
Volume 1 - Capítulo 30
Livro dos Mortos
A caverna mal merecia o nome, apenas uma entrada estreita com 10 metros de profundidade, mas ela forneceu o espaço que ele precisava para trabalhar abrigado do ambiente. Por sorte, conseguiu um vislumbre da entrada atrás de uma pedra dividida enquanto passava por ali. O lobo estelar decididamente se recusou a entrar, não importava o quanto tentasse convencê-lo, então Tyron se arrastou para dentro, com um raio de magika pronto, mas o interior era surpreendentemente espaçoso e livre das criaturas das fendas. Após alguns feitiços, ele tinha um buraco escuro e úmido no chão que poderia utilizar para trabalhar.
‘Suponho que seja apropriado, de alguma forma.’
Necromantes provavelmente eram forçados a operar nesses tipos de condições quando despertavam. Mesmo assim, isso ainda era um declínio em comparação ao seu último local de trabalho.
‘Que era uma tumba’.
‘Como é possível regredir de uma tumba?’ Ainda assim, ele conseguiu de alguma forma.
Com um suspiro cansado, tirou a mochila das costas e desabou no chão irregular. Com um gemido, tentou massagear as pernas, sem sucesso, então bebeu a pouca água que restava e mordiscou um pouco de carne seca. Ele havia levado a maior parte da luz do dia para reunir os materiais que precisava e armazená-los aqui. A tensão de viajar sob a ameaça de ataques constantes, o medo de ser descoberto por um time de Exterminadores, a fadiga existente por estar em patrulha, tudo isso havia se acumulado a ponto do seu peito se contrair de estresse. Pior ainda era a fadiga física. Mais uma vez, agradeceu ao Invisível pela constituição que ganhava de Necromante e Anátema. Sem isso, teria colapsado há dias.
‘Sem descanso para os maus, como meu pai diria. Melhor voltar ao trabalho.’
Os músculos doíam enquanto ele se arrastava até sua mochila e removia os últimos ossos que precisava. Com muito cuidado, carregou-os até a única parte plana dentro deste buraco, onde dois esqueletos foram deitados lado a lado. Os dois conjuntos de restos mortais foram o mais próximo de completo que conseguiu encontrar, enquanto permanecia o mais longe possível das fendas. Era frustrante que ainda não tivesse uma imagem precisa dos ossos exatos e suas localizações no corpo humano, o que era uma falha gritante que precisava corrigir assim que possível. Não importava o quão bom se tornasse em Costura Óssea ou conjurar Ressuscitar Mortos, seus lacaios ainda teriam um desempenho ruim se faltassem as partes que precisavam para se moverem adequadamente.
Irritou-o muito ainda ser tão ruim em sua arte. Havia sacrificado tudo por isso, ele tinha que chegar o mais perto possível da perfeição, caso contrário falharia. Os padrões que seus pais haviam alcançado eram impossivelmente altos, mas se ele não almejasse chegar tão alto, então poderia muito bem se render agora e não passar por toda essa dor.
Na luz baixa da caverna, Tyron cerrou os dentes e colocou os ossos da melhor forma que podia antes que se endireitasse e examinasse seu trabalho. Pelo que conseguia dizer, os esqueletos estavam completos, mas não podia ter certeza. Não importa o quanto quisesse, as coisas não ficariam melhores do que isso, então se inclinou para frente mais uma vez, flexionando os dedos enquanto fios fantasmagóricos de magika começaram a balançar das pontas dos seus dedos.
Era um trabalho meticuloso e Tyron foi forçado a fazer pausas regulares para massagear seus dedos e concentrar sua mente. Levou seis horas para completar e, ao fim, estava cheio de emoções mistas. A qualidade dos fios poderia ter melhorado desde a última vez, mas sua condição era tão precária que ele não sentia que o trabalho estava à altura. Ele tinha as habilidades e os níveis para produzir um resultado muito melhor, mas estava sem tempo. Mordeu o lábio com força antes de finalmente conseguir acalmar suas emoções. Não era o momento para isso – precisava esfriar a cabeça se quisesse ter sucesso. Ele tinha uma oportunidade de ouro na frente dele e, se a desperdiçasse, provavelmente não teria outra.
Já era quase meia-noite, então envolveu a capa ao seu redor e pegou a mochila para usá-la como um travesseiro. O chão rochoso era desconfortável, para dizer o mínimo, e apesar do cansaço excruciante, não conseguia dormir sabendo que havia criaturas das fendas vagando do lado de fora da caverna, mesmo que tivesse o lobo estelar para vigiar por ele.
