
Volume 1 - Capítulo 34
Livro dos Mortos
Uma sensação fria percorreu seu estômago enquanto ela observava o ambiente cada vez mais familiar daquela floresta antiga. Levou muito tempo para perceber que suas emoções e pensamentos não estavam suprimidos como eram no passado. Ela estava lá como ela mesma.
A mudança lhe deu coragem, mas também a avisou de que algo havia mudado, então olhou para as árvores ameaçadoras ao redor e as sombras iminentes com um olhar cauteloso.
— Bem-vinda, criança — um sussurro surgiu da escuridão e o Mensageiro surgiu.
Envolto em sombras, com suas feições ocultas, a pessoa porta-voz escolhida – ou coisa porta-voz – da floresta projetava uma figura desconhecida, com um formato quase humano, mas algo dentro dela lhe dizia que isso era simplesmente uma máscara. Uma capa longa e esfarrapada cobria sua estrutura e pendia sobre seu rosto, embora dois pontos de luzes tênues a encarassem daquela escuridão.
Ela se afastou daquela entidade desconhecida e colocou os braços na frente do peito.
— O que você quer? — ela disse. — Por que está me trazendo aqui toda vez que eu durmo? O que você quer?!
Sua voz havia começado calma, mas ficou tensa no final. Estar aqui, neste lugar, em sã consciência, parecia muito mais assustador e opressivo do que antes.
— Eu nunca menti para você, jovem — o Mensageiro disse. — Longe disso, minhas palavras sempre foram verdadeiras. Você está na Floresta Sombria, um reino entre o mundo da vigília e o mundo dos sonhos. É aqui que os medos e pensamentos daqueles que habitam este mundo se infiltram para alimentar criaturas muito além da compreensão delas. Os Deuses Antigos, não eu, a chamaram aqui. Quanto ao porquê, isso também eu já lhe disse. Eles desejam a sua veneração e serviço, sua devoção.
— Eles querem que eu os adore? — ela disse lentamente. — Nunca ouvi falar deles. Nem sei se isso é mesmo real.
— É muito real. Acho que você sabe disso. Quanto ao porquê de você não os conhecer, bem… — ela podia ouvir a repulsa que se infiltrava na voz do Mensageiro, assim como sua raiva. — Os falsos ídolos, criaturas de nascimento mortal que vocês chamam de deuses, se certificarão de que você nunca aprenderá sobre aqueles que eles depuseram.
— Do que você está falando? Todos sabem que os Cinco Divinos começaram como mortais e ascenderam por meio da ajuda do Invisível.
— Oh, é mesmo? — o Mensageiro disse com desprezo. — É isso que eles querem que você acredite? Que, se você adquirir níveis suficientes, também conquistará a apoteose e ascenderá para ficar ao lado deles? Acho que não. Aqueles com poder raramente o compartilham, criança. Uma lição que os cinco conhecem muito bem, já que arrancaram daqueles mais velhos e merecedores do que eles.
A criatura gesticulou com a mão para segui-la enquanto se virava e caminhava entre as árvores. Ela estava relutante, mas seguiu. O que mais poderia fazer, presa naquele sonho?
Ela caminhou junto do Mensageiro enquanto se moviam entre as árvores e pisavam nas raízes retorcidas que cobriam o chão. Caminharam em silêncio por alguns minutos e cada vez mais ela podia sentir a floresta pressionando ao seu redor.
— Houve um tempo neste mundo, antes das fendas e antes do Invisível, em que os Despertares não decidiam o destino de uma pessoa.
— Isso é heresia! — Elsbeth ofegou.
— Isso é história! — o Mensageiro a corrigiu com uma voz sibilante. — Naquela época, deuses não eram feitos, eles nasciam. Nas profundezas e trevas do mundo, três desses seres ganharam vida. A existência era primitiva e desesperada naquelas eras e os Sombrios eram deuses à altura.
O Mensageiro ficou em silêncio enquanto ela digeria o que ouviu. Ela nunca ouviu falar de tal história – os Divinos são adorados há mais de cinco mil anos. O calendário e a igreja foram fundados naquele ano, quando os deuses se fizeram conhecidos e ajudaram a abrir caminho para repelir as fendas. Pelo que sabia, não havia história antes dessa época. A ascensão dos Cinco marcou o momento em que a civilização saiu das sombras.
