Livro dos Mortos

Volume 1 - Capítulo 40

Livro dos Mortos

Magnin cerrou os dentes enquanto uma nova onda de dor percorria seu corpo. Era uma agonia inimaginável. Todos os seus nervos estavam pegando fogo, cada centímetro da sua pele incendiada. Ele sentia como se seus olhos estivessem derretendo.

— Como diabos isso está atingindo meus olhos? — ele gemeu.

Ao seu lado, Beory falou por entre os dentes cerrados.

— Está machucando sua alma… não o seu corpo. Nós já não… falamos sobre isso?

Um gemido baixo escapou do marido quando ele caiu de lado; suas mãos estavam cerradas em seus antebraços. Dessa forma, os dois continuaram a suportar a tortura sem fim que irradiava da marca. A tortura se arrastou por horas que pareceram anos; os dois suportavam em silêncio, buscando conforto na presença um do outro. Se tivessem sido forçados a aguentar isso sozinhos, quem sabe se teriam resistido?

Estremecendo incontrolavelmente enquanto sua alma se contraía dentro do seu corpo, Beory permaneceu sentada, com os joelhos dobrados contra o peito e os olhos fechados. Ela foi a primeira a notar que a agonia diminuiu, por um instante.

Sua mente se aguçou, arrastando-se para fora da fuga induzida pela dor em que havia mergulhado. Ela se concentrou em seu sofrimento, medindo as pequenas mudanças na agonia à medida que esta continuava a desaparecer. Manteve essa vigília por mais de uma hora até que começou a se sentir confiante de que não ressurgiria de novo.

A dor continuou a diminuir, retornando a um nível constante, ainda agonizando, mas muito mais suportável do que haviam se acostumado durante a semana passada. Magnin cuspiu um bocado de sangue e se levantou, esfregando o rosto.

— Pah! Mordi minha maldita bochecha de novo — murmurou ele.

— Você precisa de cura? — perguntou ela.

Ele observou o estado abatido da esposa.

— De jeito nenhum — sorriu ele, estremecendo por um breve momento enquanto sua alma se inflamava de agonia. — Eu me curarei rápido, você sabe disso.

Sem se importar com ele depois que negou sua ajuda, Beory desabou no cobertor que compartilhavam, com a pele pálida e os cabelos emaranhados de suor. Ela deitou-se ali por um longo tempo, apenas respirando enquanto se deleitava com o nível reduzido do sofrimento. No fundo da sua mente, ela sempre tinha a certeza de que ela retornaria, mas, por ora, tentou se permitir descansar.

— Vamos, querida — Magnin cutucou seu braço. — Eu tenho chá e comida aqui. Sente-se e coma.

Ela fez beicinho e rolou para longe dele.

— Estou me sentindo mal. Não quero comer.

Ele a cutucou de novo.

— E quem foi que disse que nós deveríamos nos certificar de comer e beber todas as vezes que ela diminuísse? Hein? Quem poderia ter sido?!

Ele a cutucou mais algumas vezes com o indicador enquanto falava; sua força era mais do que suficiente para fazê-la rolar até mesmo com um empurrão gentil.

Ela bateu na mão dele antes de rolar para trás e se sentar, estremecendo ao fazer isso.

— Parece um bom conselho, então deve ter sido eu — disse ela.

— Certo — sorriu Magnin. — Então aqui, coma.

Ele entregou para ela uma bandeja com uma xícara quente de chá e uma tigela de caldo ralo. Eles tinham dificuldade de engolir refeições mais pesadas durante suas sessões regulares de tortura remota, mas algo assim ainda conseguiam.

Os dois comeram em silêncio por um instante e a atmosfera dentro da tenda retornou a um estado mais familiar. Eles haviam passado mais noites juntos dessa forma do que de qualquer outra forma em seus anos juntos. Mais tempo na estrada do que em casa.

Depois de comerem, os dois se sentaram em silêncio por um tempo antes que Beory falasse.

— Você acha que eles estão se tornando mais desesperados? A dor tem surgido com mais frequência. E dura mais tempo.

