
Volume 1 - Capítulo 24
Livro dos Mortos
Cilla revelou-se uma companhia falante e simpática enquanto o tempo passava. Os dois continuaram a conversar enquanto aqueles ao redor lançavam olhares estranhos e continuavam em posição de sentido o máximo possível.
— Então, eu pensei que isso era chamado de Rua Northgate. — Tyron perguntou. — Mas você a chamou de Estrada da Vitória?
Ela sorriu, seus olhos castanhos escuros brilhando de diversão.
— Isso é algo que aprendi com os Exterminadores. É assim que eles a chamam, não tenho certeza do motivo. Aparentemente toda Fortaleza possui uma “estrada da vitória”, um nome glorificado para a rua que os leva direto ao inferno. Filhos da puta mórbidos.
Tyron olhou para a estrada de paralelepípedos bastante simples e para o portão sólido, mas de aparência comum, no final dela.
— Uma aparência bastante comum para um portão para o inferno, não acha?
Ela olhou para ele de soslaio.
— Você nunca esteve ali fora, certo?
Ele balançou a cabeça.
— Não, nunca coloquei os pés nas terras devastadas.
Ele escutou sobre ela toda sua vida, graças a duas pessoas que a conheciam melhor do que ninguém.
— É o inferno ali fora. — Ela disse empaticamente. — Deixe-me te dizer, a maioria desses babacas nunca saiu e uma boa parte dos que consegue sair não volta mais.
Surpreso, as sobrancelhas de Tyron se levantaram enquanto olhava para as pessoas ao redor.
— Sério? Eles desistem depois da primeira vez?
Cilla soltou um bufo nada feminino.
— Cacete, é claro. De qualquer forma, aqueles que voltam. Cerca de metade não volta.
Ela se virou e o encarou.
— Lá fora é um cemitério, Lukas. Tenha certeza de não se mijar.
Ele revirou os olhos.
— Minhas calças estão perfeitamente secas. — Ele disse. — Mas, estou surpreso em descobrir que muitos não voltam.
— Fracos. — Rugiu o jovem ao lado deles. — Fracos demais para o trabalho. Garotos gordos da fazenda que deveriam ter permanecido em casa ordenhando vacas.
Ele se inclinou sobre a estrada e cuspiu.
— Lukas, este é Rell. — Cilla o introduziu com a mão em suas costas. — Ele está por aqui faz alguns meses e já saiu três vezes, mas é muito convencido para ficar com a gente, a ralé.
Rell franziu o cenho.
— Você nunca sabe quando os Exterminadores podem estar observando, eles podem ter pessoas vigiando a estrada neste instante.
— Eu duvido muito disso. — Ela respondeu. — Eles não dão a mínima para nós, mesmo nos melhores momentos e estou arredondando para cima.
Embora não tenha dito nada, Tyron assentiu, pois isso condizia com o que sabia. Ratos de Exterminadores – ou apenas ratos, mercenários que os Exterminadores levavam com eles nas fendas – eram os que faziam os trabalhos sujos que os Exterminadores não se incomodavam ou não queriam fazer por conta própria.
— De qualquer modo, você faz as coisas da sua forma e eu faço da minha. Quantas vezes você já saiu?
— Seu bastardo. Sabe que só saí uma vez.
— Pelo menos ainda está aqui.
— Com certeza sim.
— Você esteve lá fora? — Tyron questionou, falhando em mascarar a surpresa em sua voz.
Cilla lançou um olhar furioso.
— Sim. Por quê? Acha que não sou boa o suficiente?
Ele levantou rapidamente as mãos em defesa.
— Não, não! Só acho que a maioria das pessoas aqui não saiu, então as chances estavam contra você. Não posso dizer se você é boa ou não, não sei nada sobre você!
Sua explicação pareceu apaziguar a garota feroz e ela se sentou de volta para ficar mais confortável, bufando. Sem se incomodar em esconder, Rell mostrou para ela o dedo do meio antes de ajeitar sua postura mais uma vez. Tyron percebeu que os dois não se anunciavam da mesma forma que os outros dois faziam. Não possuíam placas, quadros ou pedaços de papel com seus status e habilidades rabiscados de forma grosseira para mostrar suas qualidades, como tantos outros que ladeavam a rua. Curioso, comentou isso com Cilla, que apenas soltou uma risada áspera.
