Livro dos Mortos

Volume 1 - Capítulo 17

Livro dos Mortos

O resto do dia foi utilizado para comer, beber e dormir enquanto Tyron se recuperava da sua jornada. Ele se manteve reservado e concentrou em recuperar energia e o foco o mais rápido possível. Seu excesso de uso do doce de mago havia aumentado um pouco sua tolerância e ele precisaria de um pouco de tempo para desintoxicar seu sistema. Francamente, ficou envergonhado com quão mal a jornada foi. Ele havia levado muito mais tempo e perdido muito ao longo do caminho. Sem a pequena premonição que teve, poderia ter perdido tudo e chegado em Woodsedge como um mendigo cambaleante!

‘Não chore pelo leite derramado,’ ele zombou de si mesmo. ‘Aprenda com isso e se aprimore.’

E ele iria. A primeira coisa que fez foi assegurar que não atraísse atenção. Ele comeu suas refeições em seu quarto e se isolou enquanto se dedicava à recuperação. Recusou-se a tomar qualquer atitude até estar em perfeitas condições, não física, mas mentalmente. A fadiga e o estresse que havia suportado o deixou desatento e vago, algo que não poderia se dar ao luxo, então recorreu ao seu estoque de moedas para comprar dois dias para se recuperar.

Então, ele dormiu, comeu e pensou, depois dormiu um pouco mais até que acordou na manhã seguinte. Seus músculos ainda continham um eco da dor e rigidez que suportou, mas sua mente estava mais uma vez fresca e clara.

— Aqui vamos nós. — Ele murmurou para si.

Subitamente, a energia nervosa e desejo de avançar que havia reprimido vieram à tona e foi difícil vestir suas botas devido às suas mãos trêmulas. Ele não podia se dar ao luxo de desperdiçar mais tempo! Havia quase zero chance de que sua fuga não tivesse sido espalhada, especialmente com uma Classe proibida e uma provável recompensa considerável. Ele não era um ladrão ou um bandido, esse tipo de aviso para recompensa era comum. Para um Necromante era provável que o Barão desembolsasse um valor muito mais significativo.

Felizmente, a Fortaleza havia recebido um grande influxo de jovens ao longo da semana, de acordo com as fofocas que ouviu das criadas da cozinha, o que significava que ele era apenas um rosto entre centenas. Isso também significava que a competição estava se aquecendo e que não poderia esperar mais.

Ele andava em passos rápidos, que se transformaram em um trote lento assim que saiu para a rua, na luz da manhã. Por sorte, conseguiu encontrar o que precisava sem muito problema, embora tivesse que se desfazer de um soberano de ouro por isso. Com seu prêmio sob seu braço, correu de volta para a pousada, onde se hospedava, pegando um prato para o café da manhã o qual levou para seu quarto. Assim que a porta foi fechada, sentou-se no centro do quarto, colocou o prato ao lado e, com cuidado, arrancou uma página do livro que acabou de comprar.

Dado quão importante o estoque de uma folha de papel em branco era para literalmente todos, ele não havia percebido quão caro seria comprá-las. Mesmo considerando os preços inflados por estar na fronteira, ficou chocado com o valor que o balconista havia pedido. Era possível que estivesse sendo enganado, mas, não importava o quanto tentasse, o homem não diminuiu o preço, então simplesmente cedeu e pagou. Nunca havia precisado comprar um livro ou papel antes, já que seus pais mantinham um estoque farto em casa, então ele não tinha ideia de quanto custava o pequeno monte de folhas brancas e limpas encadernados em couro debaixo do seu braço em Foxbrigde.

Ainda assim, não podia se importar com isso no momento. Ele esperava por isso há tanto tempo! Um pequeno furo no dedo usando sua faca e então estava pronto para realizar o ritual de Status.

Eventos:

Suas tentativas de furtividade aumentaram sua proficiência. Furtivo alcançou o nível 2.

Seu uso de esgrima aumentou sua proficiência.

Concentração aumentou sua proficiência. Concentração alcançou o nível 3.

Seus lacaios batalharam em seu nome. Seus lacaios caíram a seu serviço. Necromante alcançou o nível 4. Você recebeu +4 de Inteligência, +2 de Sabedoria, +2 de Constituição e +2 de Manipulação. Novas Escolhas Disponíveis.

Os Sombrios continuam satisfeitos com seu progresso. Eles te incentivam a continuar em seu caminho. O Abismo está ficando impaciente.

Nome: Tyron Steelarm

Idade: 18

Raça: Humana (Nível 10)

Classe:

Necromante (Nível 4)

Subclasses:

1. Anátema (Nível 3)

2. Nenhuma

3. Nenhuma

Talentos Raciais:

Nível 5: Mão Firme.

