
Volume 1 - Capítulo 22
Livro dos Mortos
O silêncio reinou ao redor da mesa na casa dos Ranner e Elsbeth sentiu vontade de gritar. Ela queria levantar-se de sua cadeira e sair correndo pela porta, ou sacudir o seu pai, ou desabar em prantos, ou implorar por perdão, mas não fez nada disso. Frustrada e magoada, ela manteve sua cabeça baixa e terminou sua comida, sem olhar nos olhos de ninguém durante a refeição. Quando terminou, empurrou sua cadeira para trás e levantou-se, carregando seu prato vazio até a bancada, onde o colocou na pia para ficar de molho, virou-se e caminhou até o seu quarto sem ninguém dizer uma palavra.
Assim que a porta se fechou atrás dela, a vontade de gritar e bater seus pés no chão se tornou quase insuportável, mas ela se conteve, por pouco. Qual seria o ponto? Quase por instinto ela começou a repetir ladainha de Selene em sua mente, um exercício calmante que lhe foi ensinado pelas Irmãs quando era apenas uma garotinha, fascinada pelos milagres estranhos que essas mulheres de túnica realizavam e o respeito universal que conquistavam.
Santa Mãe me proteja e me guie, Deixe sua luz cair sobre mim, Quando caminho em sua graça nada pode me fazer mal, Mantenha-me pura como você é pura, Para que nós – As palavras caíam aos pedaços enquanto ela ficava em branco, tomada pela certeza, a certeza, de que aos olhos da Deusa ela não era mais pura, não mais digna.
Ela foi rejeitada. Julgada não ser capaz de servir ao ser a quem ela devotou toda sua juventude.
A vergonha e culpa ameaçavam se intensificar de novo, mas ela a afastou antes que fosse dominada por elas de novo. Ela havia chorado tantas vezes desde aquele dia e tantas mais desde que Tyron partiu. Quando pensava no dia do Despertar, tudo o que sentia era amargura. A esperança que havia florescido naquele momento havia se transformado em cinzas, tudo havia dado errado.
‘Talvez não tenha sido o Despertar que arruinou tudo. Talvez ele simplesmente tenha tornado evidente as falhas que já existiam.’
O pensamento traiçoeiro passou por sua mente antes que recuasse para as sombras, mais rápido do que ela conseguia afastá-lo. Ele continuaria ali, ressoando com a verdade desconfortável que corroía tudo o que ela acreditava ser verdade.
Tyron era um Necromante, um fugitivo.
Ela não conseguia acreditar nisso. Ele sempre foi quieto e estudioso, mas ela nunca teria pensado que o panteão o veria adequado para tal Classe. Conseguia se recordar do olhar selvagem nos olhos dele naquela noite e a chama aterrorizante que queimava nas cavidades oculares vazias dos esqueletos. Era como se seu antigo amigo tivesse sumido completamente, substituído por algo mais frio e sombrio. Então, havia Laurel. E Rufus…
Ela estremeceu e percebeu que em algum ponto havia sentado em sua cama, encarando a parede. Estava tão exausta. Tão confusa.
Olhou pela janela. Era perto do meio-dia. Eles sairiam em breve. Será que ainda se importava? Será que algum dia voltaria a se importar com algo?
Incapaz de se convencer de uma forma ou de outra, levantou-se mecanicamente e trocou suas roupas, penteando seu cabelo enquanto se preparava para sair. Quando emergiu do seu quarto, a casa ainda permanecia silenciosa, como esteve durante a última semana. Quando passou pela cozinha, seu pai permanecia na mesa, com o rosto inexpressivo enquanto traçava as linhas da madeira na superfície da mesa. Quando caminhou, ele se mexeu e falou.
— Elsbeth… — Ele começou.
Ela não parou e passou por ele, abrindo calmamente a porta e a fechando atrás dela. Pensou que sentiria algo enquanto ignorava seu pai dessa forma, mas curiosamente não. Ela não sentiu nada. Alguns passos depois, saiu para a rua e caminhou em direção à ferraria. Havia poucas pessoas na rua, tão poucas que ela mal precisava se mover entre elas. Uma mortalha pairava sobre Foxbridge desde o dia em que os Steelarms voltaram para casa.
