
Volume 1 - Capítulo 41
Livro dos Mortos
— Estou te dizendo, garoto, se eu fosse você, eu daria o fora daqui.
O jeito irreverente de Dove desapareceu, substituído por um homem de rosto sombrio que parecia não descansar há dias. Tyron tinha a sensação de que a situação estava piorando devido à frequência de criaturas das fendas que estava encontrando na floresta, mas não esperava que estivesse tão ruim.
— Você está falando sério ao dizer que haverá uma ruptura? — questionou Tyron.
Algo que raramente ocorria e ninguém queria estar perto quando acontecia: uma ruptura.
— O que a fortaleza está fazendo? Não havia sinal de que isso fosse acontecer até uma semana atrás!
O Invocador fez uma careta.
— Se você pensar bem, pode ter havido. A missão que assumimos antes da sua… prática de ritual experimental que me prendeu à cidade foi definitivamente mais agitada do que o normal. A atividade ao redor das fendas sempre flutua, então não pensamos muito a respeito disso, mas se a intensificação começou naquela época, então o cenário faz sentido.
— E a Fortaleza?
— Olha, as Fortalezas de Exterminadores são controladas pelos Magistrados e ninguém sabe o que esses bostas estão fazendo, mesmo nos melhores momentos. A restrição nos números de times de Exterminadores permitidos estarem ativos ao redor das fendas não poderia ter vindo em uma hora pior. Sob circunstâncias normais, nós teríamos emitido um chamado para os seus pais virem e eles teriam vindo, mas nem isso podemos fazer agora.
— Isso é… minha culpa? — murmurou ele.
— O quê? Claro que não, porra. Eu sei que você tem bastante no seu saco, garoto, mas não se iluda pensando que você sozinho pode influenciar algo assim.
— Mas se eu não tivesse conjurado aquele ritual, os Exterminadores teriam sido contidos dessa forma? E se eu não fosse um Necromante, se eu tivesse abandonado minha Classe, então meus pais estariam livres para resolver as coisas. Como isso não é minha culpa?
O homem mais velho suspirou e balançou a cabeça.
— Você não escolheu sua Classe, então você não é responsável por isso — ele levantou o dedo e continuou a contar os dedos enquanto continuava. — Você não proibiu a Classe, você não escolheu que os Steelarms te perseguissem, você não tomou a decisão de confinar Woodsedge em um momento terrível e você não se recusou a permitir que seus pais ajudassem. Os Magistrados fizeram tudo isso, exceto pela parte da escolha da Classe e quem sabe como isso acontece?! Meu ponto é: não há motivo para você carregar esse fardo sobre os seus ombros. Pelo que posso dizer, você tem feito sua parte para ajudar.
Ele assentiu na direção da fileira de esqueletos atrás do jovem Necromante.
— Você deve ter matado algumas criaturas das fendas com esses ossudinhos.
A expressão de Tyron tornou-se dolorosa.
— Por favor, não chame meus esqueletos de “ossudinhos”.
Dove revirou os olhos.
— Tudo bem, mas sério, em que nível você está agora?
—… nove.
— Sério? Você está decolando. Mais onze níveis e você não será mais um pedaço de merda inútil.
O Mago magricela sorriu enquanto brincava com ele, mas Tyron pôde sentir que era um pouco forçado. Dove estava cansado e tentava não mostrar isso. O peso da situação, somado à culpa da qual não conseguia se livrar, pairava sobre seus ombros como um manto.
— Está… está muito ruim, não é?
O sorriso sumiu do rosto do Invocador e, de repente, ele não parecia mais Dove, mas um guerreiro fatigado com poucas opções restando.
— Rogil quase perdeu o braço quando tentou eliminar os monstros nas terras devastadas. Aquele homem tem a pele tão dura quanto aço e um bastardo gigante com cara de lagosta quase o cortou com um único golpe. Levará semanas até que ele consiga usá-lo direito, a menos que um curandeiro milagroso de nível prata descesse da porra dos céus. Estou trabalhando nesta fenda de Nagrythyn há três anos e nunca vi algo como essa criatura que vi há dois dias. Nem mesmo do outro lado, mas Rogil viu. Nós somos o segundo time dele. Ele foi o único sobrevivente do seu primeiro grupo após a fenda de Illica a oeste ter se rompido. De acordo com ele, todo tipo de besteira começa a aparecer quando as fendas ficam grandes demais. Só os de rank ouro ou superior conseguem lutar contra esses babacas diretamente, e nós não temos nenhum.
