Livro dos Mortos

Volume 1 - Capítulo 39

Livro dos Mortos

Tyron, desgrenhado e de olhos arregalados, estava de pé sobre os quatro esqueletos cuidadosamente posicionados no chão. Seu cabelo estava bagunçado e começando a formar um nó enquanto as olheiras e as manchas de sangue em seus olhos evidenciavam a falta de sono. Por dois dias seguidos, ele trabalhou duro. Sem descanso ou pausa por um momento sequer, ele continuou a trabalhar com o objetivo de ressuscitar os melhores lacaios possíveis e finalmente havia terminado.

Por um momento vertiginoso, cambaleou antes de se recompor.

— Água — ele ofegou.

Tentou flexionar os dedos doloridos enquanto cambaleava até sua mochila e pegava o último dos seus odres de água. Precisaria reabastecer em breve e seu suprimento de comida fresca também estava acabando. Era possível sobreviver um longo período com carne salgada e em conserva, mas ele não podia depender disso.

Ele engoliu a água morna e depois se apoiou na parede da cabana em ruínas, inclinando sua nuca para descansar contra a madeira. Sua mão tremeu ao pegar um biscoito duro do bolso e o colocar na boca.

O ritual de Status havia sido grande, a mudança pela qual passou foi grande o suficiente para deixá-lo inconsciente de novo. Ele acordou e descobriu uma riqueza de novos conhecimentos plantados em sua memória pelo invisível, bem como as extensas mudanças em sua mente.

Com sua inteligência tão alta como era, seu comando sobre a magika e seus próprios pensamentos só se tornou mais forte do que antes. Podia até sentir que isso ressoava com seu mistério. Talvez houvesse a chance de se desenvolver num futuro próximo, algo que aprimoraria ainda mais seu crescimento.

O ritual que havia aprendido com o talento de Anátema era muito complexo. Os detalhes básicos que conseguia compreender até então eram intimidantes. Embora não fosse capaz de dominá-lo, ou até mesmo aprendê-lo de forma adequada, a tempo para aplicá-lo aos seus próximos quatro lacaios, ele tinha esperança de que o conhecimento que recebeu o ajudaria bastante no futuro.

Tapar os vazamentos e selar a Magika de Morte dentro de cada osso foi um dos seus principais pensamentos ao escolher o ritual. Esperava que pudesse fornecer meios de transformar cada osso em um “recipiente” para impedir que qualquer magika inserida escapasse.

Eventualmente, ele poderia ser capaz disso, mas, por enquanto, não tinha entendimento suficiente das novas Palavras de Poder ou dos sigilos dos quais se tornou vagamente consciente. Certamente não conseguia realizar um ritual estendido para cada osso individual.

Então, aplicou os métodos que estava desenvolvendo, sentindo cada esqueleto – pedaço por pedaço – tentando suavizar as irregularidades e promover o desenvolvimento da Magika de Morte naturalmente presente nos restos mortais.

Com quatro esqueletos tão próximos, ele tentou aproveitar a oportunidade para estudar as interações únicas que eles tinham entre si. Os traços minúsculos de energia que pulavam de um para o outro o frustravam. Não conseguiu descobrir a conexão que permitia que a energia se movesse dessa forma e não sabia por que isso acontecia, ou como, ou até mesmo se era algo bom!

Ele fez tudo o que pôde para se debruçar sobre cada esqueleto, estudando, tentando consertar erros, saturando-os com poder arcano. Então, chegou a hora da intrincada e dolorosa tarefa de criar a costura necessária para fazê-los se mover.

Tyron ficou bastante satisfeito com o resultado. Seu trabalho nas articulações, em particular, havia melhorado muito. Isso devia resultar em movimentos mais suaves e eficientes para os lacaios, o que diminuiria o dreno de sua energia e os tornaria mais mortais em batalha.

Quanto mais progredia, mais Tyron começava a apreciar quão interligada cada parte da sua nova classe era. Preparação adequada, a costura, conjurar o feitiço – cada elemento se misturava ao seguinte e tinha um grande impacto na qualidade final do lacaio. Quando dominasse completamente todas as técnicas que estava aprendendo seria capaz de criar servos melhores.

Até lá, estava apenas desperdiçando os materiais que encontrava.

