
Volume 1 - Capítulo 29
Livro dos Mortos
Tyron congelou sob o olhar frio do Mago e os outros olharam para ele com graus diferentes de confusão. Monica queria dizer algo, mas Rogil falou primeiro.
— Seja breve. Esperaremos dentro do portão.
— Não precisa disso. — Dove sorriu. — Eu alcanço vocês na Fortaleza hoje à noite. Tenho um pequeno negócio com algumas moças da cidade, se é que me entende. Sabem o que quero dizer?
Aryll revirou os olhos.
— Sim, Dove, nós entendemos.
— Eu quis dizer sexo. — Ele esclareceu.
— Cala a boca, Dove. — Monica ergueu as mãos e se virou, caminhando em direção ao portão. — Apenas não faça nada estranho com Lukas, ele tem sido muito útil.
— Ninguém está preocupado de que eu faça algo estranho com o garoto, Monica.
— Você é insuportável! — Ela declarou sem se virar enquanto continuava em direção ao portão.
Dove riu e encontrou o olhar de Tyron antes de dar uma piscadela para ele.
— Com “algo estranho”, eu quis dizer sexo. — Ele disse e assentiu solenemente.
Rogil vasculhou sua mochila por um instante antes de se aproximar do jovem contratado e estender sua mão, com uma pequena pilha de prata na mão.
— Pagamento pela viagem, com um bom bônus incluído. Normalmente não contratamos ratos, mas se estiver disponível, podemos considerá-lo para outra viagem. Você não é um lixo completo.
— Um grande elogio. — Aryll comentou, então refletiu. — Na verdade, vindo de Rogil, isso é um ótimo elogio.
— Sim, sim, sim. Tudo muito legal, agora vocês vão cair fora? Tenho algumas palavras importantes para compartilhar com esse jovem.
Rogil estendeu a mão e apertou a de Tyron.
— Não deixe que ele te convença a fazer algo ilegal. — Ele disse sério antes de dar um tapa em seu ombro, o que fez com que Tyron cambaleasse, então se afastou.
— Vejo você por aí, garoto. — Aryll acenou antes de se virar e seguir para o portão.
Em um segundo, sobraram apenas os dois, o Invocador e o Necromante. Dove parecia calmo, com um leve sorriso na face enquanto mantinha seu olhar preguiçosamente focado no jovem enquanto Tyron estava nervoso e suando. Ele lutava para impedir suas mãos de tremerem e a náusea de dominá-lo, mas uma profunda sensação de desespero o dominou. Era isso – ele já havia falhado. Seus pais haviam sofrido por nada. Ele havia escapado por nada. Nem teria a chance de explorar seu potencial, de ajudar as pessoas, de fazer o seu nome ser conhecido. Seu mundo estava sendo destruído ao seu redor e tudo o que poderia fazer era permanecer parado e olhar.
Dove levantou suas mãos.
— Apenas relaxe, garoto. Nada foi decidido ainda, okay?
Ele estava tão sobrecarregado que levou vários segundos para Tyron processar o que ouviu — O q-quê?
Dove continuou parado, com as mãos na altura dos ombros.
— Estou dizendo que ainda não é o fim para você, então não há necessidade de se emocionar comigo, não lido bem com isso. Não irei te matar e não vou te entregar para os marechais, okay?
— Por que você me entregaria para os marechais? — Tyron se sentiu compelido a tentar, mas seu coração não.
Dove o encarou com pena.
— Essa é uma tentativa triste, garoto. Quero dizer, já vi muita coisa triste – a vida amorosa de Monica, por exemplo – mas puta merda, isso já é um exagero.
— Tudo bem. — Tyron rugiu. — Eu sou o Necromante. Sou o filho de Beory e Magnin, Tyron, é isso que queria ouvir?
O Invocador revirou os olhos e abaixou a cabeça.
— Agora, isso foi pura burrice. E se eu estivesse blefando, hein? Você acabou de revelar tudo!
Tyron o encarou.
— Você não estava blefando. — Ele disse.
— Não. Eu não estava, mas e se eu estivesse, cacete?!
O silêncio caiu sobre as duas figuras. Estavam a quase dez metros de distância e, por um breve momento, Tyron considerou fugir. O Mago era mais velho, embora não fosse visivelmente mais forte. Dove parecia um homem magro, na casa dos trinta, sem muito músculo aparente sobre suas vestes de Mago largas. Quão rápido ele poderia ser? Exceto que não importava o quão rápido ele era, só importava o quão rápido suas invocações eram. Sem nenhum lacaio, não havia esperança para Tyron revidar contra as criaturas contratadas que poderiam alcançá-lo em instantes.