Tyron estava começando a entender e não gostava nada disso.
— Você acha que vai romper, não acha? — ele disse. — Você não acha que eles vão conseguir aguentar.
Dove olhou nos olhos dele e meneou a cabeça.
— Não — ele admitiu. — Não acho que eles conseguem.
Sua admissão pairou no ar por um longo momento enquanto Tyron raciocinava, passando de um pensamento para outro sem se fixar em nenhum. Se ela rompesse, então Woodsedge estava acabada. A menos que a ajuda viesse rápido, toda a cidade, junto da Fortaleza, seria varrida do mapa. Ele pensou em Hal e sua filha Madeline. Pessoas trabalhadoras e honestas, mortas. Ele pensou em Rell ao seu lado na Estrada da Vitória e seu sonho de se tornar um Exterminador, morto. Ele pensou em Rogil, Dove, Aryll e Monica.
O Invocador levantou a mão antes que Tyron pudesse falar.
— Nem ouse dizer isso. Seus pensamentos estão escritos por todo seu rosto. Os times estão se reunindo e se preparando para uma investida final em direção às terras devastadas e não existe a mínima chance de eu desistir dessa festa. Além do fato de que minha marca me torraria como um bife se eu tentasse, ninguém se tornou um Exterminador para fugir do perigo. A maioria da glória que eles atribuem a esse trabalho é pura besteira. A adoração, os desfiles, eu odeio isso, mas quando as coisas ficam difíceis, quando pessoas vão morrer, eu não irei virar minhas costas e nenhum Exterminador o faria. Se tivermos sucesso, salvaremos dezenas de milhares de vidas.
— Mas você não acha que vão — Tyron ressaltou.
Dove sorriu ferozmente.
— Pretendo levar o máximo possível daqueles desgraçados comigo. Talvez assim algumas das pessoas fracas e patéticas, assim como você, sobreviverão. É isso que significa ser um Exterminador, garoto.
Uma memória passou por sua mente.
Magnin sorriu brilhante enquanto esticava a mão para bagunçar o cabelo de Tyron.
— Se você não está preparado para morrer, não tem o direito de matar as criaturas das fendas, Filho. Arriscamos nossas vidas para proteger os outros, é isso que significava ser um Exterminador.
Ele respirou devagar de forma irregular.
— Quanto tempo você acha que temos?
O mago mais velho deu de ombros.
— É difícil saber. Partiremos em doze horas. A luta durará alguns dias, três no máximo. Se tivermos sucesso, você terá todo o tempo do mundo; se não, espero que consigamos ganhar mais alguns dias.
Ele se mexeu desajeitado por um instante antes de estender a mão. Tyron o encarou por um instante.
— Você a aperta — disse Dove categoricamente.
Tyron pulou e agarrou a mão do Invocador, apertando-a firmemente.
— Não sou bom com esse tipo de coisa — tossiu Dove. — Mas foi bom te conhecer, garoto. Sua situação é praticamente a pior que já vi e fiquei feliz por poder ajudar do meu jeito. Boa sorte para você. E, por favor, se encontrar algum Magistrado cara a cara, mate-o e o ressuscite, por favor? Isso seria hilário para caralho.
Tyron engoliu o nó em sua garganta.
— Eu vou — ele prometeu.
Com um último movimento do braço, Dove o soltou e deu um tapinha em seu ombro antes de se virar e começar a voltar para a cidade. Tyron o observou partir, sentindo uma mistura esmagadora de desespero e culpa percorrer seu estômago.
Assim que o Mago não podia mais ser visto, Tyron ordenou que seus esqueletos coletassem os suprimentos que Dove havia trazido e iniciou a longa jornada de volta ao seu acampamento atual. Ele tinha muito o que pensar.
