Livro dos Mortos

Volume 1 - Capítulo 15

Livro dos Mortos

Os gritos agudos dos corvos acordaram Tyron, o grasnido rouco ecoava nas orelhas dele enquanto piscava para limpar a sujeira em suas orelhas e tentava se sentar. Músculos rígidos devido ao frio e por estar deitado no chão gemeram em protesto e o jovem caiu de novo antes que se debatesse como um peixe, tentando fazer seu sangue fluir através dos seus membros de novo. A chuva tinha sido uma companhia quase constante, mas, felizmente, ele conseguiu encontrar um lugar relativamente seco dentro de um bosque para colocar seu saco de dormir.

Quando se sentiu a altura da tarefa, o Necromante se levantou do chão, reprimindo um gemido de dor ao fazer isso. Depois de se espreguiçar rapidamente, começou a guardar seu pequeno acampamento. O sono tem sido difícil desde sua fuga do mausoléu há cinco dias e estava em um estado de semi-fuga enquanto realizava seus movimentos de empacotar seu saco de dormir, depois vasculhava sua mochila em busca de água e carne.

‘Seria tão bom se os esqueletos conseguissem cuidar das tarefas domésticas,’ ele refletiu, mas suas reservas de magika não aguentariam tal desperdício. Cada pouco de poder que conseguiu reunir seria necessário para continuar a marcha – com sorte, poderiam até mesmo chegar à floresta hoje.

— Eles. — Ele riu amargamente para si e balançou a cabeça.

Não havia “eles”. Seus lacaios eram apenas isso: servos quase irracionais da sua vontade. Que eles foram formados dos restos mortais de pessoas não significava nada nessa longa caminhada. Ele estava sozinho nisso e continuaria assim por um longo, longo período. Mais uma vez a tentação de buscar o Abismo surgiu dentro dele e, mais uma vez, ele a reprimiu. Ele não conjuraria um feitiço e se comunicaria com um poder completamente desconhecido apenas porque estava solitário. Ainda mais sedutor era a parte dele que se perguntava se o Abismo poderia oferecer alguma atalho para o poder, uma forma de acelerar seu eventual triunfo e retorno à civilização.

Essa sua parte ele estrangulou ainda mais impiedosamente. Cinco dias vivendo na miséria não seriam suficientes para levá-lo a realizar medidas desesperadas e acordos perigosos. Sua determinação não era tão fraca.

Ainda assim, ele estava lutando. Os longos dias de marcha, ansiedade e medo constante da captura, as noites árduas e pouco sono estavam desgastando seus nervos lenta, mas evidentemente. Não havia nada o que fazer além de continuar avançando – sabia que isso aconteceria no instante em que decidiu fugir. Ele enxaguou a boca e cuspiu com os restos do odre antes de colocar sua mochila sobre os ombros e começar a remover os traços do seu acampamento. Ele estava longe de ser experiente nesses assuntos, mas fez o que pôde. Trabalho feito, emitiu um comando mental para seus lacaios e partiu mais uma vez.

Atravessar o país diminuiu significativamente seu ritmo e o deixou exausto. Suas pernas doíam, seus pés doíam muito e tinha certeza de que havia dormido sobre alguma pedra em algum momento, pois estava com uma dor persistente em seu quadril. Tyron já havia dormido ao relento e dormido mal em breves viagens com seus pais, mas tinha que admitir que havia deixado sua condição física decair a um nível baixo e agora sofria por isso.

Enquanto as horas passavam, ele e seus dois lacaios encapuzados continuavam a viajar pelas terras mal cultivadas ao norte de Foxbridge. O rio estava muito atrás dele e, de sua memória confusa dos mapas que havia visto na biblioteca, havia pouco a ser encontrado entre sua localização atual e a Floresta Allthorn que marcava o limite da província ocidental.

Enquanto viajava, Tyron continuava vigiando constantemente por marechais. Eles certamente estariam por lá, procurando, embora não tivesse certeza de quão minuciosos seriam. Ele nunca realmente checou o que acontecia quando alguém com uma Classe ilegal fugia da civilização. Isso iria para os registros, obviamente, e ele nunca conseguiria emprego em nenhuma instituição sem fornecer uma cópia verificada do seu Status, o que faria com que fosse preso imediatamente.

Ele também manteve o olhar em frente o máximo possível. Estava ciente de que estava caminhando em direção a uma terra contestada e a ameaça de encontrar criaturas da fenda aumentava a cada dia. Comunidades agrícolas tão distantes estavam sob constante ameaça de animais e frequentemente eram bastante marciais, cultivando seus campos com um arco pendurado nas costas ou uma espada na cintura.