Assim que se sentiu melhor, Tyron verificou suas anotações e se concentrou em recuperar sua energia. Precisava completar quatro conjurações de Ressuscitar Mortos antes de poder descansar. Ele já havia perdido muito tempo; quem sabia o que estava acontecendo na fenda a esta altura? Se mais criaturas das fendas tivessem saído, então elas eram experiência que ele poderia caçar.

Foi interrompido três vezes durante seu trabalho para ajudar seus esqueletos a repelir monstros. Por sorte, eram só criaturas menores e não encontraram nada que não conseguissem lidar de forma confortável com a ajuda dos mortos-vivos…

Mas isso reforçava o ponto. Ele precisava de mais lacaios e precisava sair daqui o mais cedo possível. Já estava no nível sete de Necromante; se alcançasse dez, teria mais duas escolhas de feitiços e um talento adicional para escolher. Isso representava outro crescimento fundamental de poder.

Ele, ansiosamente, sentiu que precisava acelerar e se mover mais rápido. Não havia tempo para hesitar.

Seus olhos estavam irritados pela falta de sono, ainda assim, os avisos de Dove soavam em suas orelhas. Ele se levantou e se preparou para as quatro conjurações consecutivas de Ressuscitar Mortos.

A fadiga não importava. Sua mente estava focada. Em cada uso sucessivo ele se tornava mais confortável com o ritual e compreendia melhor dos detalhes, as complexidades do processo, melhorando constantemente.

A pesquisa que estava conduzindo sobre as palavras e sigilos com os quais estava menos familiarizado também estava progredindo. Com as mudanças que havia feito, esperava ver uma conexão mais eficiente entre ele próprio e os esqueletos, permitindo que se movessem mais com um dreno menor de sua magika.

Com sua mente determinada, Tyron aguçou os pensamentos, levantou as mãos e começou a falar.

Quatro horas depois, ele colapsou no chão da caverna. Ele nem precisou usar o feitiço para dormir.

Ele acordou dez horas depois, com a boca e a garganta secas e doloridas.

Suas condições de vida certamente estavam o afetando. Considerando o sono pesado e a falta de comida e água, ele estava aguentando muito bem, mas não podia continuar assim para sempre.

Apesar da fadiga, Tyron se sentia revigorado. Assim que acordou, sua consciência se expandiu para incluir as conexões que compartilhava com seus servos. Seus sete lacaios. Mesmo parados completamente, ele era capaz de senti-los e o pequeno dreno que causavam em sua energia simplesmente por existir. Com todos eles se movendo e lutando, ele sofreria para manter o consumo por muito tempo, mas estava animado de ver quão bom seria o desempenho dos quatro mais novos.

Levantou-se e se esticou, tentando aliviar a dor nas costas, sacudindo o corpo e enfiando um pouco de comida na boca, ansioso demais para partir e não perder tempo.

Assim que saiu, não conseguiu conter o sorriso em seu rosto enquanto ordenava que seus lacaios se reunissem na sua frente.

O consumo de sua magika aumentou conforme os esqueletos caminhavam com seus passos silenciosos e sinistros na sua direção, formando uma fileira irregular para que ele os inspecionasse. A visão deles reunidos acendeu um senso de orgulho no jovem Mago. Esses eram os seus lacaios, criaturas de feitiçaria arcana e componentes mundanos que ele criou. Ele refletiu que um artesão poderia sentir o mesmo ao contemplar um trabalho finalizado, ou um carpinteiro com uma construção concluída. Ele tinha trabalhado horas em cada um desses esqueletos, realizando um trabalho meticuloso e exigente. Podia não ser o mesmo que passar dias ou semanas em uma obra-prima, mas, independentemente, seus esforços se refletiam na qualidade final do que havia criado.

Os últimos quatro eram o ápice de suas conquistas atuais. Eles se beneficiavam de tudo o que ele havia aprendido, todos os testes e melhorias que havia feito, além do impulso de seu primeiro talento. No que dizia respeito a esqueletos, eles eram a nata da safra.

Infelizmente, eles permaneciam desarmados.