Eventualmente, Dove suspirou e passou a mão pelos seus cabelos loiros.
— Olhe, normalmente eu não lido com esse tipo de coisa, sou uma pessoa bem direta. Vejo criaturas das fendas? Mato criaturas da fenda. Recebo o pagamento. Repito isso. Eu consigo viver confortavelmente, subir de nível, polir minhas habilidades e me livrar de todas as minhas vontades homicidas de uma forma legal.
Ele se abaixou.
— Agora, a razão para eu ter falado sobre sua situação com os outros foi dupla. Eu queria ver como você reagiria e queria que você visse como eles responderiam.
—… O que você quer dizer? — Tyron perguntou com cautela.
— Viu quão irritados eles ficaram? Quão insatisfeitos? A verdade é: as pessoas podem venerar os Exterminadores como deuses, mas somos escravos dos Magistrados, cada um de nós e odiamos isso. Você sabe sobre a marca?
—… Um pouco.
— Então sabe que é uma merda. Sou apenas de rank prata e já é um pedaço de merda. O ponto é: a maioria dos Exterminadores não está feliz com a administração, para dizer o mínimo. E quanto a mim? Eu os odeio com todos os ossos do meu corpo. Esse é o principal motivo pelo qual não vou te entregar.
A mente de Tyron girou. Das profundezas do desespero, a esperança mais uma vez começou a surgir em seu peito, mas ele não conseguia confiar que isso era real. Será que esse mago magro estava realmente falando a verdade? Será que realmente seria solto depois de ser pego? Isso parecia loucura, o oposto de tudo o que esperava que aconteceria.
Dove observou o jovem tentando pensar sobre a situação e deu a ele algum tempo para processar. Ele poderia se recordar de si nessa idade, apenas algumas semanas após receber sua Classe, basicamente um recém-nascido. Ele foi um dos sortudos, com uma Classe inicial poderosa e os recursos para se colocar diretamente em uma academia de Exterminadores respeitável. Tentar se imaginar no lugar do garoto era doloroso devido ao quão fácil isso era. Um Invocador e um Necromante não eram tão diferentes, fundamentalmente, exceto que um era um procurado pelos agentes dos Cinco Divinos e o outro não.
A prática de Necromancia não era inerentemente má. Merda, ser capaz de dar um bom uso aos mortos talvez fosse exatamente o que precisavam para lutar contra as fendas. Se os Magistrados saíssem do caminho, talvez os Exterminadores conseguissem vencer a guerra, em vez de perdê-la lenta e dolorosamente.
— Qual é a pegadinha? — Tyron finalmente perguntou, com os olhos firmes. Dove escondeu seu sorriso. Esse garoto o lembrava muito de si. Tinha a cabeça no lugar, gostava de pensar para resolver os problemas e era direto quando não tinha as respostas.
Ele abriu as mãos.
— Sem pegadinha. Eu não quero nada de você, não pedirei que faça algo por mim, além de manter meu nome de fora se acontecer de ser pego. Na verdade, o oposto é verdade, eu irei te ajudar. Eu te avisei sobre a verificação de Status no portão, não é? Isso não ajuda?
— Isso pode ser uma mentira.
Dove bufou.
— Isso é a coisa mais fácil do mundo para você confirmar. Apenas me observe atravessar o portão e você terá toda a confirmação que precisa. Você está preso fora da cidade por enquanto, garoto, o que significa que precisará da ajuda se quiser sobreviver.
Sem elaborar, o Mago deu um passo para trás e juntou as mãos na frente do peito antes de inalar lentamente, então arregalou os olhos, que brilhavam com magia. Palavras de Poder saíram da boca de Dove enquanto suas mãos fluíam de um movimento para outro com a facilidade de um verdadeiro praticante. Tyron conseguiu reconhecer algumas frases aqui e ali, mas a maior parte da construção do feitiço não era familiar para ele, expondo o quão pouco conhecia de magia dimensional, que era o coração da invocação.
Em um tempo relativamente curto, pouco mais de um minuto, Dove concluiu o feitiço e empurrou suas mãos no chão à sua frente. Um portal se formou em segundos, um vórtice rodopiante de energia azul que conectava este mundo a outro reino e dele surgiu uma garra enorme que se cravou na terra antes de flexionar seus músculos enquanto a criatura se puxava.
O coração de Tyron martelava em seu peito quando uma cabeça enorme de lobo apareceu, seguido pelo resto do seu corpo. Facilmente do tamanho de um cavalo, esta criatura seria capaz de despedaçá-lo em segundos, sem importar o que tentasse.
