Livro dos Mortos

Volume 1 - Capítulo 18

Livro dos Mortos

Na manhã seguinte Hak acordou com o amanhecer, como de costume e com cuidado saiu da cama para não acordar sua esposa ainda dormindo. A mulher tinha um temperamento feroz quando não dormia o suficiente e ele era sábio para saber que um pouco de cuidado da sua parte lhe renderia frutos no futuro. Na quase escuridão, tateou até conseguir acender uma única vela com a qual conseguiu se vestir e descer as escadas.

Depois de um simples café da manhã que preparou – essa habilidade Culinária era realmente útil às vezes – ele saiu pela porta para o ar frio da manhã. Quando finalmente chegou na loja, ficou mais do que surpreso com o que viu.

— Bom dia, Sr. Hak. — O jovem o cumprimentou estranhamente.

O Açougueiro balançou a cabeça ligeiramente enquanto caminhava até a porta e retirou a chave de ferro pesada do seu bolso.

— Você não precisa me chamar de senhor. — Ele resmungou. — Parece estranho.

O rapaz deu de ombros para indicar sua falta de sentimento sobre o assunto e seguiu o velho para dentro em silêncio.

— Não tinha certeza se veria o seu rosto hoje. — Ele disse.

— Imagino que muitas pessoas não voltem depois de um primeiro dia como aquele. — Tyron respondeu.

— Justo.

— Pensei um pouco e, para dizer a verdade, suspeito que esse seja o ponto.

Hak resmungou e continuou arrumando as facas para o dia.

— Sinto que haverá vários dias de trabalho braçal extenuante antes de praticar Açougue.

Não havia julgamento na voz do jovem, apenas uma simples afirmação da sua opinião. Enquanto o Açougueiro o olhava de soslaio, Tyron aguardou pacientemente por instruções. Finalmente, Hak quebrou o silêncio.

— Minha filha estará aqui hoje. Ela ajuda com a loja.

A combinação do tom e do olhar do homem corpulento transmitiram uma segunda mensagem alta e clara: mantenha suas mãos sujas longe da minha filha.

— O que você precisa que eu faça? — Tyron perguntou.

Sua mensagem foi recebida alta e clara, seu comportamento deixou isso claro.

Hakoth resmungou e franziu a testa.

‘Esse garoto é rápido em perceber o que está fazendo,’ ele pensou. ‘Ainda assim, não é meu papel se importar com isso.’

Deixando isso de lado, deu as primeiras instruções do dia para o garoto e quase se sentiu irritado com quão rapidamente o rapaz obedeceu. Quantas vezes ele havia visto garotos na mesma posição desistirem antes mesmo do primeiro dia terminar, muito menos mostrar esse nível de entusiasmos no segundo dia? Certamente, nenhum que tivesse percebido que não aprenderiam nada até que Hak estivesse bem e disposto a ensinar. Da sua parte, Tyron manteve a cabeça baixa, ignorou seus músculos protestando e começou a trabalhar. Ele compreendia perfeitamente a posição em que estava. Ele cumprira com sua parte do acordo da melhor forma possível, o que significava trabalhar bem para o Açougueiro mal-humorado e só poderia esperar que Hakoth fizesse o mesmo. Isso não era o ideal, mas ele era um impotente na esperança de absorver alguns níveis do comerciante, então os termos eram esperados.

Duas horas depois, o sino sobre a porta soou e Tyron abaixou a faca que estava afiando para colocar sua cabeça pela porta e ver quem entrou na loja. Ficou bastante surpreso de ver uma jovem bonita, de cachos loiros brilhantes e olhos azuis-claros fechando a porta atrás de si ao entrar. Como havia sido instruído a vigiar a porta, saiu para perguntar.

— Com licença, senhorita. Como posso ajudar? — Ele perguntou, limpando as mãos no pano que mantinha no seu cinto.

Manter suas mãos o mais limpo possível era a primeira regra que aprendeu com o Açougueiro, uma que o comerciante de rosto impassível exercia com intensidade fanática. Ao ouvir sua voz, a garota se virou e exibiu um sorriso deslumbrante.

— Oh, olha só! Estou aqui para trabalhar. Você é um novo aprendiz? Eu sou Madeleine.

