
Volume 1 - Capítulo 35
Livro dos Mortos
‘Talvez eu esteja começando a me acostumar com isso.’
Depois de mais alguns dias na natureza, dormindo em seu saco de dormir e suportando o isolamento que sua classe lhe forçou, Tyron estava começando a perceber que poderia ser mais adequado para esse tipo de vida do que originalmente achava.
Ele era um amante da natureza espetacular? Nem perto disso. O que poderia fazer era aguentar o isolamento com prazer e, embora a falta de conforto o incomodasse mais do que gostaria de admitir, Tyron descobriu que gostava muito de ser deixado a própria sorte.
Ninguém para incomodá-lo quando pensava. Sem tarefas, sem incumbências para fazer. Sem expectativas ou pressão sobre ele. Ninguém vendo a sombra dos seus pais sempre que olhavam para ele.
Na verdade, descobriu que as únicas pessoas de quem realmente sentia falta eram Magnin e Beory. Também percebeu que ansiava cada vez mais por conversas com Dove. O Invocador magricelo era um exemplo perfeito daquilo que sua mãe o avisou: Exterminadores que matavam o dia todo e se entregavam aos vícios quando retornavam à civilização.
Mesmo assim, ele se provou um Mago conhecedor e competente quando se tratava de magika relacionada a lacaios. Durante a entrega de suprimentos que ele recebeu ontem, os dois discutiram a fundo os detalhes dos feitiços de Tyron e o homem mais velho foi mais do que útil.
Enquanto caminhava por meio das florestas sob a luz fraca, Tyron se lembrou da conversa sobre espíritos. Era um tópico sobre o qual o Mago tinha prazer em compartilhar sua experiência.
— Espíritos são uns babacas — Dove disse sabiamente —, e não estou falando só sobre os espíritos astrais com os quais eu lido: quero dizer todos eles. Babacas universais. A principal diferença entre as entidades que eu invoco e o que você pode chamar de “fantasma” ou “espectro” é que os espíritos astrais são burros para caralho.
Tyron ficou surpreso.
— Pensei que os astrais poderiam ser considerados bastante inteligentes. Você não está sendo um pouco severo com eles?
— Não — Dove bufou. — Você dá crédito demais a eles. Com treinamento e sob a influência de um Invocador talentoso como eu, eles são capazes de muito mais do que seriam capazes sozinhos. Fantasmas, por outro lado, são simplesmente estúpidos.
— Você já os viu antes?
— Claro que sim! Sou um Exterminador, né? Se você encontrar um grupo de pessoas mais propensas a frequentar lugares que fedem a morte do que Exterminadores, me avise.
Tyron o encarou.
— Necromantes não contam.
— Sei.
— Isso não vem ao caso! O que estou tentando dizer é que os seus lacaios serão estúpidos. No momento, seus amigos esqueléticos estão funcionando com uma inteligência construída, certo?
— E-eu não sei bem o que é isso. Você quer dizer que eles têm instintos que eu criei através de magika?
— Nem sabe o que é… já fez isso bem o suficiente, não fez?
Dove o encarou, enquanto Tyron dava de ombros, desconfortável.
— Vai se foder.
— O que foi?
— Você simplesmente me irrita às vezes. Onde eu estava? Certo. Inteligência construída. Obviamente você consegue ficar muito melhor nisso e uma “mente” feita com magika pode ser muito sofisticada. Já ouviu falar dos golens? Às vezes, as pessoas se deparam com eles no sul. Acho que são feitos pelo povo do deserto. Eles podem ser bastante espertos, comparativamente. Ainda assim, você não alcançará o nível de raciocínio que uma pessoa real é capaz. É aí que os espíritos entram.
— Você não está sugerindo que eu use a alma de uma pessoa viva, está?
Tyron se inclinou para trás com a sugestão. Esse era o exato tipo de prática proibida que fez com os Necromantes fossem tão odiados em primeiro lugar. Se ele esperava retornar à sociedade algum dia, não poderia depender de tais muletas.
Dove simplesmente riu.
— Viva? Claro que não. Elas precisam morrer primeiro.
— Eu não vou fazer isso!
