
Volume 1 - Capítulo 8
Livro dos Mortos
Laurel se levantou e se esticou cedo na mansão, sem vergonha nenhuma de sua nudez. Como um garoto, ela esticou seus braços para frente e arqueou as costas, suspirando de satisfação enquanto suas articulações se soltavam com leves estalos.
— Ainda não sei por que você faz isso todas as manhãs. — Rufus perguntou da cama.
— Não quero ouvir você reclamando. — Ela disse enquanto começava a juntar suas roupas e vesti-las.
— Já está saindo? — Rufus questionou, surpreso. — Pensei que você iria ficar aqui esta manhã.
A filha do caçador revirou os olhos.
— Além do que você acha, eu tenho coisas melhores para fazer do que ficar deitada na cama com você o dia todo.
— Tipo o quê? — O recém-nomeado Espadachim perguntou, com seu rosto escurecendo.
— Como subir de nível. — Laurel terminou de se vestir e começou a amarrar suas botas, suas mãos ágeis dançando ao redor dos nós. — Estou surpresa que você ainda não esteja tentando encontrar monstros para matar agora que conseguiu o que queria.
Ela conseguiu escutar um resmungo de Rufus, enquanto ele saía de baixo dos lençóis e começava a vasculhar o quarto dela em busca das suas próprias roupas.
— Há muito tempo para isso mais tarde. — Ele murmurou. — Há outras coisas que preciso fazer primeiro.
— Tipo Elsbeth? — Laurel questionou maliciosamente.
O jovem robusto congelou por um instante antes de se virar para ela com um sorriso na face.
— É ciúmes o que eu escuto? — Ele disse. — De você de todas as pessoas, estou chocado.
Com uma breve pausa, ela caminhou na direção dele até que mal houvesse uma mão de distância entre os dois. Confrontado pelo olhar frio de sua amante, Rufus se ergueu em toda sua altura, sua estrutura muscular pairando sobre a mulher franzina. Inabalável, Laurel sorriu por um instante, antes de afundar seu punho no estômago dele ao mesmo tempo que pisava com a bota direita nos dedos do pé desprotegidos do Espadachim.
Tendo ficado sem ar ao mesmo tempo que seu pé explodia de dor, Rufus teve pouca opção exceto cair na cama, ofegando e xingando na mesma medida em que Laurel o encarava.
— Você pode ser uma boa foda, Rufus, mas não ache nem por um segundo que eu teria ciúmes de você. Você quer foder com Elsbeth? Não poderia me importar menos. Se eu tivesse outras opções, talvez nem fosse você que sairia dos meus lençóis nesta manhã.
Rufus a encarou da cama enquanto recuperava o fôlego e esfregava o pé.
— Quem mais? Tyron? Aquele viciado em livros não tem estamina.
— Eu estaria disposta a descobrir. — Ela deu de ombros. — E eu teria, se ele não tivesse me rejeitado.
— O quê?! — Rufus gritou.
— Tenha certeza de trancar a porta quando sair.
Indisposta a suportar as palhaçadas do idiota musculoso que ainda estava pelado, Laurel se virou e reuniu as últimas coisas que precisava. Com o arco e a corda em mãos, sua mochila e aljava sobre o ombro, ela saiu do quarto em alguns instantes e, segundos depois, saiu pela porta da frente após isso. A cabana de madeira que ela compartilhava com seu pai rapidamente desapareceu atrás dela enquanto corria pela floresta, com os olhos arregalados para capturar a luz fraca e seus ouvidos atentos aos sons entre as árvores. Seu pulso acelerou quando ela parou para encordoar seu arco, apoiando o arco com o pé enquanto suas mãos prendiam a corda sem que precisasse olhar.
Seu pai estava por ali em algum lugar, como sempre estava. Em dias como esses ela não poderia culpá-lo. Assim como ela, ele era viciado em caçar e poderia ficar nas florestas por uma semana antes que estivesse satisfeito. Respirando fundo, ela cheirou o ar e começou a procurar por uma presa. Ela tinha habilidades e uma Classe agora, nunca que ela ficaria esperando.
De volta na cabana, Rufus xingou violentamente enquanto pulava para vestir suas roupas. A dor no seu estômago aumentou algumas vezes, o que o fez cair de volta na cama e esperar que diminuísse. Demorou mais para sua raiva esfriar e ele já estava do lado de fora no ar frio da manhã, quando conseguiu se acalmar. Laurel era o tipo de garota que nunca guardava rancor. Seja lá o que tenha feito para irritá-la, era provável que ela já tivesse esquecido quando voltasse. Como ele precisava dela para seus próprios planos, suportaria a indignidade.
