
Volume 1 - Capítulo 12
Livro dos Mortos
Fragmentos de pensamentos passaram pela mente de Tyron, passando de um para o próximo enquanto ele dormia, como um sonho febril. Ele viu ossos e poeira, sentiu o cheiro de carne apodrecida e mofo. Aranhas se movendo sobre seu corpo, tecendo suas teias ao redor das suas costelas e nos buracos em suas cavidades oculares. Ele sentiu frio, um frio profundo e infinito que se intensificou e o puxou para o mundo de sombras que enterrou em seu âmago. Em seu coração, ele se debatia e lutava, tentando se libertar do vórtice que o puxava para longe da luz, mas era inútil. Nenhuma força humana poderia possivelmente resistir ao que o segurava agora e, em breve, ele perdeu. Perdeu a visão, o sol, o tempo e o tato enquanto sua consciência desvanecia em escuridão.
Com um gemido semelhante ao de um homem se afogando na praia, Tyron se sentou na cama, com os lençóis caindo do seu peito.
Por um instante, ficou completamente desorientado enquanto tentava reconciliar o mundo ao redor com o pesadelo em sua mente. Suas mãos se agarraram à realidade enquanto seus olhos se reviravam em sua mente, a luz era quase dolorosamente brilhante. Ele escutou a voz de uma mulher chamá-lo na sua frente e ele se recobrou em choque, suando e ofegando enquanto se firmava na cama. Virou a cabeça para ver a tia Meg, com a mão sobre o coração enquanto o encarava com os olhos arregalados.
— Pelos deuses, garoto! — Ela ofegou. — Você quase me matou de susto se levantando desse jeito!
Ela se recuperou de sua surpresa em um instante enquanto pulava da cadeira, o crochê em que estava trabalhando caiu no chão enquanto ela envolvia o menino em seus braços.
— Seu tolo! — Ela sussurrou através de lágrimas que escorriam por seus olhos. — Você poderia ter morrido, Tyron.
Em um instante, a vergonha o dominou e o jovem foi levado de volta às suas memórias, soluçando nos braços da sua tia quando criança enquanto seus pais se aventuravam por meses. Esta mulher praticamente o criou – ela merecia melhor do que isso. Seus braços tremiam enquanto os levantava para abraçá-la, ainda úmidos de suor.
— Desculpe, tia Meg. — Ele disse. — Sinto muito mesmo.
Eles se sentaram assim por vários minutos enquanto Tyron tentava conter suas lágrimas e Meg chorava abertamente. Ela sempre demonstrava o que sentia. Eventualmente, ela o soltou e se afastou para limpar as lágrimas em seus olhos, usando o avental que ainda vestia.
— Desculpa. — Ela soluçou. — Mas você não pode culpar uma velha por ficar emocional quando seu sobrinho quase morre, pode?
— Não. — Ele respondeu. — Não posso.
Agora que estava acordado e ela não tinha mais medo de que ele sofresse danos permanentes, o medo que ela sentia foi substituído por raiva. Ele conseguia vê-la brilhar nos olhos dela, embora ela tenha se controlado muito bem.
— Agora, suponho que você deva se explicar, jovem. — Ela disse severamente, o efeito só foi arruinado ligeiramente pelos traços de umidade ainda brilhando em suas bochechas. — Seu tio e eu estávamos morrendo de preocupação! Que bicho te possuiu? Mesmo que sua Classe seja ruim, não há necessidade de ser tão extremo.
Por um instante, ele quase contou tudo para ela. Ele queria. Não apenas queria desabafar, ele queria explicar como se sentia e o que havia feito, compartilhar o segredo que estava guardado em seu peito e não mais carregar o fardo sozinho, ele também queria a liberdade que viria com não ter que decidir. Ele poderia jogar tudo isso nas mãos de seus tios. Seus pais não haviam retornado e não conseguiram protegê-lo ou aconselhá-lo; só esses dois estavam aqui, com ele, como sempre estiveram.
Ele abriu a boca para falar, mas congelou.
Meg o observou com paciência enquanto as engrenagens giravam na mente dele. Ele poderia fazer isso? Seriamente? Empurrar tudo neles de forma egoísta? Isso realmente os beneficiava, ou a si mesmo? Uma situação ruim não se tornava necessariamente melhor apenas porque se compartilhava com os outros. Ele estava na merda, mas isso não significava que toda sua família precisava se juntar a ele. Se realmente quisesse ajudar essas pessoas que o amavam e cuidavam dele, seria melhor se eles não fossem parte dos seus planos. Era melhor que ele carregasse todo o fardo sozinho.
