Livro dos Mortos

Volume 1 - Capítulo 9

Livro dos Mortos

Tarde da noite do terceiro dia e Tyron Steelarm se viu mais uma vez arrastando seus pés pela penumbra enquanto saía da cidade em direção ao cemitério. Estava muito úmido e seus sapatos estavam encharcados quando ele chegou, xingando enquanto atravessava os campos. Ele provavelmente poderia ter utilizado a estrada, ninguém a estaria usando, mas queria minimizar o risco, o que significava que cruzou pela terra da família Grady e seu mato alto.

— Estúpido. — Ele murmurou para si mesmo. — Provavelmente deixei uma trilha através do campo que um cachorro cego e sem nariz conseguiria seguir. Por que não apenas utilizar a estrada?

Mesmo enquanto se amaldiçoava, ele sabia o porquê: os marechais estavam por aí. Ele havia os visto vagando pela cidade ao cair da noite e viu alguns nas ruas na periferia da cidade. Isso o assustou tanto que ele ficou determinado a adotar passos extras para tentar cobrir seus traços, apenas para estragar tudo. Quando finalmente chegou ao mausoléu Arryn, estava meia hora atrasado no seu cronograma, encharcado e congelando. Um começo fantástico para uma noite de difícil conjuração.

Mãos trêmulas e dentes rangendo, ele retirou a corrente da entrada do mausoléu e entrou, murmurando um feitiço de luz assim que a porta se fechou atrás dele. A visão agora familiar da poeira e das teias o cumprimentou mais uma vez e ele suspirou. Pelo menos estava sozinho. Jogando sua mochila, começou a desempacotá-la. Ele tinha muito o que fazer esta noite e não tinha muito tempo para poupar ao considerar quanto já desperdiçou. Esta já era a terceira noite desde a cerimônia, ele só tinha mais duas antes que fosse forçado a reportar sua Classe e abandoná-la, aleijando-se no processo.

Se iria continuar com ela e preservar seu futuro, ele precisava fazer o máximo de progresso que conseguisse. Em sua cabeça, planos vagos estavam começando a tomar forma: fugir para as terras selvagens, chegar às cidades da fronteira ou às Fortalezas dos Exterminadores perto das fendas. Seria difícil, mas se conseguisse se tornar forte o suficiente, qualquer coisa era possível. Ele precisava de níveis.

E para consegui-los, tinha que ter lacaios. A descrição da Classe era clara: ressuscitar os mortos e fazê-los lutar por ele era a única forma de progredir. Suspeitava que apenas ressuscitar lacaios o levaria apenas até certo ponto. Se quisesse alcançar o nível 20 e conquistar a primeira evolução de Classe, precisaria que seus lacaios lutassem.

Motivo pelo qual esta noite era tão importante. De acordo com a pesquisa reconhecidamente limitada que estava realizando, vasculhando os arquivos dos seus pais e lendo as descrições dos monstros mortos-vivos, rapidamente abandonou a ideia de depender de zumbis. Lentos, imundos, capazes de serem percebidos a um quilômetro de distância, fracos em números pequenos, zumbis não o atraíam. Suas vantagens, ou seja, serem fáceis de serem criados e baratos de serem mantidos em termos de magika poderiam ter o atraído se ele tivesse uma abundância de cadáveres para trabalhar, mas esse simplesmente não era o caso.

O que ele tinha eram ossos. Mais fortes, rápidos, capazes de portar armas, ainda que de forma desajeitada, o esqueleto era um lacaio muito mais atraente do que uma pilha de carne cambaleante e apodrecida. Mais difícil de ser criado, um dreno mais intenso de magia, certamente havia alguns pontos negativos, mas ele tinha que fazer seu melhor com os recursos que tinha em mãos.