— Pelas doces montanhas de Selene, por que diabos não? Ah, olhe, provavelmente não importa. Tudo o que estou sugerindo é que você procure maneiras para seus lacaios terem cérebros maiores. Se você precisar micro gerenciá-los o tempo todo, então não será capaz de aumentar seus números como um Necromante deveria. Deixe a qualidade para nós, Invocadores. O seu forte é um jogo de números.
Essas eram palavras nas quais Tyron pensou com frequência no último dia. Não apenas o desrespeito insensível de Dove pelas almas de suas potenciais vítimas. De fato, ele queria lacaios, mas não conseguiu deixar de ver qualquer uso de restos mortais para criar um esqueleto abaixo do padrão como um desperdício. Ele ainda estava aprendendo e aprimorando muito na aplicação do que sabia, sem falar quando fazia novas descobertas. Os esqueletos que ele tinha já eram mais fracos do que o melhor que ele seria capaz de criar quando terminasse de ressuscitá-lo.
— Aqui estamos. Entrem, tropas.
‘Não fale com os esqueletos, idiota.’
Atualmente, sua poderosa horda – consistindo em três esqueletos – aglomerou-se em seu novo esconderijo. Cavernas convenientes eram difíceis de encontrar, mas ele se recordava de algo que seu pai lhe ensinou e construiu uma cabana ao amarrar os galhos baixos que reuniu. A folhagem mal era grossa o suficiente para fornecer a cobertura que ele precisava, mas teve sorte de encontrar um lugar com várias árvores próximas. Tinha o suficiente sobre a cabeça para se proteger do tempo, e havia empilhado galhos nas laterais para garantir privacidade.
Embora não houvesse muito espaço, uma vez sob o abrigo ele ordenou que seus esqueletos se deitassem um em cima do outro. Era quase cômico a forma como três criaturas animadas de ossos se esgueiravam e se amontavam desajeitadamente. Esperava que desta vez não se enroscassem. Ele quase teve que desmontá-los antes que pudessem se levantar e caminhar. Acomodou-se em seu saco de dormir com um suspiro. Os novos equipamentos que Dove havia empurrado a ele definitivamente estavam mostrando seu valor. A maioria dos equipamentos de acampar que ele havia trazido de casa, embora bem-feitos, eram velhos e mal ajustados, enquanto agora tudo lhe servia como uma luva.
Queria estudar um pouco mais, mas hesitou. Seu novo abrigo poderia ser confortável o suficiente para dormir dentro dele, mas não era um ambiente pacífico para estudos. Neste quesito, a caverna era muito superior, mas não podia permanecer lá. Como o invocador havia o avisado, a atividade ao redor das fendas continuava a se intensificar e o número de criaturas das fendas estava aumentando dramaticamente. Com poucos Exterminadores permitidos a deixar a Fortaleza, patrulhas e excursões até as fendas eram mais perigosas do que antes, o que reduzia o número de equipes capazes de realizá-las. Isso levava a um aumento ainda maior da atividade das fendas.
— Está uma merda lá fora — Dove praguejou —, não tenho ideia do que os superiores estão pensando, mas, a menos que eu esteja enganado, eles estão se cagando de medo, assim como nós. Só os Magistrados são tão corruptos que colocariam muitas pessoas em risco apenas por motivos idiotas. Aqueles babacas nem conseguem mijar direito. Juro por deus que eles tão corruptos que o fluxo sai em um ângulo reto. Afaste-se das fendas e relaxe, haverá muitos monstros para você caçar. Vou com o meu time amanhã para ver o que conseguiremos fazer, então só conseguirei te encontrar daqui a uns cinco dias. Cruze os dedos para eu voltar vivo.
O sorriso torto do Mago apareceu em sua mente, enquanto Tyron checava a posição do sol. Rogil e seu time já deveriam ter chegado às terras devastadas. Esperava que eles ficassem bem. Esperava ainda mais que eles pudessem fazer algo sobre as fendas.
Se uma grande ruptura surgisse, ele estaria praticamente morto se permanecesse onde estava. Não era a primeira vez que considerava simplesmente sair daqui. Havia ganhado bastante durante seu tempo, tinha lacaios, aprendeu muito sobre formas de progredir e recebeu seu primeiro talento. Se fosse para o sudoeste, seguisse a fronteira e se mantivesse afastado das encostas, alcançaria à Fortaleza Moss em três semanas. Com os núcleos de monstros que tinha, era provável que fosse capaz de barganhar por suprimentos ao longo do caminho; se não, tinha comida em conserva o suficiente para metade da jornada, graças a Dove.
