Livro dos Mortos

Volume 1 - Capítulo 33

Livro dos Mortos

Ela acordou suando frio de novo.

Com um leve tremor na mão, Elsbeth tirou o cabelo da testa e se sentou. O mesmo sonho, todas as noites. Ela segurou os ombros, cruzando os braços na frente do peito enquanto respirava fundo até que os tremores cessassem.

Durante uma semana, ela estava tendo a mesma visão sempre que fechava os olhos. A Floresta Sombria, tão afetada pela idade que o próprio ar gemia sob o peso dos segredos proibidos, e o Mensageiro, uma criatura de sombras e astúcia que a guiava por toda aquela mata todas as noites. Não importava o quanto lutasse ou fugisse, ela não conseguia. A mesma confusão que experienciou em sua primeira visita, e à qual foi incapaz de resistir, cobriu sua mente. Ela vagou atordoada pela floresta enquanto o Mensageiro destilava mel em suas orelhas com sua voz sibilante.

‘O que eles querem comigo?’

Ela se questionava o mesmo todas as manhãs e sempre chegava à mesma conclusão. Não era um segredo, afinal – havia sido informada, repetidas vezes, de que eles queriam a devoção dela. Eles queriam uma Sacerdotisa.

‘Mas quem eles são?’

Ela nunca havia ouvido falar dessas entidades que invadiam sonhos sem permissão.

Por que eles a queriam? Até mesmo como sabiam quem ela era? Confusa, ela se levantou e se preparou para o dia. Talvez, se conseguisse ignorá-los por tempo suficiente, tudo isso desapareceria, os sonhos parariam e ela conseguiria seguir em frente com sua vida.

Ao descer as escadas, ela encontrou Worthy e Megan ocupados na sala comum, arrumando as mesas e acendendo o fogo.

— Vocês estão abrindo a pousada? — ela perguntou, surpresa.

Megan olhou para ela e sorriu.

— Sim. Sentimos que já fomos preguiçosos demais.

— Não queremos que os fregueses nos abandonem — Worthy riu enquanto limpava as mesas.

— Deixe-me ajudar! — Elsbeth disse enquanto descia os últimos degraus, ansiosa para apoiá-los.

Os três começaram a trabalhar de bom humor e um clima positivo surgiu dentro da Pousada Steelarm pela primeira vez desde que ela se hospedou aqui. Logo, a sala estava pronta, a comida borbulhava na panela e Worthy havia polido o balcão até brilhar como um espelho. Com um grande sorriso no rosto, ele escancarou a porta e permitiu que o ar frio da manhã entrasse na sala comum.

Nenhum cliente aguardava do lado de fora da porta. Não era surpresa após ficarem fechados por uma semana. Na calmaria, Elsbeth se sentou para comer seu café da manhã e conversar.

— Você conseguiu falar com o meu pai ontem, Worthy? — ela perguntou com esperança enquanto se deliciava com o mingau de Megan.

Worthy interrompeu o passo, antes de suspirar e assentir.

— Sim, mocinha, eu falei.

— E? — ela perguntou, nervosa.

— Seu pai é um velho bastardo e teimoso, sem dúvida. Tentei colocar algum juízo naquele homem, mas ele se recusa a ter juízo. Acho que toda essa situação foi um choque e ele está tentando retomar o controle da única forma que sabe.

— Como se ele tivesse uma situação pior do que eu — ela disse amargamente.

Worthy colocou sua mão enorme e calejada em cima dos cabelos dourados dela.

— Não seja tão dura com ele. A filha perfeita dele está sofrendo pela primeira vez na vida e ele não sabe o que fazer para consertar isso. Ele quer o melhor para você, acredite nisso, pelo menos.

Ela lacrimejou e olhou para sua tigela, assentiu e voltou a comer. Seu pai mudaria de ideia, ele tinha que mudar. Ela não conseguia se imaginar não sendo permitida voltar para a casa da sua família. O pensamento disso a aterrorizava. Ela desejava que pudesse conversar com sua mãe, seus irmãos, mas sabia que ir para casa só resultaria em mais uma briga.

— Acho que vou sair e visitar o templo hoje — ela se forçou a sorrir e falou alegremente. — Seria bom visitar as Irmãs e rezar.