— Eu… eu fiquei impaciente. — Ele desviou os olhos e murmurou. — Só não queria ver meus sonhos colapsarem em nada, tia Meg. Não consegui aguentar.
A última sentença, pelo menos, era verdade e os olhos de sua tia se suavizaram com a dor na voz dele.
— Tudo vai ficar bem. — Ela esticou a mão e acariciou a cabeça dele. — Pode confiar em nós, Tyron, sabe disso.
Outra pontada de dor acertou o coração dele, mas ele apenas assentiu em silêncio, sem confiar em si para falar. Tia Meg arregalou os olhos enquanto se levantava com pressa.
— Preciso avisar o seu tio! Ele acabou de ir para a cama, deus o abençoe. Volto logo! — Ela saiu rapidamente do quarto.
Tyron não pôde deixar de rir calorosamente antes que um pensamento o atingisse. Seu tio havia ido dormir? Que horas eram? Ele tentou encontrar alguma janela, mas este quarto não tinha nenhuma e logo seu tio irrompeu no quarto e o arrastou para um abraço de urso, que o deixou com pouco espaço para respirar.
— Seu pequeno idiota. — Seu tio murmurou enquanto o apertava com força, e Tyron ofegou.
Ele não sabia como conseguiu sair daquele quarto sem confessar. O conforto e o apoio que sua família o fornecia o aqueceu e ele se afundou na culpa de novo, mas conteve sua língua. Ambos demandaram que ele passasse a noite na pousada e nem queriam ouvi-lo falar de voltar para casa. Todo seu plano quase foi destruído até que os persuadiu a deixar que dormisse no sótão, como normalmente fazia. Depois de milhares de desculpas e mais milhares de abraços, os dois retornaram ao seu próprio quarto, mas apenas depois de observarem-no subir a escada e fechar a escotilha.
— Luz. — Ele sussurrou na escuridão.
O globo de luz suave surgiu e levitou no ar por alguns segundos enquanto ele olhava para seu “escritório” e seu lar longe de casa. A mesa com a velha cadeira de madeira, o estrado empoeirado e os lençóis que havia arrumado para si no canto, sua coleção de textos desgastados que trouxera da coleção de sua mãe, para que sempre tivesse algo para ler. Ele passou uma boa parte da sua juventude aqui, quando não queria ficar em sua própria casa sozinho.
Ele ficou tentado. Tão tentado. Ele poderia apenas se deitar, cobrir-se com os lençóis e dormir. Quando acordasse de manhã, poderia registrar sua Classe e ela seria removida, então poderia viver em Foxbridge, provavelmente pelo resto da vida. Poderia conseguir algumas Subclasses, talvez trabalhar para o escritório do Prefeito ou como contador, afinal já fazia a contabilidade do seu tio.
Mesmo enquanto esses pensamentos passavam por sua mente, ele sabia que não os faria. Sentia que se realmente se deitasse, não seria mais ele. Ele não seria mais o filho de Magnin e Beory, não seria mais um Steelarm. Mesmo que fosse impossível, ele tentaria decidir como viver por conta própria. A cerimônia de Despertar poderia ter lhe dado uma mão ruim, mas ele se recusava a sair da mesa.
Não havia muito o que ele pudesse usar aqui, mas, de qualquer modo, refletiu sobre as coisas, certificando-se de que fazia o mínimo de barulho possível. Nenhum desses livros seria particularmente útil depois que saísse, mas ele não pôde evitar de folheá-los mais uma vez. Ele esperou por uma hora, virando as páginas distraidamente e reunindo algumas bugigangas que poderia querer, antes de extinguir o globo de luz e se mover até a janela.
Ele suspeitou que seus tios conheciam a existência da corda que ele mantinha escondida no sótão, mas esperava que, por esta noite, com tudo o que aconteceu, eles não se recordassem dela. Ele se moveu com o máximo de cuidado, abrindo um centímetro da janela por vez até que desceu a corda e, muito lentamente, se apoiou no parapeito da janela e deslizou para baixo. Estava ofegante quando chegou ao chão.
‘Terei que melhorar meu físico se vou começar a vagar pelas fendas por conta própria’, Ele pensou ironicamente. ‘Pai ficaria satisfeito que eu finalmente consegui motivação para me exercitar.’
Não que Tyron estivesse acima do peso, ele não comia o suficiente para isso, mas certamente não estava em forma. Ele sabia que esta noite, a quarta desde o Despertar, os marechais estariam no maior nível de alerta pelas ruas, então tinha que ser cauteloso. Com o coração na boca, Tyron foi até sua casa, mantendo-se nas sombras, confiando nos instintos da sua habilidade Furtivo. A sorte estava com ele e conseguiu escalar a cerca de pedra e se jogar no pátio dos fundos sem levantar qualquer suspeita. Assim que entrou, reuniu rapidamente os materiais que precisaria para se sustentar nas terras selvagens.
