
Volume 1 - Capítulo 7
Livro dos Mortos
O Mausoléu Arryn cumprimentou Tyron de braços abertos. Pelo menos, um portão da frente facilmente arrombado. Pelo que ele conseguia dizer, ninguém percebeu sua intrusão anterior. O túmulo da velha Myrrin permanecia claramente adulterado, a terra visivelmente mexida e a profundidade do local muito menor do que antes, afinal havia retirado o caixão e não o substituiu com terra. Ele não conseguia ver o que poderia fazer sobre isso por enquanto e rapidamente recuou de volta para o mausoléu.
Não queria ser encontrado espreitando ao redor da cova remexida. Teria algo que gritava mais “Necromante” do que isso?! Espreitar-se nas sombras vestindo roupas escuras não era exatamente seu hábito, mas a habilidade Furtivo valia a pena e o ajudava com o processo de permanecer escondido. O verdadeiro truque foi sair da cidade furtivamente sem ninguém perceber. Os marechais estavam mais visíveis desta vez, fazendo sua presença em Foxbridge e mostrando seus rostos, como um aviso a qualquer um que pudesse desconfiar de suas Classes. A exibição foi enervante para Tyron, mas ele conseguiu se controlar o suficiente para agir casualmente até que estivesse fora de vista.
Comparada às ruas escuras da cidade, ele quase se sentia mais confortável em meio à poeira e teias desta construção de pedra selada. Aqui dentro ele não tinha absolutamente nada a esconder.
— Luz. — Ele entoou.
Com um gesto familiar, conjurou um globo de luz suave e o suspendeu no teto desgastado acima. A cena resultante não era bonita. Seu zumbi permanecia onde o havia deixado, meio caído para fora do caixão, a carne podre quebrada e, em alguns pontos, desprendendo-se do corpo e caindo no chão. Ele estremeceu de volta e se sentiu grato por ter se recordado de colocar os tampões nasais antes de abrir a porta. Havia pouca dúvida de que, se sentisse o cheiro, estaria engasgando-se com o fedor de podridão. Estava quase com medo de respirar, caso sentisse no ar o gosto de algo que preferia não sentir.
Se tivesse tempo, talvez mais tarde devolveria a antiga matrona para o seu local de descanso. Ela já havia feito o suficiente por ele e ele não precisava ressuscitá-la como um zumbi de novo. Estava muito mais interessado em um tipo de servo mais poderoso.
Segurando suas mangas pelo rosto, Tyron se aprofundou na cripta, agitando a vassoura preparada para limpar as teias de aranha. Ele não queria ser mordido, mas, ao mesmo tempo, não queria explicar por que estava coberto por camadas grossas de teias e poderia encontrar alguém quando fosse visto voltando para a cidade. A cripta era dividida em três câmaras principais, cada uma contendo membros de diferentes gerações da família do Prefeito. Os restos dos membros mais velhos aqui tinham pouco mais de cem anos, os quais presumiu terem virado ossos há muito tempo. Quanto aos falecidos mais recentes, havia uma chance com eles.
Os membros da família foram enterrados em caixões simples de pedra feitos de lajes, cada um marcado na lateral com os detalhes da pessoa que o abrigava. Não demorou muito para que ele encontrasse o membro mais recente deste lugar de descanso exclusivo.
Nolath Arryn.
Marido, Pai e Amigo.
O seu apoio era como uma rocha firme em águas turbulentas.
Sentiremos sua falta.
5348 – 5439.