Estava tudo indo muito melhor do que ele imaginava e o jovem soltou uma risada, enquanto um sorriso grande se formava em sua face. Depois de esperar por toda sua vida, finalmente aconteceria. Seu pai já estava trabalhando na ferraria quando ele chegou, o barulho afiado do martelo na bigorna era audível a centenas de metros. Rufus não estava a fim de discutir com o velho, então entrou pela porta dos fundos para preparar um café da manhã. Ele estava na metade do pão com queijo quando percebeu que as batidas do martelo haviam parado.
— É bom ver que suas maneiras não mudaram depois do seu Despertar. — Escutou uma voz alta vinda da porta e Rufus olhou para ver a figura importante do seu pai o encarando.
Ele engoliu o pão que, de repente, ficou seco antes de responder.
— O-Oi, Pai. Não queria te incomodar no trabalho, então pensei em comer alguma coisa antes de sair.
Brindle, o Ferreiro de Foxbridge, apenas resmungou antes de entrar no cômodo e se servir de uma generosa fatia de queijo. Rufus franziu o cenho enquanto as mãos massivas de seu pai vinham em sua direção e ele virou a cabeça para esconder sua expressão.
— Onde está a mãe? — Ele perguntou.
— Ainda dormindo. — Brindle respondeu através de uma boca cheia de queijo. — Disse que seus ossos estão doendo.
Um vislumbre de raiva passou pelos olhos do jovem antes que desaparece, sumindo tão rápido como apareceu. Ele empurrou a cadeira para trás enquanto se levantava em toda sua altura para olhar seu pai nos olhos.
— Estou saindo então.
Antes que pudesse se virar para sair, seu pai falou de novo.
— Ainda planeja continuar com aquele seu plano idiota?
Raiva passou pelos olhos de Rufus enquanto cerrava os dentes, mas se recusou a cair na isca.
— Sim. — Ele disse.
O Ferreiro limpou as mãos grossas em seu avental de couro enquanto balançava a cabeça.
— Garoto idiota. — Ele resmungou. — Tudo o que você irá fazer é se matar e quebrar o coração da sua mãe. Pelo quê? Para poder sonhar em ser um Exterminador famoso na cidade?
Seu temperamento se intensificou de novo e o Espadachim lutou para se conter enquanto encarava o rosto coberto de fuligem do seu pai. Sem confiar em si mesmo para responder, ele simplesmente ficou parado, com um olhar furioso e os punhos cerrados ao seu lado. Seu pai não se importou com essa exibição de raiva. Agora adulto e com sua Classe, Rufus era fisicamente forte e imponente, mas ao lado do Ferreiro era como um filhote ao lado de um urso. Apesar de não possuir uma Classe de combate, Brindle era provavelmente a segunda pessoa fisicamente mais forte em Foxbridge, perdendo apenas para Magnin Steelarm. Se quisesse, poderia agarrar seu filho com uma mão e arremessá-lo pela porta. E ambos sabiam disso.
Brindle encarou seu filho enquanto aguardava. Quando ficou claro que Rufus não o desafiaria, inclinou-se para o lado e cuspiu antes de voltar para a ferraria, com a porta rangendo atrás dele ao sair. Rufus não se moveu por vários segundos, respirando profundamente enquanto se acalmava. Ele não conseguiria nada ao tentar lutar com seu pai, aprendeu essa lição da maneira mais difícil. Sua hora chegaria, só não era agora. Quando se acalmou, terminou de comer e saiu de casa, seu humor se aliviou quando pisou com o pé para fora dela. Ele se virou para olhar para a janela no segundo andar, atrás da qual sua mãe descansava por alguns segundos antes de virar a esquina da casa dos Willison.
Com um último suspiro profundo, deixou sua família de lado. Os próximos dias seriam cruciais para que realizasse seu sonho e se recusava a desperdiçar a oportunidade. Ele não seria enterrado em Foxbridge, trabalhando como um escravo na forja com Brindle até que o bastardo morresse. Ele seria um Exterminador, seria um escudo entre a escuridão e a luz. Quando voltasse para casa, seria rico como um rei e poderoso como Magnin, então as coisas mudariam.
Sua mente estava cheia de visões do seu retorno triunfante, um pequeno sorriso apareceu em sua face enquanto caminhava pelo tráfego da manhã. Distraído, chegou ao seu destino antes que percebesse. A casa dos Ranner, onde Elsbeth vivia com os pais, irmãos e duas irmãs, estava anormalmente quieta quando chegou e ele rapidamente retirou as fantasias de sua mente para que se concentrar.