— A verdade que eles esconderam tão desesperadamente, para impedir que outros seguissem seus passos, é que a divindade deles é algo que roubaram. Com a ajuda do invisível, eles vieram até esta mesma floresta e tomaram uma parte da natureza divina dos três. Só assim conseguiram atingir seus objetivos e suplantar seus superiores. Passaram então milhares de anos apagando toda a memória e sinal dos Deuses que vieram antes deles. Mesmo assim, a memória e adoração dos Deuses Antigos persiste até os dias de hoje.
Elsbeth balançou a cabeça.
— Como posso acreditar em você? O que você disse é contrário a tudo o que eu já conheci. Talvez este lugar, este sonho seja sua própria invenção e você me sequestrou para sua própria diversão. Você não pode esperar que eu aceite tudo o que diga depois de tudo o que eu passei. Esta é a primeira vez que eu fui trazida aqui sem você suprimir minha mente! Eu não confio em você nem no que tenha a dizer.
Ela se animou conforme falava; a raiva acumulada em seu peito afastava o cheiro nauseante da magika antiga que pairava sobre as árvores e o medo que a floresta inspirava. O Mensageiro a escutou falar com paciência, mas ela sentiu um entusiasmo sarcástico da criatura à medida que suas acusações se amontoavam. Quando ela terminou, o Mensageiro parou de caminhar e indicou uma nova direção para viajarem, à direita do caminho original. Após uma pausa, ela seguiu.
— Você busca evidências das minhas afirmações. Esse é um pedido sensato. É claro, provarei que o que disse é verdade, de uma forma que você não possa negar. Você sentirá isso em breve e peço que atenda a este pedido – se você estiver sobrecarregada, me diga e retornaremos. Isso não é algo que sua alma é capaz de suportar.
Ao avisá-la, o Mensageiro virou seu rosto na direção dela e, por um instante, ela pôde vislumbrar a zombaria inconstante que não podia ser descrita como um rosto sob o capuz dele. Então, ele endireitou sua postura e a visão sumiu, embora tenha permanecido com ela por um longo período após isso. Os dois não mais conversaram enquanto viajavam; pelos vários longos minutos eles seguiram seu caminho pela floresta densa. As sombras pareciam mudar e dançar enquanto viajavam, girando e se curvando no canto de sua visão, enquanto as próprias raízes e galhos gemiam e suspiravam com a passagem deles.
Era enervante, mas logo uma nova sensação floresceu e ajudou a afastar o desconforto dela. Santidade. Divindade. Ela conseguia sentir, aqui, pela primeira vez. Aquela sensação que há muito desejava, mas que lhe fora negada por um tempo, estava aqui, nesta floresta! Seus pés se moveram mais rápidos, quase inconscientemente, enquanto ela acelerava em direção à origem daquela dor agridoce que a chamava em sua alma. O Mensageiro a acompanhou com facilidade, com sua velocidade aumentando para combinar com a dela, e mesmo quando começou a tropeçar em sua pressa, ela não se importou. Ela precisava disso.
O brilho tênue da divindade se fortaleceu à medida que se aproximava, até que se tornou uma dor penetrante, como se fosse uma mariposa que se aproximou demais do fogo. Ela prosseguiu, determinada a revelar o divino em toda sua glória, a abraçar aquilo que conhecia, que foi parte dela por toda sua vida.
Tudo isso enquanto o Mensageiro se movia ao seu lado, observando.
Ela queimou. O poder que irradiava à sua frente era tão brilhante quanto o sol, como o céu infinito e a queimava, mas ela não se afastou. Ele a chamava e ela foi incapaz de resistir ao chamado até que o Mensageiro estendeu a mão e a colocou em seu ombro.
— Chega — ele disse.
— Mas… eu… — ela ofegou.
— Mais próximo e você não sobreviverá, sua alma será extinguida. Pouco importa, você pode vê-lo daqui.
Com um aceno de sua mão, as árvores se curvaram para fora do caminho e ela viu. Apesar da distância, o rosto capturou sua atenção logo de cara. Perfeito, feições angelicais, olhos azuis cristalinos e longos cabelos loiros que caíam sobre seus ombros e costas.
Ela conhecia aquele rosto. Havia visto inúmeras vezes antes.
Ela caiu de joelhos enquanto encarava, sem compreender, a visão impossível diante dos seus olhos. Não podia ser. Não podia ser real, mas ela era capaz de sentir, mesmo agora: aquela forma irradiava um poder irresistível e doloroso.
Vestes douradas e brancas envolviam a figura, o bordado tão familiar que não importava se não conseguisse ver os detalhes, ela os conhecia de qualquer forma. E o cajado, o cajado com cabeça de águia, com sua joia azul da mais pura magika que pulsava com poder, distorcendo o próprio ar ao seu redor.