Ouro, doce de mago, alguns biscoitos duros que comia quando não tinha tempo de ir para a pousada comer. Ele vasculhou pelos livros da sua mãe até que encontrou alguns tomos que pensou serem úteis e valiosos no caso de precisar vendê-los. Um almanaque de monstros, já que não era tão versado nisso como gostaria, um tomo de formas de magia que abordava sobre a transferência de magika e outro sobre o trabalho com os sigilos. Esses ele envolveu com cuidado antes de colocá-los na mesa junto do resto. Ele também, vasculhou o armário do seu pai, onde encontrou algumas capas de viajante que não cabiam nele e algumas espadas extras. Ele precisava de três espadas no total e as selecionou com cuidado, mantendo em mente algumas coisas. Ele poderia abrir a sala de troféus e retirar as melhores e mais poderosas armas encantadas que seu pai possuía, mas seus esqueletos não eram hábeis o suficiente para utilizá-las corretamente e assim que alguém visse até mesmo o cabo, ele seria roubado.
Não, o que ele queria era o tipo de espada que seu pai preferia: planas, bem-feitas, com encantamentos utilitários para prevenir a ferrugem. Ele pegou duas espadas extras de Magnin, pegou sua própria espada e a prendeu na cintura. Olhou para a bainha sem marca com emoções mistas. Ele nunca pensou que realmente precisaria da espada que seu pai comprou para ele, se tudo corresse bem, não precisaria ter que utilizá-la.
‘Os esqueletos lutarão,’ Ele se recordou, ‘mas você precisa se defender por conta própria.’
Há dois anos, quando seus pais o convidaram pela primeira vez para viajar com eles, foi surpreendido com um conjunto completo de viagem. Embora tivesse recusado no fim, o equipamento era mantido em seu quarto para recordá-lo de que eles estavam dispostos a compartilhar a vida deles com ele. Ele passou por tudo metodicamente, assegurando-se de que tudo estava empacotado de forma correta e pronto para uso. Capa à prova de chuva, saco de dormir, suprimentos para acampar: isso era tudo o que tinha aqui. Ele levou tudo para a cozinha e começou a empacotar o que reuniu. Desacostumado com esse tipo de coisa, levou algumas tentativas para que tudo coubesse confortavelmente na bolsa e mais algumas para descobrir como colocá-la nas costas e prendê-la no lugar.
Com a mochila totalmente carregada e as três espadas penduradas na cintura, ele estava longe de ser furtivo, o que o preocupava bastante. Depois de retirar todo o equipamento de novo e considerar, decidiu que teria que fazer duas viagens ao mausoléu. As três espadas poderiam ser lavadas na primeira viagem, talvez junto do saco de dormir, então a mochila na segunda viagem. Isso demoraria mais, mas ele duvidava que conseguisse atravessar a cidade sem ser percebido quando estava carregado com tanta coisa.
Ele não sentiu culpa por roubar todos os pertences dos seus pais dessa forma, pegando o dinheiro, armas, livros e equipamentos deles. Sabia que era um fato que aqueles dois não se importavam nem um pouco com isso, muito menos com o dinheiro. Se ele tivesse pilhado a sala de troféus e vendido tudo que estava dentro, duvidava que seu pai se importasse, embora sua mãe provavelmente ficaria furiosa com a demonstração de mau caráter. Era mais provável que eles tivessem deixado todas essas coisas aí com o propósito de facilitar a viagem dele, caso o desejo alguma vez o dominasse.
Enquanto fazia seus preparativos finais, Tyron se sentou e escreveu uma carta para os seus pais explicando a situação, que selou em um envelope. Então, preparou-se para realizar mais uma vez o ritual para ver seu Status. Se tudo corresse bem, teria aprimorado suas habilidades e, com um pouco de sorte, talvez subido de nível mais uma vez.
Falou as palavras, furou seu polegar e o pressionou no papel. Uma onda de tontura o dominou brevemente enquanto o sangue escorria do ferimento e formava palavras na página. Ele precisava de mais descanso, ainda não estava completamente recuperado, mas não tinha tempo. Assim que se recompôs, inclinou-se ansiosamente para ler as palavras na página.
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Eventos:
Suas tentativas de ser furtivo melhoraram sua proficiência.
Seu estudo do feitiço Ressuscitar Mortos aumentou sua proficiência.
Você examinou múltiplos cadáveres. Avaliação de Cadáver aumentou sua proficiência.