Tentando parecer indiferente, o jovem caminhou por mais algumas casas antes de se virar em uma rua lateral, checando atrás dele e depois pulando a cerca à sua direita. Movendo-se rapidamente, ele continuou andando e, depois de pular mais uma cerca, encontrou-se no pequeno pátio dos Ranner do lado de fora da janela de Elsbeth. Ele ficou tenso por um instante, escutando por qualquer sinal de que havia sido descoberto, mas não ouviu nada além de um choro vindo do quarto à sua frente. Ele se aproximou agachado da janela e bateu gentilmente contra o vidro, com cuidado para não fazer muito barulho. Não que isso tenha ajudado muito. Alguns momentos depois, Elsbeth abriu a janela e abraçou o pescoço dele.
— Fui rejeitada pela deusa! — Ela soluçou no ombro dele. — A mãe sagrada me expulsou do santuário. O que eu faço, Rufus?!
Ele levantou os braços gentilmente e abraçou a garota enquanto a confortava, tentando evitar que sua voz o traísse com o grande sorriso em sua face.
‘Que desperdício seria se você ficasse presa na Igreja da Pureza, curando aleijados por migalhas. Isso será melhor, você verá.’
Também ajudou que ele teria uma das poderosas e raras Classes de curandeiros para o seu time de Exterminadores em criação.
—
De volta em sua casa, Tyron acordou e imediatamente sentiu uma dor afiada em suas costas.
‘E por que diabos está tão escuro?! Pode ser de noite ainda! Eu dormi um dia inteiro?!’
Apenas depois de agitar seus braços, ele percebeu que não conseguia enxergar porque havia um papel grudado em sua face, cobrindo seus olhos. Quando retirou o papel, a luz retornou e ele percebeu que havia adormecido na mesa de novo. Inúmeras páginas cobertas pelos seus rabiscos elegantes, apenas levemente manchadas por sua baba. Ainda sonolento, ele empurrou a cadeira para trás e cambaleou para fora, com um enorme bocejo saindo da sua boca enquanto saía. Ele cambaleou pela esquina e encontrou o chuveiro externo do seu pai, instalado por causa da insistência de sua mãe por conta do fedor do homem depois das suas sessões de treinamento ao ar livre.
Tyron quase esqueceu de se despir, mas se conteve logo antes de pisar na pedra polida e acenar com a mão em frente à pedra de encantamento. Alguns segundos depois, uma rajada de água fria caiu sobre ele, acordando-o imediatamente.
— Caralho! — Ele gritou, esfregando seus braços contra seu torso repentinamente congelado, tentando trazer algum calor à sua pele.
Depois de uma esfregada vigorosa, conseguiu se livrar do acúmulo de poeira e teias das atividades da noite anterior. Apenas quando não conseguiu mais aguentar o frio, saiu de baixo do cano e acenou com a mão na frente da placa mais uma vez, desligando o fluxo de água. Agora, ele finalmente sabia por que seu pai queria uma pedra de fogo instalada junto da pedra de água atrás da placa. Sua mãe nunca o permitiu, pois era muito mais econômica com o dinheiro da família, alegando que ter um chuveiro externo encantado já era um gasto extravagante. Recordá-la de que foi ela quem insistiu que fosse instalado causou mais mal do que bem para Magnin, o que nunca pareceu impedi-lo. Pensar nas brigas intermináveis e bondosas de seus pais trouxe um sorriso ao rosto do jovem, enquanto esperava o sol secá-lo antes de entrar em casa para encontrar roupas limpas.
Muito refrescado, ele vasculhou em busca de algum café da manhã antes de voltar para suas anotações. Mordiscando distraidamente o pão dormido, lembrou-se rapidamente do que estava fazendo.
Feitiçaria. Mais especificamente, o feitiço Ressuscitar Mortos. O feitiço assinatura da Classe Necromante e sua arma mais poderosa. Se ele decidisse manter sua Classe e tentar sobreviver por conta própria, fora da lei, este feitiço o faria prosperar ou o quebraria. A descrição da Classe era clara, ele não conseguiria experiência nem subir de nível lutando, não importava se massacrasse mil monstros por conta própria, ele não ganharia nada. A única forma de aprimorar era ao criar mortos-vivos e fazê-los lutar em seu lugar, o que significava que seus lacaios precisariam ser os mais poderosos possíveis.