— Elsbeth. — Alguém proferiu da sua esquerda. — O que você está fazendo, criança?
Surpresa por ser chamada, ela se virou para ver a secretária do Prefeito espiando pela janela.
— Sra. Barbury? — Ela disse. — O que foi?
— Você está louca, garota? E se eles te encontrarem?
— Quem?
— Os Steelarms! Se eles te virem, você será morta!
Elsbeth sentiu apenas confusão com essa declaração, mas a seriedade mortal no tom da Sra. Barbury a forçou a pensar nisso.
— Mas… por que eles iriam me matar? Eu era amiga de Tyron…
— Todos sabem que você foi prendê-lo!
— Eu não fui! — Ela ficou frustrada, com uma pitada de raiva aparecendo. — E os Steelarms já deixaram a cidade, ninguém os viu desde aquele dia.
— Você está disposta a apostar sua vida com base nisso?
Elsbeth olhou para a mulher, realmente olhou para ela. Os olhos dela mostravam preocupação, mas, mais do que isso, havia medo. Medo que Magnin e Beory haviam instilado nela. Foi nesse momento que percebeu que esse era o mesmo medo que ela viu nos olhos de todos durante os últimos dias. Eles estavam aterrorizados com a ideia de que os Exterminadores poderosos poderiam decidir que não estavam mais satisfeitos em apenas destruir prédios e terras, eles poderiam vir atrás das pessoas a seguir. Ao exibir o poder de um Exterminador de alto nível, os Steelarms permitiram que o medo que se espreitava no coração de cada cidadão de Foxbridge transbordasse.
Ainda assim, ela não sentiu isso. Ela poderia não concordar com o que os pais de Tyron haviam feito, mas todos que haviam visto eles com seu filho saberiam que ele era a única coisa nesta cidade que importava para eles, além de Worthy e Megan. Alguns poderiam pensar que eles não se importavam com o filho deles, ao considerar a frequência com que o deixavam, mas ela sabia que não era verdade, eles o amavam.
— Sim. — Ela disse e se virou para continuar caminhando.
Talvez as pessoas não estivessem a evitando por causa da rejeição, talvez fosse apenas porque temiam que ela estivesse marcada para ser morta pelos Exterminadores. Ela só conseguia balançar a cabeça. Como se as pessoas precisassem de mais uma razão para isolá-la. Ela odiava isso. Ela odiava essa cidade. Ela havia voluntariado seu tempo e energia para ajudá-los por anos, tratou os doentes, cuidou das crianças deles e eles a afastaram tão rapidamente. Quando olhou ao redor para o que deveriam ser visões familiares, prédios que ela conhecia desde sempre, tudo o que ela sentiu era que era uma estranha.
Ela não olhou para o templo enquanto passava pela rua e logo encontrou-se no perímetro da cidade, com a estrada de paralelepípedos dando lugar para uma estrada de terra batida, enquanto a ferraria aparecia em sua visão. Rufus já estava parado do lado de fora esperando, Laurel não estava em nenhum lugar.
Quando percebeu que seria apenas os dois, Elsbeth quase se virou e voltou para sua casa, mas algo dentro dela se recusou a recuar e, depois de um momento de hesitação, firmou sua determinação e seguiu em frente. Quando a viu vindo, Rufus exibiu um sorriso torto e ela sentiu uma pontada de raiva em seu peito.
— Oi. — Ela disse, reprimindo suas emoções.
— Ei, Beth. — Ele disse se aproximando dela, mas parou quando ela deu um passo para trás. Ele suspirou. — Suponho que você não mudou de ideia e decidiu vir conosco?
Ela o encarou, como se ele fosse louco.
— Não. — Ela disse. — Desculpa se isso vai arruinar os seus planos traçados com tanto cuidado.
O rosto dele ficou rígido.
— Não acredite em tudo o que aquele merda tem a dizer, Beth. Eu sempre me importei com você, sabe disso, certo?
