Livro dos Mortos

Volume 1 - Capítulo 37

Livro dos Mortos

Tyron caiu com um gemido, os ossos embalados em seu velho cobertor chacoalharam dentro de sua mochila e caíram no chão. Ele queria dormir desesperadamente. Até para alguém que costumava passar vários dias sem dormir, sua atividade na última semana havia sido especialmente exaustiva.

Fisicamente, ele estava uma bagunça. Nunca esteve em forma – continuava no lado magro e desmascarado, algo com que Magnin com frequência o provocava – e nunca engordou excessivamente, mas seu estilo de vida foi sedentário na maior parte do tempo. Ele era um viciado em livros que não se exercitava muito, algo que não podia negar.

Agora ele se encontrava carregando uma mochila pesada pela floresta por horas todos os dias. Ele não foi feito para isso, apesar das melhorias que sua constituição mais alta trouxe à sua resistência. Suas panturrilhas queimavam, suas coxas doíam, seus ombros protestavam todas as vezes que levantava os braços.

Ele estava um caco.

E não havia muita chance de a situação melhorar logo. Não era como se pudesse tirar três dias de folga para seu corpo descansar; ele simplesmente não podia desperdiçar o tempo. Só podia esperar que eventualmente se adaptasse. Inclinou-se para trás, com a cabeça descansando contra a mochila e se permitiu respirar.

Teve sorte de encontrar este lugar. Depois de remover a carne, o que havia demorado muito mais do que deveria, a luz praticamente sumiu, mas ele se recusou a esperar e arrumou suas coisas. Depois de cambalear pela floresta por longas horas, eventualmente notou este prédio abandonado apodrecendo em uma pequena clareira.

Havia buracos no telhado, o chão praticamente não existia, mas as paredes eram surpreendentemente sólidas, melhor do que ele poderia ter esperado. Se tivesse que adivinhar, alguém havia começado a construir uma fazenda ou uma construção aqui, onde a terra era extremamente barata, mas foi forçado a abandoná-la quando não conseguiram manter as criaturas das fendas afastadas.

Apesar da exaustão, Tyron estava desesperado para manter sua mente raciocinando. Quanto menos tempo ele permitisse que sua mente assimilasse o que havia feito, melhor. Em vez de dormir, enfiou a mão na mochila e retirou o amontoado de ossos que guardou com cuidado. Tentou não notar como os ossos ainda estavam manchados com a carne que ele havia removido tão recentemente enquanto os desembrulhava e começava a montar os esqueletos completos no chão.

Teve que misturar e combinar alguns ossos aqui e ali, devido aos danos sofridos na luta que matou o time, mas, depois de seus esforços, ele conseguiu juntar quatro esqueletos completos. Sob a luz do globo magiko, pacientemente colocou cada osso em seu lugar. Sua pesquisa estava dando frutos e ele não confundia mais braços com pernas, ou dedos com ossos pequenos dos pés.

Por mais perturbadora que fosse a tarefa, ele a achou estranhamente reconfortante, como se estivesse completando um quebra-cabeça. Tentou não pensar sobre o que cada pedaço realmente era ou de onde os conseguiu e, contanto que fizesse isso, conseguia relaxar. Quanto terminou, já era tarde da noite. Seus três esqueletos restantes permaneciam de vigia do lado de fora da cabana em ruínas em que ele trabalhava, o fogo escuro tremeluzia em seus olhos enquanto suas mentes sem vida procuravam algo para matar.

Quando os quatro restos mortais de antigos Exterminadores foram concluídos no chão diante dele, Tyron sorriu. Quando esses quatro fossem concluídos com o melhor das suas habilidades, ele finalmente sentiria que estava em um lugar estável. O perigo crescente ao redor da fenda o preocupava, mas, com quatro novos esqueletos para protegê-lo, ele se sentiria seguro o suficiente para continuar a caçar na área.

Com sorte, conseguiria se encontrar com Dove quando ele retornasse para Woodsedge.

