
Volume 1 - Capítulo 11
Livro dos Mortos
Era o nascer do sol do quarto dia desde a cerimônia de despertar e Elsbeth Ranner acordou confusa e cansada, com o tamborilar da chuva no telhado de ardósia da casa da família ecoando em seus ouvidos. Depois de dez minutos deitada em sua cama, ela finalmente suspirou e saiu dos cobertores, tendo conseguido invocar a energia que preparava para o dia.
Muito havia mudado desde o Despertar. Tudo havia mudado.
Era normal, de certa forma. Conseguir uma Classe e transicionar para um adulto era uma mudança significativa na vida de todos e ela sabia que passaria por isso, mas, ainda assim, não esperava por… isto. Ela havia recebido a Classe que esperava – Ela era uma genuína Sacerdotisa. De alguma forma, ela não conseguiu encontrar isso dentro de si mesma para celebrar o fato esta manhã.
Ela penteou seu cabelo e se vestiu antes de sair do seu quarto. Virando à esquerda no corredor, abriu a porta para encontrar sua família na mesa, comendo o café da manhã. O ar ficou pesado no cômodo e o silêncio pairava como um cobertor.
— Desculpa, estou atrasada. — Ela murmurou para ninguém em particular enquanto puxava a cadeira para se sentar.
Sua mãe exibiu para ela um sorriso brilhante que despareceu tão rápido como apareceu. Seu pai permaneceu sentado em silêncio absoluto, encarando sua frente enquanto mastigava sua comida com um ritmo mecânico. Elsbeth assentiu opara sua mãe em agradecimento por preparar a refeição e levantou suas mãos para orar, mas hesitou. Ela esteve orando para a Deusa por tanto tempo que as palavras de sua oração matinal vinham aos seus lábios sem que percebesse, mas ela não poderia orar agora, poderia?
Seu pai bateu a mão na mesa e se levantou, arranhando as pernas da cadeira no chão ao fazer isso.
— Obrigado pela refeição. — Ele disse, com toda sua postura irradiando raiva.
Era tão diferente do pai amoroso que ela conhecia. Lágrimas começaram a surgir em seus olhos, mas Elsbeth manteve a cabeça baixa enquanto o homem que a criou arrumava seu prato antes de sair da sala de jantar, batendo a porta atrás de si.
Ela pulou quando sentiu um toque gentil em seu ombro.
— Ele ficará bem em alguns dias. — Sua mãe disse. — Ele só precisa de um pouco de tempo.
O tom gentil e caloroso quebrou sua última defesa e lágrimas escorreram.
— Mas e eu? — Ela soluçou enquanto sua mãe a abraçava. — Não é mais fácil para mim!
Angine Ranner não respondeu à filha, apenas a segurou com força e a balançou de um lado para o outro, como sempre fazia com suas crianças quando estavam deprimidas. Eventualmente as lágrimas pararam e ela ajudou a limpar o rosto de Elsbeth, escondendo os traços de seu choro.
— O que você fará hoje? — Ela questionou.
Elsbeth piscou. Ela não poderia continuar se escondendo em casa, alguma hora tinha que sair.
— Irei registrar minha Classe na prefeitura. Não há sentido em esperar até o último dia, melhor terminar com isso logo.
Angine assentiu em aprovação.
— Isso mesmo. Uma porta se fechar não é o fim do mundo. Você descobrirá que há muitas oportunidades para uma garota tão brilhante como você.
Ela sorriu.
— Obrigada, mãe.
As duas mulheres compartilharam um abraço antes de se separarem, Angine para cuidar de suas tarefas e Elsbeth para se preparar para sair. Ela quase perdeu a coragem. Assim que calçou suas botas e vestiu o casaco quente para afastar a chuva, conseguiu ir até a porta da frente antes de congelar. Depois de um momento, ela reuniu sua coragem e empurrou a porta, sendo recebida por um clima sombrio e cinzento.
Foi provavelmente graças a chuva que ela conseguiu sair de sua casa e chegar na prefeitura sem ser percebida. Assim que chegou lá e retirou seu capuz, foi uma história diferente. O saguão de entrada, que normalmente ficava desértico pela maior parte do ano, estava lotado, mesmo a essa hora da manhã. Jovens adultos, todos aqui para se registrarem, estavam de pé ou sentados ao redor do saguão em pequenos grupos, murmurando entre si quietamente.
Assim que ela entrou, todos os olhos se voltaram para ela e os sussurros pararam por um segundo perceptível, antes que retornassem, mais altos do que antes. O rosto dela ficou corado, mas ela se recusou a recuar agora. Em vez disso, avançou até a secretária que estava ao lado do escritório do Prefeito, com uma prancheta e pena em mãos.
