Livro dos Mortos

Volume 1 - Capítulo 16

Livro dos Mortos

A fronteira da província ocidental tinha a reputação de criar aldeões durões. Havia pouca lei aqui: as várias fazendas e vilas eram abandonadas na maioria das vezes. Quando três peões corpulentos saíram de trás das árvores ao redor. Tyron foi rápido em levantar suas mãos e parecer o mais inofensivo possível. O que era bastante simples, ao considerar que estava sozinho e desarmado.

— Olá. — Ele tentou forçar um sorriso através do desconforto ou medo que surgia em seu estômago.

Os três não estavam interessados em conversar. Em vez disso, avançaram por três direções, com as mãos fechadas em punhos. Ser roubado não fazia parte do seu plano desta parte da jornada, mas era algo que considerou. Embora não esperasse experienciar isso na mão de fazendeiros. Eles o espancaram, não muito violentamente, considerando tudo, antes de o extorquirem. Frustrados por não encontrarem nenhuma moeda, espancaram-no de novo, desta vez pior, antes de o deixarem caído na terra.

Tyron apalpou com cuidado suas costelas, estremecendo ao encostar em qualquer ponto doloroso. Ele não achava que havia algo quebrado, talvez tivesse tido sorte. Trabalhar com uma Classe física como eles significava que tinham muita força. Talvez apenas sua constituição anormalmente alta para um nível tão baixo tenha o salvado de qualquer ferimento pior. Depois de dez minutos de descanso e para acalmar sua respiração, forçou-se a ficar de pé e avaliou os danos.

A maioria da comida que havia comprado estava arruinada, mas, por sorte, a água não. Ele conseguiu segurar o odre sob ele enquanto era atacado. Seu rosto estava machucado, mas pelo menos não perdeu nenhum dente. Com um gemido, começou a caminhar e fez um caminho mais longo, apenas no caso de ainda estar sendo observado. Eventualmente, voltou para o local em que enterrou seu dinheiro e deixou seus dois lacaios.

Os esqueletos permaneceram parados como pedras, da mesma forma de como os deixou.

— Vocês dois foram muito bem. — Ele resmungou para eles.

Eles o observaram com o mesmo fogo constante nos olhos com os quais nasceram, como se o julgassem.

— Eu sei, eu sei. — Ele suspirou. — Foi minha decisão.

Ele poderia ter se defendido com seus lacaios? Talvez, talvez não. Se tivesse se revelado como um Necromante ele poderia ter colocado os marechais direto em sua trilha. Se eles ainda o atacassem independentemente disso, ele poderia ter sido forçado a matar aqueles peões para sobreviver, algo que não queria fazer. Havia assumido um risco e falhado.

— Ah bem. — Ele fez uma careta. — Vamos devagar por enquanto.

Ele parou.

— Preciso parar de conversar com esqueletos. — Disse.

O progresso diminuiu consideravelmente a partir deste ponto. Ele caminhou com os membros pesados devido ao chute que recebeu no quadril, sem mencionar as inúmeras dores que surgiam conforme caminhava. Apesar da dor, fez seu melhor para concentrar sua atenção na floresta circundante, cauteloso em encontrar outras criaturas da fenda. Cada uma das criaturas que encontrou era um perigo e uma oportunidade. A menos que acontecesse de se deparar com um túmulo recente, era improvável que conseguisse quaisquer restos mortais que poderia utilizar para praticar sua magika característica, o que significava que a única forma que poderia reunir proficiência necessária para subir de nível era fazendo seus esqueletos lutarem.

Certamente, ficou tentado a se virar e tentar matar alguns Fazendeiros da fronteira, mas se esforçou para reprimir esse rancor. Seria moralmente errado, ele sabia disso, mas também sabia que muito provavelmente seria morto se voltasse para lá procurando por problemas. Poderia ter algumas visões grandiosas de liderar seu exército de mortos-vivos um dia, mas no momento estava no nível dois.

— No grande esquema das coisas. — Ele recordou seu pai dizendo. — Assim que você recebe uma Classe e aumenta alguns níveis nela, algumas vezes até antes disso, dependendo da sua Classe, você pode basicamente dar uma surra em todos que não despertaram. As habilidades que elas concedem são simplesmente boas. Talvez haja algumas pessoas excepcionais que levaram sua esgrima para um alto nível antes de chegarem aos dezoito anos e ainda conseguem derrotar um Espadachim de nível um, mas esses tipos são raros.

— Por que eu não pratico minhas habilidades então? — O jovem Tyron havia perguntado, ansioso para extrair a sabedoria do seu pai poderoso enquanto ele se sentia falante.