Quanto mais pensava sobre isso, mais certeza tinha de que haveria uma infinidade de coisas que poderia fazer para melhorar os restos mortais, antes mesmo de conjurar o feitiço. Se fosse um mestre alquímico, poderia haver algumas formas de fortalecer os ossos ao utilizar algum tipo de solução ou infusão. Se fosse um encantador poderia ser possível saturar os restos mortais com magia, ou fazer uma centena de outras coisas para melhorar as condições deles. Tudo isso estava fora do seu alcance no momento, ele não tinha conhecimento nem recursos para fazer isso acontecer, então tinha que confiar na única coisa que compreendia e era bom: Feitiçaria.
O Necromante em formação continuou a morder o pão duro enquanto era atraído de volta ao trabalho, com sua mão livre tateando a mesa em busca da sua caneta e da tinta enquanto pensava. Em pouco tempo estava de volta, rabiscando as páginas e tentando desvendar os segredos do feitiço complexo, uma camada por vez. O treinamento de sua mãe ganhava vida sempre que fazia esse tipo de trabalho. As longas horas estudando frases, o trabalho árduo de se debruçar sobre o aparentemente infinito estoque de diagramas dela. Se tivesse que ser honesto, era duas vezes mais cansativo que o treinamento com espada do seu pai, mas ele gostava muito mais.
— Concentre-se, filho! — Sua mãe batia na sua cabeça sempre que começava a se distrair. Quando ele exibia para ela um olhar indignado, ela sorria amplamente e a ira dele se dissipava quando ela bagunçava seus cabelos. — Se você se tornar um mago, não vou te deixar lançar feitiços por aí como um Bruxo de segunda categoria. Um verdadeiro Mago compreende suas magias, não apenas as utiliza. É assim que você aumenta o nível dos seus feitiços.
— E se eu não conseguia a Classe Mago? — Ele conseguia se recordar do jovem Tyron protestando. — Isso será um completo desperdício de tempo!
Sua mãe o encarou nos olhos, sentada ao lado dele na mesa, o som do seu pai praticando com a espada do lado de fora era o único outro som que conseguiam escutar.
— Mas você pode ser um Mago. E, se for, quer ser medíocre ou se destacar? — Ela perguntou.
Diante disso, ele tinha pouca escolha a não ser se dedicar aos estudos até que ela estivesse satisfeita e, no final, ele continuou com eles mesmo quando ela não estava em casa. Apesar de nunca ter aprendido muitos feitiços, estava consciente de que seu entendimento fundamental da estrutura de feitiços e Magia era pelo menos decente para sua idade, especialmente se comparado às crianças de províncias distantes. Seu status reconhecendo que ele possuía alguma compreensão do Mistério da Modelagem de Feitiços era toda a prova que precisava.
Ele conseguia sentir esse Mistério agindo dentro dele agora, uma tênue sensação que sumiria se tentasse se concentrar nela. Não se entendia muito bem como eles ajudavam as pessoas em suas tarefas, apenas que o faziam. Desde que o recebeu e ele apareceu em sua folha de status, ele conseguia dizer que estava o auxiliando de uma forma intangível. Ele não se preocupou em se concentrar nele agora, o feitiço em si já atraía toda sua atenção. Ele precisava aumentar o nível do seu feitiço Ressuscitar Mortos e para conseguir isso precisava de duas coisas: prática e compreensão. Seria difícil praticar, ele precisava de cadáveres relativamente frescos para isso e não era como se pudesse ir ao mercado para conseguir um. Na verdade, os dois esqueletos que ele preparou noite passada poderiam ser os últimos nos quais conseguiria colocar as mãos. Com sorte, conseguiria subir o nível do feitiço mais uma vez através dos seus estudos antes de precisar ressuscitar seus próximos servos.
Havia algum debate sobre se era o nível do feitiço que aumentava seu poder, ou se era o aprimoramento dos próprios Magos que era refletido na mudança de nível. Sua mãe acreditava que partes de ambos estavam certos.
— O Invisível recompensa seus esforços. — Ela dizia. — Se você aprender e crescer, se esforçar e desenvolver suas habilidades, então receberá mais poder para corresponder às suas necessidades.
Tyron estava inclinado a acreditar em sua mãe quando se tratava dessas coisas, afinal quem teria uma compreensão melhor do funcionamento do Invisível do que um Exterminador de alto nível? O feitiço Ressuscitar Mortos de nível mais alto significaria esqueletos mais poderosos, não só porque sua própria habilidade melhoraria, mas porque a mão do Invisível o pressionaria um pouco mais, o que poderia fazer toda a diferença.