—
De volta na Fortaleza Rogil flexionou com cuidado os dedos do braço esquerdo, ignorando as pontadas de dor que sentia ao fazê-lo. O curandeiro havia feito um trabalho incrível, considerando tudo. Ele estava muito preocupado em perder o membro, apenas para ouvir que ficaria bem em questão de semanas. Uma pena que não tivesse semanas de sobra. Os dedos estavam móveis o suficiente para segurar o cabo de uma arma, o que era bom, mas a região superior do bíceps, onde o braço havia sido recolocado, estava fraca demais para suportar o esforço de empunhar uma. Ele conseguia lutar com uma mão, havia feito isso no passado, mas sentia que se precipitar em uma fenda que se rompia não era o momento de ter um braço amarrado nas costas.
— Preciso pegar um escudo — ele murmurou para si mesmo.
— Peça e você receberá! — declarou uma voz alta de trás dele, seguida por um baque alto quando algo caiu atrás dele.
O guerreiro se virou para ver Dove sorridente de pé sobre um pesado escudo de aço, com as mãos na cintura e posando como se tivesse acabado de realizar um feito heroico.
— Onde diabos você estava tão tarde? — ele rosnou. — Você sabe que houve uma reunião.
— Uma reunião? — Dove recuou horrorizado. — Eu nunca vou a essas reuniões, sabe disso.
— Pensei que sua política poderia mudar nesta ocasião.
— Pensou errado. Se fosse até a reunião, como eu teria tempo para pegar esse escudo pesado?
— E se eu não quisesse um escudo? — Rogil perguntou, mesmo sem saber por que se dava ao trabalho.
Em resposta, o Invocador só revirou os olhos antes de desabar na cadeira mais próxima.
— Claro que você quer um. Infelizmente seu quase braço quase foi decepado, então ele é inútil para qualquer outra coisa além de segurar um escudo. Portanto, — ele gesticulou para o escudo, — toda essa situação.
O líder do seu time exibiu um olhar inexpressivo.
— Se você quer saber o que acontece nas reuniões, então você deveria, quem sabe, comparecer a elas — Rogil resmungou.
— Seu ponto é bem fundamentado e minhas bolas encolheram de vergonha. Feliz? Conte logo.
— Tudo bem. Correu tudo tão bem quanto era desse esperar. O Magistrado Thuran a presidiu e todos o amaldiçoaram e sua família, por oito gerações, pela condução idiota da situação, permitindo que ela chegasse a este ponto.
— Deixe-me adivinhar: ele sorriu como um babaca convencido e mandou todos se foderem.
— Basicamente. Depois de nos dizer para lidar com isso, ele admitiu que havia uma “chamada de emergência” para todos os Magistrados residentes na Fortalezas e que eles retornariam à capital de imediato.
— Me pergunto se de fato há um chamado de emergência, ou se eles apenas fingem para poderem voltar correndo — Dove refletiu.
— Quem se importa? — o guerreiro deu de ombros. — O resultado permanece o mesmo, eles não estarão por perto se as coisas derem errado.
— Sempre lá para fazer a pedra rolar morro abaixo, mas nunca lá para pará-la.
— Podemos parar de reclamar dos Magistrados? Não é como se eu não concordasse, mas estou ouvindo esses xingamentos o dia inteiro. Meu braço dói, estou cansado e prefiro descansar um pouco do que ter que reclamar sobre coisas que não podemos mudar.
Um pouco contrariado, Dove assentiu e gesticulou para ele continuar.
— Com isso resolvido, chegamos ao ponto do planejamento. Vou presumir que você não se importa com os detalhes. Nós vamos, limpamos as terras devastadas e depois atravessamos as fendas. Se conseguirmos aliviar a pressão do outro lado há a chance de evitarmos uma ruptura. Se não conseguirmos, organizamos uma retirada de combate e tentar resgatar o máximo de pessoas possível.
‘Como se recuar de uma fenda à beira da ruptura fosse algo fácil de se fazer.’
Quem passasse por ela dificilmente voltaria e ambos sabiam disso. Sentado, Dove começou a pensar sobre sua carreira como um Exterminador. Os riscos que correu, os triunfos e as falhas. Ele perdeu muitos amigos ao longo do caminho – era uma parte do trabalho – mas, de alguma forma, ele nunca pensou que uma situação como esta aconteceria com ele. Talvez fosse convencido demais, afinal.