Balançou a cabeça — pensar no Invocador não fazia sentido, ele não podia fazer nada para ajudá-lo agora. O time de Rogil era de alto nível e bem disciplinado. Se alguém fosse escapar das fendas, seriam eles. Seria muito melhor se ele se preocupasse consigo mesmo.

Havia várias coisas que podia fazer agora. Podia começar a analisar e preparar os restos mortais ou poderia passar direto para a Costura Óssea, preparando-os para serem ressuscitados. Ainda havia várias possibilidades a explorar que poderiam aprimorar sua maestria sobre o feitiço Ressuscitar Mortos.

Também ficou tentado a realizar o ritual de Status. Com níveis adicionais e atributos mais altos que lhe seriam fornecidos, ele se colocaria na melhor condição possível para realizar o importante trabalho de criar seus quatro lacaios mais fortes até então.

Esse pensamento levou a outro que não o afetou muito como deveria. Se ele quisesse estar em sua melhor condição e ganhar o máximo de níveis que conseguisse, então havia uma forma de praticamente garantir que subiria Anátema de nível de novo, o que lhe daria o talento do nível cinco e atributos úteis.

‘Não decida quanto estiver cansado’, ele disse a si mesmo. ‘É melhor dormir e resolver isso amanhã.’

Ele desempacotou seu saco de dormir e comeu um punhado de carne seca antes de tirar as botas, dobrar sua capa para um travesseiro e se enrolar em seu cobertor.

— Sono.

O sol nasceu no dia seguinte com uma cena previsível. Tyron havia limpado e varrido um lado do prédio que ocupava e agora estava sobre um círculo mágico desenhado até a metade.

— Essa é uma má ideia — ele disse a si mesmo.

Dove havia avisado repetidas vezes contra tentar realizar um ritual tão perigoso sem preparativos adequados. Na verdade, o Invocador o avisou para nunca realizar este ritual de novo. Tyron não tinha boas memórias da última vez que conjurou este feitiço particular — o medo arrepiante de ver alguma entidade estranha se aproximando, tentando invadir sua mente, era uma experiência aterrorizante. Ele tinha pesadelos sobre isso.

Mas ele estava em melhor posição para lidar com isso agora. Tinha mais níveis, atributos melhores, sua habilidade em conjurar Perfure o Véu havia melhorado e agora tinha um foco ritualístico — um bastante básico, mas ainda assim um foco. Graças ao seu benfeitor de boca suja, o pedaço de cristal polido o ajudaria a concentrar a energia arcana necessária para moldar o ritual e fornecer mais uma camada de segurança caso algo desse errado.

Tyron caminhou até sua mochila e vasculhou até encontrar a bolsa cuidadosamente embrulhada e acolchoada que continha o foco e a pegou, desenrolando o macio pano roxo que a envolvia. Exposto à luz, o cristal brilhava suavemente, iluminando a delicada inscrição gravada nas faixas de metal que circulavam a gema. Uma peça complexa de encantamento, um foco ritualístico existia para ajudar um Mago a conjurar feitiços grandes e desafiadores. Ao usá-lo como um filtro entre o conjurador e o feitiço, ele adicionava uma camada de estabilidade e controle, o que lhe dava ainda mais confiança de que teria sucesso.

Quanto mais ele pensava sobre isso, mais determinado se tornava.

‘Está tudo bem’, ele se tranquilizou. ‘Posso tomar cuidado’.

E, certamente, por mais que não estivesse tão longe de Woodsedge, ninguém detectaria o ritual enquanto ele o conjurava. Até os Exterminadores nas fendas a quilômetros de distância. Ele ficaria seguro da detecção, pelo menos.

Ele voltou a desenhar o círculo, consultando suas anotações extensivamente enquanto usava o dedo para desenhar os formatos complexos na poeira. Várias vezes, ele teve que fazer pequenos ajustes quando o alinhamento não estava perfeito, mas prosseguiu com rapidez, com a mão firme enquanto trabalhava com confiança. O círculo de ritual tomou forma rapidamente sob suas mãos. Os círculos amplos, as linhas de conexão, os sigilos de proteção e uma série de outras formas e símbolos sobrepostos.