Como sempre, foi forçado a conjurar magika em si mesmo para descansar, mesmo que só por algumas horas.
Ainda era antes do amanhecer quando acordou e, apesar dos protestos dos seus músculos ou a pulsação em sua cabeça, forçou-se a ficar de pé com um sorriso ansioso no rosto.
— Hora da magika. Hora dos lacaios. — Ele riu para si antes de tropeçar e se segurar no chão irregular.
Sentiu uma nova série de dores, principalmente por causa das pedras que haviam se cravado em suas laterais e quadris enquanto dormia, mas fez o possível para ignorá-las ao vasculhar sua mochila em busca do seu caderno. Conjurou alguns novos globos de luz e começou a folhear alguns diagramas, padrões de invocação e várias teorias que havia rabiscado pelas páginas. Seus olhos absorveram tudo isso antes de fechar o volume e devolvê-lo com cuidado à mochila. Estava na hora.
Avançou com confiança e parou ao lado da cabeça do primeiro esqueleto. Parou, respirou fundo e levantou a mão, antes de começar a falar.
Ele desejou que tivesse mais tempo. Desejou que pudesse ter conduzido mais pesquisas sobre como infundir os ossos com magika, ou investigado a estranha ressonância que exibiam, mas não pôde. Só tinha mais um dia antes que a invocação de Dove sumisse e fosse deixado por conta própria. Para se proteger a partir desse momento, precisava ter lacaios!
As palavras saíram de sua boca, enquanto suas mãos se moviam em gestos amplos. Ele não estava desperdiçando seu tempo enquanto aguardava na lateral da Rua da Vitória – passou cada segundo de silêncio pensando em apenas uma coisa: Ressuscitar Mortos. Sua magika de assinatura, seu bilhete dourado. Tinha que fazer todas as melhorias que conseguisse.
Durante uma hora, ele conjurou sem pausas, extraindo cada resquício de energia arcana dentro de si e despejando-a nos ossos no chão da caverna, até que o feitiço finalmente fosse concluído. Uma luz roxa escura cresceu dentro das cavidades ocas do crânio e, mais uma vez, sentiu a conexão tênue se formar entre ele e outra entidade, serva de sua vontade.
— Finalmente. — Ele suspirou, cansado, com um leve sorriso nos cantos dos lábios.
Parou para regular sua respiração e se esticar, antes de retirar um doce de Mago e colocá-lo em sua boca. Estava com pouco desse precioso material e não podia se dar ao luxo de substituir o pouco que tinha, mas precisava espremer o máximo de trabalho que pudesse até o dia seguinte. Sentou-se e descansou por dez minutos antes que começasse a segunda conjuração, utilizando todo seu foco e magika para realizar o Ressuscitar Mortos mais uma vez, enquanto a forma brilhante do lobo estelar o observava com olhos fixos.
Quando a conjuração terminou, Tyron caiu de joelhos, com suas reservas esgotadas. Respirou fundo, ofegante, permitindo que o pedaço de cristal arcano, agora vazio, caísse no chão da caverna. Estendeu a mão trêmula para pegá-lo. Não precisava deixar qualquer evidência da sua presença se não fosse necessário.
Quando conseguiu, ele se levantou, pegou sua mochila e a colocou de volta sobre os ombros, cambaleando sob o peso dela.
‘Estou uma bagunça’.
Seus olhos estavam doloridos pela falta de sono, suas mãos tremiam e respirava com dificuldade. Ele realmente estava beirando o seu limite, mas, no fim, valeria a pena.
— Levantem-se. — Ele disse.
Não havia necessidade de dizer isso alto, os lacaios responderiam aos comandos mentais por meio da conexão que eles compartilhavam, mas ele se sentiu compelido a falar. A luz nos olhos dos mortos-vivos se acendeu enquanto absorviam sua magika, os ossos se recompondo e se movendo em um silêncio sinistro. Com movimentos lentos e deliberados, Tyron desembainhou sua espada e a entregou para o esqueleto mais perto. Os dedos esqueléticos se fecharam ao redor do cabo e ele sentiu o dreno em suas reservas aumentar enquanto ele exercia força para segurar a lâmina.
— Hora de sair, lacaios. Preciso subir de nível.
‘Não fale com os lacaios, idiota. Estou muito cansado.’