Nível 10: Coruja Noturna.

Atributos:

Força: 12

Destreza: 11

Constituição: 22

Inteligência: 29

Sabedoria: 21

Força de Vontade: 19

Carisma: 13

Manipulação: 13

Postura: 13

Habilidades Gerais:

Aritmética (Nível 5) (Máx.)

Caligrafia (Nível 4)

Concentração (Nível 3)

Culinária (Nível 1)

Funda (Nível 3)

Esgrima (Nível 1)

Furtivo (Nível 2)

Seleções de habilidades disponíveis: 2

Habilidades de Necromante:

Avaliação de Cadáveres (Nível 1)

Preparação de Cadáveres (Nível 1)

Feitiços Gerais:

Globo de Luz (Nível 5) (Máx.)

Sono (Nível 4)

Raio Magiko (Nível 1)

Feitiços de Necromante:

Ressuscitar Mortos (Nível 3)

Costura Óssea (Nível 2)

Mistérios:

Modelagem de Feitiços (Inicial): INT +3, SAB +3

Necromante Nível 3. Por favor escolha um feitiço adicional: Reparo de Carne – Repare carne morta.

Por favor escolha uma habilidade adicional: Fortalecer Servo – Alimente seus lacaios com mana.

Magika de Morte – Sintonize-se com a morte.

Dois níveis de uma vez! Tyron prendeu a respiração com isso. Alcançar o nível cinco teria sido incrível, desde que isso garantiria seu primeiro talento de Classe, mas não poderia ficar desapontado com isso. Nível quatro era suficiente para conseguir seu próximo feitiço ou habilidade, que seria uma escolha importante dada suas circunstâncias. Ficou desapontado que Anátema não subiu de nível e a mensagem sobre o Abismo soava no mínimo assustadora. Ele não tinha ideia de quem ou o que o Abismo era e certamente não ficou mais animado com a ideia de contatá-lo através de algum ritual, mas sentiu um pouco de medo ao pensar que algo tão poderoso que poderia lhe conceder uma Subclasse ficasse irritado com ele.

Deixando isso de lado, sua falta de crescimento como um humano também era irritante. Nível dez na sua idade estava definitivamente baixo – normalmente as pessoas ganhavam cerca de um nível por ano. Ser um recluso e antissocial como ele era teve um custo neste aspecto. Isso não o incomodava no passado, mas agora sentia que precisava progredir seus níveis raciais. Ele precisava ter mais habilidade gerais e, mais importante, precisava dos bônus racial humano que ficaria disponível no nível 20.

Esse espaço de Classe extra seria muito importante no futuro, especialmente porque havia perdido um espaço para Anátema, embora não tenha sido sua culpa. A Subclasse o fornecia status fantásticos por níveis, isso era verdade, mas ele não tinha ideia de quão útil ela seria ou quão legal era. Suspeitava que poderia ser ainda mais odiado que Necromante. Graças a deus, não havia como alguém saber que a possuía, a menos que passasse por uma Avaliação. Algo que tinha que evitar como uma praga.

Antes de mais nada, cuidadosamente escreveu na página algumas palavras usando seu próprio sangue: nova habilidade geral — Açougue.

Sua face se contorceu um pouco ao escrever, mas não hesitou. Isso era necessário para o próximo passo e, por mais que não quisesse admitir, a habilidade seria útil para sua Classe. Com cuidado, evitou pensar sobre as ramificações de sua escolha enquanto passava seus olhos pelo final da página. Como esperado, ainda era capaz de selecionar “Reparo de Carne”, a escolha que ignorou no nível 2. Também não sentiu vontade de escolhê-la desta vez, ele havia saído dos zumbis para outra forma de mortos-vivos e não via motivo para voltar. Suas novas opções eram habilidades em vez de feitiços e as leu com atenção.

Fortalecer Servo parecia intuitivo para ele. Quando ressuscitava um lacaio grande parte do processo envolvia formar um canal entre ele e o resto mortal, uma conexão que permitiria o lacaio absorver a magika dele como combustível para suas ações. A energia que permitia o esqueleto se mover tinha que vir de algum lugar – certamente não era queimando gordura corporal! Essa habilidade o ensinaria a como transferir magika através dessa conexão manualmente, garantindo ao lacaio força e velocidade adicional. Isso definitivamente seria útil, mas tinha que considerar o custo. Suspeitava que nos níveis iniciais, pelo menos, a habilidade seria horrendamente ineficiente, o que era um grande problema, já que atualmente lutava para suportar dois lacaios. Os status adicionais que recebeu ao subir de nível como um Necromante certamente ajudavam, mas estava hesitante em escolher uma habilidade que poderia não ser capaz de usar atualmente.