Tyron andava com cuidado pela sala, com dois globos de luz colocados acima para eliminar qualquer sombra que pudesse obscurecer parte do círculo. Isso foi muito mais fácil do que a primeira vez, quando trabalhou furtivamente no escuro. Pelo menos desta vez ele não esperava que alguém aparecesse e o interrompesse enquanto conjurava.

Depois de mais quatro horas de trabalho cuidadoso, o círculo estava pronto, mas ele não começou o ritual de imediato. Primeiro, inspecionou cada centímetro dele com atenção, certificando-se de que não perdera nada. Só quando estava totalmente satisfeito de que não havia erros, ele se concentrou em seu novo foco. Mesmo assim, ele não começou; em vez disso, saiu da cabana para inspecionar as condições externas. Seus três esqueletos permaneciam perfeitamente parados, observando a área ao redor por qualquer sinal de ameaça. O céu acima estava claro por enquanto e não havia vento. Essa era uma grande preocupação com a qual não tinha que lidar. Se a água interrompesse o círculo ou uma brisa deslocasse as linhas enquanto conjurava, o feitiço seria um desastre.

Com uma última verificação em suas anotações, Tyron foi até o centro do círculo e respirou fundo.

Ele estava extremamente nervoso. Se tivesse que escolher, não conjuraria esse ritual de novo.

‘Vamos fazer isso.’

Com uma última inspiração, começou a falar.

Como antes, as Palavras de Poder saíam sonoramente de sua boca enquanto suas mãos se movimentavam de um gesto para outro, dando forma e propósito ao poder que fluía por meio dele. O foco ritualístico absorvia toda a magika que ele liberava e a direcionava para o feitiço, refinada e purificada.

Era um ritual longo e difícil, mas, mesmo enquanto concentrava toda sua mente no feitiço, Tyron reconheceu que estava progredindo muito mais suavemente do que antes. Sua experiência contava muito e ele não vacilou por um momento sequer enquanto a energia continuava a se acumular e o véu começava a aparecer.

O círculo sob seus pés havia se acendido quando a cortina etérea que separava este mundo do Abismo se materializou diante dele. Como havia feito da primeira vez, Tyron prosseguiu com o ritual sem pausa ou demora, estendendo as mãos para abrir um buraco no desconhecido.

Ele quase tropeçou no momento final.

Ao abaixar a mão, memórias o inundavam. Os sussurros que rasgavam sua mente, os membros sombrios que tentavam alcançar sua carne. A fome do abismo. O terror voltou à tona em seus pensamentos e, por um instante terrível, sentiu sua concentração começar a vacilar, as palavras quase falhando enquanto falava. Ele oscilava à beira da aniquilação. Um novo medo nasceu e rapidamente se elevou para dominar os outros. E se ele falhasse? E se ele tivesse uma morte ignominiosa aqui, falhando em conjurar o ritual? O que seus pais pensariam? Os olhos de Tyron queimavam em vermelho enquanto sentia sua mente começar a desmoronar.

‘Não.’

Com uma força de vontade sobre-humana, ele reprimiu tudo. O medo, as memórias, a incerteza, tudo.

Como um veneno que havia isolado, ele segurou as emoções negativas que atormentavam sua mente com um punho de ferro forjado por sua vontade de vencer e as sufocou antes de jogá-las fora. Sua concentração se firmou, sua voz continuou firme e ele abriu as mãos, perfurando o véu mais uma vez.

Seu rosto estava frio e duro e nenhuma emoção poderia ser lida em seus olhos. Para um transeunte, ele poderia parecer uma estátua, sem sentimentos, sem pensamentos, iluminado pelo fogo arcano tremeluzente que formava padrões no chão.

Quando as vozes chegaram, ele estava pronto.

Mais uma vez, elas os arranharam, um clamor de milhares de vozes que tentavam penetrar em seu cérebro e despedaçá-lo. Sussurros em uma linguagem alienígena o inundaram e o dominaram enquanto o encurralavam de todos os lados. A pressão rapidamente aumentou em sua cabeça até que uma dor de cabeça lancinante atingiu suas têmporas.

