Livro dos Mortos

Volume 1 - Capítulo 10

Livro dos Mortos

Worthy suspirou fundo enquanto se movia pela sala comum da Pousada Steelarm, mudando as mesas e empurrando as cadeiras. Eram os detalhes que faziam uma boa sala comum, algo que aprendeu ao longo dos seus anos como Exterminador. Viajando de vila em vila, de baronia em condado e de cidade em cidade em busca do próximo contrato significava que muito tempo era gasto dormindo em camas que não eram as suas e, embora ninguém pudesse acusá-lo de ser a arma mais afiada na prateleira, Worthy tinha atenção aos detalhes.

Sua pousada não era a mais frequentada de Foxbridge e do ducado em geral apenas por causa do nome de sua família, embora isso certamente ajudasse. Os feitos do seu irmão traziam clientes, mas era apenas a qualidade do serviço que os fazia continuarem vindo.

Quando as cadeiras estavam sujas, isso mostrava uma ausência de cuidado e tornava a atmosfera estranha. Afinal, se o estalajadeiro não se preocupasse em arrumar as cadeiras onde mais haveria atalhos? Ele fez questão, ao longo de sua carreira, de se hospedar apenas em estabelecimentos com cadeiras organizadas. Quando as mesas não estavam organizadas apropriadamente tornava difícil se mover pelo local, tornando a vida mais difícil para os garçons e dificultando para os clientes chegarem ao bar. O melhor era evitar o problema antes que ele tivesse a chance de ser manifestado.

Era esse tipo de “preocupação pelas pequenas coisas”, como seu irmão dizia, que assegurava à Pousada Steelarm uma reputação excepcional e operasse com a regularidade de um relógio. Motivo pelo qual estava tão preocupado com o seu sobrinho. Receber uma Classe era muito importante para uma criança: era quanto você finalmente se tornava um adulto, uma pessoa totalmente funcional. Para alguém como Tyron, que vivia com expectativas constantes de que faria coisas incríveis quando crescesse, assim como seus pais (e em menor extensão, seu tio), o choque de receber uma Classe tão monótona deve ter sido de abalar o mundo.

O pobre garoto. Quando ele veio comer nos últimos dias, não foi difícil perceber as orelhas crescentes sob seus olhos e a pele pálida. Era fácil ver que ele não estava dormindo. Pelo menos ele estava comendo. Se tudo corresse bem, os malditos pais dele deveriam aparecer nos próximos dias, no máximo, então poderiam se sentar juntos e descobrir o que o garoto poderia fazer por seu futuro.

Ser um Escrivão não era um grande começo, mas não havia nada que ele podia fazer sobre isso. Com a mistura certa de Classes Secundárias, poderia se transformar em um conjurador razoável, suficiente para apoiar grupos de Exterminadores em expedições, se ele se esforçasse. Se ele quisesse, Worthy estava confiante de que o garoto poderia ser mais que a merda de um Escrivão. Se subisse de nível o suficiente, escolhesse suas secundárias com cuidado, poderia ganhar muito dinheiro trabalhando para um lorde, ou até para o tesouro real.

Ele receberia mais do que metade dos Exterminadores do reino sem nenhum risco de ser comido. Não parecia uma ideia ruim para Worthy.

Embora, em seu coração, soubesse que não era isso que o garoto queria para si. Tyron fingia ser frio, agia como se não estivesse afetado, mas no fundo ele esperava pelo tipo de renome que Exterminadores lendários recebiam. Defensores das pessoas, guerreiros da luz, guardiões da civilização. Worthy sabia que tudo isso era besteira. Ele estava no negócio há tempo suficiente para saber que não havia nenhuma glória nisso, apenas sangue, tripas e merdas.

Mas ele conseguia se lembrar de como se sentia quando era apenas um garoto, como ele desejava ir para a batalha, derrotar as criaturas das fendas. Ele via a mesma ambição ardente em seu sobrinho e ter esse sonho despedaçado antes mesmo de começar era algo triste.

Com cada cadeira e mesa apropriadamente arrumadas, o dono da pousada deu um passo para trás para apreciar seu trabalho. Não tão rígido a ponto de parecer estéril, mas apenas organizado o suficiente para garantir um dia suave de trabalho. Perfeito, era isso. Agora de volta à limpeza. Com um pouco mais de vida em seus passos, ele se moveu até o armário de armazenamento e retirou um dos equipamentos encantados que guardava ali. O balde que aquecia a água e a mantinha perto do ponto de ebulição. A esponja que pediu especialmente para sua cunhada. Apenas através dos contatos dela ele conseguiria colocar as mãos em algo desse tipo.