— Desperdício de tempo. — Magnin deu de ombros. — Você aprende habilidades relacionadas à sua Classe cerca de dez vezes mais rápido depois que Desperta. Esse é a ajuda do Invisível ao longo do seu caminho. Você pode passar quatro anos praticando com a lâmina e alcançar o nível cinco em sua habilidade, ou você pode fazer isso em quatro meses depois que conseguir sua Classe. Crianças como você só deveriam se divertir.

Ele estendeu a mão e bagunçou o cabelo do menino. Como seu filho, Tyron sabia quão difícil era para seu pai controlar sua força. Eles haviam perdido muitos móveis ao longo dos anos. Mesmo assim, ele valorizava esses momentos.

— Mas não se esqueça, alguém com uma Classe recém Despertada ainda é um pedaço de merda no contexto mais amplo.

Tyron olhou ao redor rapidamente.

— Não se preocupe. — Magnin sorriu. — Sua mãe está fazendo compras. Agora, até que você alcance o nível 5, você nem mesmo possui um talento de Classe e suas habilidades são lixo de nível baixo. Assim que você chega ao nível 20 e avança sua Classe, então você começa a ter algum poder real sob sua manga. Até lá, você é basicamente apenas um peixe pequeno. É por isso que a academia de Exterminadores existe. Assim que você desperta, pode ir para lá e eles te ajudarão nos estágios iniciais, quando estiver fraco demais para fazer muito por si mesmo… ou você pode vir comigo e com sua mãe, nós te mostraremos o caminho!

Ele sorriu com a memória, mesmo que tentasse evitar agravar seus ferimentos. Ele tinha que manter em mente que ainda era um “pedaço de lixo”, como o grande guerreiro Magnin disse. Ele também não tinha a capacidade de confiar em seus pais ou frequentar a academia para ajudá-lo através deste período fraco. Precisava superar isso sozinho, o que significava ser um alvo pequeno e chamar o mínimo de atenção.

Não importa o quanto quisesse se vingar daqueles Fazendeiros mãos de vaca.

Eventualmente, deparou-se com um pequeno córrego e parou tempo suficiente para lavar os ferimentos na água fria e lamacenta, esfregando o cabelo enquanto fazia isso. Talvez isso não ajudasse muito na sua higiene, mas, pelo menos, conseguiu confirmar que não estava sangrando em algum lugar sob suas roupas.

Por dias miseráveis viajou assim. Dormir era quase impossível, dado seus ferimentos e a ausência de algo macio para se deitar. Ele encontrou várias criaturas da fenda, eliminadas por seus esqueletos, mas não saiu ileso. Não que ele foi ferido, mas os esqueletos começaram a acumular danos. Outro roedor de pedras preciosas, maior do que o primeiro que viu, conseguiu quebrar a perna de um dos seus lacaios. O esqueleto ainda conseguia caminhar, embora mais devagar – o suficiente para acompanhar sua própria velocidade limitada, mas os problemas surgiram quando ele percebeu que consumia muito mais magika para mantê-lo em movimento do que antes.

Se quisesse manter o lacaio, precisaria parar com mais frequência ou usar constantemente o doce de mago para sustentar o fluxo de energia necessário. Estava próximo da fortaleza, ou pelo menos deveria estar, mas, se as bestas que encontrasse continuassem a ficar mais fortes, precisaria de toda a ajuda que conseguisse. Com relutância, colocou outro cristal preenchido com magika sob sua língua e o absorveu para permitir que seu lacaio ferido continuasse a se mover.

De uma forma estranha, ele se apegou a essas duas criaturas irracionais de ossos. Elas eram os primeiros passos reais que deu em sua jornada como um Necromante e sempre se lembraria delas, mesmo se ele se tornasse muito mais proficiente em ressuscitar sevos no futuro. Na verdade, ele precisava se tornar mais proficiente. Se nunca criasse algo mais útil do que esses dois, estaria em apuros!

Quando finalmente cambaleou até a borda da clareira onde a Fortaleza de Exterminadores estava situada, ele estava uma bagunça. Uma febre havia o afetado ontem, sugerindo que poderia ter sofrido algum ferimento interno com o espancamento e muitos dos ferimentos em seu rosto ainda tinham que sumir. Seu esqueleto ferido foi perdido em uma luta contra outro roedor de pedras preciosas, embora tenha sido capaz de finalizar a criatura com seu segundo esqueleto e recuperar a espada. Foi forçado a sacrificar seu servo restante algumas horas mais cedo quando uma criatura da fenda corpulenta havia o encontrado enquanto ele mancava entre as árvores. Tão grande quanto um touro, a besta era um pesadelo de carne incrustada com pedras preciosas que instantaneamente decidiu não ser capaz de derrotar. Ordenando que seu esqueleto enfrentasse a besta, ele se virou e correu o máximo que pôde em outra direção, com o coração batendo forte em seu peito.

