
Volume 1 - Capítulo 32
Livro dos Mortos
— O que você acha? — Dove sorriu enquanto abria bem os braços sobre o monte de equipamentos que havia empilhado em um trenó frágil.
O garoto olhou de soslaio para ele antes de desviar para todos os espólios.
— Parece… bastante? — Tyron disse.
— Essa é toda a gratidão que você tem? Seu bosta. Eu percorri a cidade toda buscando essas coisas! Venha aqui e veja se serve.
Tyron estava hesitante em se aproximar, principalmente devido ao fato de estar surpreso com o que invocador fez, mais do que qualquer outra coisa. Ele não tinha certeza do que esperar desse encontro. Traição, muito provavelmente, mas, em vez disso, encontrou Dove sentado em cima de uma pilha de equipamentos para acampar e comida preservada, acenando entusiasticamente quando ele se aproximou.
À medida que o Necromante se aproximava, o Mago magro não deu importância à falta de gratidão enquanto corria de uma mochila para outra, pegando as botas novas que havia encomendado, junto de uma capa e algumas mudas de roupas.
— Você quer que eu experimente essas roupas agora? — o garoto questionou.
— Não seja estúpido, garoto! — Dove exclamou. — Não quero que você sacuda suas malditas bolas no meio dessa floresta maldita e se troque. O guarda veria suas bolas através das árvores, por exemplo. É só se levantar e daremos uma olhada no tamanho. Não importa se for muito grande, mas qualquer coisa pequena demais vai causar um atrito terrível, o que não é um problema com o qual você, entre todas as pessoas, possa lidar agora.
Ainda perplexo, Tyron parou enquanto Dove entregava item após item e ele os segurava enquanto o Invocador tagarelava.
— Bom o suficiente — foi o julgamento final e Dove assentiu, satisfeito consigo mesmo.
Um choramingo veio de trás dele.
— Sim, sim, você foi um bom garoto — ele se virou e abraçou a cabeça do lobo estelar enquanto a criatura normalmente digna se deleitava com a atenção do Invocador por um breve momento. — Muito bem, seu bastardo peludão! — ele murmurou. — Agora, vá para casa no Astral e tire um cochilo. Não farei você se esconder em cavernas com ossos fedidos de novo, tá bem?
Tyron bufou.
‘Meus esqueletos não fedem. Eles nem têm carne! Como poderiam feder?!’
Com um simples aceno de sua mão e algumas palavras murmuradas, Dove desfez a ligação que mantinha o lobo neste plano mundano, liberando-o de volta em sua casa no plano astral, e se virou para o garoto.
— Você não pode fazer isso com um monte de ossos, pode? — ele sorriu.
— Eu não saberia — Tyron suspirou, sem morder a isca. — Não tenho ideia de que tipo de feitiços e talentos estão disponíveis para essa Classe, ou como será seu avanço. Pelo que sei, invocar esqueletos de outros planos de realidade é mais do que possível.
O Invocador levantou a mão, parou, então pensou por um instante antes de responder.
— Sabe, pode acabar descobrindo algo. Já que a Classe é proibida, não há uma documentação, mas há alguns registros históricos sobre Necromantes poderosos.
— Como Arihnan, o Sombrio?
Dove estalou os dedos.
— Esse babaca. Ele fez todo tipo de coisa. Destruiu algumas cidades, coisas horríveis. Você pode agradecê-lo pelo seu péssimo relacionamento com a lei. Você deveria ver o que pode descobrir com ele e usar isso como referência. Pode aprender muito com referências históricas se você se dedicar.
— Mas não existem lugares onde a Necromancia não é proibida? — Tyron questionou, um pouco desesperado. — Certamente eles possuem textos e guias para quem tem essa Classe?
— Nem pensar — Dove balançou a cabeça. — Os Magistrados são uns filhos da puta paranoicos, eles apreendem qualquer material que entra no império junto das pessoas que o trouxeram.
— Então, talvez eu possa ir até eles? Viajar para fora do império?
— Isso não vai acontecer, garoto, você precisa deixar isso para lá. Para sair do império, você teria que viajar além das terras devastadas e eu apostaria ficar só de cueca que você não conseguiria sobreviver.
— De cueca? — Tyron murmurou.
— O quê? Está ficando quente ali dentro.