Encantada com Magika de morte, a esponja sugava a vida de tudo o que tocava, deixando um rastro de morte por onde passava. Com seus status defensivos poderoso e porte físico, o próprio Worthy era imune ao efeito, mas as bactérias nas mesas não. Com uma sensação selvagem de felicidade, começou a trabalhar, passando a água fervente que mal conseguia sentir sobre as mesas, imaginando exércitos devastados de micróbios implorando por suas vidas enquanto ele se aproximava de cada superfície de madeira.

— Sem piedade. — Ele murmurou, limpando impiedosamente outra mesa com um sorriso satisfatório.

Tendo terminado as messas, ele estava prestes a ir para a cozinha para a limpeza matinal quando a porta se abriu inesperadamente. Worthy se virou, com surpresa escrita na sua cara ao ver Tyron parado no batente, suando da cabeça aos pés, com os olhos meio desfocados enquanto as mãos seguravam nada ao lado de seu corpo.

— Garoto? — Worthy perguntou enquanto se aproximava. — Você está bem?

As mãos de Tyron subiram e pareceram procurar a porta. Não encontrando nada à sua frente, ele deu alguns passos cambaleantes para dentro da sala comum, com a mesma expressão semivazia no rosto. Uma sensação alarmante começou a crescer em Worthy, que se aproximava. O garoto não parecia bem, nada bem. Era algo além de apenas fadiga e privação de sono, algo que ativava suas memórias.

— Ei, tio. — O garoto disse arrastando as palavras. — Alguma chance de mim… de eu… con… conseguir alfo para comer? Estou… estou morrendo de fome… eu acho?

Agora ao lado dele, Worthy segurou o sobrinho pelos ombros para olhar diretamente e com atenção para ao rosto dele. Olhos injetados de sangue, rosto pálido e coberto em poeira, marcas pretas e listras na pele, o garoto parecia um inferno.

— Puta merda, garoto. Pela nona fenda, o que você estava fazendo?

O garoto ainda estava cambaleante, mesmo com a mão de um poderoso Exterminador o segurando. Com a pergunta, um leve sorriso surgiu no canto de sua boca.

— Magika, tio. Eu fiz magika. Não tinha certeza se conseguiria, mas eu consegui.

— Magika? Você pode fazer magika a qualquer momento, por que precisaria ficar a noite inteira acordado para isso, seu garoto maluco? — Worthy o repreendeu, mesmo que sentisse seu coração doer.

Ele conseguia imaginar com facilidade Tyron, incapaz de aceitar seu destino, trabalhando durante a noite para desenvolver seu talento mágico. Mesmo assim, isso não deveria deixá-lo neste estado…

— Porra! — Ele xingou.

‘É claro, como eu poderia não perceber!’

Ele quase empurrou a esponja da morte para limpar o rosto do garoto, mas se impediu no último momento antes de jogar a ferramenta de limpeza no canto com outro xingamento. Megan surgiu da cozinha limpando as mãos em seu avental, com uma expressão entre desaprovação e diversão.

— Por que todos esses xingamentos tão cedo, marido? — Ela perguntou com uma zombaria fingida, antes de ver Tyron ofegar. — Tyron! O que aconteceu?

— Pegue um pano para mim, mulher! — Worthy gritou enquanto se abaixava para levantar o garoto. — E água quente!

— Tio? — Tyron perguntou, com um leve tremor na voz. — O que está acontecendo?

— Fiquei quieto, rapaz. — Worthy disse, carregando-o rapidamente para a cozinha, deitando-o em cima de uma das mesas enquanto um dos funcionários segurava a porta aberta.

— Aqui está o pano.

— Tá.

Com uma mão, o antigo Martelador gentilmente afastou o cabelo do rosto do garoto enquanto usava o pano para limpar a poeira e sujeira ao redor da boca dele. Alguns momentos depois, ele se inclinou mais próxima para dar uma olhada melhor antes de xingar explosivamente.

— MERDA! — Sua mão bateu na mesa, deixando sua marca na madeira tratada, dura o suficiente para impedir que facas a cortassem.

— O que está errado com ele, Worthy? — Megan questionou, assustada com a expressão de raiva incomum do marido.

Por um instante, ele a ignorou, apertando as mãos ao redor da cabeça do garoto.