Por várias horas, continuou rabiscando a página até que a fome o forçou a largar sua caneta e procurar uma refeição. Ele se levantou da mesa e se esticou, os estalos dos seus ossos provocaram uma leve risada. Seu pai lamentaria que ele estava andando ainda mais na “cultura de um viciado em livros”, como ele mesmo havia dito, por ficar sentado curvado sobre a mesa por tanto tempo. Tyron há muito suspeitava que Magnin ainda tinha esperanças de que seu filho seguisse seus caminhos com uma Classe do estilo Guerreiro, mas ele só havia se tornado cada vez mais estudioso com o passar dos anos.
Era próximo do meio-dia quando ele emergiu no sol mais uma vez e caminhou pela R. Leaven, mantendo-se na beira da rua e permitindo que o trânsito passasse por ele. Tentou ser discreto ao entrar na pousada, mas deveria saber que isso era um desperdício de tempo. Ele estava a mais de três passo da porta quando a voz do seu tio ecoou por toda a sala comum.
— AHA! — Ele gritou. — Se não é o meu sobrinho favorito!
Imediatamente, metade dos olhos na sala se voltaram para ver o jovem parado timidamente perto da parede, observando-o por alguns instantes antes de voltarem para suas refeições, o murmúrio da conversa aumentou de volta para seus níveis anteriores. Indiferente ao humor geral do cômodo, o grande dono da estalagem atravessou a sala a passos largos, abrindo caminho entre as mesas até que batesse nos ombros do sobrinho com as mãos.
— Como você está, garoto? — Worthy perguntou, olhado sinceramente para Tyron com olhos claros.
O jovem estremeceu sob a pressão daqueles braços poderosos. Ele poderia administrar uma pousada agora, mas Worthy já foi um Exterminador e um orgulhoso Martelador. Seus status físicos não eram uma piada e não era incomum que o homem se esquecesse de se controlar de vez em quando.
— Eu-Eu estou bem, tio. — Tyron disse, tentando não olhar nos olhos do tio. — Só estou com um pouco de fome e pensei que uma refeição quente seria agradável.
Worthy jogou o braço ao redor dos ombros dele e riu enquanto o guiava em direção à cozinha.
— É claro, uma refeição quente cura qualquer mal! Especialmente quando cozinhada pela minha esposa! Juro pelas pedras do próprio Sazz que já vi o ensopado dela unir carnes e consertar ossos. Não é mesmo, querida?
Sem se impressionar com as brincadeiras do marido, Megan o encarou com um olhar sério antes de exibir um olhar mais acolhedor para Tyron.
— Bom dia, rapaz. — Ela disse calorosamente. — Entre e eu te dou sua comida. Quanto a você, é melhor voltar para atrás do balcão antes que minhas colheres de madeira encontrem um tipo diferente de pedras.
Ela acenou com o instrumento ameaçador e Worthy recuou, com as mãos levantadas.
— Ameaçado? Pela minha própria esposa? Estou magoado! — Ele fingiu uma expressão dolorida e Megan bufou.
— Eu te dou um machucado. — Ela ameaçou antes de se virar e voltar ao trabalho, suas mãos passando rapidamente pela bancada enquanto cortava, mexia e provava os diferentes pratos que chiavam no fogão.
Com uma última piscadela para o sobrinho, Worthy voltou para a sala comum e, apenas alguns instantes depois, Tyron escutou uma risada estrondosa enquanto ele trocava piadas com alguns fregueses e o jovem não perdeu o sorriso que enfeitava o rosto de sua tia.
— Ele sempre teve jeito com as pessoas. — Ela disse enquanto servia uma porção generosa de ensopado, rasgando um pedaço de pão fresco e jogando- o na tigela antes de colocá-la na sua frente. — É por isso que suspeito que ele esteja certo em estar preocupado com você.
Ela olhou para ele com ternura e Tyron sentiu culpa e vergonha surgirem em seu peito. Sua família eram boas pessoas e ele estava fazendo com que se preocupassem com ele. Não era uma sensação agradável, mas ele não sabia o que mais poderia fazer.
— Ficarei bem, Tia Megan. — Ele tentou soar confiante enquanto tentava tranquilizá-la. — Só preciso de mais alguns dias para me organizar e conseguiria seguir em frente. As coisas simplesmente não ocorreram da forma como eu esperava, só isso.
Ela suspirou e o puxou para um abraço.
— Eu sei que você ficará bem, rapaz. — Ela disse. — Você é mais inteligente do que tem o direito de ser e sei que vai se recuperar, não importa o que os Deuses joguem no seu caminho. Você só precisa ter confiança em si mesmo. Não é uma Classe que define uma pessoa, apenas os tolos pensam dessa forma.
Ela o afastou.
— Coma e vá descasar. Isso é tudo em que precisas se concentrar. Direi para Worthy ter certeza de que você tenha seu espaço.
Ele assentiu e comeu em silêncio.
…