— Tel’anan — Elsbeth se engasgou e começou a chorar com soluços quebrados enquanto ajoelhava com a visão do deus caído da Magika.
O Mensageiro se ajoelhou com ela, mantendo a mão no ombro dela enquanto ajudava a proteger a alma incipiente que trouxe até aqui. Ela não conseguia distinguir quanto tempo permaneceu ali, quanto tempo chorou em luto pela divindade há muito morta. Ela só sabia que havia sido levada a um lugar indivisivelmente sagrado e que não era digna. Eventualmente, o Mensageiro a puxou pelo ombro.
— Vamos lá, você não pode mais ficar aqui.
— Não…
Ela olhou com desejo para Tel’anan, mas a força da sua companhia não poderia ser negada e ele a puxou para longe. Eles recuaram até que a pressão sobre ela diminuísse o suficiente para que pudesse resistir sem ajuda. O Mensageiro falou com ela mais uma vez.
— O deus caído da Magika — ele entoou solene, de forma zombeteira e ela o encarou em fúria.
— Este lugar é sagrado!
— Este lugar era sagrado por dez mil anos antes que seus Divinos sequer respirassem — ele refutou. — Mas você pediu por evidência e eu forneci uma. Convincente, não é?
Ela se afastou da criatura.
— Não tenho certeza do que você quer dizer.
Era difícil para ela pensar, processar o que estava sendo dito. Ela acabou de testemunhar um dos Divinos com seus próprios olhos. Tel’anan! Aquele era Tel’anan!
Raiva tingiu o tom do Mensageiro enquanto a refutava.
— Concentre sua mente, ou serei forçado a suprimi-la de novo. Reluto em fazer isso neste momento, mas farei se você não me ouvir.
A mente dela se retraiu diante da lembrança daquele estado confuso, indeciso e descontrolado. Ela tentou acalmar o coração acelerado e sua mente.
— Você dificilmente pode me culpar — ela começou a dizer.
— Eu posso e vou — o Mensageiro respondeu. — Embora poderosa, a figura além não possui grande significado para mim. Se os seus pensamentos estão mais claros, então olhe de novo, com mais atenção.
Estavam mais distantes agora – quão distante era difícil dizer – e o próprio ar parecia se distorcer enquanto ela olhava mais uma vez para a forma do deus caído. Era mais óbvio agora, de alguma forma, do que antes, mas ele obviamente não estava mais vivo. Aqueles olhos que pareciam tão brilhantes e com tanta energia estavam cegos, encarando o nada. Seu corpo, tão majestoso, pendia no ar, suspenso por raízes retorcidas que se estendiam das árvores ao redor para enrolar em seus membros e perfurar sua carne. Ela não viu antes, estava tão cega, mas a expressão naquele rosto perfeito era de partir o coração. Uma tristeza avassaladora distorcia as feições de Tel’anan, perfurando o coração dela.
— Sim. Agora você vê, não é? — o Mensageiro sibilou. — Nem tudo está perfeito com esta imagem, não é? Como ele morreu? Por que ele está tão triste? E como ele veio aqui, no reino dos Sombrios? Acho que a verdade está começando a tocá-la? Hmm? Já consegue sentir a verdade dos seus deuses?
Ela continuou a contemplar a figura suspensa do deus caído, com as emoções divididas entre devoção e curiosidade. O feitiço foi quebrado abruptamente quando o Mensageiro começou a puxá-la pelo braço, agora com violência.
— Ei. Me solte! — ela demandou. — Você está me machucando.
— Então continue — a criatura disse. — E ouça.
Ela foi forçada a fazer isso enquanto o brilho divino desaparecia na distância atrás deles, enquanto o Mensageiro discursava, aparentemente sem se importar se ela estava ouvindo ou não.
— Eles vieram como ladrões furtivos, dançando ao redor das bordas e forçando os limites. Os Antigos se divertiram no início. Entidades de apetite infinito ansiavam por estímulos e a chegada das fendas, juntamente com a influência do Invisível, mudou tudo. De repente, os mortais eram mais interessantes, mais poderosos, mais do que jamais foram. Presos em uma luta sem fim contra as criaturas enlouquecidas que os atormentavam, os deuses engordaram com as súplicas desesperadas e sacrifícios, mas logo até mesmo essa recompensa começou a entediá-los. Os cinco eram algo novo. Algo diferente. Criaturas mortais, humanos, que haviam ascendido a uma altura tão precipitada, um ápice. Como bebês que se tornaram crianças, os três ficaram intrigados por essas estranhas novas criaturas. Até que finalmente os cinco se tornaram poderosos o suficiente para entrarem na Floresta Sombria e colocaram o pé aqui, neste mundo, e pela primeira vez sentiram o toque direto do divino.