Mas ele não poderia. Finalmente estava em condição de subir de níveis em um bom ritmo e relutava em desistir disso. A piora na situação das terras devastadas era útil para ele nesse aspecto, com muitas criaturas das fendas se esgueirando para além de onde os Exterminadores patrulhavam regularmente. Ele havia recuado mais de cinco quilômetros, a ponte de Woodsedge estava mais próxima das fendas do que ele naquele momento e ainda encontrava muito para caçar sem precisar se expor. Não havia checado seu Status desde que recebeu seu talento, mas esperava ter subido dois níveis desde então. Estava relutante em realizar o ritual muitas vezes, pois estava preocupado que o Abismo começasse a ameaçá-lo de novo.
Com um suspiro derrotado, afastou seu livro e se acomodou em sua coberta. Era o início da noite – uma noite inteira de sono já estava atrasada e ele poderia voltar a caçar de manhã. Mais um dia, possivelmente dois e checaria seu Status.
Fechou os olhos, mas rapidamente percebeu que sua mente fervilhava de tantos pensamentos e preocupações que era difícil encontrar descanso. Uma ocorrência comum.
— Sono — murmurou, a trama do feitiço simples se formando em um instante.
Ele dormiu.
***
Ele não cobriu muito terreno no dia seguinte, não precisou.
Seus dedos dançavam no ar enquanto realizava uma série de gestos antes de empurrar a mão para frente, disparando um raio magiko pelo ar. A criatura da fenda em que mirou foi atingida na lateral e deslizou pelo mato. Ele ordenou que seu lacaio a perseguisse antes que ela pudesse se recuperar. Virou- se enquanto os outros atacavam com golpes largos e desajeitados, suas armas rudimentares atingindo apenas o ar enquanto as criaturas menores e mais ágeis dançavam para longe do alcance delas.
‘Muito lento.’
Ele havia perdido vários esqueletos e ressuscitado vários ao longo dos últimos dias, mas, por alguma razão, os dois que criou antes de receber seu talento se recusavam a morrer, apesar de serem objetivamente piores do que os outros. Mais lentos, menos responsivos aos seus comandos, menos resistentes – eram inferiores em todos os sentidos – mas por causa disso ele era mais conservador com eles, mantendo-os juntos enquanto seus lacaios mais impressionantes eram enviados para lidar com presas difíceis por conta própria.
De uma forma irracional, ele não gostava dos seus dois lacaios estúpidos. Eles o recordavam de suas falhas quando desejava seguir em frente e fazer novas descobertas. No entanto, não pôde deixar de notar a diferença que seu tratamento conservador teve na longevidade deles. Ele precisava de mais esqueletos, então tinha que utilizá-los em grupos: só assim extrairia o melhor de suas habilidades.
Enquanto os dois esqueletos avançaram para perseguir sua presa muito mais ágil, suas mãos começaram a se mover mais uma vez enquanto falava as Palavras de Poder, moldando um feitiço que disparou no instante em que ficou pronto.
‘Suprimir Mente.’
Sua consciência se estendeu e sufocou a criatura da fenda, esmagando sua mente enfurecida e mantendo-a imóvel enquanto os dois esqueletos encurtavam a distância. Os dois mortos-vivos levantaram seus bastões rudimentares, atacando para baixo contra a criatura e Tyron sentiu o feitiço se dissipar enquanto a mente se esvaía do seu aperto.
Ele sentiu o gosto de bile e cuspiu de nojo. A sensação era desagradável, para dizer o mínimo, e ele odiava ter que fazer isso, mas era efetivo. Criaturas das fendas mais fracas como essa eram fáceis de dominar com o feitiço que havia recebido de sua subclasse Anátema e tornava a caça com seus esqueletos desajeitados muito mais fácil.
Com essa parte da batalha concluída, ele voltou sua atenção ao seu esqueleto mais competente e franziu a testa quando percebeu que ele estava tendo dificuldades.
‘Merda, não vou perder mais um!’