Nolath havia sido o avô do atual prefeito, um homem robusto que viveu até a idade avançada de noventa e um anos. Uma idade não tão incomum para um Fazendeiro alcançar, a Classe aumentava de forma significativa a Constituição, especialmente depois de avançar. Talvez toda essa resistência ajudasse a preservar os ossos? Ele só poderia esperar. Tyron olhou para a tampa pesada de pedra do caixão com uma expressão cansada no rosto. Ele não esperava que uma Classe que envolvesse magika tão poderosa envolvesse tanto trabalho físico! Ele se atrapalhou com suas vestes por um instante antes de pegar o atiçador de fogo de ferro fundido que havia amarrado na sua perna antes de sair de casa. Esperava que o objeto não quebrasse…
Não quebrou, mas suspeitava que chegou perto. Depois de quase duas horas raspando para frente e para trás, tentando limpar a poeira incrustada de quase uma década e, em seguida, forçando cuidadosamente a tampa, ele conseguiu movê-la. O que se seguiu foi um esforço extenuante enquanto tentava empurrar a tampa do caixão sem fazer muito barulho. Algo difícil, já que raspar pedra tendia a ser nada silencioso. Então, veio o problema de abaixar a tampa até o chão sem derrubá-la. Ele conseguiu, mas por pouco.
O jovem Necromante se sentou e ofegou por ar, com a pele de suas mãos estando mais clara do que antes. Os arranhões ardiam enquanto a poeira onipresente no ar obstruía os ferimentos. Com um suspiro, ele se levantou e remexeu na sua bolsa, retirando um odre de água que usou para limpar suas mãos. Tremeu enquanto a água fria escorria nos arranhões, mas não podia correr riscos, precisava que suas mãos estivessem em boas condições para a próxima parte.
Assim que acalmou sua respiração e parou de suar, ele voltou para o caixão para analisar o estado da sua nova cobaia. Surpreendentemente bom, era a resposta. Não bom, mas melhor do que ele esperava. Nolath foi enterrado há quase uma década e, claramente, estava em um estado avançado de decomposição. A carne estava quase completamente apodrecida, desprovida de qualquer umidade, parecida com uma teia seca grudada nos ossos. O esqueleto em si estava em uma condição muito melhor do que ele esperava. Tinha medo de que eles tivessem sido reduzidos a pó ou quebrados além do reparo, mas parecia que a constituição robusta que o Fazendeiro havia cultivado em vida havia de fato ajudado a preservá-los, ou talvez os ossos fossem mais resistentes do que ele pensava?
Embora não fossem perfeitos. Os ossos estavam visivelmente amolecidos em alguns lugares e muitas fraturas pequenas poderiam ser vistas com uma inspeção mais de perto. Tyron escutou o que suas habilidades o diziam e a impressão que recebeu não era ideal, mas era boa o suficiente. Os ossos serviriam para fazer um esqueleto, com algum trabalho. Não seria um excelente esqueleto, ou até mesmo um bom, mas seria um esqueleto.
Havia poucas dúvidas de que havia coisas que poderiam aprimorar as condições dos restos mortais e ele se sentiu frustrado por não saber o que eram. Deveria haver formas de limpar apropriadamente a carne e a sujeira restante. Ácido talvez? Ou isso seria muito forte e destruiria o esqueleto? Também deveria ser possível fortalecer os ossos de alguma forma. Talvez utilizando alquimia ou algum tipo de magika? Ele vasculhou seu cérebro, mas nada veio à mente. Ele só poderia suspirar de frustração. Mais um tópico que precisava pesquisar com maior profundidade. Precisava de informações sobre os cuidados e tratamentos dos restos mortais assim como os materiais para realizar o que descobrisse. Nenhuma dessas coisas seria fácil de encontrar e atrairia uma grande quantidade de suspeita para si quando saísse para procurar.
A vida de um necromante era difícil…
Por agora, Tyron só poderia guardar esses pensamentos e lidar com o aqui e agora. Usando sua faca, raspou os ossos com máximo cuidado, cauteloso em causar qualquer dano à sua cobaia preciosa. O trabalho era doloroso e lento, mas, quando completou, ele conseguiu olhar para os ossos agora quase limpos de Nolath Arryn.
