Livro dos Mortos

Volume 1 - Capítulo 19

Livro dos Mortos

Palavras de Poder saíram sonoramente da sua boca enquanto ele se concentrava em cada sílaba, certificando-se de que não cometesse erros. Ao mesmo tempo que dividia seu foco, direcionando uma porção da sua atenção para a círculo sob seus pés e guiando um fluxo constante de magika por ele. O poder se acumulou com o tempo enquanto continuava a falar, o suor já havia começado a escorrer por sua testa e ele tentava permanecer em silêncio sem interromper o fluxo e assegurar que pronunciava corretamente.

— Lembre-se, Tyron. — Sua mãe disse a ele. — Uma palavra errada pode ser tão boa como uma sentença de morte em feitiços de alto nível. Dicção. Salva. Vidas.

Por melhor que fosse o conselho, ele afastou a lembrança – precisava se concentrar.

Sob seus pés uma chama roxa-escura começava a tremeluzir, fazendo as sombras dançarem pelo chão e paredes, fracas a princípio, mas aumentando de intensidade enquanto as chamas se espalhavam através dos canais que havia criado com tanto esforço. Enquanto continuava a entoar o feitiço, o fogo crescia, direcionado pelo círculo que havia desenhado. As línguas etéreas de chamas se espalharam através do padrão com uma lerdeza deliberada enquanto ele controlava o fluxo de energia.

Suor já havia começado a escorrer de seu rosto enquanto mantinha seu foco duplo, falando as palavras e abastecendo o círculo ao mesmo tempo. Sabia que tinha que controlar o ritmo do feitiço com muito cuidado. Se avançasse rápido demais sem ativar apropriadamente o círculo, o feitiço falharia, com consequências desastrosas, mas se o ativasse cedo demais, não conseguiu manter o dreno de magika, fazendo com que falhasse quando mais precisasse. O dreno de suas reservas já estava além do ponto em que ele seria capaz de sustentar antes de receber sua Classe. Sem os níveis preciosos que recebeu, teria sido impossível conjurar este feitiço. Na verdade, se apenas tivesse acesso à Classe Necromante e não aos status bônus dos dois níveis de Anátema, também não teria esperança.

Movendo-se com cuidado tremendo, trouxe um cristal arcano da sua mão à boca enquanto continuava a falar, esperando por uma pausa entre as sílabas para deslizá-lo sobre a língua. Por um momento terrível, o cristal se moveu em sua boca e sua língua se contorceu para impedi-lo. Ele conseguiu acomodá-lo bem a tempo, respirando fundo e continuando, com apenas um leve tremor perceptível em sua voz, que antes era firme.

Mesmo assim, esfregou suas palmas pela sua camisa e as impediu de tremer. Isso foi próximo de um desastre.

Pelo próximo minuto, ele se concentrou apenas em falar e respirar fundo e constante em pausas. Assim que sentiu que havia se acalmado, quando o batimento forte do seu coração havia se acomodado, mais uma vez começou a canalizar poder para o círculo.

Para um observador de fora, a cena teria sido igualmente bela e perturbadora enquanto o jovem permanecia parado como uma rocha, iluminado por baixo por uma chama roxa que, tão lentamente, desenhava um padrão intrincado de loops e espirais no chão, que girava, conectava e se quebrava em uma dança sem fim que se entrelaçava em um círculo perfeito que se espalhava em um raio de dois metros a partir dos seus pés. Talvez mais perturbador do que isso era a vaga escuridão que havia começado a se formar, ondulando no ar diretamente à frente do jovem. Era tão fina e se misturava tão bem com as sombras, que alguém poderia ser perdoado por pensar que não passava de um truque da luz, mas como explicar a estranha sensação de pressentimento que começou a permear o quarto?

Tyron sentiu isso – como não poderia? Foi ele quem a invocou ativamente.

Ele não poderia ser distraído. Fechou os olhos e abriu bem as mãos enquanto as palavras continuavam a sair de sua boca, dando forma à magika que fluía dele em um fluxo constante. Ciente de que o fio de energia que absorvia do doce não era mais suficiente, decidiu seu foco mais uma vez para extrair ativamente do cristal, compensando os recursos que estava perdendo para alimentar o feitiço.

Suas panturrilhas queimavam, seus ombros doíam, uma dor de cabeça pulsava em suas têmporas e sua garganta queimava, mas Tyron se recusou a se curvar enquanto continuava a direcionar o fluxo de poder, forçando-o a se curvar a sua vontade. Antes de receber sua Classe, tal feito estaria além dele, mas agora mal conseguia. Travou uma batalha constante à medida que os minutos passavam, cada elemento que buscava controlar se tornava mais indisciplinado, mais difícil de conter quanto mais poder os alimentava.