Uma raiva genuína transbordava do Mensageiro enquanto ele continuava a puxá-la pelo braço, enquanto caminhava incansavelmente pela floresta. Ela tropeçava e cambaleava com frequência, puxada pela força irresistível da criatura.
— Eles não buscaram uma audiência com os três, mas, assim que sentiram aquele poder, ficaram viciados. Como cães, farejaram ao redor das fronteiras de criaturas que eram muito maiores do que eles. Testando, sondando, perseguindo sem parar. Achavam-se espertos e quietos, como se pudessem se esconder dos deuses. Tentavam se esconder, acumular ainda mais poder entre si, enquanto buscavam desesperadamente por uma forma de roubar aquilo do qual nunca foram destinados.
Elsbeth pode ter sido rejeitada pelos seus deuses, mas ela não suportava ouvi-los serem menosprezados dessa forma, descritos como ladrões e covardes.
— Ainda assim, eles são divinos, não são? — ela retrucou enquanto usava sua mão livre para escalar as raízes e se equilibrar. — O que quer que tenha acontecido entre eles e os Antigos, eles venceram.
Para ela, parecia que os Cinco divinos haviam feito um favor a todos ao banir esses deuses antigos da memória. Eles haviam lutado para libertar os humanos e toda a humanidade mortal com suas ações, o que era muito melhor do que essas existências inconstantes e indiferentes.
— Venceram? — o Mensageiro gargalhou alegremente. — Suponho que você possa descrever assim. — a criatura continuou e o fogo da justiça dela se apagou instantaneamente.
— Nem mesmo um deus tem paciência infinita, muito menos os três, e eles se cansaram desse jogo de se espreitar. Com o poder combinando, arrastaram os cinco diante deles e os pressionaram contra o chão, demandando que eles falassem seus desejos e terminassem com isso. Foi Selene quem respondeu; ela exigiu que os três entregassem uma parte de suas divindades. Orthriss foi menos estridente, implorando que os três usassem seus poderes para interceder em nome dos mortais contra as fendas, para salvar as pessoas que sofriam. Os três não tinham desejo disso. Eles tinham amor pela espécie mortal, mas era frio e duro, assim como foram criados. Se os mortais fossem salvos, então eles tinham que se salvar por conta própria. Se falhassem, mereciam morrer e os três desapareceriam com eles. Tel’anan tentou usar sua magia contra os três quando foram recusados, mas ela sumiu como gotas d’água diante de um vulcão em fúria. Os Deuses Sombrios são deste mundo e seus âmagos estão entrelaçados com sua própria estrutura. A magika não é deste reino – é algo das fendas – e não pode ter efeito algum contra eles. Os três riram então, riram da cara dos cinco que ardiam de raiva, mas estavam impotentes para agir.
Uma pitada de amargura surgiu na voz do Mensageiro conforme ele prosseguia.
— Foi então que os três ofereceram uma barganha. Era assim que eles eram: caprichosos e caóticos por natureza, frequentemente agiam contra seus próprios interesses. Concordaram em ceder parte da centelha divina deles, mas, em troca, os cinco precisariam sacrificar um deles. Eles concordaram rapidamente. Então, os três revelaram o destino completo do sacrificado e os cinco não estavam mais tão ansiosos. Mesmo assim, concordaram. Foi Tel’anan quem teve azar, embora também tenha conseguido tocar a divindade antes que a floresta o reivindicasse. Os outros foram banidos para nunca mais retornarem, e, embora tenham tentado, ainda não pisaram na Floresta Sombria de novo.
De repente, as árvores desapareceram quando entraram em uma ampla clareira, no centro da qual se erguiam três pedras enormes nas pontas de um triângulo. De onde estava, ela só conseguia ver a face de uma das pedras, na qual viu um entalhe detalhado de uma figura que não conseguia compreender.
O Mensageiro virou o rosto para ela mais uma vez quando finalmente parou de puxar o braço dela e a agarrou pelos ombros, forçando-a a olhar em seu capuz.