— Quantas, garoto? — Ele sussurrou, com a voz tremendo por suprimir sua raiva. — Quantos você usou noite passada?

— Tio? Eu… não sei do que você está falando.

— Os cristais, garoto. Quantos cristais? Tente pensar.

A urgência no tom dele parecia ter efeito em Tyron; seus olhos quase ficaram focados por meio segundo antes que apagassem, sua mente recuando para a névoa mais uma vez.

— E-Eu não tenho certeza. Cristais? Estou tão… cansado.

— Não! Não durma! —Worthy bateu, com força, no rosto dele.

— Worthy! — Megan estava quase em lágrimas neste momento. — O que está errado?

Com uma luta visível, Worthy controlou seu temperamento enquanto continuava inclinado sobre o sobrinho, sem retirar sua atenção do rosto dele.

— Este idiota passou a noite toda conjurando feitiços. O que está tudo bem, normalmente. Não é algo esperto de se fazer, mas não é como se ele não tivesse feito isso antes. Exceto que desta vez ele deve ter consumido toda sua energia e decidiu usar alguns cristais arcanos para se recuperar.

Sua esposa ofegou.

— Isso não é…?

— Perigoso para caralho? Sim, é. — Ele rugiu. — Se este idiota usou muitos, então ele já está morto.

Com quase nenhum esforço, Worthy passou os braços sob o corpo cada vez mais mole de Tyron e o levantou.

— Eu o levarei até o quarto dos fundos e o deixarei confortável. Envia alguém correndo para chamar o apotecário, diga ao velho bastardo para se mexer, não importa quão cedo seja. Megan, esquente um pouco das sobras, se conseguirmos dar um pouco de comida para ele, pode ajudar.

Enquanto a pequena multidão que havia se reunido na cozinha corria para fazer o que ele disse, o homem de ombros largos carregou seu sobrinho tão gentilmente, como se fosse um bebê, para o quarto de hóspedes no térreo.

— Não ouse morrer rapaz. Não antes que seu pai venha e te dê uma surra por isso. — Ele murmurou.

Dez minutos depois, o apotecário da cidade, um homem rabugento de pele curtida, chamado de Yarrus, foi arrastado até o quarto por Berry, um dos auxiliares da cozinha. Worthy acenou para ele enquanto o curandeiro se recompunha, amaldiçoando o jovem e a ausência de respeito pelos mais velhos.

— Estou aqui, Worthy, por que vale a pena me tirar da cama?

— Meu sobrinho. Ele usou cristais arcanos. Não tenho certeza de quantos.

— Toxidade magika? — O velho respirou fundo enquanto corria para ao lado da cama. — Isso não é bom.

— Não me diga. — Worthy rosnou. — Consegue fazer algo por ele?

— Eu posso. — Yarrus confirmou, com um tom astuto na voz. — Mas primeiro nós deveríamos discutir a questão do pagamento?

Em um movimento, o dono da pousada segurou o velho pelo pescoço, levantando-o tão fácil como se fosse um saco de batatas.

— Que tal você curá-lo primeiro? — Worthy rugiu, com fogo dançando em seus olhos. — Ou talvez você gostasse de explicar para Magnin que o filho dele morreu porque você queria discutir sobre o preço?

O apotecário se debateu freneticamente tentando se libertar, mas a mão não se moveu um centímetro. Worthy o abaixou lentamente até que a ponta dos pés encostou no chão, antes de soltar o aperto apenas o suficiente para que ele respirasse.

— Isso é agressão! — Yarrus ofegou. — Acha que pode fazer isso comigo?

— Você cura este garoto ou eu farei muito pior. Pagarei essas moedas de merda quando você terminar! Entendeu?!

Com o rosto cheio de desprezo, Worthy soltou o apotecário, que cambaleou no chão antes de se ajoelhar ao lado da cama e vasculhar através de suas vestes. O velho Martelador o observou com atenção enquanto o curandeiro começava a retirar várias ervas de seus bolsos, retirando um almofariz e um pilão de sua bolsa para começar a esmagá-las.

— Avançou rapidamente. — Yarrus murmurou, principalmente para ele mesmo. — Já é possível ver as veias no rosto ficarem azuis e os hematomas ao redor da boca. A temperatura está… normal por enquanto, mas isso mudará na próxima hora mais ou menos. A julgar pela rapidez com que se espalhou, eu diria três cristais, pelo menos.