— Claro, mocinha. Sem pressa.

Apesar de suas dúvidas, ele deu um último tapinha na cabeça dela antes de ir para trás do balcão, pronto para cumprimentar qualquer visitante que passasse pela porta. Não demorou muito; Elsbeth ainda não havia terminado sua refeição antes que o primeiro cliente do dia espiasse pela entrada com cautela.

— Ei, Worthy! Estão abertos hoje?

— Clyde, seu cachorro velho. Entre e deixe-me servir uma bebida para você.

— Graças a Deus! Fiquei sem beber a semana inteira.

Em instantes, os dois homens se envolveram em uma conversa amigável e risadas ecoaram na sala pela primeira vez em sete dias. Elsbeth sorriu enquanto sentia algo em seu coração aliviar. Apesar de tudo ter mudado, era maravilhoso que algo tão mundano como isso tivesse retornado a ser como antes do Despertar.

Ela terminou seu café da manhã em paz, agradeceu a Megan na cozinha e observou o ensopado que ela já estava preparando para o almoço, depois se lavou e saiu pela porta.

Uma atmosfera contida ainda pairava sobre Foxbridge – os nervos trêmulos dos aldeões não se acalmaram nos breves sete dias após o que Magnin e Beory haviam feito. Era difícil conciliar os aventureiros amigáveis e extrovertidos que conheciam a vida toda com os dois que haviam destruído a fazenda do prefeito e instaurado medo em todos.

‘Ninguém jamais brigou com Tyron antes. Talvez agora eu saiba o porquê.’

Seu amigo tinha feito com que fosse fácil evitar pisar nos calos dele, sendo tão quieto e estudioso.

Ela desviou seus pensamentos em consideração pelos Steelarms. Não tinha intenção de se concentrar em Tyron ou nos sonhos de hoje – ela simplesmente desejava visitar o templo e rezar. No fundo, esteve pensando em seu status a semana toda e pretendia pedir aos Divinos por orientação. Não havia realizado o ritual de Status desde o Despertar, pois sabia que seria necessário que escolhesse um Divino para servir quando o fizesse. Para registrar sua classe, a escrivã da cidade precisava fazer uma leitura.

As ruas estavam silenciosas enquanto ela se dirigia ao centro da cidade.

— Bom dia, Elsbeth — ouviu uma voz.

Ela se virou para ver o Sr. Patterson com uma tábua cheia de pães frescos na vitrine externa, enquanto ele gemia com o esforço.

— Bom dia! Quando decidiu abrir de novo?

O velho deu de ombros enquanto retirava o excesso de farinha das mãos.

— Não posso manter o lugar fechado para sempre, posso? As pessoas precisam de pão. Pelo menos, espero que precisem!

Ela sorriu para ele, que piscou para ela.

— Parece que a cidade não será destruída tão cedo, então é melhor voltarmos. Deveríamos ser aldeões da fronteira, não é? Não deveríamos nos assustar tão facilmente.

— Você ficou fechado por uma semana — ela o recordou gentilmente.

O Padeiro balançou as sobrancelhas para ela.

— Eu não me excluí! Eu também preciso me preparar! Agora, se me dá licença, tenho mais pães para assar.

Ela se afastou com um pouco mais de energia até virar a esquina e ver o templo, quando seus pés congelaram no lugar.

‘Não pense sobre isso.’

Ela, de forma decisiva, deixou de lado todas as memórias sobre sua visita anterior e seguiu em frente, cruzando o muro baixo de pedra que cercava o templo e passando pelas portas duplas abertas. Uma Irmã estava na entrada e Elsbeth não olhou para ela enquanto passava; em vez disso, manteve seu olhar fixo à sua frente. Ela não estava aqui pelas irmãs que a rejeitaram.

Estava aqui pelos deuses.

Dentro da câmara central, sentiu-se imediatamente em paz. O chão frio de pedra, as colunas que sustentavam o teto abobadado acima, as cinco estátuas representando os Cinco Divinos, cada um deles com seu próprio altar à luz de velas. Ela havia passado tanto tempo aqui, ajudando na administração diária do templo, preparando-se para festivais, cuidando dos necessitados. Sentia que poderia ter vivido a vida inteira aqui.