‘Por que diabos essas malditas Classes não me deram nenhum truque legal para conjurar?’

O pensamento veio nos arredores da sua consciência e ele não prestou atenção enquanto direcionava o feitiço. A esse ponto, a chama havia permeado por todo o círculo que havia desenhado, o padrão completo enquanto o fogo dançava ao redor das suas botas. Com a proteção concluída, ele estava pronto para prosseguir para a parte final do feitiço, o que fez sem hesitação. Ele não poderia perder tempo: mesmo agora suas reservas de magika estavam se esgotando, apesar do fluxo do doce sob sua língua.

Com os olhos ainda fechados, falou as palavras, cada uma soando no local, infundidas com poder enquanto adicionavam ao formado que continuavam a formar no ar.

Depois de outros cinco minutos, durante os quais Tyron se controlou repetidas vezes, as formas vagas e indistintas se tornaram mais claras. Uma cortina flutuante de pura escuridão pairava no ar, ondulando como se soprada pelo vento que mais ninguém conseguia sentir. Não era grande, um círculo de apenas um metro de largura, mas daquele tecido sobrenatural emanava uma aura que inundava o ambiente de terror. Ainda assim, Tyron continuou a falar, com as mãos próximas do peito enquanto se concentrava, criando o aspecto final do feitiço enquanto lutava para manter os elementos dispersos que havia criado.

O suor começou a escorreu livremente pela suja face, escorrendo em seus olhos e boca, outro obstáculo que teve que superar para pronunciar cada palavra com perfeita clareza, sem ousar mudar de postura neste momento crucial.

Devagar, muito devagar, a peça final começou a tomar forma enquanto ele levantava ambas as mãos no ar à sua frente, estendendo a mão em direção à cortina sem tocá-la. Então, muito lentamente, abaixou as mãos de novo, abaixando-as ao nível dos olhos até sua cintura e, desta vez, o feitiço respondeu às suas ações. Enquanto suas mãos caíam, o tecido se partiu. Quando as últimas palavras saíram de seus lábios, a escuridão se solidificou.

‘Perfure o Véu.’

Estava feito.

Exausto, Tyron ofegou enquanto tentava acalmar o tremor em seus ombros, mas não se mexeu, nem permitiu que o fluxo de magika no círculo sob seus pés diminuísse.

Por um longo segundo, nada aconteceu, até que Tyron abriu lentamente os olhos para vislumbrar algo que não deveria ser visto.

Em um instante sua mente foi atacada enquanto uma voz forçava caminho em sua cabeça, balbuciando incoerentemente em uma linguagem que ele não reconhecia. Ele cambaleou para trás, apoiando-se nos calcanhares, com as duas mãos segurando a cabeça enquanto a dor se intensificava cem vezes. Sem que soubesse, sangue começou a escorrer do seu nariz e ouvidos enquanto a voz arranhava seu crânio.

[Allo’kruak al’atha! Shub grinu’ak kal’kragg oleth a’lel orrani’kk!]

Era um grito incessante de uma só voz que rapidamente se tornou um coro, cada uma pressionando, expandindo-se dentro de sua cabeça até que Tyron não conseguiu mais se conter e um longo gemido saiu de sua boca enquanto lutava contra as presenças em sua cabeça. Assim, elas balbuciavam enquanto ele sentia como se a dor pudesse abrir sua testa bem no meio, mas ele não se moveu do lugar, ancorado no centro do círculo e não cortou o fluxo de poder.

O que salvou sua vida.

Enquanto continuava a lutar por sua sanidade, a aura de terror dentro do cômodo apenas se intensificou, as sombras se aprofundando em uma escuridão completa que suprimia a luz das chamas até que elas mal pareciam iluminar qualquer coisa. Tentáculos de alteridade se estendiam pela abertura, hesitantes a princípio, depois com a confiança crescente à medida que não encontrava resistência do outro lado. O que começou como um rapidamente se tornou uma dúzia, depois uma centena, então um número incontável se contorcia pelo ar, como raízes em busca de água. Como se sentindo a vida dentro do jovem, eles foram atraídos para sua direção, aproximando-se enquanto ele continuava a lutar contra as vozes.

Com um grito, Tyron abaixou suas mãos, com as palmas apontadas para baixo antes de morder o cristal, estilhaçando o dentro de sua boca e cortando a parte de baixo de sua língua. Ele agarrou o último fluxo de poder do cristal e o lançou para as chamas através das mãos, as quais fechou em punhos.