Da mesma forma, a próxima escolha possuía desvantagens semelhantes. Esse tipo de habilidade não era incomum, embora essa em particular pudesse ser. Ele sabia que sua mãe possuía várias dessas habilidades, nomeadas de Magia de Fogo e Magia de Terra, isso a permitia conjurar esses feitiços com muita facilidade. Essas habilidades também poderiam atuar como pré-requisitos para feitiços, talentos ou até mesmo Classes. Ela não faria muito para ele agora, além de facilitar para conjurar Ressuscitar Mortos, mas os benefícios potenciais eram ótimos.

Tyron ficou um pouco perplexo por ambas as escolhas não serem muito úteis par ele em suas circunstâncias atuais, mas, pensando bem, não havia muito o que seria. Ambas eram potencialmente úteis e ele conseguia se ver escolhendo qualquer uma delas no futuro de novo.

Ele considerou sua escolha com cuidado, encarando as letras de sangue por vários minutos antes de marcar sua escolha com uma gota.

Seria Magika de Morte. Ele tinha certeza de que era ilegal, mas o que isso importava? Sua página de Status já era proibida, possivelmente várias vezes! Ele não tinha certeza, já que não possuía ideia de como a Classe Necromante deveria progredir e quais feitiços e habilidades seriam oferecidos, mas sentia que era seguro apostar que veria opções relacionadas à Magika de Morte para extrair valor mais do que suficiente da habilidade. O conhecimento de que ela poderia atuar como um pré-requisito para muitas coisas selou sua escolha.

Com a seleção feita, terminou o ritual e imediatamente colapsou quando a mudança aconteceu. Ele não ficou inconsciente, mas demorou mais de uma hora antes que se sentisse confortável para se levantar do chão. Nesta hora, seu café da manhã esfriou, mas ele se forçou a comê-lo de qualquer forma: ele precisava da energia e não poderia se dar ao luxo de pular refeições pelas quais estava pagando. Essa era outra consideração, ele deveria se mudar para um lugar mais barato? Atualmente não possuía uma fonte de renda e este lugar estava na faixa-média de pousadas de Woodsedge. Se quisesse viver de acordo com suas circunstâncias, precisaria encontrar um lugar muito mais barato… mas parte dele hesitou.

Por ora, decidiu ficar. A comida era boa e a segurança era excelente. Se ele se mudasse para um lugar mais barato para economizar dinheiro e fosse roubado, isso o prejudicaria mais do que pagar o dobro por um quarto. Se fosse cuidadoso com suas moedas restantes, conseguiria permanecer aqui por um longe período, meses se necessário. Se começasse a receber alguns soberanos, então esse tempo poderia aumentar para um ano ou mais.

E essa era sua próxima preocupação. Tendo descansado e completado o ritual, precisava passar para os próximos passos. Pegou seu prato e se levantou, endireitando os ombros antes de descer as escadas até a sala comum, certificando-se de trancar a porta atrás dele. Esta próxima etapa seria desagradável, mas era um passo necessário se quisesse ter sucesso. Ele evitou ser puxado para a conversa com as criadas, cada uma rindo enquanto ele passava, tentando extrair qualquer fofoca dele e caminhou decididamente pela cidade.

Demorou um pouco para encontrar o que procurava e levou um pouco mais para reunir a determinação para entrar pela porta.

Quando fez isso, a primeira coisa que sentiu foi o cheiro: era insuportável. Sangue, muito sangue. A segunda coisa que percebeu foi a temperatura. Era notavelmente mais frio no interior do que do lado de fora.

‘É por isso que a porta é tão pesada?’

Ele se virou para encarar a madeira espessa por um instante antes de olhar com curiosidade ao redor da loja. Deveria haver encantamentos que mantinham a temperatura tão baixa, nada mais conseguiria. Ele não conseguia identificar onde estavam, mas adoraria dar uma olhada se tivesse a chance. Ele conhecia algumas runas, as aprendeu cutucando as coisas encantadas de seus pais e não se importaria de- — Você vai ficar olhando ou vai comprar alguma coisa? — Uma voz rouca soou.

Tyron pulou e se virou para ver um homem corpulento com os antebraços mais grossos que já viu cruzados sobre o peito. Mesmo assim, era fácil ver as manchas vermelhas que cobriam seus dedos.

— Ah, olá. — Tyron tentou sorrir, mas falhou miseravelmente. Ele era inútil em situações sociais. — Eu estava… uh… esperando falar com você… na verdade.

— Fale logo, rapaz, não tenho tempo.

— Certo… será que me permite… ser voluntário aqui… e… fazer algum trabalho, de… graça?