Na verdade, não, ela não sabia. Quando escutou o veneno na voz dele ao se referir ao amigo desaparecido, ela percebeu que talvez nunca tenha conhecido de verdade seus amigos.
— Por que você o odeia tanto? — Ela questionou alto. — O que Tyron já fez para você?
Quando ela disse o nome dele, uma onda de raiva tomou conta da expressão de Rufus antes que conseguisse suprimi-la e, de repente, era como se ele não se importasse mais em esconder. Ele cuspiu para o lado, com desprezo estampado no rosto.
— Porque ele é um merda inútil que sempre teve tudo o que queria entregue em uma bandeja de prata. Porque ele nos desprezou durante toda sua vida. Você pode não ter notado, mas eu certamente percebi. Ele achou que éramos lixo no dia em que nos conhecemos, quando tínhamos seis anos e isso nunca mudou.
Chocada com o tom dele, Elsbeth só poderia balançar a cabeça em negação.
— Você se sentiu assim sobre ele? Esse tempo todo? Você tem inveja dele?
— Inveja? —Rufus cuspiu. — Claro que eu tenho! Enquanto eu vivia sob o domínio de um vagabundo FILHO DA PUTA! — Ele se virou e xingou em direção à ferraria malcuidada. — Que me batia com a mesma frequência com que me alimentava, aquele príncipe viveu sob a proteção das duas pessoas mais poderosas da província.
Elsbeth olhou com cautela para o prédio e Rufus zombou.
— Ele desmaiou de bêbado. Eu coloquei uma garrafa na mesa depois do café da manhã e ele a pegou, como um peixe atrás de uma isca.
— E sua mãe? — Elsbeth perguntou baixinho.
— Não fale comigo sobre minha mãe! — Ele gritou antes de se recompor. — Ela é mais durona do que você acha. Ela ficará bem até eu voltar e tirá-la desse arrombado.
Em vez de simpatia, Elsbeth sentiu seu coração esfriar enquanto olhava para a pessoa com quem, há apenas alguns dias, esperava ter um futuro juntos.
— Então é isso. — Ela disse lentamente. — Você só queria sair da cidade, livrar-se da pressão do seu pai e se tornar um grande Exterminador. Você se tornou amigo de Tyron e de mim apenas porque pensou que poderíamos te ajudar. Eu poderia me transformar em uma curandeira milagrosa e poderosa e Tyron poderia ser um Mago ou apenas ajudar com dinheiro e contatos. Você nunca se importou com nenhum de nós.
‘Você nunca se importou comigo.’
Rufus a encarou por um longo tempo.
— Praticamente. — Ele admitiu. — Não é como se você não fosse receber nada com esse acordo. Poder, dinheiro, fama. Você ajudaria as pessoas ao lutar nas fendas e manter todos seguros. Não era isso que queria?
— O que eu queria era servir Selene! Algo que não posso mais. — Ela cuspiu.
— Eu nunca escutei você dizer não. — Ele sorriu Raiva ardente queimava em suas veias, tão quente que ela mal conseguia pensar, mal conseguia enxergar, mas junto dela veio a vergonha. Ele estava certo. Ele pode ter a induzido, mas ela fez aquilo por vontade própria. Ela achou que ele sentia algo por ela, pensou que poderiam ficar juntos. Agora todos esses sonhos eram pó, junto com todos aqueles sentimentos ingênuos.
— Você é um bastardo. — Ela rosnou, surpreendendo-se com sua própria raiva. Ela limpou as lágrimas em seus olhos com a manga enquanto o encarava. — Espero nunca te ver de novo.
O sorriso desapareceu do rosto dele enquanto o Espadachim bonito suspirava mais uma vez. Ele não queria que as coisas tivessem acontecido dessa forma, mas foi assim que aconteceu. Daquele ponto em diante, os dois se ignoraram enquanto esperavam pela chegada de Laurel, o que ocorreu logo depois, mas não da direção que eles esperavam.
— Ei, Elsbeth. — Ela disse com um aceno longo e lânguido. — Não esperava que você viesse.
— Não tenho certeza do porquê vim. — Ela respondeu.