— Como é? — ele perguntou.
Rogil se virou para ele, com uma sobrancelha levantada.
— Quando uma fenda ocorre — o Mago esclareceu. — Eu nunca vi uma e nunca perguntei sobre isso porque entendo que é um assunto delicado, mas, agora, gostaria de saber. Se não tiver problema.
Seu líder se inclinou para o lado e apoiou o queixo na mão direita apoiada no braço da cadeira.
— Não é típico de você ser sentimental. Você poderia ter me perguntado sobre isso a qualquer momento.
— Não pareceu apropriado.
— Justo — ele se inclinou para trás em sua cadeira. — O que você quer saber?
— Eu não sei — Dove acenou com as mãos no ar. — O que acontece? Que tipo de monstros saem? Você estava perto o suficiente para ver acontecer? Esse tipo de merda.
Rogil ponderou sobre as perguntas por um instante antes de responder.
— Não, eu não estava perto o suficiente para ver acontecer. Eu só era um rank ferro naquela época, não um membro da linha de frente. Meu time era parte da retaguarda e, quando tudo desmoronou, fomos subjugados rápido. Lutando para se retirar de uma fenda em ruínas… não é algo que eu esteja ansioso para tentar pela segunda vez — ele respirou fundo. — As criaturas das fendas que emergem durante a ruptura são más notícias, Dove. Tenho certeza de que não precisa que eu fale sobre isso, você as estudou profundamente, tenho certeza.
Ele esperou e Dove assentiu.
— Em termos do que acontece… é como se o mundo… quebrasse. O tempo não fazia sentido, para cima ou para baixo não fazia sentido, nada fazia sentido. Juro por deus que a pessoa ao meu lado virou do avesso na hora. Os efeitos normais das terras devastadas se amplificaram em centenas de vezes. Os rugidos das criaturas das fendas explodiam os ouvidos, mal se conseguia ver direito, o chão parecia estar derretendo sob os pés… eu nunca vivenciei nada parecido desde então. É aterrorizante.
— Como você saiu? — Dove perguntou baixinho.
Rogil soltou uma risada áspera.
— Sorte. E ranks de ouro. Nós estávamos perto o suficiente da capital para que eles conseguissem chegar bem rápido e evitar o pior. Meu time já estava morto a este ponto. Um dia depois os Steelarms chegaram e resolveram tudo em uma semana.
— Eu ouvi.
O guerreiro balançou a cabeça.
— Eu o vi fazer isso. Magnin, quero dizer. Só por um tempinho, pude assistir à luta do Exterminador do Século. Um behemoth enorme e peludo veio rugindo em nossa direção, derrubando as árvores em seu caminho. Juro aos deuses que aquele monstro era tão alto quanto um prédio. Nove metros, pelo menos. Éramos vinte lá para segurá-lo e aquele cara simplesmente se aproximou e… — ele parou de falar, — Não vi as mãos dele se mexerem, não vi a lâmina dele. Num minuto, a criatura da fenda estava parada na frente dele e no outro caiu para o lado, cortada ao meio.
Os olhos de Rogil perderam o foco enquanto ele recordava o passado, relembrando como se sentiu naquele momento. Ele era tão jovem. Ainda ferido e em luto, com as emoções à flor da pele.
— Ele era como um deus. Pensei que, se ele conseguia fazer aquilo, o que neste mundo poderia feri-lo?
— Então você decidiu subir de rank, que seria como ele e alcançaria o pináculo dos Exterminadores.
Ele zombou.
— O quê? Não. Sei que que nunca chegaria a esse nível, não importa o que, mas eu não tinha outras habilidades e havia despesas. Funerais para os membros do meu time, garantir que suas famílias fossem cuidadas.
— Família, hein? Sabe, é em momentos como este que eu gostaria de ter me casado.
— Dove, você seria o pior marido do mundo. Não há dúvidas disso.
— Ai.
— E é por causa de momentos como este que nunca me casei.
— Bom ponto.
…