— Eles com certeza estão se esforçando mais — concordou Magnin, com um sorriso irônico. — Com todas as contramedidas que implementamos, não acredito que ainda dói tanto. Qualquer outro além de nós já estaria morto, isso é certo. Até mesmo os outros do nosso rank.

— Não subestime esses velhos idiotas — ela avisou. — Eles estão brincando desse jogo há mais tempo do que nós.

— E, ainda assim, nós que fomos colocados nesta situação — retrucou ele. — Nenhum deles ousou pressionar tanto como nós.

Beory deu de ombros e assentiu. Ela não podia discordar disso. Pelo que sabiam, eles foram os primeiros a tentar se erguer acima do teto que havia sido colocado sobre suas cabeças. Como se pudessem aceitar isso A dor se intensificou mais uma vez e ela ficou tensa até que a sensação diminuísse. Não era a primeira vez que eles foram afligidos várias vezes em um curto intervalo. Tendo acabado de comer, ela esperava por um intervalo maior. Cobrir-se com vômito durante a tortura ofendia sua sensibilidade em vários níveis. Ela caiu em silêncio enquanto seus pensamentos se tornavam mais sombrios. A dor implacável era mais exaustiva do que ela estava acostumada; afinal, ela não era estranha ao sofrimento. Talvez tivesse sido ingênua, subestimando a marca. Os Magistrados controlaram Exterminadores tão fortes quanto ela e Magnin por milhares de anos. Seriam eles capazes de fazer algo que mais ninguém ousou tentar? A dúvida surgiu.

Magnin colocou as mãos gentilmente em seus ombros.

— Por quanto tempo vamos conseguir aguentar? — sussurrou ela, com lágrimas começando a escorrer de seus olhos. — Algumas semanas? Quanto Tyron consegue fazer em tão pouco tempo…? Mesmo ele não conseguiria ascender tão longe.

Seu marido deu um leve aperto no ombro dela, tomando cuidado para regular sua força enorme.

— Não subestime nosso menino — ele riu. — Afinal, ele tem o melhor de nós dois. Um mês e ele abalará os alicerces do mundo.

Beory fungou e sorriu antes de inclinar a cabeça até descansar no braço de Magnin, limpando as lágrimas ao fazer isso.

— Se ao menos pudéssemos conseguir mais tempo…

O Espadachim mais poderoso na província se inclinou e abraçou sua esposa.

— Não se preocupe — disse ele nos cabelos dela enquanto a abraçava. — Fizemos tudo o que podíamos. Tyron terá sucesso onde falhamos. Temos que acreditar nele. Certo?

Beory acenou a cabeça em seu peito.

— Certo.

Eles permaneceram assim, segurando um ao outro até que a dor começou a se intensificar mais uma vez. Separam-se então, tomando cuidado para não se machucarem enquanto eram dilacerados pela agonia. A fúria durou mais desta vez, mas eles ainda suportaram.

Em outro lugar Poranus se afastou do conjunto de marcas com uma careta. Onde suas mãos estavam colocadas na parede, dois sigilos brilhavam em vermelho, aninhados entre centenas de imagens semelhantes, porém fracas, zombando dele com sua resistência contínua.

— Malditos monstros — cuspiu ele.

Ele balançou as mãos enquanto as recolocava nas mangas compridas de suas vestes e se virou. Estava completamente sem magia. De novo. Cambaleou um pouco ao sair da forja, praguejando baixinho.

‘Aqueles idiotas teimosos.’

Se eles tivessem se apressado e matado o pirralho, ou melhor ainda, se suicidado, então ele não teria que continuar a fazer isso todos os dias. Ao sair para o corredor, ele passou por algumas portas até que parou e bateu o punho na próxima.

— Herath! É a sua vez. Depressa!

De além da madeira grossa veio o som de alguém se arrastando antes que a porta fosse aberta por um mago desgrenhado; seu cabelo loiro bagunçado era um sinal claro de que estava dormindo.

— Já? — ele perguntou boquiaberto. — Vocês quatro não aguentaram nem um dia?