— Como prostitutas na rua à noite. Juro pelos cinco, isso é humilhante. Se temos que ficar aqui e depender da boa vontade dos Exterminadores, então podemos ter um pouco mais de dignidade.
— Dignidade? Isso é um pouco exagerado vindo de você. — Rell zombou.
— Enfie no cu, Rell. — Ela respondeu com facilidade. — Enfie fundo até começar a gostar. Para responder à sua questão, Lukas, não, eu não me importo com esse lixo e Rell também não, porque nós temos algo que outros não têm.
— Que é? — Ele comentou quando ela não continuou.
Ela sorriu para ele.
— Um time que está disposto a nos contratar de novo. Eu fui bem o suficiente na minha primeira vez lá fora, e eles disseram que me contratariam de novo. Não é garantido, desde que nossos empregadores são muito instáveis, mas é melhor do que segurar uma placa e bater na minha bunda enquanto os times passam.
Tyron assobiou em apreciação.
— Consigo entender como isso faz diferença. Embora, se esse for o caso, por que você está aqui? Eles não te contatariam diretamente?
Rell bufou, mas se recusou a elaborar.
A garota ao lado dele estendeu a mão para colocá-la no ombro dele enquanto exibia um olhar de pena.
— Lukas, você precisa se recordar do que é para eles: um rato. Você não é bem a merda na sola da bota deles, ah, não, você é o macaco do lixo que eles pagam para lambê-los. Contatar-nos diretamente? Nós teremos sorte se eles nos informarem que dia sairão de novo.
— Então, se você não estiver aqui quando eles saírem…
— Eles apenas escolhem outra pessoa.
— Isso é…
— Uma merda?
— Eu ia dizer uma postura ruim, mas sim. Uma merda.
— É assim que as coisas são, Lukas. É assim que você trata ratos e um rato é o que você é agora. Sua vida é tão barata quanto pão e você é um dos idiotas mais substituíveis de toda a província. Quantos rostos novos você acha que vemos todas as semanas aqui, Rell?
— Não pode me deixar de fora disso? — O jovem reclamou.
— Você está aqui há mais tempo, então tem uma ideia melhor do que eu. Apenas cuspa.
— Vou esperar mais abaixo da próxima vez, juro. Olha, o Despertar aconteceu recentemente, então há pelo menos uma dúzia de rostos novos todos os dias. Eles provavelmente continuarão a aparecer aos poucos por meses, enquanto jovens decidem largar as ferramentas e fugir do aprendizado para tentar recomeçar a vida matando criaturas das fendas. Quando eu cheguei aqui, não era nem de perto tão lotado como é agora.
— Não parece tão cheio. — Tyron disse enquanto olhava para a fila.
— Ha! Metade de nós ainda nem está aqui. — Cilla sorriu. — Dê a eles um pouco de tempo.
Dizendo isso, ela se deitou, descansando a cabeça em sua mochila enquanto se preparava para passar o tempo e Tyron teve pouca escolha, além de esperar.
E esperar.
Enquanto as horas passavam e o sol subia acima de suas cabeças, a previsão dela se tornou mais do que correta. Um fluxo constante de rosto jovens, alguns mais bem-vestidos do que outros, fizeram seu caminho até a lateral da estrada até que se tornasse muito movimentado dos dois lados. O ar de desespero e fome no ar era palpável enquanto os ratos disputavam espaço e mordiam um ao outro por qualquer coisa. Quando o sol atingiu seu zênite, Tyron estava com calor, entediado e três lutas haviam ocorrido.
Dois times haviam retornado naquele período, os únicos eventos que afastaram a monotonia. O grito vindo dos guardas acima do portão era a primeira dica de que algo estava acontecendo, seguido pelo portão se abrindo lentamente o suficiente para permitir a entrada dos Exterminadores, desgrenhados e cansados, então as pesadas vigas de madeira se fecharam com um estrondo atrás deles. Nesses momentos, Tyron percebeu que os ratos ficavam em silêncio e respeitosos, sem querer causar más impressões para seus potenciais futuros empregadores.