Tyron tentou se livrar do súbito desânimo que o atingiu. Quase se resignou a ter que descobrir tudo sozinho, mas a realidade ainda não estava concretizada. Com o mago mais velho e experiente praticamente confirmando que ele estava isolado de todas as fontes de conhecimento, ele se sentiu um pouco derrotado. As escolhas que fizesse ao longo do caminho teriam consequências enormes quanto chegasse ao fim, a ponto de que a maioria dos especialistas que alcançaram seu terceiro avanço serem os únicos a possuir aquela classe específica no império.
Dove notou a expressão desanimada no rosto do rapaz e rapidamente o tranquilizou.
— Olha, não se preocupe com isso. Você tem uma boa cabeça e, por enquanto, pode contar comigo e meus conselhos. Nós dois devemos conseguir decidir o que fazer. Agora me ajude a empacotar tudo e a trocar suas botas, talvez eu consiga umas moedas para elas na cidade.
Resmungando para si que não havia pedido nada dessas coisas, Tyron secretamente ficou muito grato pelo Mago magricela ter se esforçado tanto para garantir suprimentos tão necessários para ele. As novas botas eram duras, mas muito bem-feitas, assim como a capa e outras peças de roupa. Melhor ainda era a comida enlatada e o cantil de água fresca que Dove lhe entregou. Teve que se conter para não rasgar a tampa e começar a beber o líquido doce imediatamente.
— Há um amuleto purificador aí dentro — Dove se gabou. — Ótimo para quando você estiver na natureza e não tiver certeza se uma fonte de água é pura. Em emergências, você pode mijar nele e o amuleto limpará o sal.
Tyron quase se engasgou antes de olhar arregalado para o Exterminador.
— Ei, eu nunca fiz isso! — Dove se defendeu. — Só estou dizendo que é possível!
Todas as coisas deviam ter custado uma fortuna e Tyron ficou impressionado com a exibição de generosidade, a ponto de achar difícil acreditar nisso.
— Por que você está fazendo isso? — ele perguntou. — Sério, por que você está fazendo isso? Eu sou um criminoso e você também será se alguém descobrir o que fez.
O Mago parou de encher as mochilas ao ouvir a seriedade no tom do rapaz. Ele se endireitou e encontrou o olhar do jovem enquanto respondia.
— Tyron, eu disse da última vez que conversamos que as coisas não são realmente o que parecem quando se trata dos Exterminadores e o trabalho que fazemos. Para ser honesto, não é importante que compreenda por que estou te ajudando, apenas que confie em mim quando digo que estou do seu lado. Eu poderia ter te entregado inúmeras vezes. Eu poderia ter esperado aqui com os marechais, prontos para prendê-lo, aceitado minha recompensa e ido embora assobiando. Isso não aconteceu e há apenas um motivo para isso ter acontecido.
Ele olhou para Tyron com expectativa.
— Porque… você é sincero?
— Exatamente! Eu sabia que você não era um fracasso total. Falando nisso, eu vi você conjurar magika, garoto. Você é um talento nato, mesmo que seja um pouco estúpido.
— Estúpido? — ele já foi chamado de muitas coisas, mas estúpido não foi uma delas. — Você me observou conjurar Ressuscitar Mortos, certo? Eu conjurei esse feitiço sem assistência e você me acha estúpido?
Ele sentia muito orgulho sobre quão bem estava fazendo ao desvendar sua nova magika; ter seus esforços menosprezados não o agradava.
— Não me entenda errado — Dove sorriu. — Você tem talento. Muito talento. Não sei quanta ajuda sua mãe te deu, mas sua fundação é sólida como rocha. O que estou falando é sobre os riscos que você corre. Conjurar um feitiço tão complexo na condição em que você estava? Você teve sorte que ele não colapsou e queimou sua magika.
— Eu sei dos riscos — ele retrucou. — No caso de não ter percebido, minha situação não me permite esperar.
— Ei, existe pressa e existe desenhar círculos magikos na poeira. Um é compreensível, o outro é implorar para seu cérebro explodir.
Parte do fogo que queimava dentro de Tyron se apagou quando absorveu essa crítica válida.
— Eu estava… sem tempo naquela hora. Nem tinha acesso aos recursos que queria.
Dove levantou a mão.