Apesar de tudo, seus esqueletos continuaram a marcha. Sem falar, sem cansar, eles obedeciam aos seus comandos mentais e seguiam, com suas vestes ondulando com o vento. O dreno nas reservas de energia magika de Tyron era constante. Essas não eram criaturas normais, afinal, eram constructos, formados por ossos e fortalecidos por sua própria magika. No fim do dia, ele estava cansado, como se tivesse percorrido à distância três vezes em vez de uma. Sua própria estamina havia acabado e sua magika estava quase vazia.

Quando chegou a hora de acampar de novo, ele se jogou no chão, com as costas apoiadas contra um tronco e apenas respirou fundo por alguns minutos. Seus músculos doíam, sua cabeça doía e se sentia vazio por dentro, como se alguém tivesse arranhado sua alma até que não sobrasse nada.

Ele estava cansado.

Quase mecanicamente, começou a montar o acampamento. Sem fogo, já que poderia denunciá-lo, ele aplainou uma seção do solo e espalhou seu saco de dormir enquanto ainda conseguia enxergar. Deixou sua mochila em um lugar seco e retirou mais uma carne seca, a qual mordiscou sem realmente saborear. Com isso feito, ele a lavou com a água parada que ainda lhe restava, antes de retirar suas botas, pendurar sua capa e se enfiar embaixo das cobertas, certificando-se de ordenar que seus esqueletos permanecessem em algum lugar seco.

Apesar da exaustão, o sono não veio com facilidade. Sua mente repassava pelos eventos da última semana repetidas vezes. Por que isso aconteceu com ele? O que seus pais diriam? Eles já devem ter chegado em casa a essa hora. Por quanto tempo ele conseguiria viver desse modo?

‘Eu mataria por uma das refeições do tia Meg.’

Então, ele só pôde rir amargamente de si. Poucos dias de “aventura” e ele já ansiava pela sua casa. Será que toda sua arrogância e determinação foram esmagadas com tanta facilidade?

Quando finalmente dormiu, seus olhos estavam molhados com lágrima que escorriam lentamente.

No dia seguinte, novamente, acordou dolorido e rígido enquanto se levantava da cama, empacotava seu acampamento, vestia sua mochila e, mais uma vez, começou a marcha, mas, neste dia, algo mudou. Era meio-dia, o sol estava alto quando ele se deparou com sua primeira criatura da fenda.

A terra estava menos desmatada agora; ele se deparou com menos fazendeiros, contornou menos propriedades rurais e as árvores ficavam mais densas e velhas à medida que viajava.

Enquanto colocava distraidamente um pé em frente ao outro, ele contornou uma árvore e ali estava, devorando selvagemente a lebre que havia capturado. Ele deveria ter a escutado com facilidade ao se aproximar, mas sua fadiga era maior do que suspeitava. Ela não era grande, graças ao deuses, apenas uma pequena fera. Apesar de toda sua exaustão, ele reagiu rapidamente assim que percebeu o que viu.

A criatura da fenda era pequena, não maior do que um gato grande, de aparência selvagem, cheia de espinhos, com uma boca minúscula cheia de dentes afiados como agulhas.

Seu primeiro instinto foi sacar sua espada, algo que fez com mãos desajeitadas. Ele quase a atacou, cortando através de sua pele espinhosa com suas habilidades rudimentares, apenas para perceber no último segundo que, se fosse ele quem destruísse a criatura, não receberia nada.

Ele era um Necromante: não era para ele lutar.

Com um comando mental, ordenou que seus lacaios avançassem e os dois esqueletos cambalearam com suas lâminas levantadas. A criatura da fenda os viu agora, levantando a cabeça de sua refeição e rosnando, com o rosto coberto de sangue. A criatura avançou para fatiar os dois lacaios e Tyron franziu o cenho, tentando direcionar os dois de uma vez. Era difícil coordená-los; seus pensamentos passavam de um servo para o outro enquanto tentava direcioná-los. Depois de uma dança estranha que durou muito tempo em sua mente, mas provavelmente ocorreu em menos de um minuto, um dos esqueletos conseguiu perfurar a besta com uma estocada.

Criaturas da fenda eram difíceis de matar e a pequena criatura se debateu e rosnou por algum tempo na ponta da lâmina antes de finalmente dar seu último suspiro. Apenas quando ficou flácida, Tyron relaxou e ordenou que seus dois lacaios recuassem para que pudesse inspecioná-la. Teve sorte de encontrar uma tão pequena. Era provável que essa criatura da fenda fosse parte de um enxame maior que havia invadido e se espalhado pela floresta e arredores. Não era incomum e se a infestação se tornasse muito ruim, Exterminadores seriam enviados da capital para limpar a bagunça. Pelo que conseguia se recordar, seus pais foram enviados para a Fortaleza de Exterminadores na Floresta Allthorn duas vezes, para ajudar a aliviar a pressão e fechar as fendas quando as coisas ficavam perigosas.