Pela sua observação, não achava que isso importava muito. Os Exterminadores pareciam cansados, feridos e sem clima para lidar com a horda de aspirantes a Exterminadores que se alinhavam ao longo da rua. Apostava que qualquer um que tentasse incomodá-los, enquanto eles voltavam para a Fortaleza ou para um curandeiro possivelmente teria uma perna decepada pelo esforço.
Duas horas depois do almoço e agora não estava apenas quente e irritado, também estava com fome. Ele até pensou em retirar algumas de suas rações, mas decidiu não fazer isso. Se acabasse sendo contratado hoje, uma perspectiva que parecia cada vez menos provável, então ele poderia se abastecer quando voltasse para a pousada.
— Normalmente, há tão poucos times saindo? — Ele finalmente perguntou aos dois companheiros, exasperado. — Não vimos um único grupo sair nas últimas quatro horas!
— É um pouco incomum. — Rell admitiu, ainda parado ao lado de onde Tyron se sentava. — Mas não é super incomum. Algumas vezes, você pode ficar um dia ou dois sem que nenhum saia, apenas para que metade da Fortaleza saia na manhã do dia seguinte.
— E nós esperamos aqui o tempo todo?
— Esperamos se queremos ser contratados.
Tyron suspirou.
Acontece que um time saiu mais tarde. Um sussurro abafado de entusiasmo percorreu a fila de esperançosos, vindo daqueles mais próximos da fortaleza e Tyron levantou os olhos e viu os outros se endireitando e dando seu melhor. Antes que percebesse, Cilla já havia se levantado com um salto e assumido uma postura mais disciplinada, sem sinal da sua preguiça anterior. Ela olhou para ele e piscou.
— É a hora do show, Lukas! Levante-se.
Ele piscou algumas vezes antes de compreender e se levantar com dificuldade. Ele não tinha certeza de como se portar, então acabou cruzando os braços sobre o peito em uma tentativa de parecer como se soubesse o que estava fazendo. Alguns minutos depois, os Exterminadores passaram por eles, um grupo de cinco vestidos com armaduras, mochilas nos ombros e armas polidas e reluzentes. Eles olharem de relance para a multidão reunida, mas nãos se deram ao trabalho de falar com ninguém e logo o portão atrás deles se fechou.
Cilla suspirou e até caiu de volta para sua posição sentada.
— Eles não levaram ninguém? Rudes.
— Provavelmente estão em uma viagem mais longa, então contrataram um Exterminador para completar o time deles. — Rell observou.
— Como você consegue dizer?
— Emblemas nas mangas. Nem todos os times possuem um, mas eles tinham. O último cara não tinha um, então acho que eles o contrataram para ajudar com o trabalho sujo.
— É uma merda para nós. — Cilla suspirou.
Esse foi o único time que saiu aquele dia e, ao anoitecer, Tyron se despediu dos seus dois novos conhecidos e voltou para a estalagem, onde encheu seu estômago com alegria e fofocou com as funcionárias antes de subir para o seu quarto para praticar Raio Magiko, até que conjurou Sono em si mesmo e adormeceu.
Destemido, acordou no dia seguinte e checou seu Status, satisfeito de ver que conseguiu levar o feitiço para o nível três – nada mal para uma habilidade sem classe com apenas algumas noites de prática. Sua velocidade estava melhorando junto da sua eficácia. Quão bem ele se sairia com um alvo em movimento? Difícil dizer, mas, pelo menos, a magika era mais confortável de se usar do que antes. Com um pouco de sorte, poderia ser até usável em uma luta.
Embora não tivesse se apressado como havia feito na manhã anterior, ele ainda chegou lá antes da maioria da multidão, o que significava que conseguiu garantir um lugar semelhante ao de ontem. Logo cumprimentou tanto Rell como Cilla com um sorriso e um aceno.
— Belo chapéu. — Rell observou.
— Acho que me queimei ontem. — Tyron admitiu timidamente.