— Eu entendo e não quero saber como ou por que você colocou suas mãos em um feitiço desses ou se sentiu compelido a lançá-lo. Se quer meu conselho, eu nunca realizaria esse ritual de novo, mas se for necessário, faria preparativos muitos mais rigorosos, certo? Pelo menos um foco ritual básico, pelo amor de deus.
‘Um foco ritual seria útil, isso poderia me ajudar a conjurar Ressuscitar Mortos.’
— Por acaso… — ele começou a falar.
O Invocador magricelo, sem dizer nada, retirou um objeto envolvido em um pano de dentro do seu manto e o estendeu.
Sem hesitar, Tyron esticou a mão e o aceitou.
— Obrigado — ele disse suavemente. — Aprecio tudo o que tem feito por mim.
— É melhor mesmo — Dove zombou. — Caralho, eu sou o melhor de todos.
Depois de prometer voltar em mais dois dias, Tyron saiu, reuniu seus dois lacaios esqueléticos e voltou com cuidado para a caverna, puxando o pequeno trenó cheio de suprimentos. Ele tinha muitos pensamentos na cabeça, mas não tinha tempo suficiente para processá-los. Dove havia se mostrado tudo o que alegou ser: um aliado, uma valiosa fonte de materiais de Woodsedge quando ele mesmo não tinha acesso à cidade e uma fonte de conselhos. Considerando sua posição, era mais do que Tyron poderia esperar. Se tivesse sido descoberto por outra pessoa…
Ele estremeceu.
O pensamento de ser entregue aos seus próprios pais para a execução foi suficiente para que estremecesse em desgosto e medo sempre que tentava dormir. Naquele momento, era apenas um Invocador magricelo e desbocado que o estava ajudando a evitar esse destino. Era difícil confiar, devido às circunstâncias, mas Dove havia conquistado pelo menos um pouco da confiança dele.
Ele pensou no aviso que havia recebido do Mago depois de se separarem.
— Tenha cuidado aqui fora. As fendas estão se deteriorando e ninguém sabe o porquê. Para piorar, a Fortaleza está restringindo que muitos times saiam enquanto mantém o bloqueio. É uma merda e vai ficar muito mais perigoso perto das terras devastadas do que está agora.
Mover seu esconderijo para um lugar mais afastado das fendas nos próximos dois dias provavelmente seria uma boa ideia, se as coisas estivessem tão ruins quanto Dove havia sugerido. Ele sabia de histórias dos seus pais que a atividade dentro das fendas tendia a oscilar muito conforme a magika aumentava e diminuía naqueles mundos. Na pior das hipóteses, as fendas se estabilizariam e hordas de poderosas criaturas das fendas invadiriam, finalmente capazes de escapar de seus reinos moribundos. Quando isso acontecesse, os Exterminadores seriam mobilizados em massa para tentar prevenir destruição em larga escala. Se falhassem, os monstros destruiriam a terra além de Foxbridge e metade do caminho até a capital, onde seriam repelidos.
Normalmente, seria nestas horas que seus pais receberiam uma mensagem, um ro’klaw pousaria em seu quintal com uma ordem amarrada em sua perna e eles empacotariam rapidamente suas mochilas e partiriam para a luta, abandonando-o.
Irritado, Tyron afastou esses pensamentos perturbadores da cabeça. Ele tinha merdas para fazer – utilizando uma frase de Dove – não podia desperdiçar tempo. Se as fendas ficariam mais perigosas, então ele tinha que ser mais cauteloso, reunir lacaios de melhor qualidade e tomar medidas para se manter seguro.
— Luz.
Dentro da caverna, iluminou o espaço e começou a mover seus novos pertences aos poucos, já que o trenó era muito largo para passar pela entrada estreita. Assim que terminou de descarregá-lo, ele o pegou e o carregou lentamente até a parede, encostando-o nela ao passar.
Ele tinha muito a fazer. Categorizar tudo o que recebeu, examinar o foco de ritual e descobrir como incorporá-lo em sua conjuração, trabalhar em sua feitiçaria e inúmeras outras preocupações, mas não se importava com nenhum deles. Em vez disso, olhou gananciosamente para os dois conjuntos de ossos colocados no chão.
‘Hora de estudar.’