Sua primeira tarefa deveria ser retornar ao local da batalha e tentar recuperar algumas armas, se fosse possível. Ele estava mais preocupado em assegurar os restos mortais. Por um instante, seus pensamentos se voltaram para o que os Exterminadores pensariam de seus ossos serem usados para construírem mortos-vivos controlados por um Mago rebelde, mas rapidamente os afastou de sua mente. Ele não foi responsável por se tornar o que era e pretendia usar seus lacaios para combater as criaturas das fendas. Esperançosamente, os Exterminadores conseguiriam encontrar a paz com isso.

Na verdade, ele poderia falar com os mortos agora, tecnicamente, mas resistiu à vontade. Era hora de levar sua horda de esqueletos para a estrada!

— Vamos embora — ele declarou para a fileira silenciosa de mortos-vivos.

‘Não fale com os lacaios, seu estúpido.’

Começou a liderar o caminho, mas parou e sorriu quando percebeu que agora tinha seguidores suficientes para criar uma formação rudimentar ao seu redor. Após ordenar que seus lacaios mais antigos entregassem suas lâminas para os mais novos, ele os posicionou na retaguarda e permitiu que os quatro mais fortes fossem à vanguarda. Nesta formação, marchou de volta para o local em que Cilla havia falecido.

Estar cercado por todos os lados por guerreiros esqueletos deu a Tyron uma certa sensação, como se agora pudesse se chamar de um verdadeiro necromante. Ele havia evoluído muito desde seu Despertar, mas sentia que mal havia melhorado. Sete lacaios eram um grande avanço, mas, no fim, eram uma coleção lamentavelmente pequena. Dove deixou bem claro que ele precisava buscar um número maior de lacaios.

— Não importa como você olhe, garoto, uma merda polida ainda é uma merda. Você terá sucesso enterrando as pessoas nela, não cortando-as com ela — Tyron fez o possível para imitar o tom sarcástico do Invocador.

Ele não concordava. Esqueça a metáfora de endurecimento ou polimento; ele não via seus esqueletos como destinados à fraqueza. Se esforço suficiente fosse despendido, então eles poderiam ser aprimorados e, se esforço fosse tudo o que fosse necessário, então esforço ele faria.

Não demorou muito para que fossem interceptados. Dos arbustos à frente, um pequeno grupo de criaturas das fendas emergiu, soltando um grunhido agudo enquanto avançavam em sua direção.

Pego de surpresa, Tyron xingou e começou a tecer um Raio Magiko, mas, quando estava pronto para conjurar, os pequenos monstros já haviam alcançado seus primeiros lacaios. Com mandíbulas afiadas, as criaturas tentaram morder as pernas dos esqueletos, mas os lacaios mais novos de Tyron provaram seu valor, recuando suavemente para evitar os golpes e brandindo suas armas rudimentares.

Seus três esqueletos restantes avançaram firmemente e a mente de Tyron começou a doer conforme tentava direcionar sete lacaios diferentes de uma vez. Logo percebeu que era impossível e se contentou com comandos genéricos que os esqueletos conseguiam interpretar com suas mentes muito “simples”. Como temia, sustentar muitos esqueletos criava um dreno massivo em sua energia e ele hesitou em levar a mão ao bolso. Ele não tinha muitos doces restantes e precisava se acostumar a lutar sem eles. Depender excessivamente dos cristais era uma boa forma para um mago morrer.

Cerrou os dentes e voltou a direcionar a batalha mentalmente, incitando seus esqueletos a cercar as criaturas e tentar direcioná-los a apoiarem uns aos outros.

As criaturas das fendas cuspiram e estalaram as mandíbulas, enquanto os golpes lentos dos esqueletos as acertavam. Eram muito mais rápidas do que os ossos ambulantes que as atacavam, mas, como todos os monstros, estavam enlouquecidas de raiva e avançaram, desesperadas para causar o máximo de dano possível. Com a mínima orientação de Tyron, os mortos-vivos demoravam mais para responder e ele estava preocupado que eles fossem atingidos como resultado, mas seus medos se mostraram infundados.

Contra apenas quatro oponentes, seus sete esqueletos pressionaram com vantagem numérica, assediando os monstros menores e os desequilibrando. Mesmo seus lacaios desarmados provaram seu valor com chutes cômicos que distraíram as criaturas das fendas e preveniram que atacassem seus esqueletos mais perigosos.