Ela se aproximou e estendeu a mão para um aperto. Tyron encarou em branco por um instante antes que algo clicasse em seu cérebro.

— Você é a filha do Sr. Hakoth? — Ele sorriu rigidamente, mal acreditando em suas próprias palavras.

— Sr. Hakoth? — Ela riu. — Ele deve odiar isso.

Sua mão ainda estava estendida entre eles e os olhos de Tyron estremecerem, como se ela fosse uma víbora mortal, antes de olhar de volta para o rosto muito lindo dela. Ele deveria acreditar que ela tinha algum parentesco com Hak? Algumas coisas apenas não eram geneticamente possíveis!

— Esperto demais para apertar as mãos da minha filha? — Uma voz profunda soou pelo seu ombro.

Movendo-se um pouco instável, Tyron levantou a mão e apertou gentilmente a delicada mão estendida à sua frente por um breve segundo antes de soltá- la, contornando o Açougueiro impotente atrás dele e voltando para o seu assento com a pedra de afiar. Madeleine riu de novo com a exibição e olhou para seu pai, que sorriu e piscou.

— Os clientes chegarão em breve, querida. Tenha certeza de estar pronta.

Ela revirou os olhos e empurrou o pai de volta pela porta. Ele realmente achava que ela precisava ouvir aquilo? Logo depois de Tyron conseguiu recuperar seus sentidos, escutou o sino soar de novo quando o primeiro, do que se tornaria um fluxo constante de clientes, entrou na loja para conversar com Madeleine, que exibiu tanto seu charme como senso de negócios apurados ao fechar negócio após negócio para o pai. Muito impressionante para uma jovem que, se ele não tivesse adivinhado errado, era um ano mais nova do que ele e, portanto, ainda não havia despertado. Não que isso fosse da conta dele! Na verdade, ele tinha pouco tempo para pensar na filha chocantemente atraente do Açougueiro, desde que o homem estava ainda mais determinado a fazê-lo trabalhar até a exaustão do que no dia anterior.

‘Isso é porque eu apertei a mão dela?’ Ele não pode deixar de se perguntar enquanto seus braços e pernas tremiam de cansaço ao descarregar outro vagão de carne.

O grande volume de animais que passava através desse único açougue era suficiente para fazer sua cabeça doer. Todos os dias eram assim? Mas quando pensou em algo que sua mãe disse, isso meio que fazia sentido.

— Exterminadores são criaturas simples, a maioria deles, isso é. — Ela disse com certo nível de desgosto, o que o chocou, ao considerar que ela e o homem com quem se casou eram Exterminadores.

— A maioria deles. — Ela enfatizou com um sorriso quando viu o olhar na face dele. — Existem exceções para tudo e aconteceu que duas dessas pessoas conseguiram se encontrar. O resto? — Ela acenou com a mão, desdenhosamente. — Não vale a pena. Como animais, tudo o que eles querem é brigar, comer e transar. Se você realmente quer progredir na profissão, é melhor evitar a maioria das pessoas que trabalham nela.

Tyron havia coletado informações suficientes da cidade para descobrir que havia cerca de mil Exterminadores na Fortaleza atualmente, com outros mil em campo a qualquer momento. Toda a economia de Woodsedge gritava em torno dessas mil pessoas, motivo pelo qual metade da cidade consistia em curandeiros, ferreiros e armeiros e a outra metade de tavernas, pousadas e bordéis. Hakoth não era o único Açougueiro local e provavelmente não era exagero dizer que todos possuíam a mesma proficiência que ele. No fim do dia, Tyron estava ainda mais exausto do que esteve ontem, mas cerrou os dentes e se despediu do homem rabugento na porta, antes de se virar e cambalear de volta para a pousada. Alguma comida e água o ajudaram a se recuperar, então subiu para o seu quarto para pegar suas anotações antes de voltar para a cidade. Ele não tinha muito tempo sobrando.

Os dois dias seguintes passaram como um borrão para o jovem atormentado. Dormir era difícil e ele dependia muito da sua constituição e talento Coruja Noturna para suportar. Todas as manhãs ficava parado na porta aguardando Hakoth chegar e saía tremendo ao fim do dia. Ele fazia o possível para ignorar as tentativas de Madeleine de puxá-lo para uma conversa, sem ser indelicado. Tinha a sensação de que ela só queria provocá-lo e irritar um pouco o pai, mas Tyron tinha plena consciência de que seria ele quem sofreria caso se envolvessem. Durante à noite, continuava trabalhando em seu projeto, escrevendo anotações e fazendo seu melhor para desvendar a magika até que finalmente se sentisse pronto.

