
Volume 1 - Capítulo 14
Livro dos Mortos
— Você acha que ele ficará bravo conosco?
— Sim. Você continua me perguntando e eu continuo te dizendo. Sim! É claro que ele ficará bravo conosco!
— Você concordou que devíamos nos atrasar.
Magnin Steelarm caiu sobre o punho da sela enquanto seu cavalo sofrido relinchava e virava a cabeça.
— Ahhhhh. — Ele suspirou ao pensar na reunião com o seu filho. — Não gosto quando nosso menino fica bravo comigo, Beory.
A orgulhosa Feiticeira revirou os olhos para a expressão desolada do marido.
— Então é melhor você voltar no tempo e se transformar em um homem diferente. — Ela disse a ele. — Já que você é incapaz de não o deixar bravo.
Magnin endureceu.
— O que você quer dizer? Quem não ficaria orgulhoso de um pai como eu? — Ele declarou, gesticulando como se afirmasse o óbvio.
— Eu não disse que ele não estava orgulhoso de você, querido. Disse que você não consegue não o irritar. Para evitar deixá-lo bravo, você teria que chegar em casa a tempo.
Magnin caiu novamente.
— Bem, eu não posso fazer isso.
— Eu sei.
— Mas ele nos perdoará? — Magnin perguntou com um tom mais sério.
Beory assentiu.
— Vai levar um tempo, mas ele nos perdoará. De certa forma, não faz mal que tenhamos chegado atrasados.
— Ainda acho que ele gostará mais da espada do que do seu cajado.
— Quer apostar? — Ela perguntou maliciosamente.
O Espadachim renomado olhou de soslaio para a esposa por um momento.
— O que você está pensando?
— Serviço de latrina por um mês.
— Feito.
Jogando a cabeça para trás, ela soltou uma gargalhada.
— Feito. — Ela ronronou.
Ao vê-la feliz, Magnin só poderia sorrir. Cavar a latrina quando acampavam era algo trivial para ambos – ele poderia cavá-la em segundos com sua proeza física e ela poderia mover a terra com sua magika em um instante. Entretanto, essa tem sido a aposta padrão entre eles desde que começaram a viajar juntos. Não era a dificuldade da tarefa, era o princípio. Cavar a latrina os lembraria de quem venceu a última aposta.
E Magnin tinha um forte pressentimento de que perderia essa, mas se isso deixasse sua esposa feliz, pouco importava.
Diferente do que muitos poderiam pensar, ele não estava preso em alguma ilusão de que seu filho viciado em livros teria recebido algum tipo de Classe de lutador, não importa o quanto desejasse que o garoto seguisse seus passos. Contanto que o menino estivesse feliz, isso era o que importava. Ele olhou sobre seu ombro para os dois punhos que se projetavam das ombreiras de sua armadura de couro. Um pertencia à sua própria espada, a outra era uma obra-prima com a qual trabalhou como um demônio ao longo do último mês.
A coisa tinha um núcleo abissal incrustado nele! Nenhum custo foi poupado, ao ponto de que era quase tão boa quanto sua própria lâmina. Apenas o pensamento de que isso ficaria nas mãos de um Mago com a habilidade de Esgrima no nível 1 o fez soltar uma risada. Deixando o humor de lado, se iria dar um presente para o seu garoto para celebrar seu Despertar, então seria o melhor! Mesmo que isso significasse se atrasar.
De forma semelhante, sobre o ombro de Beory, duas cabeças de cajados podiam ser vistas – o próprio dela e o presente com maior probabilidade de vencer que preparavam para o jovem (muito provavelmente) Mago. Tão extravagante em sua construção e custo quanto a espada, aquele cajado era uma obra-prima suficiente para todos, exceto os melhores Exterminadores da província ocidental.
Contentes com a vida, os dois continuavam sorrindo e fazendo piadas enquanto cavalgavam a parte final ao longo do rio de Foxbridge. Como haviam feito muitas vezes, deixaram os cavalos nos estábulos do lado de fora da cidade e caminharam o restante do trajeto, com as mochilas sobre seus ombros e sentimentos calorosos borbulhando em seus corações. Não era que estavam necessariamente felizes por voltarem à cidade rural que escolherem fazer do lar deles, a cidade pouco importava, era a família que fazia um lar e ambos sentiam um ímpeto de alegria enquanto caminhavam pela rua principal e iam até a pousada.
O retorno dos dois Exterminadores poderosos sempre era um evento em Foxbridge. Os dois eram, de longe, os moradores mais conhecidos e representavam uma oportunidade raríssima para os camponeses verem Exterminadores de alto nível. Tais pessoas geralmente estavam além delas, mais intimamente associada à capital, aos ricos e poderosos, ou delegados às próprias Fortalezas de Exterminadores, do que pequenas vilas agrícolas e comerciais nas periferias da província ocidental.