Satisfeito por poderem sobreviver sem ele por um instante, Tyron aproveitou o momento para conjurar Suprimir Mente, esmagando selvagemente a resistência de uma das criaturas e mantendo-a imóvel enquanto ordenava que um morto-vivo empunhando uma espada a finalizasse. Com um dos seus mortos, os monstros restantes ficaram ainda mais em desvantagem e morreram rapidamente.

Tyron estava radiante ao reunir sua legião. Quatro pequenas criaturas das fendas teriam sido uma luta difícil para ele há alguns dias, mas com números maiores e mortos-vivos superiores, ele foi capaz de vencer com relativa facilidade. Quando conseguisse colocar armas nas mãos de cada esqueleto, as coisas melhorariam ainda mais.

Entretanto, no fundo da sua mente, um pensamento persistente exigia sua atenção. Ele ainda estava muito longe da fenda, encontrar quatro monstros já era um mau sinal. Precisava ser cauteloso.

E, de fato, deparou-se com mais um pequeno grupo antes de alcançar seu destino, mas seus mortos-vivos se provaram mais do que capazes.

A visão do túmulo de Cilla, em que havia enterrado a garota inteligente há apenas alguns dias, foi entristecedora e Tyron parou por um instante para prestar respeitos antes de explorar as árvores, esperando encontrar algum equipamento que ainda fosse útil. A princípio, temeu voltar de mãos vazias, já que a primeira espada que encontrou estava quebrada, mas, felizmente, algumas peças pareciam ilesas.

Encontrou uma maça que era mais pesada do que gostaria – o esforço extra necessário para levantar a arma pesada viria de sua mana, afinal, mas era uma ferramenta efetiva contra o exterior quitinoso das criaturas das fendas por aqui. Ele conseguiu encontrar um escudo com apenas uma pequena rachadura, que serviria bem, assim como duas lâminas.

Ao seu esqueleto mais promissor, o maior dos quatro novos membros, ele presenteou o escudo e a maça. Foi necessário ajustar a alça na parte de trás do escudo para que se ajustasse ao braço muito mais fino do morto-vivo, mas, assim que foi feito, o esqueleto parecia capaz de segurá-lo bem. Tyron só podia esperar que ele fosse esperto o suficiente para bloquear adequadamente.

Com o restante do armamento, todos os membros do seu exército estavam pelo menos armados. Algumas das espadas estavam em péssimas condições, mas não havia como evitar. Se tivesse algum tempo, poderia realizar alguma manutenção nelas.

O pensamento de um esqueleto polindo uma lâmina foi suficiente para fazer Tyron rir, mas rapidamente se recompôs e começou a planejar seu próximo passo.

Ele tinha dois objetivos. O primeiro era ganhar experiência caçando criaturas das fendas. Aqui não parecia haver escassez delas, mesmo a uma grande distância da fenda em si. Isso significava que ele tinha uma área ampla para explorar, com poucas chances de ser descoberto por Exterminadores ativos. Na verdade, se o nível de perigo aumentasse, havia uma pequena chance de que os assentamentos e fazendas próximas, como a que encontrou durante sua jornada, até Woodsedge, seriam evacuados. Assim, poderia se mover por uma área ainda maior, se quisesse.

O segundo era continuar a procurar materiais. Ele não poderia suportar mais lacaios do que tinha agora, mas seria ingênuo se achasse que não perderia nenhum durante sua caça. Os esqueletos eram surpreendentemente resistentes, imbuídos de Magika de Morte, mas estavam longe de serem invencíveis. Se ele se deparasse com monstros maiores, as baixas seriam inevitáveis.

Se, por algum milagre, ele não perdesse nenhum, ele ainda precisaria de mais restos mortais. À medida que seu nível aumentava, também aumentava a sua capacidade de reter e regenerar magika, o que significava que poderia suportar mais. Na verdade, agora que alcançou este ponto, Tyron esperava ser capaz de aumentar seu poder rapidamente, pois poderia caçar e receber níveis mais rápido do que poderia esperar antes.

— Hora de começar a caça — ele riu para si.

Pela primeira vez desde que chegou a Woodsedge, sentiu um vislumbre de esperança.

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