Seu último Status havia sido um alerta, um que não poderia ignorar. Não tinha ideia de quem ou o que o “Abismo” se referia, mas qualquer ser poderoso o suficiente para demonstrar sua insatisfação através do ritual de Status não era algo que poderia irritar. Sentia-se tão preocupado com isso que decidiu correr alguns riscos e fazer algo a respeito.

Suas pernas latejavam de dor enquanto se agachava, mantendo sua atenção nas patrulhas. Por sorte, não eram marechais oficiais, apenas mercenários privados contratados pelo escritório de comerciantes, mas ser pego ainda o deixaria em uma posição dolorosa. Ele esperou pelo momento certo, quando o guarda virou a esquina do armazém, então se esgueirou alguns passos para frente, escutando intensamente. Quando os passos diminuiriam o suficiente, ele olhou para trás novamente, certificando-se de que a outra patrulha não havia se desviado da sua rota original. Quando não viu nada, acalmou sua respiração antes de se levantar e começar a correr levemente, ainda curvado na cintura para reduzir seu perfil.

Ele fez seu caminho pelos pallets de bens e caixas contendo deus sabe o que – provavelmente mais carne para ele desempacotar na manhã seguinte – antes de alcançar seu objetivo e se ajoelhar, apoiando-se contra os painéis de madeira para recuperar o fôlego e massagear as pernas para aliviar a cãibra. Ele conseguia ver o brilho da lamparina carregada pelo segundo guarda intensificando-se enquanto se aproximava do local em que Tyron estava escondido há apenas um minuto. Ele diminuiu sua respiração enquanto esperava longos segundos antes que o segundo guarda retornasse para este lado do armazém. À medida que se aproximavam, os dois homens pararam, as luzes de suas lamparinas se fundindo enquanto uma conversa baixa surgia entre eles e Tyron revirou os olhos.

‘Parem de fofocar e voltam ao trabalho, idiotas! Não posso esperar a noite toda!’

Apenas trinta metros o separava da posição deles e ele não estava disposto a mover um músculo sequer enquanto os dois ainda estivessem ali, então esperou por mais dez minutos, quando os guardas finalmente decidiram continuar suas rotas. Assim que os dois sumiram de vista, ele se levantou e contornou para o outro lado do prédio, onde encontrou a janela na qual trabalhou durante sua visita anterior. Verificou-a com cuidado e descobriu que ainda estava aberta, então a abriu mais antes de pular em uma caixa que havia posicionado e, com cautela, se debateu para passar pela abertura.

Seria bom se houvesse uma abertura maior que pudesse utilizar, mas parte do que tornava este lugar perfeito para seus propósitos era que havia poucos espaços por onde a luz poderia entrar, o que significava que janelas pequenas eram uma vantagem. Enquanto continuava se espremendo, abaixou as mãos e encontrou a superfície dura de madeira que procurava, apoiando-se com as mãos enquanto puxava suas pernas. Ainda bem que era bastante esguio; duvidava que alguém com mais carne, como Rufus, conseguiria passar pela janela. O pensamento do seu antigo amigo fez sua expressão ficar azeda, mas ele afastou essa emoção, não tinha tempo para isso agora.

Orientando-se no escuro, tateou até encontrar o cobertor e o prendeu sobre a janela, tendo certeza de fechá-la primeiro. Apenas quando terminou isso foi que criou um globo de luz suave e olhou ao redor. Ele teve sorte de se deparar com esse lugar durante sua primeira noite de explorações. Com a quantidade enorme de bens entrando e saindo de Woodsedge, fazia sentido que houvesse espaços consideráveis para os mercadores receberem e enviarem suas mercadorias. Essa coleção de armazéns e estoques era exatamente o que ele precisava e quando encontrou este prédio em particular, basicamente um galpão para armazenar carroças ou vagões, abandonado e coberto por uma fina camada de poeira, decidiu que era o ideal para seus objetivos.