No centro da parede mais distante, em posição de destaque e contemplando a câmara com uma serenidade imperiosa, estava Selene, com seu altar dominando o local, como era de se esperar, já que este templo era dedicado a ela. Elsbeth acalmou os nervos e olhou para a estátua, encontrando o olhar da Deusa.

Apesar de sua beleza impecável, a Deusa usava um vestido longo que fluía sobre seu corpo, com uma chama na sua mão esquerda e uma coroa de flores na outra.

No passado, Elsbeth sempre sentia uma sensação de admiração e calor sempre que vinha aqui enquanto rezava sob o olhar de Selene. Sempre sentiu a divindade que a sustentava com uma mão forte em seu ombro, mas esta sensação havia sumido; ela não sentia nada além do frio.

— Ela não quer você.

Elsbeth se controlou e conseguiu não fugir.

— Estou ciente disso — ela respondeu sem se virar.

— Então por que está aqui? — ela não precisava ver o rosto da Irmã Kiria para sentir seu sarcasmo. O que mais a machucou foi o puro veneno que a mulher expressou nessa curta frase.

— O templo está fechado para aqueles que buscam a sabedoria dos Divinos?

—… não.

Ela quase revirou os olhos antes de se voltar e encarar a irmã. Kiria recuou, surpresa por Elsbeth ter ousado encará-la, arregalando os olhos, embora a curvatura em seus lábios não tivesse diminuído nem um pouco.

— Posso rezar ou prefere que eu vá embora?

Era claro o que ela preferia, mas Kiria não caiu na isca.

— As coisas são diferentes agora, você não é mais o bichinho de estimação da Mãe, certo? Agora não pode mais sair andando como se fosse melhor do que nós.

Elsbeth a encarou.

Melhor do que vocês? Eu queria ser uma de vocês — ela disse, espantada. — Tudo o que eu sempre quis foi me juntar a este templo.

— Uma de nós? Governar sobre nós é mais provável. Você se imaginava próxima da Mãe, nem se incomode em tentar negar. Todos sabiam.

Para enfatizar seu ponto, ela esticou o dedo e cutucou Elsbeth no peito.

— Você deve ter ficado muito satisfeita quando despertou como uma Sacerdotisa, não uma Irmã humilde como nós.

— Eu fiquei.

— Teria dado certo para você, se tivesse conseguido manter as pernas fechadas — sibilou a irmã.

Elsbeth fechou os olhos e tentou impedir as lágrimas de surgirem em seus olhos. Pensar que até este lugar havia mudado tanto. Ou talvez ele sempre tenha sido assim e ela simplesmente nunca viu. O ciúme e a má vontade escondidos para que uma criança não-desperta não fosse exposta.

Quando olhou de novo, pôde ver um vislumbre de triunfo nos olhos da mulher mais velha. A irmã sabia que a havia machucado e ficou satisfeita.

— Me recordo quando Dalroy, o menino da fazenda, quebrou a perna durante a temporada de partos. Você se recorda? Ele só tinha nove anos, o rosto vermelho e chorando. Não era nem a dor que mais o incomodava, mas o medo, eu acho. Talvez fosse a visão do sangue, ou talvez fosse a primeira vez que vivenciou algo do tipo, mas ele estava muito assustado.

Elsbeth continuou encarando fundo os olhos de Kiria enquanto continuava.

— Você se sentou com ele durante todo o tempo em que esteve aqui. Você o acalmou, ajudou a aliviar a dor dele e o deixou chorar em seu ombro até que ele finalmente dormiu, horas depois. Você se lembra disso?

A irmã franziu o cenho.

— Lembro.

— Você foi tão compreensiva que não suportou ver aquele garotinho sofrendo e fez tudo o que pôde para ajudá-lo. Então, por que… — ela deu um passo em frente, olhando com olhos brilhantes para a outra mulher. —… diabos, você está sentindo tanta alegria com a minha dor?

Kiria se recompôs e gaguejou, mas Elsbeth não deu a ela a chance de responder.

— E, se quiser, talvez você se recorde de quem mais se sentou com Dalroy naquele dia, quem foi inspirada pela sua devoção e esperava crescer para um dia ser como você. Se ainda restar em você algum resquício da Kiria que eu admirava, vá embora. Vá embora e me deixe rezar!