Até ele estremeceu ao ver como sua voz se arrastou no final sob o olhar fixo do homem de aparência rude. O sujeito o olhou de cima a baixo, então suspirou baixinho para si.

— Vocês crianças, correndo para cá e vindo se matar. Todo maldito ano. Você acha que quero sua ajuda apenas porque é esperto o suficiente para vir aqui primeiro?

Tyron ficou um pouco mais ereto.

— Eu escolhi a habilidade Açougue, senhor.

O Açougueiro estreitou os olhos um pouco e seu comportamento se suavizou um pouco.

— Pelo menos você tem esse tanto de comprometimento.

Ele parou e considerou por um instante.

— Está disposto a trabalhar de graça?

— Sim, senhor.

— Não me chame de senhor. Eu trabalho para viver!

Depois de um olhar severo, ele se virou.

— Vou te dizer uma coisa. Quero um mês, oito horas por dia. Nada menos! Faça isso e eu te ensinarei alguma coisa ao longo do caminho. Feito?

Tyron piscou. Um mês era muito mais do que estava disposto, mas conseguia entender por que não valeria a pena ensiná-lo se ele sumisse depois de uma semana. Embora isso não fosse tão ruim; se ele trabalhasse aqui por tempo suficiente ajudaria a normalizar sua presença em Woodsedge, ajudaria a construir uma rotina e se conectar com os locais. Ele firmou sua determinação.

— Feito.

— Certo. Entre ali atrás.

Sem mais palavras, o homem corpulento se virou e atravessou a porta atrás de si, de onde emanava um forte fedor, deixando Tyron sozinho na entrada. Depois de alguns segundos atordoados, ele se apresou para contornar o balcão e passar pela porta. Lá dentro descobriu que a temperatura era ainda menor e o cheiro ainda mais forte. Aparentemente imune a ambos, o açougueiro caminhou até uma longa bancada revestida de madeira tratada, da qual puxou o maior cutelo que o jovem já viu, que estava alojado ali.

— Recebi uma entrega de alces embalados em caixas. Pegue-as e traga-as uma por uma.

Desta vez Tyron seguiu as instruções sem demora. Assim começou o dia mais longo de trabalho manual que já teve em toda sua vida. O Açougueiro o explorava como se ele fosse um escravo, como se tivesse certeza de extrair todo o valor que conseguia dessa ajuda gratuita. Então, Tyron abriu caixas, carregou carcaças, fez entregas e afiou facas, muitas facas. Tudo isso enquanto o homem corpulento executava os métodos de seu trabalho com uma precisão inumana. Sob suas mãos carcaças inteiras eram esfoladas e seccionadas com uma habilidade que desmentia o nível absurdo de força e habilidade que possuía.

Ao anoitecer, o jovem Necromante estava exausto, seus antebraços e costas queimavam devido ao trabalho desconhecido. O que mais o irritava era que em nenhum momento do dia ele realizou uma única atividade que pudesse ajudar a aumentar sua habilidade de Açougue. Enquanto se inclinava contra a parede para se recuperar, o Açougueiro estava empacotando com a mesma eficiência que exibiu no resto do seu trabalho. Depois que suas últimas ferramentas foram limpas até brilharem como espelhos, ele se virou e falou.

— Meu nome é Hak, abreviação para Hakoth. Vejo você amanhã cedo.

— Certo, Sr. Hakoth. — Tyron forçou a reposta.

O homem grisalho bufou ao ouvir essas palavras e apontou a cabeça para a porta. Sem precisar de um convite, Tyron praticamente saiu correndo para a porta antes de se virar para acenar brevemente para seu “empregador” então voltou para seu alojamento. Uma refeição completa, feita na sala comum desta vez, foi uma distração bem-vinda para ele depois dos eventos do dia e ele descobriu que estava com muito mais apetite que o normal.

Muitos dos filhos de Fazendeiros em Foxbridge haviam zombado dele ao longo dos anos por ele ser um príncipe suave com uma colher de prata na mão e ele sempre odiou essa descrição, mas, neste momento, não poderia culpá-los. Ele trabalhou duro antes, claro, extremamente duro em algumas ocasiões, mas, no geral, estava acostumado a fazer a maior parte do trabalho pesado em sua mente.

Algo em que a maioria daqueles Fazendeiros, com algumas exceções notáveis, eram totalmente ineptos e ele os lembrava disso. Com frequência.

Embora seus músculos já protestassem e dessem sinais de que sentiria dores pela manhã, Tyron sabia que seu dia ainda não havia terminado. Com um suspiro, empurrou a cadeira para trás e voltou para a luz que se esvaía. Encontrar um lugar para próxima tarefa seria complicado…

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