Você praticou aplicar fios de magika em restos mortais. Costura Óssea alcançou o nível 2.
Você ressuscitou dois esqueletos. Ressuscitar Mortos alcançou o nível 3.
A Escuridão continua a ficar satisfeita com o seu progresso. Os Sombrios veem a corrupção dos santificados e tomam nota. A Corte vê você ressuscitar lacaios com alegria. O Abismo ainda aguarda o seu chamado. Anátema alcançou o nível 3. Você recebeu +2 de Inteligência, +2 de Constituição e +2 de Força de Vontade.
Nome: Tyron Steelarm
Idade: 18
Raça: Humana (Nível 10)
Classe:
Necromante (Nível 2)
Subclasses:
1. Anátema (Nível 3)
2. Nenhuma
3. Nenhuma
Talentos Raciais:
Nível 5: Mão Firme.
Nível 10: Coruja Noturna.
Atributos:
Força: 12
Destreza: 11
Constituição: 20
Inteligência: 25
Sabedoria: 19
Força de Vontade: 19
Carisma: 13
Manipulação: 11
Postura: 13
Habilidades Gerais:
Aritmética (Nível 5) (Máx)
Caligrafia (Nível 4)
Concentração (Nível 2)
Culinária (Nível 1)
Funda (Nível 3)
Esgrima (Nível 1)
Furtivo (Nível 1)
Seleções de habilidades disponíveis: 2
Habilidades de Necromante:
Avaliação de Cadáveres (Nível 1)
Preparação de Cadáveres (Nível 1)
Feitiços Gerais:
Globo de Luz (Nível 5) (Máx)
Sono (Nível 4)
Raio Magiko (Nível 1)
Feitiços de Necromante:
Ressuscitar Mortos (Nível 3)
Costura Óssea (Nível 2)
Mistérios:
Modelagem de Feitiços (Inicial): INT +3, SAB +3
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Ao ver que o nível de Ressuscitar Mortos havia aumentado, Tyron cerrou os punhos. Obviamente, isso não o ajudava agora, mas da próxima vez que utilizasse o feitiço ele teria mais poder, algo do que não poderia reclamar. Furtivo não ter subido de nível era um pouco desapontante, desde que teria ajudado esta noite. Esperava mais um nível em Necromante, mas isso não aconteceu – na verdade não havia feito nenhuma luta com eles, afinal. Felizmente, Anátema havia aumentado de nível, fornecendo uma melhoria nos status que precisava. Para continuar abastecendo seus lacaios, ele precisava de status mentais mais fortes para aumentar suas reservas e regeneração de magika.
A mensagem que recebeu do aviso do Abismo foi um pouco sinistra. Ele aguardava seu chamado? Ele teria que continuar aguardando. Ele não estava disposto a tentar se comunicar com algo chamado de “a escuridão”, que havia lhe concedido a Subclasse Anátema, até que soubesse muito mais sobre isso. Ele só poderia esperar que essa decisão não o prejudicasse.
Com um aceno de sua mão, terminou o ritual e ficou ereto ao sentir seu corpo mudar como reflexo do seu novo Status. Ele não conseguiu manter a consciência da primeira vez, mas, por sorte, isso não se repetiu desta vez. Foi uma sensação estranha, para se dizer o mínimo. Seus olhos se encheram de lágrimas ao sentir algo o invadindo, transformando-o de dentro para fora. O tempo pareceu se esvair na distância e as sensações passaram sob sua consciência enquanto sua mente começava a se afastar até que foi repentinamente trazido de volta.
Tyron voltou a si com um susto e piscou rapidamente enquanto processava o que acabou de ocorrer, apenas para perceber que não tinha tempo e forçou suas pernas a se moverem. Levantou-se da mesa e levou sua carta e folha de Status na sala de troféu, destrancando a porta selada e colocando ambas no chão. A menos que os moradores da cidade derrubassem as paredes de dois Exterminadores poderosos e respeitados, não havia como alguém além dos seus pais encontrá-las. Com cuidado, ele se certificou de que a porta estava trancada antes de voltar à cozinha. Vestindo sua capa à prova de chuva, pegou as três lâminas, extinguiu a luz e saiu pela porta dos fundos.
Com o coração batendo forte em seu peito, escalou a cerca dos fundos mais uma vez, parando no topo para espiar e procurar por marechais. Não vendo nenhum, jogou suas pernas, uma por vez e caiu o mais silenciosamente que podia no chão. Com as três espadas no quadril, isso era muito mais difícil do que esperava. Enquanto se esgueirava pelas sombras, as nuvens acima que ameaçaram o dia todo agora se abriram, liberando um aguaceiro sobre Foxbridge.
…