Apenas a ideia de terem escolhido viver em tal lugar era quase além da compreensão, isto era, a menos que você os conhecesse. Magnin e Beory certamente não eram nada parecidos com a maioria das pessoas que conquistavam esse nível de sucesso. Enquanto a maioria dos Exterminadores se aposentaria em uma mansão, com uma vida confortável trabalhando na burocracia ou aceitando contratos para treinar filhos de nobres, os dois continuaram a viver praticamente como viveram a vida toda: na estrada, aceitando contratos e matando criaturas da fenda.
Mangin notou os sussurros e apontamentos usuais enquanto ele e sua esposa passavam, mas, além disso havia um certo tom oculto e desconfortável detectado nas pessoas ao redor. Ele não sabia a causa, mas uma sensação amarga começou a surgir em seu estômago.
— Beory… — Ele murmurou.
— Eu sei. — Ela disse. — Espere.
Embora tentasse não exibir nenhuma tensão em sua face, Magnin aumentou o passo e, pouco depois, empurrou a porta da Pousada Steelarm, com um sorriso meio forçado no rosto.
— Estamos em casa! — Ele anunciou para a multidão estranhamente esparsa na sala comum, enquanto Beory entrava atrás dele e fechava a porta em silêncio.
O Espadachim olhou ao redor, confuso.
— Tyron? Você está por aqui, rapaz? Onde diabos você está, irmão?
Quando alguns dos clientes empalideceram ao vê-lo e tentaram esconder seus rostos em seus canecos, Magnin soube que algo estava profundamente errado. Quando Worthy saiu correndo da cozinha, fedendo a bebida, com raiva nos olhos, seu coração afundou.
Com um rugido que sacudiu as tábuas do chão, o estalajadeiro, normalmente jovial, avançou como um touro enfurecido pela sala comum, derrubando algumas cadeiras vazias e empurrando algumas mesas. Enquanto se aproximava do irmão, puxou seu braço e o golpeou em um arco amplo, esmagando- o no queixo de Magnin. Apesar do peso do golpe, o homem pequeno mal se moveu, com a cabeça jogada para o lado e os ombros levemente inclinados.
Insatisfeito, Worthy armou seu punho e desferiu um golpe devastador com a mão direita. Diferente de antes, Magnin não se moveu e o punho do irmão recuou como se tivesse socado uma bigorna. Worthy amaldiçoou e balançou a mão enquanto cambaleava para longe do Exterminador, que não estava mais calmo.
— Você conseguiu um, Worthy. — Magnin rosnou, com um pouco de calor em seus olhos. — Agora fale: o que aconteceu? Onde está o meu filho?
Uma hora depois o casal estava dentro de sua própria casa, olhando para a carta e a folha de Status que Tyron deixou para eles. Depois que Worthy terminou seu discurso bêbado, soluçando e cuspindo enquanto alternava entre a fúria e a tristeza, eles retornaram para sua casa e reviravam o lugar procurando por qualquer pista que indicasse a localização do menino. Os dois pensavam tão pouco na sala de troféus que demorou dez minutos antes que Beory pensasse em checá-la e foi uma boa ideia.
A carta dizia muito do que esperavam ver. Que ele se desculpava. Que ele se recusava a ter seu futuro aleijado. Que ele os deixaria orgulhosos.
Beory chorou ao ler, mas, mesmo com sua tristeza, ela não conseguia disfarçar o orgulho feroz que sentia ao olhar para a folha de Status.
— Olhe para isso, Magnin, olhe para isso!
— Estou olhando, querida.
— Ele tem um mistério! Antes mesmo de conseguir uma Classe, eu aposto! Isso é ridículo!
— Moldagem de Feitiço… nessa idade?
— Um gênio! Eu sempre disse para você que o menino era um gênio! — Ela sorriu enquanto limpava as lágrimas em suas bochechas.
— E sua Esgrima ainda está apenas no nível um. — Magnin fingiu desespero.
— Oh, isso é nada. — A linda Sacerdotisa bateu nele. — Ele não precisará isso, ele terá lacaios para lutar por ele! Ele nem precisa de uma espada!
— Agora isso machuca.
Magnin riu, então franziu o cenho.
— Mas Necromante. Essa é uma Classe difícil, não é?
— Uma feitiçaria muito difícil. — Beory assentiu enquanto mordia seu lábio em contemplação. — Mas olhe, ele já conseguiu aumentar o nível de Ressuscitar Mortos para três, o que significa que, pelo menos ele conjurou com sucesso algumas vezes. Sem nenhum treinamento! Louvável!
— Você sabe o que é isso? Costura Óssea?
— É assim que eles fazem esqueletos. É bom ver que ele abandonou os zumbis o mais rápido possível.
