas mandíbulas poderosas.
A cobra olhou para ele por um instante antes de sibilar suavemente e começar a seguir os passos do lobo estelar com um ritmo mais calmo. Assim que alcançou o topo da serra com vista para as fendas, a cobra se levantou, com seu capuz se acendendo enquanto balas de pura magia astral começaram a aparecer no ar ao redor dela. A energia brilhou no local por um instante antes de se espalhar, perfurando a quitina de cada criatura da fenda que tivesse o azar de se tornar seu alvo.
Dove observou suas duas invocações mais fortes entrarem em ação por meio dos olhos do falcão acima, mas não se acomodou. Relaxar e fazer com que seus aliados fizessem todo o trabalho era o primeiro erro de muitos Invocadores jovens; ele próprio havia o cometido. Suas mãos já formavam padrões no ar enquanto falava, conduzindo outro ritual.
Enquanto a forma borrada de Rogil emergia da linha das árvores, sua lâmina cortando com velocidade e força inumanas para dividir um grande monstro com um único golpe, Dove completou seu segundo feitiço.
Cem metros acima de sua cabeça, um portal surgia, emanando uma luz azul-escura que parecia se expandir, espalhando-se a cada momento que o círculo brilhante existia. O Portal Astral. Ele levou anos para dominar essa magia depois de atingir o nível quarenta. Dove olhou para cima com satisfação enquanto criaturas astrais selvagens e perdidas começaram a enfiar o focinho por ali. Quando viram as criaturas das fendas abaixo, enlouqueceram, jogando-se contra seus inimigos odiados com uma selvageria brutal.
Dove sorriu.
— Hora do banquete!
…