Ter as duas ovelhas negras sobrevivendo enquanto mais um de seus irmãos mais capazes perecia seria muito humilhante. Apressado, ordenou que os dois ajudassem seu superior e ordenou que o esqueleto superior recuasse e se defendesse até que a ajuda chegasse. Sua magika continuou a ser drenada enquanto seus lacaios consumiam suas reservas para alimentar seus movimentos, aproximando-se da criatura da fenda ferida por três lados antes que um finalmente conseguisse atingi-lo com um golpe desajeitado. Enquanto o monstro cambaleava, os outros dois esqueletos avançaram e atacaram, acabando com a vida da criatura.
Tyron exalou enquanto a tensão se esvaía. Ele havia se envolvido com várias lutas de pequena escala recentemente, mas o nervosismo ainda permanecia. Havia muito potencial para as coisas darem errado. Cada lacaio perdido significava muitas horas de esforço desperdiçados e se suas escaramuças atraíssem algo que não conseguisse lidar, ele corria o risco de perder tudo, até mesmo a vida. Entretanto, essa era a forma mais rápida de progredir e ele era alguém com tempo muito limitado. O melhor que poderia fazer era tentar escolher seus confrontos com cautela, mas, na maioria das vezes, ele se deparava neles devido à sua completa e absoluta falta de habilidades de reconhecimento.
Furtivo fornecia a ele alguma capacidade de se esconder, mas seus esqueletos não tinham tal benefício – eles pisoteavam através da floresta como ursos magros.
Ordenou que seus lacaios ficassem parados enquanto se sentava para recuperar sua magika. Enquanto esperava, retirou seu mapa e tentou determinar sua posição com mais precisão. Se possível, preferia não chegar perto das fendas, considerando tudo o que estava acontecendo, mas ele precisava reunir novos recursos continuamente para criar lacaios. Sua capacidade para magika continuava a crescer conforme subia de nível e a utilizava; sentia que agora poderia manter até cinco esqueletos. Com tantos lacaios, sua capacidade de mantê-los aumentaria, desde que poderiam cooperar e se proteger mutuamente.
No geral, ele estava mais do que satisfeito com as melhorias que a escolha do seu talento lhe forneceu. Seus novos esqueletos não ficaram de repente duas vezes melhores do que antes – a diferença não era tão drástica – mas um aumento geral no desempenho em diversas áreas fez uma grande diferença ao considerar como um todo. Eles eram mais responsivos aos seus comandos, moviam-se com mais fluidez e exigiam menos poder para se mover do que costumavam. Era ainda mais tentador para ele escolher o talento sequencial se estivesse disponível quando alcançasse o nível 10. Combinando com os avanços que estava fazendo em Preparação de Cadáveres, Costura Óssea e Ressuscitar Mortos, os servos que ele criou ficavam mais fortes a cada dia.
Um certo odor atingiu seu nariz e Tyron congelou no local antes de se agachar e ordenar que seus esqueletos fossem até as árvores. Moveu-se com cautela até uma cobertura, com os sentidos em alerta para qualquer sinal de perigo antes de começar a se esgueirar para frente. Ele conhecia esse cheiro – após trabalhar um curto período no açougue – sequer achava que o esqueceria.
Sangue. O ar estava cheio dele.
O gosto metálico grudava em sua garganta enquanto ele respirava e Tyron fez uma careta. Já conseguia ouvir o zumbido das moscas e sabia que o que encontraria não seria bonito. A possibilidade de haver núcleos que pudesse extrair o fez seguir em frente. Ele vivia a vida de um catador no presente e não podia se dar ao luxo de rejeitar dinheiro de graça. Se um time de Exterminadores tivesse passado e deixado uma pilha de criaturas das fendas mortas para ele vasculhar, ele não estava em condições de recusar.
E, francamente, estava se acostumando a lidar com morte. Era incrível ao que uma pessoa conseguia se acostumar, dadas certas circunstâncias.
Ele continuou seu avanço reservado, sem querer assustar qualquer monstro restante que poderia vagar pela área. Conforme progredia, os sinais de batalha ficavam cada vez mais óbvios. Árvores queimadas e rachaduras no chão, maiores do que uma pessoa e com vários metros de profundidade, foram tudo o que ele precisou para se convencer de que guerreiros e magos de nível alto estavam envolvidos no conflito. Seja lá o que tivessem enfrentado, devia ser um oponente sério. O pensamento o arrepiou. Aqui não estava muito longe do seu bangalô. Se bestas mais poderosas já haviam vindo tão longe…
Ele afastou o pensamento enquanto afastava o galho na sua frente, tentando espiar sem fazer nenhum som. Sua mão estava firme enquanto olhava ao redor. Mais evidência de fogo – até as rochas estavam escurecidas. Tiveram sorte de que o fogo não se espalhou, ainda que chamas produzidas por magika fossem menos prováveis de se propagarem por conta própria.