— Eu odeio zumbis.
— Todos odeiam zumbis, querido. Você teria que ser estanho para gostar deles.
— Embora eu também não seja um grande fã dessa Subclasse. Anátema? Por que eles colocaram isso nele?
Beory inclinou suas costas contra sua cadeira, refletindo por um instante.
— Se eles foram atraídos pelo Despertar dele e colocaram isso então é provável que haja uma razão.
Magnin parou e olhou cuidadosamente para sua esposa.
— Você acha…?
— É possível. — Ela assentiu. — Talvez até provável.
O silêncio reinou na mansão Steelarm, enquanto os dois consideravam as implicações do que pensavam. A atmosfera ficou sombria, enquanto as linhas no rosto de Magnin se aprofundavam e a fúria começavam a queimar dentro dele. Com alguma dificuldade, ele se recompôs e colocou as mãos na mesa plana, com cuidado para não a quebrar.
— Nós corremos? — Ele finalmente disse.
Beory o amava opor isso. Que ele deixasse a escolha para ela. Agora que tudo isso aconteceu, agora que Tyron fugiu, as coisas que foram colocadas em movimento não poderiam ser impedidas. Apesar de todo o poder deles, como os eventos prosseguiriam a partir deste ponto não estava mais no controle deles. A única coisa que poderiam fazer era alterar como ele acabaria. De muitas formas, não importava muito mesmo que estivessem aqui o tempo todo. Teria sido mais fácil para o garoto com o apoio deles, mas ele ainda teria que fugir no fim.
— Não. — Ela balançou a cabeça, o que fez seus cabelos pretos como corvo balançarem contra seu pescoço branco como a neve. — Vamos fazer com que eles façam isso na nossa cara.
As sobrancelhas de Magnin dispararam.
— Você é muito linda quando está furiosa. — Ele comentou.
— Cale a boca, Magnin.
Passaram-se cinco minutos antes que uma batida soasse, cinco minutos em que o casal se moveu pela casa, arrumando e organizando, tentando colocar as coisas de volta a como deveriam ser. A carta que Tyron escreveu foi preservada e armazenada por Beory com cuidado em sua mochila, enquanto a folha de Status foi queimada.
Quando responderam à porta, foi o rosto pálido de uma das secretárias do Prefeito que os recebeu.
— O-o-o-o-o-o-o P-P-Prefeito deseja v-vê-los. — Ela gaguejou.
A pobre garota estava morrendo de medo e Beory sentiu compaixão pela garota por um instante, mas não mais que isso.
— Lidere o caminho, querido. — Ela disse.
Os dedos apontados e sussurros amontoados eram mais pronunciados agora que a notícia do retorno deles se espalhou. Mais do que algumas pessoas se escondiam em suas casas e trancavam as portas enquanto o casal passava. Não importava para eles – os medos, esperanças e sonhos dessas pessoas não os tocavam enquanto eles passavam, não se apegavam a eles, por mais que tentassem. O que foi posto em movimento quando Tyron teve seu Despertar se concretizaria independente do qualquer um desejava, muito menos essas pessoas.
Quando Magnin e Beory finalmente chegaram ao seu escritório, Jiren Arryn não sabia como se sentir. Medo era certeza. Esses dois eram muito mais fortes do que ele, tanto que poderiam não ser mais da mesma espécie. Não importava o quão alto o nível de um Fazendeiro pudesse se tornar, ele nunca seria páreo para um Exterminador. As Classes simplesmente eram construídas de formas diferentes. Na verdade, ninguém sabia mais qual a era a Classe de Magnin. Ele começou como um Espadachim, claro, mas e agora? Ele poderia ser qualquer coisa.
Mas, mais do que nervosismo, mais do que medo, havia raiva. Ela queimava em seu peito, tão brilhante como o dia em que entrou no mausoléu da sua família para descobrir que os ossos de seus ancestrais não descansavam mais lá.
— Por que vocês não se sentam? — Ele convidou o casal secamente e gesticulou para as cadeiras à sua frente.
— Não. — Magnin sorriu enquanto parava na frente da mesa do Prefeito, com as mãos apoiadas casualmente em seus quadris.
Sem pestanejar, Beory parou ao lado dele, com olhos tão frios como uma tempestade no inverno.
Com ombros largos e quadris esguios, Magnin era a imagem de uma boa forma física, mas não era um gigante. Ele carecia da altura do seu irmão, Worthy, ao ponto de que até Jiren conseguia olhar direto em seus olhos.
— Suponho que vocês tenham ouvido o que aconteceu com Tyron. — Ele resmungou.
Magnin apenas continuou a sorrir e Beory não respondeu.
Jiren abaixou a cabeça, mas sua ira não permitiria que permanecesse quieto.