Exterminadores de alto nível, como seus pais, não eram geralmente utilizados nas linhas de frente como essa, por motivos que ele não compreendia. Magnin e Beory Steelarm eram um tanto incomuns, pois queriam continuar lutando e ficavam inquietos se permanecessem no mesmo lugar por muito tempo. O que significava que viajavam de fenda em fenda, mesmos se não fossem chamados.

Enquanto olhava para a criatura lamentável, Tyron suspirou e se sentou. Depois de vasculhar um pouco, retirou o bestiário que havia pegado de sua casa e começou a folhear através das páginas. Ele realmente não tinha tempo para desperdiçar, mas sua mãe sempre o avisou sobre saber contra o que lutava.

— As fendas são perigosas, Tyron. — Ela o avisou, com um olhar sério enquanto o encarava. — Informação é uma arma. Se você conhece o que vai enfrentar de antemão, metade da batalha já está vencida. E algumas vezes você pode se deparar com uma fenda que supera sua força. Não há vergonha em recuar diante disso. Só um tolo jogaria a vida fora por orgulho.

Então, ele continuou folheando as páginas enquanto espiava o cadáver repetidas vezes, tentando identificar a besta. Com alguma surpresa, realmente conseguiu. Havia milhares de tipos diferentes de criaturas da fenda e centenas de fendas diferentes, então não havia garantias de que aquela com quem havia lutado estaria nas páginas deste volume, mas, mais uma vez, teve sorte.

— Um roedor de pedras preciosas. — Ele leu para si mesmo enquanto encarava a criatura lindamente ilustrada na página. — Da fenda de Nagrythyn.

Como suspeitava, uma criatura que poderia aparecer em grupos com mais de cem. Um predador que podia crescer até quase a altura da cintura de um homem, se tivesse tempo e alimentos suficientes. Ele folheou mãos algumas páginas e leu informações gerais sobre Nagrythyn. Geralmente bestas com pouca inteligência e baixa afinidade para magia, as criaturas que passavam pelas fendas tendiam a operar em grandes números e possuir uma pele grossa. Se o roedor com quem ele se deparou tivesse tido mais tempo para crescer, então as espadas que tinha poderiam nem ser capazes de perfurá-lo…

Com um suspiro, fechou o livro e o armazenou com cuidado em sua mochila antes de colocá-la de volta em suas costas e se levantar com um gemido. Era difícil dizer o quanto havia viajado, mas tinha que pensar que ainda estava à alguma distância da Floresta Allthorn, dado seu ritmo. Se havia criaturas da fenda correndo por aqui, elas haviam conseguido avançar pelos últimos dias, o que não era um bom presságio. Por outro lado, isso poderia se uma bênção disfarçada, pois era improvável que os marechais o perseguissem em um território conhecido por estar coberto de bestas de outra dimensão.

Isso não mudava muito, ele ainda tinha que continuar avançando enquanto tinha cuidado para não se deparar com outras criaturas. Com sorte, encontraria mais algumas fracas e as eliminaria, ganhando um pouco de experiência no meio tempo. Se conseguisse subir alguns níveis antes de chegar, isso seria o melhor. No nível quatro possivelmente conseguiria escolher outro feitiço e no nível cinco receberia seu primeiro talento de Classe, o que seria uma dádiva para o seu progresso.

Cheio de um espírito renovado, Tyron partiu mais uma vez. Embora analisasse o ambiente com mais atenção enquanto caminhava, ele lançou um olhar para a criatura caída que seus lacaios haviam destruído.

A primeira criatura da fenda que morreu para ele, mas longe de ser a última!

Era uma pena que não conseguisse ressuscitá-la como um lacaio. Não que fosse ser muito poderosa, mas era provável que precisasse de menos magika para funcionar. Depois de estudar o feitiço que lhe foi concedido ao receber sua Classe, Ressuscitar Mortos, Tyron havia percebido rapidamente que ela só funcionava em restos humanos. Por que esse era o caso? Ele não sabia, mas tinha certeza disto: tentar ressuscitar essa besta seria um desperdício de tempo, energia e magika.

Encontrou mais um roedor de pedras preciosas antes que o dia ficasse escuro demais para continuar, a qual eliminou rapidamente com seus esqueletos. Ficou tentado a realizar o ritual de Status para ver se havia subido de nível, mas duvidava que matar duas criaturas pequenas seria suficiente e não queria desperdiçar papel ou sangue. Então, resistiu à vontade e montou acampamento. Sentiu-se desanimado ao inspecionar a comida restante em sua mochila. Um mero punhado de carne defumada era tudo que restava do que havia trazido com ele. Se não conseguisse mais em breve, teria que aumentar seu ritmo.