— Desde aquele dia, os divinos se intrometeram, interferiram e sufocaram os mortais que os adoravam. Eles ofereceram ajuda, apenas o suficiente para conter as fendas, mas eles esmagaram qualquer um que se esforçasse para alcançar as alturas que eles próprios alcançaram. Mesmo agora, eles espreitam as fronteiras deste lugar, desesperados para impedir que qualquer um faça como eles e ascenda à glória. Qualquer um ou qualquer coisa que esbarre na verdadeira natureza deles, mesmo que involuntariamente, é rejeitado por inteiro.
Ela balançou a cabeça, entorpecida.
— Não consigo assimilar isso — ela gaguejou. — É muito. Eu preciso pensar.
— Você não tem mais tempo para pensar — o Mensageiro foi impiedoso —, pois isso a impactou diretamente. Os Cinco Divinos lhe rejeitaram completamente, embora Selene tenha sido a primeira a virar as costas. Por quê?
— P-porque…
— Sexo é proibido para aqueles que servem Selene? — os olhos do Mensageiro se fixaram nos dela, capturaram a atenção dela e se recusaram a perdê- la. — O celibato é um dos comandos dos divinos?
— N-não ex-explicitamente — ela disse.
Era verdade. O celibato não era um requisito para servir Selene. Como a Deusa da Pureza, seus seguidores eram encorajados, fortemente encorajados, a refletir a natureza dela e a conterem-se, em especial antes e durante seu treinamento, mas não era um mandamento severo e imutável.
— Você acha que seu flerte com aquele garoto tolo te contaminou de alguma forma, fez com que a quem serviu tão fielmente a insultasse e a rejeitasse? Ah, sim — ele sorriu, enquanto ela se virava, envergonhada. — Eu sei o que aconteceu com você. Você está errada em suas suposições. Muito errada.
— Você quer dizer, não foi… Rufus?
— Não. Foi Tyron.
— Tyron? — ela disse, confusa. — Ele não… quero dizer… ele não fez nada!
— Eu sei. No entanto, ele tocou na verdadeira face dos cinco, a verdadeira natureza deles e eles não podem permitir isso. Como você era próxima dele, eles também te arruinaram. Só isso.
— Isso… isso não pode ser verdade. Pode?
Perplexa, ela sentiu a tempestade de emoções dentro dela aumentar tão alta a ponto de sentir que não estavam mais sob seu controle. Ela cambaleou, mas o Mensageiro a firmou e a puxou para o centro daquelas três grandes pedras.
Uma retratava uma mulher, jovem e linda, mas ao mesmo tempo envelhecida e horrível.
Uma retratava um pássaro sábio e cruel.
Uma retrava uma árvore cheia de vida e podridão.
— Crone, Raven e Rot. Sirva-os, se desejar ver a verdade. Eles não são gentis, mas nunca te abandonarão se seu serviço for fiel. Nisso, eu não minto.
Ela olhou para seu guia, chocada com a pitada de gentileza no tom dele. Era um truque? Todo o resto era mentira?
— Amanhã à noite, uma mercadora chegará nos arredores de Foxbridge. Se escolher servi-los, partirá com ela e não retornará.
Ela acordou.
Exausta e confusa, deitou-se na cama e encarou o teto por cerca de uma hora. Quando Megan veio checá-la, ela se desculpou, entorpecida, e comeu enquanto a mulher preocupada a observava. Tantos pensamentos e emoções a percorriam que ela sentia como se nunca conseguisse se concentrar em um por tempo suficiente para lidar com ele antes que outro surgisse e roubasse sua atenção, deixando-a perplexa e distraída. Ela se dedicou a ajudar na pousada, arrumando e limpando seu quarto.
Depois de almoçar, ela encontrou-se encarando a porta da casa da sua família. Ela bateu. Seu pai respondeu. Ele arregalou os olhos ao vê-la parada no degrau e ela observou enquanto várias expressões passavam pelo rosto dele, mas ele decidiu pela desaprovação.
— Você sente muito? — ele disse.
— Eu sinto. E você? — ela respondeu.
Por um instante, ela sentiu que ele poderia dizer sim, então o rosto dele se fechou e ele rugiu.
— Você pode voltar para casa quando estiver pronta para demonstrar o devido respeito — ele disse e fechou a porta na cara dela.
Ela permaneceu parada no degrau por um minuto, se virou e voltou para a pousada. Lá dentro, subiu as escadas até seu quarto e realizou o ritual de Status pela primeira vez desde seu Despertar. Naquela noite, caminhou até os limites da cidade, onde encontrou uma carroça solitária atrelada a dois cavalos que batiam o pé impacientemente no chão. Uma mulher estava ao lado da carroça, vestida com roupas simples.
— Vamos — ela disse.
…