Espalhando a luz pelos corredores escuros e estreitos do mausoléu, ele pegou o tecido que havia preparado e começou a retirar as teias que bloqueavam seu caminho. As pragas de oito patas lançavam sombras tremeluzentes nas paredes enquanto se afastavam do saqueador de musselina, o brilho suave da magika as flagrando em ação. Quando ele terminou, o ar estava um pouco mais limpo e se virou para terminar de desempacotar sua mochila. Ele deu um gole grande em seu odre e mordiscou a carne seca que havia trazido enquanto consultava suas anotações, repassando as fórmulas do feitiço mais uma vez.

Relutante, ele fechou o livro, levantou-se e se esticou.

— Certo, hora de checar Nolath e sua noiva corada.

Ele virou a esquina para ver os dois caixões que abriu na noite anterior. Com os olhos brilhando, caminhou direto para o leito de pedra de Nolath, inclinando-se para inspecionar os ossos e os fios cuidadosos que havia criado. Houve alguma deterioração, a trama magika que criou com tanto esforço havia começado a se desfiar à medida que a energia se dissipava. Ele esperava que fosse pior do que isso e rapidamente começou a reparar os danos. Prestou atenção extra às áreas ao redor das articulações, onde a trama mais fina era necessária e onde os fios soltos eram mais difíceis de detectar. Não seria bom se passasse todo o seu tempo criando seu primeiro esqueleto apenas para que ele não conseguisse andar.

Depois de uma hora, mais da metade da qual foi gasta pensando desnecessariamente em cada detalhe, ele finalmente balançou para trás sobre os calcanhares e se esticou. Ele segurou a parte de trás do seu pescoço e se espreguiçou enquanto olhava para os dois esqueletos reunidos, ainda deitados em seus caixões de pedra abertos na frente dele.

— Não há sentido em atrasar mais. — Ele murmurou. — É melhor começar logo com isso.

Era frustrante, mas ele não tinha tempo suficiente, recursos ou o conhecimento para fazer mais nenhum preparativo. Sabia que, com mais alguns dias, conseguiria ter avanços na compreensão dos restos mortais e da complexidade do feitiço Ressuscitar Mortos, resultando em esqueletos mais poderosos, mas esse luxo lhe foi negado.

Pegando seu caderno, debruçou-se sobre ele por mais alguns minutos enquanto se assegurava de ter memorizado tudo o que precisava. Com um aceno final, fechou o livro e se posicionou aos pés dos restos de Nolath. Levantando as mãos, começou o encantamento, sentindo a magika começar a se agitar dentro dele, invocada pelas palavras de poder.

Por longos minutos, as palavras saíram sonoramente de sua boca enquanto a magika fluía e girava pelo ar, infiltrando-se nos ossos que começaram a brilhar com uma luz escura à medida que cada vez mais energia arcana se infiltrava neles. A trama fina de fios que havia entrelaçado ao redor dos ossos se acendeu, aproximando-se e fundindo-se com os restos mortais enquanto suor começava a escorrer por sua testa na metade da conjuração. Ainda assim, não acabou e Tyron não permitiu que perdesse o foco nem por um segundo enquanto deixava que o feitiço tomasse conta e consumisse sua mente.

E assim continuou até que, depois de quase uma hora, a última sílaba finalmente saiu de seus lábios e ele caiu, sua garganta seca e seu corpo drenado. Com as mãos trêmulas, limpou o suor em sua testa e observou enquanto os vestígios finais de energia fluíam para os ossos. Por um momento, nada aconteceu e o único som na tumba empoeirada era a respiração ofegante de Tyron enquanto ele se recompunha e aguardava.

Apesar da complexidade do feitiço, estava confiante em sua habilidade. Funcionou. Ele sabia que havia funcionado.

Após alguns segundos, uma luz suave, tão escura que chegava a quase ser preta, mas Tyron pensou ter detectado traços de roxo, apareceram nas cavidades oculares vazias do crânio de Nolath. Enquanto a excitação crescia nos olhos de Tyron, ele detectou um movimento quase imperceptível nos ossos enquanto começavam a se unir, o fêmur puxado em direção à tíbia, a patela subindo para seu lugar sobre a articulação. Eles se moviam quase como um fio, costurado frouxamente através de um tecido, como se fosse puxado lentamente, unindo todas as partes separadas.