O rosto do outro magistrado se contorceu.

— Você sabe que nos pediram para aumentar a potência, seu cretino. Nem todos nós somos abençoados com reservas de magika como você! Por quanto tempo você acha que conseguimos esta potência? Agora cale a boca e vá fazer o seu trabalho.

— Eu ainda nem recarreguei completamente — resmungou Herath enquanto checava a porta para se vestir, deixando Poranus fumegando no corredor.

Quando ele saiu, o jovem Mago estava vestido de forma impecável, com suas vestes limpas e o cabelo penteado. Poranus cerrou os dentes.

— Você me fez esperar para que pudesse pentear seu cabelo? — rugiu.

Herath acenou com a mão.

— Não se pode administrar a vontade dos Deuses sem dar o melhor de si, não concorda, Irmão?

O jovem magistrado ofereceu uma curta reverência ao seu sênior antes de se virar e continuar pelo corredor a caminho da forja. Apesar da fúria que sentia, Poranus a engoliu e se forçou a caminhar. Ele tinha mais um relatório a fazer antes que pudesse descansar a noite toda. Ou, pelo menos, descansar por quantas horas os outros conseguissem dedicar toda a sua energia àqueles sigilos.

‘Quanto mais vocês aguentam, Magnin, Beory? Espero que seja comigo quando vocês quebrarem. Quero sentir vocês se submeterem à vontade dos deuses.’

Era impensável que tivessem resistido por tanto tempo, mas cada dia os aproximava do dia em que não aguentariam mais. Então a ameaça seria eliminada e eles poderiam seguir em frente sem aquela sombra pairando sobre suas cabeças.

Era noite, a julgar pelas tochas tremeluzentes que queimavam em seus castiçais nas paredes. Tornara-se difícil acompanhar a passagem dos dias durante a última semana. Tudo o que conhecia era a câmara em que descansava e a forja, turno após turno, sendo acordado sempre que a rotação decretava que era sua vez de alimentar toda sua magika à marca. Ele estava exausto, mais irritado do que o normal e propenso a deixar seus pensamentos vagarem, algo que não podia permitir em seu próximo compromisso.

‘Fique calmo. Respire fundo. Concentre sua mente.’

Assim que chegou à porta decorada, flanqueada por duas estátuas de gárgulas, que o observavam com olhos frios e metálicos, ele parou para se recompor antes de estender a mão e bater gentilmente.

— Entre — escutou uma voz suave vinda do outro lado.

Com uma última respiração lenta, ele virou a maçaneta e abriu a porta, esforçando-se um pouco ao fazê-lo. Não havia razão para Magos, com força notoriamente baixa, abrirem uma porta tão pesada e irritante, a menos que fosse de propósito. Ela queria que eles entrassem suando e se esforçando, algo que ele se recusou a demonstrar.

Tentando agir da forma mais indiferente possível, firmou os pés e empurrou a porta para que se fechasse devagar, em vez de deixá-la bater. Ele ouviu que um Mago havia batido com força atrás dele e a punição que recebeu fez seus dedos dos pés se curvarem.

— Você pediu meu relatório após meu próximo turno, Lady Erryn e por isso estou aqui.

O escritório em que se encontrava era suntuoso. Cada mobília, cada ornamento, disposto de forma elegante, revelava extrema riqueza. Materiais que só poderiam ser encontrados nas fendas mais perigosas eram abundantes. O espelho na parede era emoldurado com Cristal dos Sonhos. O tapete sob seus pés brilhava com a luz esmeralda dos Rubis de Fogo. Até a escrivaninha era uma declaração de status, elegante e esculpida do miolo de um Pinheiro das Almas – brilhando sob a luz tremeluzente que a tocava.

Comparada à sala, a mulher atrás da escrivaninha poderia ser descrita como comum, embora expressar tais pensamentos em voz alta o condenasse a uma morte dolorosa. De meia-idade, seus cabelos castanhos haviam perdido a elasticidade juvenil e seu rosto começava a apresentar marcas da idade. Alguém poderia pensar que a Lady tinha quarenta e poucos anos, mas Poranus sabia que isso era mentira. Ela parecia idêntica desde a década em que a conhecia.