— Um lobo estelar. — Ele murmurou.
— Você o reconhece? — Dove soou satisfeito ao levantar a cabeça ao passar a mão no pelo da fera. — Foi um pesadelo tentar contratar este bastardo, mas, no fim, eu consegui. Atualmente, é minha melhor e mais forte invocação para combate. Ele vai te seguir pelos próximos dois dias.
O jovem encarou a criatura intimidadora por um longo período.
— Você quer que ela me proteja?
— Bingo. Dois dias devem ser suficientes para que você consiga alguns lacaios, o suficiente para pelo menos se proteger. Eu te encontro aqui na volta, então, certifique-se de esconder os zumbis obviamente e eu trarei suprimentos para te manter vivo. Estou fazendo muito por você, garoto, então não enlouqueça e queime o reino nem nada do tipo, tudo bem? Faça algo bom, ajude algumas pessoas, suba de nível, irrite os Magistrados, está tudo bem. Tente não morrer e deixe seu pessoal orgulhoso.
Dove fez um sinal de positivo.
— Agora, vaza daqui, não estava brincando sobre aquele bordel.
Ele se virou, então congelou e se virou de novo.
— Mais uma coisa. Não quero saber como, por que, ou nada sobre essa merda. Só quero confirmar: foi você quem conjurou o ritual na cidade? A invocação abissal?
Houve uma breve pausa antes que Tyron assentisse. Dove o encarou por um instante.
— Puta merda. — Ele xingou e se virou, balançando a cabeça ao fazer isso. — Isso é… simplesmente… ótimo.
Tyron o observou partir, mal acreditando que estava sendo erguido, então se virou para olhar para o lobo, que o encarava de volta com impaciência e uma pitada de fome. Se ele tentasse comê-lo, não havia absolutamente nada que pudesse fazer sobre isso, então ignorou a criatura e encarou o Invocador à distância, confirmando que era necessário realizar o ritual para entrar no portão.
Isso foi um golpe massivo. Talvez a medida fosse suspensa daqui uma semana? Seria difícil para ele sobreviver do lado das muralhas por mais tempo do que isso, mesmo com o apoio de alguém dentro. Não era uma região selvagem qualquer, ele estava na fronteira das terras devastadas e havia monstros por todo o lugar. O lobo estelar caminhava atrás dele e agora estava sentado sobre os calcanhares, com a língua pendurada enquanto respirava, com o mesmo desprezo nos olhos. Ele teria que depender dele pelos próximos dois dias, contanto que Dove cumprisse sua palavra; a criatura o protegeria até que ele tivesse a capacidade de se proteger.
Ele estava cansado, dolorido, faminto e precisava desesperadamente de um banho, mas não poderia descansar tão cedo. Ele se levantou com um suspiro. Não havia sentido em reclamar sobre isso, seus pais haviam sofrido muito mais durante a ascensão deles. Determinado, virou-se e começou a caminhar de volta para a fenda. Tinha uma variedade de localizações marcadas onde poderia encontrar restos mortais. Originalmente, planejou voltar e recuperá- los de qualquer forma, isso apenas adiantou o cronograma.
— Vamos lá, Tyron. — Ele murmurou para si. — Hora de fazer alguma magika.
Embora ele não estivesse ciente disso, a luz em seus olhos brilhava intensamente enquanto voltava para o perigo.
Quaisquer reservas que tinha sobre o lobo estelar que Dove emprestou a ele sumiram depois da primeira hora. Nesse período, foi encontrado por bandos errantes de criaturas das fendas, não apenas uma vez, mas duas e em ambos os casos a invocação cruel os dilacerou em pouco tempo. Ele não estava disposto a se aproximar para verificar, mas, a julgar apenas com os olhos, chegou à conclusão de que as presas do lobo eram mais grossas do que a espessura de sua perna, mesmo na coxa.
Ele conseguiu recuperar alguns núcleos pelo menos, fazendo um bom uso de suas técnicas de Açougue. Se tivesse permissão para voltar para Woodsedge, seriam vendidos por um bom preço. Talvez ele conseguisse pedir para Dove vendê-los para ele? Ele dispensou o pensamento. O Invocador foi verdadeiro às suas palavras até então, mas não significava que Tyron estava disposto a entregar seu dinheiro.
A frequência dos ataques o chocou a princípio. Quando refletiu sobre, sentiu que havia subestimado quanto trabalho Aryll e Rogil haviam feito para o time enquanto estavam fora, evitando grupos que não queriam lutar e mantendo a equipe segura. Ele não tinha essa proteção e teria que se virar com o melhor que conseguia.