O que era exatamente o que estava acontecendo. As horas que ele passou tecendo agora estavam dando frutos, animando e unindo o esqueleto. Foi um processo gradual, um que o Necromante em formação observou com entusiasmo crescente. À medida que o esqueleto recebia mais animus, Tyron conseguia sentir o dreno em seu estoque restante de magika aumentar enquanto seu novo lacaio recorria às suas reservas para, literalmente, se recompor.

— Vamos, Nolath. Levante-se. — O jovem mago incentivou sua criação como uma criança falaria com seu novo animal de estimação.

De muitas formas, de fato era. O feitiço Ressuscitar Mortos formava uma conexão entre os dois, um vínculo de mestre e servo que agora recebia vida. Tyron havia gastado uma boa parte do tempo examinando essa parte da matriz do feitiço, já que qualquer coisa relacionada à mente estava fora de seu conhecimento. Como parte do processo de ressuscitar uma coleção de ossos à vida, havia muitos elementos que eram necessários: uma forma para os ossos se moverem, uma fonte de energia para alimentá-lo e uma mente para controlá-lo. Parte da magika que acabou de conjurar, talvez até a parte mais significativa, foi construir uma “concha” mental rudimentar – ele hesitou em chamá-la de mente, era muito rudimentar para isso – que permitia o esqueleto controlar seu próprio corpo sem que ele tivesse que direcionar todos seus movimentos.

Pouco mais que um conjunto de diretrizes que seu novo servo seguiria à risca, a concha seria útil, mas apenas em um sentido limitado.

Alimentado por seu poder arcano, o esqueleto subiu da sua cova, saindo do caixão de pedra com uma destreza surpreendente e ficando de pé, um servo disposto e aguardando o comando dele. Agora que realmente viu o fruto do seu trabalho, Tyron não pôde deixar de sentir uma onda de riso alegre em sua barriga. Ele havia feito isso! Não apenas teve sucesso ao ressuscitar um esqueleto, o segundo nível de um morto-vivo, em sua primeira tentativa, como foi apenas a sua segunda tentativa conjurando Ressuscitar Mortos!

Ele não possuía nenhuma base para comparar suas próprias habilidades com a de outro Necromante, por motivos óbvios, mas se sentia confiante de que seu progresso era pelo menos um pouco excepcional. Ele se recusava a acreditar que qualquer conjurador que recém recebeu sua Classe conseguiria lidar com uma magika tão difícil quanto reanimar ossos sem treinamento e educação extensivos.

Ele próprio teve a sorte de ter a instrução intermitente que seus pais puderam transmitir, mas, mesmo com sua vantagem, ele estava muito orgulhoso de si mesmo enquanto se levantava trêmulo.

— Droga. — Ele murmurou enquanto segurava sua bolsa, suas mãos tateando enquanto seus dedos se recusavam a obedecer ao seu cérebro.

Com algum esforço ele conseguiu alcançar o interior e envolveu seus dedos ao redor do item que procurava. Quando o retirou, a luz suave e azul que emitia estava quase cegando na escuridão da tumba, com seus próprios globos de luz se apagando com a diminuição de suas reservas de mana.

— Doce de mago. — A voz de sua mãe soou dentro de sua cabeça, uma memória dela segurando um cristal como este na frente dos seus olhos quando mais jovem. — Muito úteis em doses pequenas, extremamente tóxicos em doses grandes. — Se você acabar sendo um conjurador, é uma boa ideia começar a construir imunidade cedo, porque se você for como eu, mastigará essas coisas, — ela sorriu — como se fossem doces.

Ainda bem que ela guardava um pequeno estoque em casa para alguma emergência. Ainda bem que ele descobriu onde ficavam com onze anos. Não que já tivesse precisado deles antes. Com o cristal em sua posse, ele se acomodou no chão, sentando-se de pernas cruzadas na pedra congelante enquanto trazia suas mãos para frente do seu peito, colocando a gema na sua boca e se concentrando.