Ele se moveu com cautela e consciência para fazer o mínimo de barulho possível enquanto criava mais três luzes suaves ao redor do espaço e fornecer a iluminação que precisava para continuar seu trabalho da noite anterior. Esfregou seus olhos exaustos antes de bater em suas duas bochechas e olhar para a poeira no chão, ou mais precisamente, o círculo de feitiço quase completo que havia desenhado. Quando alcançou o nível com Anátema lhe foi dada a opção de escolher três feitiços – Comunhão das Trevas, Apelo à Corte ou Perfure o Véu – e ele havia escolhido o último. Assim como em Ressuscitar Mortos, a seleção lhe concedeu certo conhecimento, colocado em sua cabeça pelo próprio universo, que lhe permitia conjurar o feitiço. Entretanto, assim como em Ressuscitar Mortos, o conhecimento que recebeu não garantia sua compreensão, nem chegou perto de toda a extensão do que era possível saber sobre a magika. Ele recebeu o básico, uma introdução e era seu papel aprender e desenvolver o resto.

O que tentou fazer. Retirando seu caderno, ele folheou através das páginas de anotações onde havia tentado desvendar os princípios fundamentais deste feitiço. Ele invocou outro globo de luz acima de sua cabeça para permitir que enxergasse melhor as páginas enquanto franzia o cenho para seu próprio trabalho.

Não era suficiente, nem perto. Essa magika era complexa, quase tão difícil quanto o próprio feitiço Ressuscitar Mortos e era a feitiçaria mais intrincada com que já teve contato. Havia elementos em Perfure o Véu que ele simplesmente nunca viu antes, alguns com que tinha um pouco de familiaridade e outros que eram completamente bizarros, quebrando seu próprio entendimento de como essas coisas deveriam funcionar. Tyron era honesto o suficiente para admitir que era bastante talentoso quando se tratava de magika, especialmente na parte teórica, mas mesmo ele não tinha confiança em uma conjuração bem-sucedida. Sob melhores circunstâncias, passaria semanas praticando as partes separadas do feitiço, desvendando a teoria e examinando as formas do feitiço até dominar o máximo possível sem executar a magika, mas não tinha esse tempo.

Com um suspiro longo e lento, ele se concentrou, consultou suas anotações mais uma vez e depois continuou a trabalhar no círculo no chão. O padrão precisava ser o mais preciso possível, cada linha um canal para a energia arcana que ajudaria a nutrir o feitiço e, com sorte, guiá-lo a uma conclusão bem-sucedida. Ele tentou trabalhar sem fazer qualquer som enquanto andava de um lado para outro, adicionando um traço aqui, corrigindo uma curva ali, comparando suas anotações com a coleção de memórias em sua cabeça. Pelo que conseguia dizer, o próprio círculo atuava como um tipo de âncora, uma barreira estabilizadora que se prendia, junto a tudo dentro dela, em um ponto do espaço e do tempo. O resto do feitiço era muito mais esotérico e envolvia um “alcançar” e, como sugeria seu nome, um “perfurar’, mas não fazia ideia do que exatamente estaria cutucando, nem o que encontraria do outro lado.

Só poderia presumir que as entidades que lhe concederam a Subclasse Anátema fizeram isso para ajudá-lo e não para o prejudicar. Pelas mensagens que havia lido até agora, tinha a sensação de que era o caso, mas não tinha certeza.

Mais uma vez, caminhou ao redor do círculo, trazendo as luzes mais para perto para inspecionar seu trabalho mais uma vez, antes de suspirar e fechar seu livro. Era o melhor que ele poderia fazer nestas circunstâncias – não havia muito sentido em atrasar mais. Colocou o livro em um banco lateral com cuidado e retirou dois itens do seu bolso interno, o primeiro, o odre de água, do qual tomou um gole longo, para molhar a garganta; essa seria uma conjuração longa e ele queria assegurar que não perderia a fala ao final. De forma semelhante, o segundo item era para impedir que ficasse sem recursos: Doce de mago.

Respirou fundo outra vez, concentrando-se antes de pousar com muito cuidado no centro do círculo, assegurando que não borrasse nenhuma das linhas. Isso feito, extinguiu cada globo de luz no cômodo, retornando os arredores à escuridão total.

Então começou a falar.

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