Worthy segurou a respiração ao ouvir isso, com as sobrancelhas levantadas de preocupação. Três cristais para alguém que não havia desenvolvido tolerância era uma dose alta. Três em uma noite era uma dose alta mesmo para alguém que os utilizava com regularidade há um longo período. Ele não tinha muita experiência com o treinamento de Mago, nunca tendo passado por isso por conta própria, mas ainda trabalhou com muitos conjuradores ao longo dos anos, a maioria deles não utilizaria mais de um cristal por vez e apenas quando precisassem muito consumi-lo.

‘Apenas o que este garoto fez noite passada? Por que ele teve que se esforçar tanto? E onde diabos conseguiu pôr as mãos nessas coisas? Elas não são restritas?’

A resposta era óbvia, mas ele não conseguiria creditar que Beory seria tão descuidada com seu próprio equipamento, a ponto de Tyron conseguir pegá- los.

‘Ele os comprou por conta própria? Com que dinheiro?’

Ele tinha uma pequena reserva de fundos para se cuidar, mas certamente não o suficiente para comprar cristais arcanos, não que alguém em Foxbridge vendesse essas coisas malditas.

— Você teve sorte que servi na Fortaleza Skyice. — Yarrus disse enquanto retirava uma série de agulhas da sua bolsa e começava a mergulhar a ponta das agulhas na mistura que preparou. — Já tratei muitos com esta condição durante o meu tempo lá.

Um resmungo foi a única resposta que o apotecário recebeu e seu rosto ficou azedo quando retirou a primeira das agulhas que preparou.

— Ao colocá-las nos pontos centrais das extremidades, elas conseguirão retirar um pouco do excesso de magika no corpo dele. Esperançosamente, isso será suficiente para prevenir ramificações piores da overdose, mas, como tudo na vida, não há certeza.

— Entendi. — Worthy disse.

Movendo-se com cuidado extremo, Yarrus permitiu que sua experiência e habilidades o guiassem enquanto virava o braço do menino, deixando as palmas para cima, passando a agulha ao longo as veias dele. Quando ficou satisfeito, inseriu a haste fina de aço temperado e medicinal no ponto médio do antebraço, replicando rapidamente o processo no outro braço. Feito isso, enrolou as calças do menino até o meio das panturrilhas e inseriu mais duas agulhas acima do tornozelo de cada perna.

Depois de alguns minutos de espera paciente, as quatro agulhas começaram a emitir uma luz suave.

— Aí está. — Yarrus assentiu satisfeito. — Uma porção da energia está sendo drenada. Devo lhe avisar, se muita magika for retirada do sistema dele também ocorrerão efeitos adversos. Monitore as agulhas com atenção. Quando a luz estiver na metade do brilho de agora, remova-as imediatamente, para que ele não sofra com isso.

— Isso é tudo que podemos fazer? — Worthy perguntou.

— Com os recursos que temos aqui em Foxbridge? Sim. Se um Curandeiro Arcano de alto nível estivesse na cidade, ele poderia fazer muito mais, mas, infelizmente, você está preso a mim.

O velho se levantou com um resmungo.

— E espero ser pago.

A avareza era evidente e brilhava nos olhos do apotecário.

Os Steelarms eram a família mais rica da cidade e mal sofriam de tosse ao longo dos anos. A oportunidade de enfiar as mãos nesses bolsos profundos era suficiente para fazê-lo salivar.

— Você pode acertar a conta com Magnin quando ele voltar para casa. Ele não deve estar há mais de alguns dias daqui.

Worthy dispensou o apotecário com algumas palavras e se ajoelhou ao lado do sobrinho, segurando a mão do menino. Uma mistura de emoções passou pelo rosto de Yarrus enquanto ele tentava de arrancar dinheiro do Exterminador poderoso. Ganância, preocupação e medo foram seguidos rapidamente por uma aceitação sombria.

Magnin poderia decidir pagá-lo com ouro ou simplesmente enganá-lo e não havia absolutamente nada que ele, um curandeiro de uma cidade pequena, pudesse fazer a respeito. Alguém como Magnin valia milhares dele aos olhos do reino. Se o guerreiro decidisse matá-lo na rua, provavelmente nem seria punido por isso.

Cerrando os dentes, Yarrus saiu do quarto e atravessou a pousada pisando duro, sem ser notado por ninguém. Em vez disso, o foco de todos estava no garoto inconsciente no quarto dos fundos.

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