Era perigoso, mas ele precisava aproveitar o máximo do tempo até que o lobo estelar o deixasse. Ao fim do dia, esperava ter recuperado mais restos mortais e lutado contra criaturas das fendas suficiente para subir sua Classe Necromante para o nível cinco. Talvez seu primeiro talento de Classe lhe desse um caminho mais claro.
Os esqueletos cambalearam para fora da caverna primeiro e Tyron seguiu atrás, com o lobo emergindo por último. O estranho grupo se reuniu e seguiu em direção à floresta.
***
De volta em Woodsedge, Dove permitiu que o brilho sumisse em seus olhos ao interromper o compartilhamento de sentidos com seu lobo. Ele expirou de forma explosiva enquanto afundava de volta na banheira. O garoto era louco. Completa e absolutamente maluco. Ou talvez ele possuísse um conjunto de bolas tão grande que não precisasse de cadeira, simplesmente dobrando-as para trás e se jogando de costas sobre elas.
‘Na verdade, isso levanta uma questão: em que ponto bolas gigantescas se tornam insanidade?’
Conjurar um ritual de magika tão complexo naquela condição… Dove só conseguia balançar a cabeça. Mesmo em sua juventude imprudente, quando se sentia invencível, como se nada pudesse machucá-lo, ele não teria tentado, nem por um milhão de ouros imperiais.
Mas de novo, suas circunstâncias nunca foram tão desesperadoras quanto as do garoto.
Pela centésima vez, se perguntou se havia feito o certo ao não reportar Tyron. Entregar o filho dos heróis apenas porque ele queria manter a Classe que recebeu parecia monstruoso, mas se Dove tivesse que ser honesto consigo mesmo, não era nada estranho. Na verdade, acontecia o tempo todo. Todo o ano, um bando de pobres coitados tentaria manter suas Classes proibidas e alguns escapavam, mas não a maioria. Havia apenas dois pontos que diferiam o caso de Tyron das massas – a Classe que ele recebeu e quem seus pais eram. Realisticamente, o que teria acontecido se Dove tivesse o entregado?
Ter sua Classe excluída deveria ser terrivelmente doloroso, sem mencionar que deixava o indivíduo aleijado, incapaz de conseguir uma nova Classe principal, exceto em casos raros, mas não haveria nada parecido para o garoto. A primeira coisa que Dove fez ao retornar à cidade foi verificar o mandado de captura. Não havia segunda chance para o filho dos Steelarms, ele seria abatido assim que fosse preso. E o que aqueles dois fariam quando o precioso bebê saltitante deles fosse executado pelas pessoas que protegeram a vida toda?
Não era difícil adivinhar.
Todos escutaram sobre o que eles haviam feito em Foxbridge. Encontrar alguém que não estivesse fofocando sobre isso era impossível naquele momento. Quando eles encontrassem aquele que entregou a criança deles, eles queimariam o lugar até as cinzas, ele não tinha dúvidas. Como os únicos dois Exterminadores de alto nível da província, não havia uma única alma que poderia impedi-los do lado de fora da capital. Quando a marca os derrubasse, eles já teriam massacrado uma cidade inteira. Se alguém quisesse entregar o garoto, era melhor gastar o dinheiro da recompensa o mais rápido possível, pois não teriam muito tempo para aproveitá-lo.
O que provavelmente foi o motivo para a pequena exibição em Foxbridge. Eles queriam que todos soubessem o que aconteceria se fossem contra o filho deles. O pensamento de ir contra a marca a esse ponto fez Dove estremecer. A dor que isso causava era como se esmagasse a alma quando esbarravam contra os votos, mas se os violasse abertamente? Ele literalmente não conseguia imaginar quão ruim seria.
— Monstros. — Ele murmurou.
Xingando baixinho, depois em voz alta para si mesmo, ele saiu da banheira e começou a se secar. Não importava como distorcesse isso, algo simplesmente não parecia fazer sentido. Como diabos Tyron acabou conseguindo uma Classe tão rara e perigosa? Havia rumores de que o processo de Despertar poderia ser influenciado por meio dos cristais, mas Dove sempre considerou que isso fosse uma besteira conspiratória, no entando, agora tinha motivos para considerá-la. Se isso fosse verdade… as implicações seriam absolutamente incompreensíveis.
No entanto, quase fazia sentido, mais um aspecto do controle que os Magistrados tinham contra a população.