Com esse movimento, o fogo rugiu, subindo até que encostou na madeira do teto sem queimá-la. Esse não era um fogo projetado para consumir o mundano, o prédio não estava em perigo. Os tentáculos, por outro lado, reagiram imediatamente, recuando enquanto um grito frustrado ecoava através do véu e ressoava na consciência de Tyron. Enquanto a chama púrpura rugia, o Necromante encontrou mais uma vez sua mente clara, as vozes foram forçadas a sair em instantes e ele agiu decisivamente.

Ele espremeu o resto de poder dentro dele enquanto as palavras ecoaram mais uma vez de sua garganta dilacerada. Com um movimento deliberado, abriu as mãos e as juntou à força diante do rosto. Sentiu resistência, mas não permitiu que continuasse assim, pois, com uma grande onda de energia mental, forçou o véu a se fechar.

Então tudo desapareceu. O fogo, o véu, a presença estranha e as vozes; tudo isso desapareceu. Tyron permaneceu de pé, cambaleante enquanto continuava a sangrar pela boca e ouvidos, completamente exausto.

‘Seria tão fácil colapsar bem aqui.’

Parte dele até desejava por isso, que os tempos difíceis acabassem, mas esse não era seu caminho e já havia se afastado dele.

Ele quase soluçou ao se forçar a se mover. Primeiro um passo, depois o próximo, até que alcançou o banco. Ele segurou seu livro antes de cambalear de volta e fez o que pôde para arrastar o pé por cima do círculo que havia desenhado, obliterando as linhas. Com o que lhe restava de energia, subiu no banco, descobriu a janela e se empurrou para fora, quase sem se importar ao cair com força no chão do outro lado. Ficou ali deitado por alguns minutos para acalmar sua respiração e teve que se beliscar para evirar dormir.

Quando ficou pronto, se recompôs e começou a voltar lentamente para a pousada. Com alguma sorte, conseguiria dormir um pouco antes que tivesse que chegar no açougue no dia seguinte.

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Dentro da Fortaleza dos Exterminadores — O que diabos é isso?!

Rogil sentou-se instantaneamente na cama e estendeu a mão para sua lâmina, irrompendo pela porta da sala de estar da suíte coletiva de sua equipe alguns segundos depois. Apenas o talento Visão na Luz Baixa o impediu de bater a cabeça na mesa baixa no centro do quarto enquanto olhava ao redor, em busca de perigo.

— Dove? — Ele gritou. — Fale comigo!

— Porra, porra! — Uma voz ecoou através do quarto do Mago. Rogil foi até a porta e a abriu com força, arrancando as dobradiças no processo.

Dentro, encontrou um homem barbudo encarando a parede, com círculos mágicos ativos acima de seus olhos enquanto encarava algo que mais ninguém conseguia ver e continuava a emitir um fluxo constante de maldiçoes. Do quarto dos outros, também escutou o som do resto do time acordando e se levantando de suas camas, muito devagar para o que Rogil gostaria. Ele os treinaria sobre isso mais tarde.

— Qual é o perigo, Dove, seu idiota?

— O qu- porra, o quê?

— Há alguma ameaça?

— Eu deveria, porra… oh meu bom senhor, acabou. Obrigado, merda. Obrigado, Deusa. Obrigada, seus melões puros e sua bunda abençoada e firme.

Dove. — Rogil rugiu. — Pode parar de blasfemar e me dizer o que está acontecendo, ou quer que eu te esmague até se tornar uma pilha de gosma barbuda?

A magika desapareceu dos olhos do Invocador enquanto ele finalmente parecia perceber que o líder do seu time havia entrado no quarto, seguido pelo resto do seu grupo que se reunia do lado de fora da sua porta.

— Você está me dizendo que não sentiu isso? Está brincando comigo, porra?

— DOVE!

— Um abissal! — Ele jogou suas mãos no ar. — Alguém tentou invocar a porra de um abissal! Aqui!

— Na Fortaleza?

— Não, em algum lugar da cidade. Eles falharam, graças a deusa. Consegue imaginar… — O Mago arrastou suas palavras enquanto estremecia.

— O que está acontecendo e por que eu consigo ver as bolas de Dove? — Aryll, a batedora, perguntou enquanto olhava por cima da cabeça de Monica.

Dove olhou para sua genitália exposta, percebendo que havia ido dormir com uma camisa, mas sem calças. Decidindo se inclinar sobre ela, ele se virou para a porta com os pés firmemente separados.