Mas não era o mesmo da primeira vez. O foco ritualístico protegeu sua mente, dando a ele uma camada adicional de proteção contra o ataque das vozes. Tendo experienciado isso antes, ele também modificou o círculo de proteção, fortalecendo suas defesas contra qualquer ataque à sua mente.

As vozes roíam e arranhavam, mastigavam e rasgavam os limites de sua sanidade, sussurrando com urgência seu ouvido, mas ele as manteve contidas, mesmo que por pouco, e, ao fazê-lo, descobriu algo novo. Ele poderia compreendê-las. Flashes de conhecimento, fragmentos de informação, pedaços borrados de uma imagem maior, cada voz o atormentava com segredos e visões que ele não conseguia compreender.

‘Este é o conhecimento que eles oferecem.’

As vozes, as entidades no Abismo, elas sabiam coisas que ninguém deveria saber, compreendiam segredos que arruinariam uma mente mortal, dominavam feitiços que apodreceriam uma alma humana. Elas mantinham tudo isso fora do alcance dele, alimentando-o com pequenas partes e dançavam cada vez mais perto dele, pressionando-se contra as proteções ao redor da mente dele enquanto sussurravam cada vez mais desesperadamente.

Tyron lutava com elas tanto quanto lutava consigo mesmo. A tentação de estender a mão e aceitar o que elas ofereciam era avassaladora, mas, ao fazer isso, ele se abriria para elas, permitindo que entrassem em sua mente. Se ao menos pudesse se apossar delas, se ao menos pudesse compreendê-las!

Com um sobressalto, puxou sua consciência de volta ao seu corpo e a visão retornou aos seus olhos. Os tentáculos quase haviam o alcançado, mil linhas se estendendo do outro lado para envolvê-lo. Dentro da abertura que havia criado no véu, um olho o encarava. Vermelho escuro. Desconhecido e incognoscível, isso o encarava enquanto ele encarava de volta, tentando ver por meio da natureza fractal do que via. Dentro do olho, havia um olho dentro do olho, dentro de outro olho, que estava dentro de um olho dentro de um olho, que estava dentro de outro olho e continuavam sem parar, infinitamente.

Tyron abaixou as mãos, seus dedos se moviam rapidamente de um sigilo para outro enquanto gritava cinco Palavras de Poder, cada uma ecoando no ar, repletas com a força desconhecida do Arcano.

Tudo se dissipou. Os sussurros começaram a recuar, o olho sumiu e o véu se fechou e desapareceu de vista. Tyron ficou parado no centro do círculo enquanto as chamas se apagavam, sem som algum além do barulho rouco de sua respiração ofegante.

— Puta merda, essa foi uma ideia idiota — ele ofegou antes de cair de joelhos.

Quase sem magika, com a garganta destruída e os pensamentos em um turbilhão. Isso não havia corrido tão bem quanto esperava. Ele havia aprendido algo e se traumatizado de novo no processo. Instintivamente, tentou evitar se lembrar do que viu e ouviu. Haveria tempo para refletir sobre isso mais tarde. Por enquanto, precisava descansar.

Pelas próximas horas, Tyron só fez isso. Quando teve energia suficiente, guardou seu foco ritualístico, colocando-o de volta em sua bolsa, então envolvendo-o com cuidado antes de guardá-lo no fundo de sua mochila. Ele varreu o círculo de ritual até que não sobrasse nem uma parte dele e checou seus esqueletos, antes de se sentar, comer uma refeição simples e se fartar com seu odre de água.

Sua garganta estava seca de tanto falar e precisaria estar em condições de pico se quisesse criar quatro lacaios.

Decidindo que precisava disso, escolheu dormir, apesar do fato de ainda ser apenas o início da tarde. Ele precisava estar em perfeitas condições para o que viria a seguir — para pensar sobre o que havia aprendido com o ritual e para realizar o ritual de Status para poder aproveitar seus ganhos antes de dar o primeiro passo para forjar sua legião de mortos-vivos.

Mais uma vez, se ordenou a dormir e o mundo escureceu enquanto sua magika se agitava.

Comentários