Mas, se fosse verdade, por que Tyron seria o alvo? Por causa de seus pais? Isso também não fazia sentido, eles haviam feito mais na guerra contra as fendas do que qualquer um. Dove parou por um segundo. Sim, literalmente qualquer um, quando pensou sobre isso. A maioria dos Exterminadores que alcançava o nível de poder deles se aposentava em palácios, saindo durante emergências, vivendo no luxo, diferente dos Steelarms, que continuaram destruindo as fendas sem um dia de folga. O número de Exterminadores que deviam suas vidas a um resgate de última hora daqueles dois chegava aos milhares.
O Invocador magro se balançou como um cachorro.
— Porra, eu não sei! — Ele rugiu para ninguém em particular antes de começar a se vestir com movimentos irritados e bruscos.
Melhor do que alguma conspiração ridícula, era mais provável que o garoto fosse apenas um Necromante inato e o Invisível tivesse dado a ele a Classe que mais se adequava.
‘O deus da magika renascido, porra?’
Depois de ver o garoto agir por conta própria, ele tinha que admitir que isso não estava muito longe da verdade. Ao considerar seu nível de merda e falta de status, Dove não conseguia negar que Tyron era um Mago nato. Sua pronúncia era perfeita, sua dicção, volume e ritmo eram impecáveis. Isso era uma merda de acertar. Ele conseguia se recordar dos dias e noites intermináveis que passou lendo as Palavras de Poder em voz alta, levando pancadas na cabeça cada vez que errava uma sílaba. E o garoto era autodidata? Uma grande besteira.
Nascer com esse tipo de talento era injusto.
Sem mencionar o foco e concentração necessários para conjurar naquela condição. Uma grande e absoluta bosta.
— Monstro. — Murmurou para si, então riu alto.
Tyron era apenas um monstrinho bebê agora, mas se conseguisse levar sua Classe além do limiar nível vinte e avançar, então algo realmente incrível poderia nascer.
‘Se isso acontecer… quem sabe qual será a resposta dos altos escalões? Seria como derrubar uma pedra de fogo em uma panela de ensopado.’
Dove adorava aumentar o caos.
Vestido, saiu correndo do banheiro e passou por uma empregada surpresa antes de entrar na sala comum e sair para a rua. Disse ao garoto que lhe daria suprimentos e era exatamente o que faria. Comida, água, doce de magos, papel fresco, equipamento para acampar, roupas, tudo da melhor qualidade disponível na cidade. Chegou até a comprar alguns suprimentos da Fortaleza dos Exterminadores, só por ironia. Quando terminou, havia acumulado uma pequena montanha de equipamentos e havia gastado metade das suas economias, o que, francamente, não lhe importava nem um pouco.
‘Economizar é para o futuro e pessoas com um futuro são covardes de merda.’
Ele ficou muito satisfeito consigo mesmo ao olhar para os pacotes cuidadosamente amarrados que havia empilhado na sala comum da suíte do time.
— Dove. — Rogil perguntou da porta do seu quarto, com um olhar resignado. — O que diabos você está fazendo?
Dove sorriu.
— Sendo uma dor no rabo de alguém. — Ele declarou com orgulho.
Rogil grunhiu.
— Igual a todos os outros dias então.
— Você sabe disso, caralho.
***
Perto das fendas, Tyron se arrastou pela entrada estreita da caverna antes de colapsar do outro lado, ofegante. Foi um milagre que não tivesse sido visto e, honestamente, foi uma idiotice vagar por aí com um par de esqueletos nos seus calcanhares. Entretanto, ele teve sucesso, de alguma forma. Ele tirou sua mochila e caiu de costas, enquanto seus dois lacaios o seguiam silenciosamente, acompanhados pelo lobo estelar. Os dois esqueletos estavam um pouco machucados, com ossos quebrados, alguns completamente divididos e não havia nada que pudesse fazer por eles. Ele conseguiu reunir restos mortais suficientes para produzir mais dois esqueletos, com sorte, bem como recuperar algumas armas enferrujadas que eles poderiam utilizar com alguma eficácia.
Ele tinha quase seis horas até que precisasse sair e voltar para se encontrar com Dove. Esperançosamente, o Invocador cumpriria suas palavras. Tyron não encontrou nada para beber desde que deixou a caverna e sua garganta doía muito. Ele precisava beber e comer logo, mas primeiro tinha que dormir. Quando acordasse poderia realizar o ritual de Status e, se os Deuses fossem gentis, a criação de seus lacaios atuais e as lutas que travaram foram suficientes para levá-lo ao nível cinco.
Não que pudesse depender dos Deuses agora…
— Sono. — Tyron murmurou e, de imediato, seus olhos se fecharam enquanto o feitiço tomava conta e arrastava sua consciência para longe.
…