— Permita-me explicar, — O Invocador gesticulou com a mão, conseguindo retirar a camisola do caminho da parte íntima no processo. — O que está acontecendo. Eu senti alguém realizando um ritual em algum lugar da cidade, um ritual que rasgou o véu. Quanto ao porquê você está olhando para minhas bolas, isso é porque você é uma pervertida, mas tudo bem, nós te amamos do mesmo jeito.

Rogil revirou os olhos.

— Eu não poderia me importar menos com o seu pau ou bolas. Tente imaginar por um instante que nenhum de nós é especialista em retirar criaturas estranhas de lugares ainda mais estranhos e explique isso para nós?

— E coloque uma calça, por favor. — Monica implorou, com as mãos firmemente pressionadas sobre os olhos.

— Tudo bem!

Dove voltou para sua cama e encontrou sua calça enquanto o resto do grupo acendia algumas velas e se sentava na sala comum, com Dove se juntado a eles alguns instantes depois.

— Okay. Em termos básico. É tipo isso: existe uma barreira que separa nossa realidade de algumas coisas realmente hediondas. Essa barreira é chamada de véu. Alguém em Woodsedge abriu um buraco nessa maldita barreira e algo realmente hediondo tentou passar por ela.

— Você quer dizer que alguém tentou abrir uma fenda? — Aryll franziu o cenho. — Eles tentaram invocar uma criatura da fenda?

O Invocador bateu a mão em sua testa antes de olhar para cima de novo.

— Na verdade, pode fazer sentido explicar dessa forma. Sim. Pense no véu como algo atrás do qual vive uma raça particularmente horrenda de criaturas da fenda, exceto que sob condições normais, fendas não se formam entre aqui e lá. Nunca. Pense como se as paredes fossem grossas demais ou o destino fosse muito longe. Entendeu?

— Acho que sim. — Rogil assentiu.

— Então, a única forma de trazer essas criaturas da fenda em particular é se alguém manualmente criar uma fenda e permitir que passem. Isso é um grande erro. Um dos maiores erros. Se eu fizesse algo assim, seria pendurado pelos meus testículos acima do portão da Fortaleza antes que começassem a me torturar.

Aryll estremeceu.

— É claro, isso é uma simplificação. Abissais não são criaturas da fenda, eles são muito piores e trazê-los aqui pode ser tão mais fácil quanto mais difícil do que abrir uma fenda.

— Você disse que eles falharam? — Rogil disse.

— Sim, eles falharam. Eu estaria sentado aqui de pijama se houvesse a porra de um abissal vagando pela cidade?

— Tem certeza?

— É claro que eu tenho certeza! Pelas esferas atrevidas- — Dove. — Monica o avisou.

—… ahem. Pelo nome perfeito da Deusa. Sim. Tenho certeza.

Cada um deles se sentou em sua cadeira enquanto um pouco da tensão se dissipava da sala. Exceto por Dove. O Invocador apertava e soltava as mãos enquanto sua perna subia e descia.

— Então, o que acontece agora? — Rogil voltou sua mente para o futuro. — Isso terá algum impacto no time?

Dove franziu o cenho.

— Taaaaalvez? — O tom de sua voz aumentou no final da palavra. — Posso dizer algumas coisas com certeza. Não fui o único que sentiu essa invocação, nem de longe. Há um enxame de guardas percorrendo a cidade enquanto falamos, procurando pelo local do ritual e tentando encontrar o invocador. É possível que a Fortaleza impeça algumas expedições de saírem pelos próximos dias…

— Não me venha com essa merda! Íamos sair em três dias! — Aryll xingou.

O Invocador levantou as palmas.

— Eu sei, eu entendo, mas uma coisa é clara: os primeiros suspeitos serão os Exterminadores, o que significa que terei minha bunda arrastada para a cadeia antes que a noite termine.

— O quê? Por quê? — Rogil piscou.

— Invocar a porra de um abissal é um assunto sério… Assunto. Sério. Você acha que algum moleque qualquer consegue realizar esse tipo de magika? Não. Alguém com níveis fez isso. Provavelmente não muitos, caso contrário era provável que tivesse sucesso, mas com alguns níveis mesmo assim.

— O que significa que os Exterminadores são os principais suspeitos, como sempre. — Aryll disse.

— O que você faria? — Dove deu de ombros. — Não há muitas pessoas com esse tipo de controle e poder necessário para realizar esse tipo de merda. Eu viria bater na minha porta primeiro se estivesse procurando um culpado e haverá outros que serão arrastados para fora da fortaleza essa noite.

Neste instante, uma batida deliberada e urgente soou na porta, com várias vozes soando de trás dela.

Dove se levantou causalmente e arrumou seu pijama antes de esticar as mãos em direção aos membros do seu grupo.

— Como eu estou?

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