Ele poderia aguentar alguns dias sem comer, mas preferia não precisar, se pudesse evitar. Depois de pensar um pouco, decidiu procurar uma fazenda amanhã e ver se estavam dispostos a trocar. Notícias da sua fuga de Foxbridge provavelmente ainda não haviam chegado até aqui, não nessas propriedades isoladas.

Ordenou que seus esqueletos continuassem de vigia enquanto dormia, esperando que fossem proficientes o suficiente para mantê-lo vivo durante a noite se uma criatura da fenda aparecesse. Anda havia muito que não sabia sobre seus lacaios.

Quão bem eles enxergavam no escuro? Quão capazes eles eram em interpretar ordens? Mal e não muito, ele suspeitava, mas teria que testar seus limites em outra ocasião, simplesmente não tinha a energia ou o tempo agora.

Quando acordou no dia seguinte, descobriu que as nuvens acima finalmente haviam desaparecido e a chuva quase constante que acompanhava sua jornada havia diminuído um pouco. Um bom presságio, se é que havia algum. Ele comeu sua última comida e partiu. Em vez de seguir direto para a floresta, ziguezagueou para a esquerda e direita, usando o sol para se orientar, como foi ensinado. Era perto do meio-dia quando viu o que parecia uma cerca à distância e ao se aproximar pode confirmar sua suspeita. Cercas seccionadas de terra cultivada envoltas por uma cerca alta e grossa para manter as criaturas da fenda menores afastadas, formavam um padrão organizado ao redor da casa de fazenda central, que conseguiu avistar ao escalar uma árvore fora da propriedade. Fumaça subia da chaminé que atravessava o telhado, o que deu ânimo. Alguém estava em casa pelo menos.

Era estranho pensar que ansiava por conversar com alguém, dado quão sozinho ele ficou por toda sua vida. Alguns dias de isolação na natureza, com nada além de esqueletos como companhia, foi suficiente para fazê-lo sentir falta do contato humano. Apesar desta vontade, não foi tolo suficiente para abandonar a cautela. Enquanto circulava amplamente a fazenda, tomou cuidado para esconder sua mochila e enterrar seu ouro, deixando os dois esqueletos parados sobre seus pertences, enquanto levava apenas uma quantidade modesta de prata com ele. Quase não havia probabilidades de um lugar isolado como este já ter recebido a notícia de sua fuga, mas ali fora, sem ninguém observando, não custava nada jogar pelo seguro.

Tão próximo das florestas e das fendas que se encontravam ali, não era fácil sobreviver cultivando. A ameaça constante de ataques significava que a terra era barata para os residentes que estavam dispostos a tentar sobreviver ali. À medida que Tyron se aproximava, sentia-se como se estivesse se aproximando de um pequeno forte em vez de uma fazenda; as cercas altas e sólidas e o portão, complementados por duas torres de vigia, eram bastante intimidadoras. Enquanto se aproximava das portas de madeira grossas que marcavam o limite da propriedade, rapidamente percebeu os arqueiros de cada lado do caminho, que mantinham suas armas apontadas para ele. Nervoso e exposto, levantou as mãos para mostrar que não era uma ameaça.

— Essa distância já está boa. Qual é o seu negócio, estranho? — Um homem chamou da torre à direita.

— Troca. — Tyron respondeu. — Sou um viajante que precisa de suprimentos. Algum pão e queijo, uma chance de encher meu odre. Posso pagar com algumas pratas.

Ele se sentiu estranho, parado enquanto dois Fazendeiros armados olhavam para ele com olhos duros.

— Espere aí. — O homem eventualmente disse antes de balançar a cabeça para o outro arqueiro.

Um segundo depois que o homem sumiu, provavelmente entrou na construção na esperança de reunir os suprimentos que havia pedido. Depois de cinco minutos suando, nervoso, o portão se abriu e Tyron se deparou com uma velha que parecia mais couro do que humana, flanqueada por dois trabalhadores rurais de aparência sombria, ambos armados com arcos e machados. Ele negociou mal e pagou mais do que recebeu, mas, devido as circunstâncias e o olhar frio nos olhos dos fornecedores, ficou feliz de conseguir algo.

Tendo terminado os negócios, sorriu educadamente enquanto entregava a prata antes de se virar e se afastar decisivamente, sem saber que estava sendo observado. Ele não sabia por que decidiu não voltar direto para seus esqueletos e pertences, mas, em vez disso, optou por ir para o norte, parando apenas para mordiscar o pão velho e o queijo duro que conseguiu adquirir. Depois de uma hora, o alcançaram.

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