‘A chuva forte de semana passada deve ter ajudado.’
Estava prestes a sair de trás do arbusto quando algo chamou a atenção dos seus olhos e ele congelou. Sob os escombros ali, parecia haver uma bota. Um arrepio percorreu sua espinha quando confirmou. Sim, era uma bota; conseguia ver que o que originalmente achava ser uma folha seca era, na verdade, uma calça marrom. Engoliu em seco e se aproximou. Era um Exterminador, morto, com os olhos sem vida encarando a copa da floresta enquanto moscas rastejavam sobre seu rosto imóvel.
Ele morreu com a lâmina na mão, com um ferimento horrível na lateral. O odor era terrível. Tyron se engasgou antes de levantar a mão e cobrir a boca e o nariz. Ajudou um pouco.
Havia restos mortais de dezenas de criaturas das fendas na área de tamanho variável, desde pequenos batedores com os quais esteve lutando, até terríveis pesadelos com lâminas e quitina do tamanho de cavalos que o cortariam em segundos caso os enfrentasse. Criaturas assim nem conseguiam atravessar a fenda em Woodsedge normalmente.
‘As coisas estão longe do normal agora.’
Ele encarou o Exterminador morto em estupor antes de balançar a cabeça e continuou a olhar ao redor da área. A luta havia sido intensa. Era raro que times enfrentassem tantas de uma vez, a menos que estivessem operando em grupos maiores. Ou vários times haviam explorado a área ou algo tinha dado muito errado.
Encontrou um segundo corpo na lateral de uma árvore. Olhou para ele apenas por tempo suficiente para reconhecer o que estava vendo, antes de se virar e cambalear para longe, com suor escorrendo pela testa. Seu estômago embrulhou, mas ele conseguiu segurar.
‘Divinos. Isso… não está certo.’
Ninguém merecia isso, muito menos alguém que lutava para proteger os mais fracos. Ele respirou fundo várias vezes antes que uma lembrança o atormentasse. Só havia visto o rosto por um instante, uma carranca congelada coberta por sangue, mas reconheceu aquele rosto!
— Não, não, não — resmungou.
Ele não queria. Não precisava. Eram todos estranhos para ele. Tinham que ser.
Tentou se convencer enquanto começava a se mover mais rápido pelo local da batalha, esperando não encontrar o que achava que poderia.
Outro corpo, depois mais um, um de costas para o outro. Deviam ter caído lutando juntos.
‘Um sorriso confiante, dentes brancos brilhando sob o sol. Cabelo curto. A mulher com um toque de risada no olhar.’
Conseguia se lembrar das palavras que Rell disse e elas ecoavam em seus ouvidos enquanto tropeçava de um cadáver para o outro.
— Esse é o grupo da Marion. O mesmo grupo com que ela saiu da primeira vez. Bom grupo, boa reputação. Espero que ela fique bem.
Ele a encontrou por último. Ela havia sido pega pelas costas e caiu para frente. Parecia que ela estava correndo em direção à luta, em vez de fugir dela. Coragem imprudente. Ela provavelmente não teria sobrevivido, mesmo se tivesse corrido. Provavelmente não.
Tyron encarou, entorpecido, o corpo sem vida de Cilla, a garota que havia conhecido na Estrada da Vitória. Ela provavelmente estava morta há dois dias, talvez três.
‘Ela estava tão confiante.’
Ele não sabia quanto tempo ficou parado ali, encarando. Talvez tenha sido apenas um minuto. Pareceu como se tivesse sido uma hora. Eventualmente, um pensamento surgiu em seu cérebro insensível.
‘Você precisa de restos mortais.’
Ele estremeceu ao pensar nisso. Balançou levemente a cabeça. Pensou nas ferramentas de açougueiro guardadas com cuidado em sua bolsa.
Correu até os arbustos e vomitou até que não saísse mais nada.
…