— Eu reportei a fuga dele, assim como sua possível Classe, ao barão por um ro’klaw, conforme o protocolo.
Ele se abaixou e abriu a gaveta em sua mesa. Antes que pudesse retirar a carta lacrada dentro, Magnin finalmente falou.
— Eu pensaria com cuidado no que está para fazer antes de retirar isso. — Ele simplesmente disse.
A cabeça do Prefeito disparou para cima e ele encarou o Espadachim ainda sorridente.
— Você sabe o que ele fez? Com a minha família? Com o meu avô? Você ousa dizer isso para mim?
— Apenas ossos. — Beory disse de forma desdenhosa. — Ossos e poeira. Você deveria se importar mais com os vivos, prefeito.
— Isso é uma ameaça! — Ele rugiu.
— Sim. — Ela afirmou Por uma fração de segundo, ele conseguiu sentir. Sentia a espada em seu pescoço, o sangue em suas veias congelar e depois ferver. Eles poderiam fazer isso num instante, antes mesmo que ele pudesse piscar, mas, em uma onda de fúria imprudente, o Prefeito não se importou.
Ele retirou o envelope da gaveta e o jogou na mesa.
— Um Necromante é uma grande ameaça para a estabilidade do reino. O Barão ordenou que vocês dois, como os melhores Exterminadores da província ocidental, capturem-no e o tragam para cá.
Os dois olharam para a carta com expressões inalteradas. Magnin ainda exibia um meio sorriso e o rosto de Beory ainda estava esculpido com gelo.
— Você quer que capturemos nosso próprio filho, depois que o arrastemos para cá para que possa executá-lo?! — Magnin riu. — Que tal você se foder?
Jiren se permitiu exibir um pequeno sorriso.
— Acho que nós dois sabemos que vocês não têm muita escolha.
A espada apareceu em seu pescoço. Em um instante, Magnin estava parado, com as mãos no quadril, no seguinte a espada estava encostada em seu pescoço. Uma leve ardência indicou ao Prefeito que sua pele foi cortada, um pequeno filete de sangue, não mais do que algumas gotas, caíram no aço.
Magnin ainda sorria.
— Tenho a sensação de que o que você acha e o que realmente é o caso, são situações muito distantes.
Jiren precisou de todo seu autocontrole para permanecer parado, enquanto encarava a lâmina do Exterminador do Século.
— Essa ordem foi emitida diretamente pelos Magistrados. — Ele apontou para o papel com o dedo. — Pelo juramento, vocês são obrigados a cumprir!
— Eu também jurei não ferir cidadãos inocentes, Jiren, mas olhe o que eu fiz com seu pescoço.
Um arrepio de medo percorreu a espinha do Prefeito.
— Mas a marca… — Ele falou com a voz rouca devido à sua garganta repentinamente seca.
— Oh, isso machuca para caralho. — Magnin concordou alegremente. — E só vai piorar. Muito pior, mas nós temos muito tempo para fazer com que você se arrependa do que fez hoje.
— Você deveria ter se importado com os vivos. — Beory declarou, sua voz tão fria como o inverno. Então, ela se virou e saiu.
Tão rapidamente como desapareceu, a espada sumiu e o Prefeito cambaleou em sua mesa.
— Ele profanou minha família! — Jiren ofegou por entre os dentes cerrados.
— Eu não dou a mínima. — Magnin riu. — Ele é o meu filho. Ele pode fazer o que quiser!
O Espadachim se virou casualmente e saiu pela porta, assobiando ao sair.
Quando finalmente se recompôs, o Prefeito Arryn correu o mais rápido que suas pernas aguentavam, mas, muito antes que chegasse, ele sabia que era tarde demais. Sua esposa e crianças estavam seguras e ele chorou abertamente ao abraçá-los. Suas crianças estavam roucas de tanto gritar e Merryl tremia como uma folha no seu abraço. Enquanto fazia seu melhor para acalmá-los, ele não pôde deixar de sentir seu coração se partir ao olhar para a terra em que sua família viveu por gerações.
Ela foi destruída. Tudo destruído. A casa em que cresceu estava arrasada, mal restava um tijolo em cima de outro. Cada celeiro, cada muro, cada poço foi arruinado. Os próprios campos foram queimados e estavam áridos, o solo estava mexido como se um gigante tivesse o rasgado com as mãos. Todo o gado foi abatido. Os trabalhadores cambaleavam, atordoados, com dificuldade de acreditar em seus próprios olhos.
— Você deveria ter se importado com os vivos. — Beory o avisou.
Esta noite, quando foi até o mausoléu, não ficou surpreso ao descobrir que o local foi nivelado, o lugar de descanso dos seus ancestrais foi reduzido a nada mais que algumas pedras em ruínas e pedaços de terra planos.
…