Com um passo ágil que não sentiu conscientemente, moveu-se em direção aos restos mortais e se sentou aos pés de seus futuros lacaios. Ele poderia começar a tecer os fios agora mesmo se quisesse, mas havia muito mais que precisava aprender antes de dar esse passo. Suas duas habilidades de Classe Primária, Avaliação e Preparação de Cadáver, permaneciam dolorosamente baixas e ele sabia que não teria sucesso se não descobrisse uma forma de utilizar ao máximo as duas habilidades. Elas eram sua fundação, afinal, concedidas a ele no nível 1 com Ressuscitar Mortos. Era lógico que seriam igualmente importantes.
Ele respirou fundo e fechou os olhos. Mais uma vez estendeu a magika que guardava em seu corpo em direção à massa descontrolada e bagunçada de poder arcano nos ossos. Sem palavras ou gestos para controlá-la e moldá-la, a magika agia como uma nuvem invisível de gás, direcionada só por sua vontade. Em termos de feitiçaria, era desleixada e um desperdício – não sendo exatamente um feitiço por definição clássica – mas Tyron não conhecia um feitiço para sentir da forma que esperava e não parecia que a Classe Necromante lhe forneceria um.
O que o levou a acreditar que não precisaria construir uma forma de feitiço adequada para o que era necessário, então não tentou.
Em vez disso, começou a sentir seu caminho através dos ossos utilizando seu poder sem forma como um instrumento sensorial, na tentativa de ganhar algum conhecimento sobre os restos mortais. Ele foi paciente, apesar do suor que logo começou a acumular em sua testa. O processo foi lento – o esforço necessário para manter e direcionar sua “nuvem” de energia arcana exigia muito de sua mente – mas ele persistiu.
Ele estava recebendo algum tipo de retorno. Era confuso e incerto, mas conseguia sentir coisas sobre os ossos, ainda que vagamente. Havia imperfeições, rachaduras, saliências e falhas espalhada por toda a superfície dos esqueletos. Ele não sabia se elas afetariam a qualidade do lacaio ou não, mas ainda assim o incomodava. Além disso, tinha uma vaga sensação de energia, de movimento, mas não foi capaz de identificá-la.
Com uma carranca, expeliu mais magika bruta e amorfa, a adicionou ao seu sensor primitivo e a tensão adicional o consumiu ainda mais rápido. Esperava que uma nuvem mais densa lhe permitisse “ver” com mais clareza e, para sua alegria, estava certo!
Não apenas havia Magika de Morte contida dentro dos próprios ossos, mas também havia do lado de fora deles. Enquanto movia e pressionava seu aparato contra os restos mortais repetidas vezes, ele começou a ganhar uma compreensão crua do que estava acontecendo. Pequenas imperfeições, tanto físicas quanto mágicas, estavam permitindo que a energia da morte acumulada escapasse, pequenas quantidades de poder se infiltrando no ar e se dispersando. Apesar da perda, a quantidade de Magika de Morte dentro dos ossos aumentava aos poucos, mas a taxa era lamentável. Quando voltou sua atenção para o segundo conjunto de ossos, encontrou o mesmo problema.
‘Outro quebra-cabeça para resolver.’
Tyron se sentou com um suspiro pesado e relaxou sua mente, permitindo que a magika reunida se dispersasse em nada enquanto liberava seu controle. Isso foi difícil, mas, pelo menos, ele aprendeu algo. O que exatamente descobriu, ou como isso seria aplicado à criação de lacaios mais fortes, ele não tinha certeza.
Sua compreensão atual era que restos mortais infundidos com Magika de Morte suficiente ressuscitariam por conta própria, como um morto-vivo fora do controle de um Necromante ou de qualquer outro indivíduo. Tais criaturas eram comuns o suficiente para terem suas próprias entradas no bestiário de monstros comuns e geralmente eram considerados de baixa ameaça. Isso levantou uma questão para Tyron: se descobrisse uma forma de selar esses “vazamentos”, por falta de uma expressão melhor, e depois descobrir uma forma de aumentar a quantidade de magika dentro dos ossos, isso resultaria em um lacaio melhor e mais forte?
Ou seria pior? De alguma forma independente do seu controle?
Ele não tinha ideia, mas tinha uma forma de descobrir.
Primeiro, precisava de uma maneira de infundir energia arcana nos ossos, depois, fazer isso uniformemente por todo o esqueleto e, por fim, fechar de algum modo essas lacunas minúsculas. Isso seria um desafio, para dizer o mínimo.
Ele se inclinou para frente, com um sorriso grande em seu rosto.
‘É melhor eu começar.’
…