Foi lento no início, tão lento que ele quase não conseguiu notar o fio de pura energia magika entrando em seu corpo, mas com o passar dos minutos, o fluxo aumentou de velocidade até que ele estava recebendo um fluxo contínuo de magika, retirando suas reservas de seu estado lamentavelmente baixo. Gradualmente, suas mãos começaram a se firmar enquanto seu corpo recuperava sua força. Conjurar o feitiço para ressuscitar o esqueleto havia o levado ao limite de suas reservas, mesmo depois de subir de nível e do consequente aumento de status. Para piorar, quando estava à beira ficar esgotado, o esqueleto se levantou, usando sua magika para isso. No fim, foi por pouco.

Dez minutos depois ele cuspiu o cristal para descobrir que o brilho que emanava havia diminuído consideravelmente, mas ele se sentiu muito melhor. Ele se levantou para encontrar seu lacaio ainda em posição de sentido, o brilho opaco de energia etérea tremeluzindo em suas cavidades oculares ocas. Conseguia sentir em sua mente, um espaço sem emoção no canto da sua consciência. Ele tinha que admitir, era um pouco assustador estar na tumba com ele. O esqueleto permaneceu perfeitamente parado e permaneceria assim para sempre, até que ele desse alguma ordem ou a mana que o sustentava fosse exaurida.

Ele teve o cuidado especial de não dar nenhuma ordem. Quaisquer movimentos drenariam suas reservas, algo que não podia se dar ao luxo agora, ele tinha planos para a magika que o infundia agora.

— Certo Nolath. — Tyron murmurou para si, esfregando as mãos. — Está na hora de você e sua senhora se reunirem, eu diria.

Uma segunda conjuração de Ressuscitar Mortos em uma noite. Seria arriscado e se ele não tivesse trazido a pequena coleção de doce de mago com ele, não teria energia suficiente para isso. O perigo não era que sua magika não fosse suficiente, mas o efeito das toxinas dos cristais em seu corpo. Quando fez planos para a noite, julgou que isso era algo que valia a pena arriscar. Seu tempo limite era curto. Em mais duas noites, estaria completamente isolado da sociedade, a menos que renunciasse à sua Classe.

Enquanto encarava as chamas tênues que queimavam nos olhos do esqueleto, ele simplesmente não conseguia pensar em desistir. Esse era o primeiro passo, o primeiro obstáculo. Um Necromante não era capaz de criar apenas alguns servos, mas um exército. Esse era meramente o começo do que era capaz de conquistar se continuasse com essa Classe.

Diante de um futuro em que se movia pelo mundo com um mago poderoso com uma horda de temíveis mortos-vivos ao seu lado, ou em que se esgueirava pela cidade como um aleijado, sem Classe Primária, ele não conseguia se imaginar escolhendo o último. Ele era um Steelarm, filho de Magnin e Beory. Ele havia passado sua vida inteira na sombra deles, como alguém poderia pensar que ele se contentaria em permanecer ali por toda sua vida?!

Ele não queria viver abaixo deles! Ele queria ser eles!

E quando varresse através das terras selvagens e destruísse fendas à frente da sua legião de mortos, eles cantariam louvores nas ruas e ele seria celebrado ao lado de seus pais como um grande Exterminador era.

Com os olhos endurecidos pela determinação, Tyron retirou outro cristal de sua mochila e o jogou em sua boca, a superfície fria da gema congelando em sua língua enquanto sentia o fio de poder fluir dela.

Isso seria difícil. Ele girou o doce na boca até pressioná-lo firmemente sob a língua, contra a parte de trás dos dentes. Com a gema presa, suas mãos começaram a se mover e as palavras de poder começaram a sair de sua língua enquanto o ar parado dentro do mausoléu se agitava mais uma vez conforme a vibração do seu poder.

Do lado de fora, o vento subiu e as nuvens começaram a se formar no horizonte, anunciando a tempestade que estava por vir.

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