Apesar dos seus melhores esforços, sua voz ainda falhou no fim e as lágrimas que tentou segurar finalmente começaram a escorrer por suas bochechas, mas ela se recusou a limpá-las. Em vez disso, encarou sua antiga amiga até que Kiria desviou o olhar, desconfortável.

Após uma longa pausa, a irmã falou de novo.

— Só faça suas orações e vá embora.

Dizendo isso, ela se virou e se afastou, deixando Elsbeth para limpar suas bochechas e se recompor, depois foi para o santuário mais próximo e começar a rezar. Ela fez seu melhor para deixar o confronto de lado – havia vindo com um propósito e nada poderia tirar isso dela.

O santuário de Tel’anan era o mais próximo e ela se ajoelhou para prestar seus respeitos ao caído Deus da Magia. Como a maioria dos locais de culto dedicados a ele, a estátua no topo do pedestal o mostrava chorando, com os olhos fechados e um vazio no peito onde seu coração deveria estar. Ela não sentiu nada enquanto apertava suas mãos e abria sua mente para a presença do Deus – Tel’anan não estava mais aqui para confortar os fiéis que o procuravam, mas ela ainda tentou por respeito.

À direita do santuário do Deus Morto estava o de Orthriss, o firme defensor e guardião da civilização. Sua estátua o mostrava como um guerreiro valente e poderoso, com um enorme escudo de torre na frente e uma espada larga ainda presa às costas.

Orthriss era considerado um deus gentil, que valorizava a força da mente tanto quanto a força física, embora se mostrasse um guerreiro feroz quando convocado. Ele era a divindade seguida pela maioria dos sacerdotes que buscavam e serviam entre os Exterminadores, batalhando nas fendas para proteger o povo. Ela não tinha certeza se algum dia se tornaria uma guerreira, mas talvez Orthriss encontrasse algum uso para seus serviços?

Com o coração batendo de antecipação, ela se aproximou do santuário e se ajoelhou, abrindo-se à vontade de Orthriss.

Mas ela sentiu… nada.

Ela franziu a testa por um instante e fechou os olhos, concentrando, como havia aprendido na infância, concentrando-se na vontade dos Divinos para que pudesse sentir a presença deles. Só que não estava lá. Ela tentou de novo. E, novamente, nada.

‘Talvez eu esteja muito distraída por Kiria para encontrar o foco adequado?’

Tentou se convencer de que essa era provavelmente a razão, mas, por dentro, uma voz traiçoeira sussurrava que ela havia sido abandonada por todos os Divinos, que nenhum deles se dignaria a ouvi-la. Ela reprimiu esse impulso e levantou-se, cruzando o templo em direção à parede oposta.

Os dois santuários restantes no templo representavam Hamar e Lofis. Hamar, o ágil e esperto, Senhor dos jogos, música, estrada e invenção; e Lofis, a senhora das estações, colheita, crescimento e morte.

Ela nunca se sentiu próxima de nenhum desses dois Divinos, mas agora ajoelhou-se diante do santuário de Lofis, desesperada para sentir a presença calorosa da divindade.

Talvez ela esperasse isso, mas a ausência de uma resposta a esmagou do mesmo jeito. Ajoelhou-se e rezou para Lofis por meia hora antes de se levantar, derrotada, lutando para se conter. Tinha certeza de que Hamar também a rejeitaria, mas não conseguia ir embora sem ao menos tentar ganhar o favor dele. Ele também permaneceu em silêncio e indiferente diante dos apelos dela.

Derrotada, Elsbeth conteve suas emoções e saiu do templo com toda a dignidade que era capaz de reunir. Sua visão ficou turva ao chegar à rua, mas ela lutou contra as lágrimas todo o caminho até a pousada. Quando entrou, não conseguiu mais se conter. Ela correu pela sala comum, passou pelo surpreso Worthy e correu escada acima, para o quarto que haviam lhe emprestado, onde desabou na cama e chorou até a exaustão.

Quando sentiu que não havia mais lágrimas, adormeceu.

E sonhou.

Com a mata rangente e os ventos antigos da Floresta Sombria.

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