— Elsbeth Ranner, estou aqui para registrar minha Classe. — Ela disse.
— Sem problemas, Elsbeth, sente-se. É provável que demore algum tempo. — A mulher disse apologeticamente.
Levou duas horas antes que seu nome fosse chamado. Por duas horas, ela se sentou em um canto e suportou os sussurros e olhares de soslaio das pessoas que uma vez considerou amigas. Duas vezes, ela tentou puxar conversa com alguém e nas duas foi recusada com um sorriso irônico.
As notícias viajavam rapidamente em cidades pequenas.
Quando escutou seu nome, ela praticamente voou do seu assento até o escritório do prefeito, onde encontrou o Prefeito Arryn e a Escrivã Barbury sentados do outro lado da mesa.
— Bom dia, Elsbeth. — O prefeito sorriu. — Isso tudo será o procedimento padrão e vamos tentar ser rápidos, já que ainda há vários aguardando. Não sei porque, mas as pessoas sempre parecem esperar até o quarto dia. No segundo dia, não se poderia ver nem um gato lá fora.
— Faremos algumas perguntas sobre o seu Despertar, então você realizará o ritual de Status na nossa frente. — A Sra. Barbury explicou. — Então, usarei uma das minhas habilidades para inspecionar o seu Status e compararemos os dois resultados, depois sua papelada será arquivada. Uma cópia será mantida aqui e outra será enviada para o cartório em Dorrun.
— Entendo. — Ela assentiu.
Todo o processo demorou quinze minutos, Elsbeth ficou feliz de responder as perguntas simples que foram questionadas. Sua folha de Status foi inspecionada com cuidado, antes que a Sra. Barbury utilizasse seu próprio método para produzir uma folha de Status idêntica à dela. Com a inspeção completa, a jovem Sacerdotisa ficou muito feliz de deixar a sala de recepção e voltar para chuva. Agora era quase hora do almoço e, depois de hesitar brevemente, ela decidiu que ainda não iria para casa. A raiva gélida e reprimida do seu pai ainda era um peso que sua mente não estava preparada para lidar.
Em vez disso, continuou pela Rua Leaven, caminhado com cuidado pela rua de paralelepípedos escorregadia enquanto ia até a Pousada Steelarm. Ao empurrar a porta da frente, foi cumprimentada por uma rajada de ar quente e o barulho acolhedor de uma animada sala comum. Ela retirou seu casaco antes de entrar, pendurando a roupa molhada sobre a cadeira e se sentou na mesa próxima ao canto enquanto esperava ser atendida.
Enquanto olhava pela sala, não pôde deixar de perceber a ausência de Worthy. Normalmente, o homem jovial e gordinho estaria no comando, gargalhando enquanto servia as mesas e preparava bebidas, fazendo todos os clientes se sentirem bem-vindos com um sorriso amplo e histórias de antigos feitos heroicos. Ela franziu o cenho por um instante, antes de ignorar. Ele provavelmente estava pegando algo na adega, ou talvez tenha saído para fazer alguma compra e não precisava reagir de forma exagerada pela ausência dele no instante em que entrou na sala.
Então, sentou-se e aguardou. Não demorou muito até que Nica, uma das garçonetes, chegasse à mesa, retornando logo depois com uma tigela de ensopado de carne fumegante e uma xícara de vinho quente. Ela mal havia começado a saborear a refeição quando duas figuras familiares se sentaram nas cadeiras da sua mesa.
— Rufus! Laurel! — Ela se engasgou com a boca cheia de ensopado e imediatamente corou devido à sua falta de modos.
— Olá, El. — Rufus piscou enquanto se sentava.
Laurel não disse nada enquanto se sentava. Os olhos da garota bronzeada vagaram como se buscasse por algo. Sem encontrar, ela encarou Elsbeth diretamente.
— Tyron não está aqui? — Ela perguntou.
Elsbeth se assustou ao perceber que não havia pensado no seu amigo desde que entrou na pousada. Seus olhos percorreram a sala comum com culpa, antes de responder.
— Um, não? Também não vi Worthy esta manhã. Acham que está tudo bem?
A caçadora deu de ombros sem se importar e Rufus zombou.
— Não acredito que Tyron não conseguiria se recuperar, não importa o que aconteça. Mesmo que sua Classe não seja o que ele deseja, ele pode contar com seus pais para darem um jeito. Para ser sincero, ainda estou rindo da vergonha que ele sentiu depois do Despertar. Lembra da cara dele?
— Rufus! — Elsbeth repreendeu o Espadachim. — Ele é seu amigo, lembra?