Perder ambos seus lacaios foi um golpe doloroso. A conexão magika que havia criado com eles se desfez quando eles “morreram”, levando consigo uma parte da energia gasta com eles. Foi estranho. Seus servos não sentiam dor, ou medo, ou quaisquer emoções. Eles enfrentaram suas mortes da mesma forma que enfrentavam todo o resto, com uma obediência fria à sua vontade.

Seus dois primeiros mortos-vivos, perdidos, assim, sem mais nem menos. Os primeiros mortos-vivos apropriados.

‘Zumbis não contam.’

Felizmente, a criatura não o seguiu e ele chegou aqui pouco depois. Longe de aliviado, tudo o que sentia era uma aceitação resignada de quão fraco realmente era agora que saiu para o mundo. O que deveria ter sido uma jornada curta e fácil se transformou nele quase sendo roubado e na perda de ambos seus lacaios para criaturas da fenda relativamente fracas.

Ele reprimiu a crescente amargura e tentou concentrar sua mente exausta enquanto cambaleava em direção à fortaleza.

‘Woodsedge’. Ele se lembrou. ‘Nos arredores da Floresta Allthorn. Encontre algum lugar para se hospedar e tente não ser roubado. De novo.’

As arvores haviam sido derrubadas por mais de cem metros da muralha externa e Tyron teve que percorrer uma distância considerável antes de encontrar a estrada que levava ao portão. Havia apenas duas formas de entrar e sair de Woodsedge – uma que levava de volta para a província e aquele que levava diretamente para as terras quebradas dentro da floresta. Das duas, o portão que ele preferia usar era óbvio. Devido ao perigo recente, a estrada estava quase vazia e ele ficou feliz de se juntar a fila bastante curta, atrás de apenas algumas carroças buscando entrar e vender suas mercadorias. Quando finalmente chegou à frente da fila, tentou arrumar o sorriso inofensivo em sua face enquanto se aproximava dos dois guardas de serviço.

O efeito dos esforços fez com que parecesse mais perturbado do que alegre. O Cabo Northran ficou chocado ao ver um garoto com aparência tão esfarrapada na fronteira, quanto mais com um semblante tão assustador.

— Puta merda, garoto. — Ele exclamou. — Você parece a morte.

— Encontrei uma criatura da fenda na estrada. — Tyron disse. — Eu, uh, não me diverti muito.

— Isso é muito óbvio. — Northran acenou para seu parceiro lidar com a próxima carruagem na fila. A inspeção levava tempo e não parecia que este rapaz conseguiria ferir um cordeiro recém-nascido. — Se você não consegue lidar com algumas das bestas mais fracas, então realmente não deveria ter viajado até aqui.

— Eu pensei que não veria tantos tão longe da fortaleza…

Ele tentou não soar tão acusatório enquanto falava, mas o guarda respondeu da mesma forma.

— Tivemos um surto essa semana, é verdade. Acho que alguns Exterminadores de elite foram chamados para lidar com isso antes que algo sério demais aconteça. De qualquer forma, qual é o seu negócio aqui em Woodsedge?

— Visita. — Tyron tentou dar de ombros, mas uma pontada de dor o atingiu no meio do caminhou. — Procurando trabalho. — Ele concluiu.

O Cabo Northran olhou para ele de cima a baixo. Este garoto não teria despertado a mais de um mês ou dois e já havia decaído para tal estado.

— Você é capaz de pagar a taxa do portão? — Ele perguntou, duvidoso.

Ficou mais do que surpreso quando o rapaz, sem hesitar, colocou a mão no que restava de sua capa e retirou um soberano de prata.

— Meus pais pagaram por minha viagem. — O garoto tentou sorrir, mas falhou. — Porém, não tenho muito sobrando. Há algum curandeiro que eu possa ver lá dentro?

Havia muitos, na verdade. Curar ferimentos era uma indústria vital ao redor de qualquer Fortaleza de Exterminador.

— Certo, então. Você pagou a taxa, deixe-me pegar seus detalhes e você pode ir se tratar. — Northran suspirou. Não era seu papel questionar a decisão de cada aspirante à glória que fugia para as terras quebradas depois do seu Despertar. Era seu trabalho pegar o dinheiro deles e seus nomes e partir para o próximo.

— Qual o seu nome? — Ele perguntou, preparando sua tinta na prancheta.

— Uh…

Por um instante, Tyron obviamente ficou em branco, desde que esqueceu a identidade falsa que havia preparado; Ele piscou e tentou forçar seu cérebro lento a se mover.

— Lukas… Almfield.

—…Ééé. Vou te classificar como “buscando emprego”… Lukas. Se precisar de um curandeiro, mas não tiver muito dinheiro, sugiro que vá para a Praça de Ferro. A maioria dos lugares mais baratos estão ali.