Se o tom dela teve algum efeito na caçadora, não ficou evidente. Laurel apenas deu de ombros e olhou para Rufus.
— Está pronto. — Ela perguntou.
— Sim. De onde você veio? — Ele questionou, perguntando-se por que ela veio da direção oposta de sua casa.
— Fui dar uma olhada na fazenda Arryn. — Ela disse e os dois a encararam, surpresos. — O quê? É incrível, todo o lugar está arrasado.
— Isso é… bom, para você? — Elsbeth questionou.
— Bom? — Laurel parecia refletir por um momento. — Eu não sei se isso é “bom”, também não me importo. É impressionante. Duas pessoas fizeram aquilo. Duas.
Essa ideia pareceu acender algo em sua mente. Elsbeth olhou para ela e pensou que o sorriso dela parecia quase… faminto.
— É por isso que você está indo, com ele? — Ela inclinou a cabeça para o Espadachim, que ainda se recusava a olhar para ela. — Para que você possa ser poderosa?
Laurel olhou para ela por um instante antes de assentir.
—É claro. — Ela disse. — Não quero permanecer aqui para sempre. Eu morreria de tédio e me recuso a ser fraca em um mundo governado pelos fortes. Você está me dizendo que teria sido feliz permanecendo neste lugar por toda sua vida? Trabalhando duro para ajudar as pessoas que se recusam a se ajudar?
— Sim. — Ela sussurrou.
Essa havia sido sua vocação de vida.
— Então, de nós duas, acho que você é a única louca. — Ela deu de ombros e apertou o arco com mais força sobre o ombro. — Imagine o que teria acontecido com a gente se realmente tivéssemos capturado Tyron e o trazido de volta. Realmente acha que eles nos teriam deixado em paz? Teríamos sido mortos sem nem mesmo ver o golpe que nos matou. Não serei impotente neste mundo, Elsbeth, eu me recuso.
Por um momento, os olhos normalmente preguiçosos da caçadora se acenderam com um fogo, mas, no instante seguinte, desapareceu e ela se virou para Rufus.
— Vamos lá, seu cabeça-dura. Hora de pegar a estrada.
Atrás dela, Rufus pegou sua mochila do chão, junto com uma espada de aparência rústica na bainha bem surrada que havia encostado na cerca de pedra. Sem dúvida, algo que havia roubado da ferraria.
— Até mais, Elsbeth. — Ele disse. — Boa sorte com tudo.
— Apenas vá embora. — Ela respondeu.
Ela não os esperou partirem. Em vez disso, virou-se e voltou para a cidade, deixando-os para trás. Enquanto a observava se afastar, Laurel sorriu um pouco, pensando que a Sacerdotisa finalmente havia criado um pouco de coragem. Então, retirou Elsbeth da sua mente e se concentrou no que viria a seguir. A academia de Exterminadores.
Evitando o resto dos aldeões, os dois começaram a longa jornada para o oeste, enquanto Elsbeth caminhava para casa, com suas emoções borbulhando em seu estômago como uma massa enjoativa.
— Elsbeth. Pare bem aí. — Seu pai demandou enquanto ela entrava pela porta. — Não ouse me ignorar de novo.
— Oh? Como você tem me ignorado há uma semana? — Ela retrucou.
O fogo em suas palavras fez seu pai recuar, muito acostumado com a filha alegre e obediente. Estimulada pela reação dele, ela continuou.
— Quando mais precisei de você, quando eu estava mais magoada, você me deu as costas e agora quer que eu me submeta? Quer que eu faça uma reverência e seja grata?
Sua voz ficou cada vez mais alta enquanto falava até que estava gritando e o rosto vermelho do seu pai berrou de volta.
— Garota tola! Acha que pode vir aqui e falar comigo desse jeito depois do que fez?
— Foda-se! — Elsbeth cuspiu e enquanto seu pai, sem palavras, se recuperava do ataque inesperado, ela saiu irritada da casa.