O jovem exibiu uma carranca antes de abrir a boca para retrucar, mas Laurel o cortou antes que ele pudesse falar.
— Não acredito que ele recebeu uma Classe monótona.
— Acredite ou não, você viu por conta própria. — Rufus deu de ombro, com um sorriso em seu rosto. — Ele claramente não parecia nada feliz com o que recebeu.
Laurel casualmente estendeu a mão e deu um tapa forte na cabeça do filho do ferreiro, o que o fez estremecer e forçar uma risada para Elsbeth.
— Você não estava escutando, cabeça-dura. — Laurel eventualmente disse. — Não acredito que a Classe dele seja entediante, ou fraca.
Enquanto esfregava a lateral da sua cabeça onde foi golpeado, o rosto de Rufus escureceu.
— Por quê? Por causa de quem são os pais dele? Você acha que somos cópias de carbono dos nossos pais? Ou mães? Isso é besteira. Magnin e Beory são os melhores, mas Tyron sempre foi fraco.
Elsbeth queria defender seu amigo, mas o tom ácido de Rufus a deixou relutante. Há apenas alguns dias, os quatro saíam juntos constantemente. Desde o Despertar, as coisas mudaram muito rapidamente…
Laurel, por sua vez, apenas revirou os olhos antes de encarar Rufus com um olhar sério.
— Apenas porque você deseja que ele seja fraco não significa que de fato seja. — Ela simplesmente disse. — Ele pode ser péssimo com uma espada, não sabe lutar porra nenhuma e você acha que isso basta para torná-lo um inútil? Ele é esperto. Muito esperto. Começou a aprender magia por conta própria antes mesmo de ter uma Classe. Não me importo se você precisa desesperadamente mostrar o seu pau e comparar com o dele, mas, pelo menos, tente ver a realidade na frente dos seus olhos. Aquele garoto acabou com uma Classe entediante e inútil? Eu não acredito nisso.
— Então, o quê, você acha que a Classe dele é algo incrível e ele não nos contou por que pensou que nos sentiríamos péssimos? — Rufus afundou na cadeira, mal-humorado, contraindo os músculos do pescoço por raiva. — Isso pode ser verdade.
— Ou — Laurel proferiu — É ilegal.
Um silêncio pairou sobre a mesa enquanto os outros dois absorviam esse pensamento em choque.
— Não! — Elsbeth disse.
— Você realmente acha isso? — Rufus sorriu.
— Não sei. — Laurel franziu os lábios. — Mas acho que é possível.
— Mas isso é terrível! Temos que ajudá-lo! — Elsbeth gritou.
— É a primeira vez que ouço falar de uma Sacerdotisa querendo ajudar um criminoso. — Rufus comentou acidamente antes de suavizar suas palavras com um sorriso quando ela disparou um olhar em sua direção.
O silêncio floresceu mais uma vez entre eles enquanto cada um considerava a possibilidade desse acontecimento à sua própria maneira. Demorou vários minutos antes que alguém falasse e não foi nenhum dos três jovens. Da porta da cozinha, Worthy surgiu com um ar um tanto abatido. Esse antigo Exterminador normalmente ruidoso passou seus olhos pela sala e se acalmou ao notar os amigos do sobrinho sentados em um canto. Com passo largos, atravessou a sala comum, dizendo algumas palavras amigáveis aqui e ali enquanto passava, finalmente chegando na frente do trio, que ainda não tinham notado a presença dele.
— Que bom ver vocês três aqui. — Ele os cumprimentou com um pequeno sorriso.
Laurel, Elsbeth e Rufus pularam com o som da voz. Assustados com seus pensamentos, eles se viravam para ver o estalajadeiro corpulento sobre eles.
— Worthy! — Elsbeth gaguejou. — Estava me perguntando se você estava em casa!
Laurel e Rufus, ambos cumprimentaram o homem grande com um murmurado: — Sr. Steelarm.
Embora ele pudesse ter desenvolvido uma barriga desde que se aposentou como Exterminador, ainda possuía um físico imponente cuja reputação sozinha demandava respeito. Sua história, assim como sua natureza jovial e risada estrondosa, o tornavam um dos favoritos entre as crianças de Foxbridge. Os três admiravam o homem desde que aprenderam a andar.
O rosto do estalajadeiro ficou abatido em resposta a essas palavras.
— Bem, eu suponho que vocês não tenham ouvido. O jovem Tyron se meteu em uma enrascada. O garoto tolo está se recuperando no quarto dos fundos. A tia não saiu do lado dele a manhã toda.
— Oh, não! — Elsbeth se engasgou. — É sério?
Rufus e Lauren trocaram olhares.