— O-Obrigado. —Tyron gaguejou antes de passar pelo guarda e entrar pelo portão aberto.

Atrás dele, o Cabo Northran balançou a cabeça ao observar o garoto entrar em Woodsedge. Nesta época do ano garotos como ele eram comuns. Em dois meses, a maioria deles estaria morta ou teria recuperado o juízo e voltado para casa. Para aqueles que sonhavam em ser Exterminadores, mas não conseguiam pagar a entrada em uma academia, fugir para uma fortaleza era o único caminho que restava para perseguir seus sonhos.

— Pobres pais. — Ele suspirou para si enquanto se virava e acenava para o próximo na fila.

Um grande peso saiu dos ombros de Tyron assim que saiu da vista do portão. Seu maior medo era que não conseguisse entrar a tempo de a notícia da sua fuga ter se espalhado. Se isso acontecesse, então a chance de os guardas demandarem que todos tivessem seus Status verificados antes de permitir a entrada dispararia. Na verdade, ele era apenas mais um garoto na estrada que não pertencia a este lugar. Exausto e sentindo-se cada vez mais delirante, fez seu melhor para não atrair atenção enquanto tentava se locomover pela cidade desorganizada fora da Fortaleza. Ele escutou há muito tempo da sua mãe que quase toda Fortaleza, mesmo as mais inóspitas, abrigavam algum tipo de assentamento. Exterminadores tinham dinheiro para queimar, mas nenhum lugar para voltar, o que significava que comerciantes e serviços tinham que ir até eles se quisessem extorquir os lucros. Com os comerciantes vieram mercenários, lojistas, estalagens, bordéis e todos os outros mecanismos da sociedade.

Depois de finalmente perguntar a direção, foi apontado na direção em que precisava ir. A Praça de Ferro, assim chamada porque apenas os Exterminadores de rank ferro que eram incapazes de pagar por algo melhor iam para lá. Depois de ser enfaixado e alimentado com uma mistura de odor fétido pelo boticário para lidar com sua hemorragia interna, Tyron foi empurrado de volta para a rua, sentindo-se sobrecarregado e ainda mais exausto. Ele recorreu a beliscões e cutucadas na perna ferida para se manter acordado enquanto caminhava pelas ruas estreitas. Estava à beira de um colapso antes de finalmente encontrar uma pousada com a qual estivesse satisfeito. Depois de providenciar hospedagem para a noite e se forçar a comer algumas fatias de pão com ensopado, cambaleou escadas acima, encontrou seu quarto e desabou na cama, adormecendo antes de cair no colchão.

Acordou algumas vezes durante as doze horas, a primeira vez porque o punho de sua espada estava pressionando seu quadril, então se despiu sonolentamente antes de subir na cama propriamente dita, a segunda porque estava desidratado e com uma necessidade desesperada de urinar. Eventualmente, seus olhos se abriram lentamente e voltou a acordar. Dores e incômodos atormentavam seu corpo, sentia náuseas e fome ao mesmo tempo e sua mente estava lenta devido à falta de sono, mas ele sentia que não melhoraria se permanecesse na cama além deste ponto. Olhou ao redor do quarto apertado em que se encontrava – com uma janela, um pequeno armário e penteadeira, uma única cadeira e uma mesa minúscula – e suspirou. Isso era o melhor que as coisas ficariam num futuro próximo. Para alguém que passava muitas noites dormindo no sótão, pensou que isto não o incomodaria, mas, naquela época, sempre tinha a opção de voltar para sua casa se quisesse. Agora, estava preso a isso e, por essa razão, isso o irritava.

— Supere isso, Tyron. — Ele zombou de si. Tinha coisas mais importantes para se preocupar do que o estado de seu alojamento.

Sua mochila permanecia no chão, onde havia a deixado, o que era uma sorte, já que, para seu desgosto, ele não havia trancado a porta depois de entrar noite passada. Amaldiçoando-se por ser um tolo, rapidamente checou todos seus pertences e suspirou de alívio quando descobriu que nada faltava. Se houvesse uma coisa pelo qual era grato, era que Woodsedge era bem policiada. Tinha que ser se quisessem manter os Exterminadores na linha.

Enquanto se levantava com um suspiro, Tyron refletiu sobre sua última semana. Custou-lhe uma boa parte do seu dinheiro, ambos seus lacaios e um golpe massivo em seu ego, mas essa primeira e menor parte da sua jornada havia acabado. Daqui em diante, só iria se tornar mais difícil. Ele tinha que aprimorar suas habilidades sem ninguém descobrir sobre elas e tinha que fazer isso de baixo do nariz das autoridades. Ainda assim, aqui ele tinha acesso as duas coisas que mais precisava: criaturas da fenda para lutar e… cadáveres.

Ele precisaria de muitos cadáveres.

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