Alguns minutos depois, encontrou-se batendo na porta da Pousada Steelarm enquanto os aldeões a observavam através de suas janelas. A pousada estava fechada desde que Magnin e Beory saíram, mas Elsbeth não foi dissuadida e continuou a bater seu punho na madeira, até que estivesse em carne viva.
Finalmente ela foi aberta e um Worthy de aparência devastada olhou para ela através da fresta.
— O que você quer, Elsbeth? — Ele perguntou com uma cara muito, muito cansada.
De repente, o fogo da justiça dela se apagou e apenas se sentiu triste. Contra sua vontade, lágrimas surgiram em seus olhos: ela tentou afastá-las, mas elas não paravam.
— Sin-Sinto muito. Sinto muito sobre Tyron e o que aconteceu. Eu não sabia o que estava acontecendo e só estava preocupada. E-E agora, não tenho um lugar para ficar e es-esperava que pudesse passar a noite aqui. — Ela gaguejou enquanto as lágrimas começavam a fluir livremente.
Enquanto olhava para a pobre garota, a expressão de Worthy se suavizou. De todos os amigos de Tyron, ele sempre soube que ela era a boa. Pena que acabou presa junto aos outros.
— Tudo bem, moça. Entre. Podemos te hospedar hoje à noite e amanhã podemos conversar com seus pais, certo?
Ele empurrou a porta e chamou Meg e, antes que percebesse, ela estava deitada na cama, com uma refeição completa na barriga e sem mais lágrimas.
Então ela sonhou.
Ela sonhou com os deuses. Com Selene, com Hamar, Lofis, Tel’anan e Orthiss. Cinco figuras sentadas em tronos dourados, banhados em luz. O esplendor deles era tão brilhante que ela se esquivou deles quando se viravam para ela, com julgamento em seus olhos. Em seu sonho, ela fugiu. Através dos reinos, percorreu ruas e florestas, até que não estivesse mais correndo, mas sendo puxada, cada vez mais rápido, à medida que era atraída para mais fundo, para longe da luz, para longe daqueles tronos que queimavam. Sentiu a calma inundá-la enquanto caía pelo mundo, pelo próprio tempo, até que se encontrasse em um lugar além, um lugar que exalava a antiguidade.
Era uma floresta que gemia sob o peso dos anos, onde cada galho tinha o peso do tempo e todas as sombras continham alguma história.
‘Não acho que já estive em algum lugar como esse ,’ ela refletiu enquanto se virava, encontrando o bosque ameaçador em todas as direções.
— É claro que não, criança dos cinco. — Uma voz calma disse entre as sombras. — Eles desejam desesperadamente que todos os mortais esqueçam este lugar, para extinguir esse lugar de suas mentes, como se nunca tivesse existido, mas ele ainda persiste. As coisas antigas são assim. Elas são difíceis de remover.
Aquela estranha calma a dominava. Lá no fundo, ela sentiu uma bolha de medo, mas a ignorou.
— Onde eu estou? — Ela perguntou sonhadoramente.
— Você foi convidada, criança, uma dádiva realmente rara. Existem tão poucos que conseguem essa oportunidade nestes dias, você deveria se sentir abençoada.
— Eu me sinto. — Ela sorriu enquanto se virava e olhava para o mundo antigo ao seu redor. Unhas fantasmagóricas começaram a arranhar o interior da sua mente. Suas próprias unhas. — Mas eu não sei onde estou ou a quem devo me sentir grata.
— É claro, eu ficaria honrado em corrigir isso. Onde você se encontra já teve muitos nomes, mas temo que nenhum deles seja familiar para você. Pense neste reino como a Floresta Sombria. Quanto a quem você deve expressar sua gratidão, bem. Esse também é um conto e tanto. Os Deuses Antigos não costumam se apresentar, então eu assumirei a tarefa.
— E quem é você? — Ela disse, franzindo levemente a testa enquanto seu estômago se revirava de pânico.
Um grito saiu de sua garganta, apenas para desaparecer tão repentinamente como apareceu.
— Não há a necessidade de ter medo. — A voz ronronou. — Os Sombrios não precisam do seu medo, eles beberam profundamente do terror dos mortais. É a sua devoção que eles almejam.
…