— Ele poderia ter morrido. — Worthy disse simplesmente. — Desde o Despertar ele está abatido e se esforçando demais. Vocês quatro são amigos desde que eram pequenos. Significaria muito se pudessem passar juntos quando ele acordar. Tentem animá-lo.
Elsbeth se desculpou imediatamente por não visitar mais cedo e prometeu que todos passariam um tempo um tempo com ele assim que acordasse, mas Rufus tinha outras prioridades.
— O que ele fez? — Rufus interrompeu a jovem Sacerdotisa. — Para se machucar, quero dizer?
Worthy franziu a testa, mas não via motivo para não responder.
— Ele sofreu overdose com magia, exagerando ao conjurar feitiços que não deveria. Só posso presumir que, de algum modo, ele pegou as coisas do estoque de sua mãe. — Ele balançou a cabeça. — O garoto sofreu um grande impacto por não conseguir a Classe que queria. Será bom para ele ver que não perdeu os amigos.
— É claro que não perdeu. — Elsbeth disse com firmeza e os outros ofereceram um murmúrio em concordância.
— Obrigado. — Worthy sorriu para eles, com seu sorriso radiante de sempre se apagando. — Vou pedir para a cozinha mandar algo extra para vocês, crianças.
Tendo dito isso, Worthy terminou sua ronda pela sala comum e voltou para a cozinha, muito provavelmente indo conferir o sobrinho inconsciente mais uma vez.
— Pobre Tyron. — Elsbeth disse. — Não posso acreditar que ele fez isso. Ele sempre foi tão cuidadoso…
— É quase como se estivesse levando sua Classe ilegal ao limite antes que o tempo acabe. — Rufus se inclinou para frente e sussurrou.
— Ou — Elsbeth o encarou —, ele está compensando por ter seus sonhos destruídos se esforçando demais.
— Talvez. — Rufus deu de ombros e se inclinou para trás.
— É quase como se você quisesse que ele tivesse uma Classe ilegal. Por quê? Você quer vê-lo vivendo como aleijado? — Ela questionou de forma hostil.
— Mantenha sua voz baixa. — Rufus disse baixinho. — Não é isso. — Ele continuou. — Só acho que devemos escutar ao que Laurel tem a dizer.
— E fazer o quê? Ainda não posso acreditar que ambos pensem que isso seja real, mas o que farão se for? O ajudarão a escapar? Ou o quê?
— Há uma recompensa por capturar fugitivos. — Laurel refletiu com o rosto sério.
Ambas suas mãos bateram na mesa antes que Elsbeth percebesse o que estivesse fazendo.
— Não posso acreditar em você, nenhum de vocês. — Elsbeth disse à beira das lágrimas. — Vou para casa.
Sua cadeira arranhou enquanto ela se levantava da mesa e saía furiosa, metade dos olhos da sala comum a encaravam quando fazia isso. Assim que a porta bateu atrás dela, esses olhos voltaram para os dois jovens que restaram.
— Bom e discreto. — Laurel murmurou.
— Como se não fosse sua culpa. — Rufus zombou enquanto cuidava para manter a voz baixa. — Você realmente não acha que poderia ter sido um pouco mais taciturna do que isso?
— É o seu trabalho cuidar da princesa, não meu. — Laurel disse, entediada. — Apesar de que não tenho certeza se perseguir Tyron e capturá-lo de volta seria um bom movimento. Se ele possuir uma Classe banida.
— O que você quer dizer com se? — Rufus disse. — Foi você quem sugeriu isso em primeiro lugar!
— É uma possibilidade, não uma certeza.
O jovem ponderou por um instante.
— Mas se ele tem isso… a recompensa pode nos ajudar. Não é barato se tornar um Exterminador, qualquer quantia pode nos ajudar.
Laurel observou o filho do ferreiro com olhos serenos, antes que um sorriso lento se espalhasse por seu rosto.
— Você quer que ele possua uma Classe ilegal. Quer arrastá-lo de volta para a cidade e observá-lo ser aleijado. Não se incomode em negar, posso ver isso em seus olhos.
Rufus não respondeu.
— Você é um canalha mesquinho. — Ela disse enquanto se levantava, terminando sua bebida. — Eu te ajudarei, porque acho hilário ver o quão longe você vai por causa do seu rancor de infância, mas não acho que conseguirá convencer a princesa.
— Deixe-a para mim. — Rufus disse.
Laurel se alongou como um gato, seu corpo esguio atraindo o olhar de Rufus.
— Mesmo que eu esteja certa, os marechais o capturarão antes que consigamos. — Ela disse enquanto se virava para a porta.
— Os marechais estão de olho em todos. Nós só temos que ficar de olho nele.
…