Ele se aproximou da escrivaninha e fez uma reverência profunda e cuidadosa. Sua forma era a mais perfeita possível. Manteve-se nessa postura, curvado na cintura, com as mãos bem abertas e voltadas para o chão, enquanto a mulher continuava a trabalhar, sendo o arranhar da caneta e o crepitar do fogo os únicos sons.

Suor começou a se acumular em sua testa enquanto ele lutava para manter sua postura. Esforçou-se para conter o leve tremor em seus braços ao mesmo tempo que se concentrava em respirar o mais suavemente possível, enquanto o momento se arrastava pela vontade da mulherà sua frente. Sua ira aumentava a cada segundo que se passava e ele lutava contra ela. Não podia perder seu temperamento, era isso que ela queria.

— Você pode se levantar — disse a voz dela, suave.

Ele se endireitou devagar e viu que ela olhava para ele agora. Seus olhos azuis cristalinos o perfuravam e ele ficou chocado de novo com o quão frios eles eram. Quase sentiu como se não estivesse olhando para um humano.

Sem pressa, Lady Erryn abaixou a caneta e arrumou cuidadosamente os papéis em sua escrivaninha antes de colocar as mãos sobre a mesa e falar de novo.

— Você pode se reportar agora, Magistrado Poranus.

Ele assentiu.

— Conforme solicitado, a intensidade do estímulo emitido pela Marca foi aumentada. Como consequência, estamos drenando nossa magika mais rápido do que antes e não temos tempo suficiente para repor nossas reservas antes de sermos chamados de novo. Como resultado, os intervalos entre as sessões estão começando a aumentar.

Ela não respondeu, apenas continuou a encará-lo. Ele sentiu o suor escorrer pelas suas costas, mas firmou seu tom.

— Se quisermos continuar, sugiro que mais magos sejam designados para a tarefa. Rotações maiores nos permitirão estimular a marca por mais tempo e pôr fim a esse caso o mais rápido possível.

Nenhuma expressão surgiu no rosto da mulher à sua frente. Era enervante.

— Magistrados incapazes de subjugar dois Exterminadores! Tal coisa nunca aconteceu desde a Ascensão. Se rumores sobre isso se espalharem, pode ser suficiente para a aristocracia questionar a competência da sua ordem. Em um momento tão crítico, você é capaz o suficiente para ser instrumento de nossa vontade?

Ele não pôde deixar de sentir uma pontada de indignação surgir dentro dele.

— Nós somos agentes dos Divinos — ele quase rugiu.

Lady Erryn o observou sem emoção.

— E eles falam por meio do Alto Rei e daqueles nascidos em sua corte. Como sempre foi.

Poranus abaixou a cabeça.

— É claro, Lady Erryn, é como você diz.

Por dentro, ele amaldiçoava sua língua solta. Quão perto da exterminação ele queria chegar naquele dia?

Ela o deixou pensar por um tempo antes de continuar.

— Como tenho certeza de que você sabe, os Steelarms são de interesse particular do Barão. Esta situação precisa ser resolvida rápido para que possamos nos concentrar em outros assuntos. Eu designarei mais dois Magos ao seu time, Magistrado Poranus. Então você terá a capacidade de humilhar uma dupla de Exterminadores que desejam se elevar acima de sua posição.

‘Como se Magnin e Beory Steelarm fossem de alguma forma Exterminadores ordinários.’

Ele manteve suas reclamações para si e se curvou mais uma vez.

— Agradeço, Lady Erryn. Com sua permissão?

Ela acenou com a mão e ele assentiu antes de se virar e sair, sem se incomodar em esconder sua luta com a porta. Estava exausto, mais magos seriam uma ajuda tremenda, mas ele tinha uma leve suspeita de que isso ainda não se resolveria tão cedo. Assim que voltou aos seus aposentos, pegou um fragmento de Cristal Arcano e o colocou em sua boca antes de se jogar na cama.

Um pouco de descanso lhe seria bom.

Comentários