‘Deixarei o trabalho pesado para o meu exército morto-vivo.’ Ele pensou ironicamente.
Sonhos de uma legião de servos mortos-vivos pareciam distantes quando ele não tinha um único lacaio em seu nome, nem mesmo um osso para trabalhar. Em breve resolveria isso. Após mais uma hora, chegou na primeira localização que havia marcado no mapa, com apenas mais uma parada no caminho. Esse era o local mais longe das fendas que encontrou e, com sorte, forneceria o suficiente para ressuscitar um lacaio, ou pelo menos chegar perto.
Demorou mais do que queria para chegar ao local exato – seu mapa não era tão preciso como gostaria – mas eventualmente o encontrou. Os arbustos secos estavam sob seus sapatos enquanto se aproximava da árvore, olhando para os dois esqueletos amontoados em sua base, com vinhas e musgos rastejando pelas fendas entre os ossos. Ele não sabia sobre a história por trás desses dois, não conseguia adivinhar o porquê ou como chegaram aqui, juntos na hora de sua morte, mas não importava para ele e afastou tais preocupações de sua mente. Ele tinha uma quantidade limitada de tempo para trabalhar e não poderia desperdiçá-la.
— Estude, documente, colete e prossiga. — Disse para si ao se abaixar ao lado dos ossos. — Fique de olho, por favor? Pediu ao lobo, que o ignorou enquanto rondava impacientemente pelas árvores.
‘Não custa nada tentar ser educado.’ Ele deu de ombros. ‘Tudo bem, melhor começar com isso.’
Como havia feito na noite em que ficou de vigia, esticou um fio de sua magika em direção aos restos mortais e começou a tentar saturá-los, permitindo que sua própria energia se infiltrasse neles. Foi lento e exaustivo, mas eventualmente sentiu a mesma resposta de antes, a força sombria que o empurrava de volta. Na verdade, parecia mais forte aqui e se inclinou para ver se conseguia descobrir o porquê.
Não que chegar mais perto fizesse algo para ajudar, já que estava sentindo através da magika, mas o fez de qualquer forma. Ele franziu a testa. À medida que se concentrava, mais sentia que a energia dentro dos ossos estava… ativa. Como se estivesse se movendo, ou ressoando, mas em uma escala tão pequena que seria quase impossível detectar. Ele recuou sua sonda e, em vez disso, empurrou-a na direção do outro conjunto de restos mortais. Após cinco minutos de aplicação cuidadosa de energia, ele descobriu o mesmo fenômeno, mas o movimento parecia estar em uma direção diferente.
Refletiu sobre isso antes que a realização chegasse e batesse a palma na face, exasperado. Os dois conjuntos de restos mortais estavam compartilhando energia. Claro que o movimento pareceria diferente, estava ocorrendo em direções opostas. A quantidade era tão pequena que ele nunca sentiria se não fosse pela afinidade com Magika de Morte concedida pelo Invisível, que era o que deveria ser aquela energia.
Isso muito provavelmente explicava como os mortos-vivos naturais surgiam. Em um lugar com morte, restos mortais e magika suficiente, a energia seria compartilhada entre os cadáveres, aumentando com o tempo até se tornar saturada o suficiente para que os corpos se levantassem por conta própria, alimentados pela energia da morte que continham. Tais criaturas estavam quase sempre conectadas ao lugar em que foram criadas, desde que não possuíam outra fonte de magika, diferente dos seus próprios lacaios, os quais sustentava com suas reservas.
Mas isso também levantava outras questões. Já que era possível para mortos-vivos compartilharem magika, seria possível para ele criar o mesmo ciclo com seus próprios lacaios? Ou talvez inventar uma forma de eles absorverem a energia do ambiente quando ela estivesse disponível? Parando para pensar nisso, se ele simplesmente fornecesse Magika de Morte suficiente para um conjunto de ossos, seria capaz de realizar uma versão muito mais simples de Ressuscitar Mortos, desde que só precisaria criar o canal e o construto mental, em vez de alimentar o processo desde o começo?
Muitas perguntas para as quais não tinha resposta nem tempo para aprender. Ele balançou a cabeça, frustrado. Ter que usar atalhos e métodos malfeitos o incomodava, mas não tinha escolha no momento. Reprimiu os sentimentos negativos e começou a examinar os dois esqueletos. Precisava saber quais ossos estavam aqui e quais faltavam antes que pudesse guardá-los. Quando fosse a hora de montar o acampamento para a noite, queria ter pelo menos um conjunto completo para que pudesse ressuscitar no segundo dia.
…