— Você é excepcionalmente pálido para um rato. — Cilla cutucou seu braço. — Você é alérgico ao sol ou algo do tipo?
— Só passei muito do tempo em ambientes fechados. Sou um pouco noturno também.
Os três continuaram conversando; havia pouco movimento durante a manhã enquanto a multidão continuava a crescer. Logo antes do almoço algo finalmente aconteceu, um time saiu da Fortaleza. Como ontem, Tyron se levantou e tentou parecer capaz, assim como todos os outros ratos. Quando os Exterminadores entraram na vista deles, ele sentiu uma onda de entusiasmo à sua direita enquanto Cilla parecia inchar no local, com um sorriso estampado em sua face, apesar dos seus esforços para escondê-lo.
Tyron ficou confuso, mas suas perguntas logo foram respondidas quando a mulher que liderava o time se aproximou um pouco mais quando avistou a garota aguardando.
— Cilla, sua inútil. — A Exterminadora falou, balançando a cabeça. — Pronta para matar algumas criaturas das fendas?
— Pelo inferno, sim! — Ela gritou animada. — Eu até ajudarei a carregar sua mochila, de tão gentil que sou.
— Claro que você carregaria. — A mulher respondeu, com uma pitada de humor em seus olhos. — Então vamos lá.
Cheia de energia, Cilla agarrou sua mochila e praticamente pulou na estrada para se juntar ao grupo. Tyron não teve a chance de desejar a ela boa sorte, antes que ela caminhasse pela estrada e passasse pelo portão, a caminho das terras devastadas. Quando o portão se fechou atrás deles, ele se sentou de novo com um suspiro.
— Esse é o time da Marion. — Rell disse a ele. — O mesmo grupo com quem ela foi na primeira vez. Um bom grupo, com uma boa reputação. Espero que ela fique bem.
— Eu nunca perguntei qual o nível dela. — Tyron percebeu. — Ela é realmente tão forte para lutar contra os monstros?
Rell sorriu.
— Olha, é meio rude perguntar as pessoas qual o nível delas e, se você perguntar para as pessoas ao redor daqui, elas mentirão em nove de dez vezes – simplesmente não há a necessidade de informar os seus competidores. Quanto a lutar contra as criaturas das fendas, porra, não, nós não devemos realmente lutar. Oferecer suporte, ajudar se houver uma emergência, é claro, mas não cara a cara. Normalmente os Exterminadores permitirão que os ratos lutem contra algumas das criaturas mais fracas, como parte do pagamento, ajudando-os a conseguir um pouco de experiência, desenvolver suas habilidades e ganhar níveis, o que os torna ratos mais úteis.
— Normalmente?
— Bem, você pode negociar um pouco o preço com os times. Quantos mais dinheiro você quer, menos dispostos eles se sentirão a permitir que você lute. Você precisa decidir se quer dinheiro ou desenvolver seu Status.
— Isso não significa que você não recebe nada se deseja se tornar um Exterminador?
— Praticamente.
*Ouch.* — Quanto mais aprendo sobre isso, mais acho esse sistema uma merda. — Comentou.
O outro jovem deu de ombros e suspirou.
— Não há uma única pessoa aqui que não esteja desesperada, Lukas. Se não aguenta é melhor ir para outro lugar.
Tyron apenas deu de ombros.
— Acho que me encaixo perfeitamente, Rell. Não tenho outro lugar para ir.
Os dois não falaram nada por um longo período. Em vez disso, acomodaram-se e esperaram.
O resto do dia se passou da mesma forma, assim como o próximo. Tyron lutava contra o tempo perdido, o senso de urgência dentro dele crescendo a cada momento que passava. Ele tinha que sair daqui, precisava se aprimorar. Mais de uma vez, considerou apenas fugir da cidade e correr até as terras devastadas por conta própria, mas sabia lá no fundo que era provável que morresse se tentasse. Ele era muito fraco para ter qualquer chance – os monstros das fendas os rasgariam em pedaços. Nem possuía lacaios para lutar por ele e, sem eles, era pior do que inútil. Não. Ele tinha que esperar.
Por sorte, o quarto dia se provou mais promissor do que os anteriores.
…