Agora era a parte difícil. Depois de uma breve pausa para flexionar e massagear os dedos, o Necromante começou a costurar as fibras de magika que permitiriam que o conjunto solto de ossos se movesse. Ele fez inúmeras anotações de como poderia proceder e as consultou com frequência enquanto trabalhava. Acontece que o corpo humano era bastante complexo, quem diria? Os fios, quando tecidos de forma correta, se tornariam o tendão e músculo que permitiriam ao esqueleto se mover, esse tanto ele sabia do conhecimento que recebeu quando aprendeu a habilidade. Também lhe foi concedido um conhecimento básico de como formar articulações usando fios. O que não lhe foi concedido foi a compreensão de como todo o sistema de fios funcionaria em conjunto. Por exemplo: ele sabia que precisava de uma articulação no joelho e no tornozelo, mas e os pés? Como isso funcionava? E como tudo isso se conectava?
Por mais que Tyron adorasse um desafio, não pôde deixar de desejar que pudesse estalar os dedos, inserir um pouco de magika nos ossos e eles se levantassem, prontos para cumprir qualquer comando dele. Apesar de tal pensamento ser ridículo. Como ossos deveriam se mover por conta própria? Ele deveria fornecer a magika necessária para eles se moverem constantemente? Seria drenado em segundos! E quanto a animar a consciência dos ossos? Ele simplesmente criaria um em instantes. Fazer novos servos saírem da cova em poucos segundos era pura fantasia. Apenas através de trabalho e preparação meticulosos, servos mortos-vivos úteis seriam criados.
E era trabalhoso. Não sendo o tipo de pessoa que tolerava falhar em assuntos arcanos, Tyron amaldiçoou e resmungou para si mesmo com cada vez mais frequência enquanto se concentrava no seu trabalho, seus dedos dançando no ar acima dos ossos enquanto ele costurava. Várias vezes ele foi forçado a cortar os fios e refazer certas articulações. Ele teve que fazer os quadris três vezes. Três! Quando terminou suas mãos estavam uma bagunça dolorida, ele suava profundamente e uma dor de cabeça latejava em suas têmporas. Ele cambaleou para longe do caixão de pedra e pegou seu odre de água. Bebeu um gole profundamente antes de soltar um suspiro satisfeito.
Ao considerar que essa era sua primeira tentativa de verdade com Costura Óssea, ele ficou satisfeito com o resultado. Com prática e pesquisa, faria vastas melhorias em sua velocidade e eficiência na criação dos fios, assim como ser capaz de aumentar a qualidade. Por ora, estava razoavelmente confiante de que o esqueleto conseguiria se mover assim que fosse ressuscitado. Apesar de todo o esforço, o produto era quase invisível aos olhos. Quando puxados com força, os fios se encolheram e grudaram nos ossos, desaparecendo da vista. O resultado pareceria como se ossos se movessem quase sem estarem conectados, mas isso estava longe da verdade.
Ele virou o odre de água em suas mãos e usou a umidade para limpar seu rosto. Era algo pequeno, mas se sentiu muito refrescado. A poeira era tão espessa neste pequeno mausoléu que se sentia constantemente obstruído e sufocado por ela, portanto, mesmo um momento de alívio era bom. Horas de escuridão se passaram enquanto ele trabalhava com seu projeto e não havia muito tempo sobrando antes do amanhecer. Tyron decidiu deixar os restos mortais por ora. Os fios mágicos se deteriorariam com o tempo, mas durariam com facilidade o suficiente para que ele retornasse na próxima noite e ressuscitasse seu novo servo.
O que ele deveria fazer com o tempo que tinha sobrando? Certamente não poderia desperdiçá-lo. Ele voltou seus olhos para o caixão selado ao lado daquele em que estava trabalhando.
— Bem, Nolath, acho que devemos ver como sua senhora está esses dias.
Quando os primeiros raios de luz começaram a surgir do horizonte, Tyron havia retornado à casa da sua família. Exausto além das palavras, coberto de poeira, teias e sujeira do mausoléu, ele se despiu e bombeou um pouco de água para se lavar, chegando até a se esfregar com um dos preciosos sabões da sua mãe antes de colapsar na cama. O sono rapidamente veio, cansado como estava, e não demorou muito para que seu ronco suave fosse o único som na casa.
***
O Prefeito Arryn acordou cedo nesta manhã, como fazia toda manhã. Levantou-se da cama antes do amanhecer, com cuidado para não acordar a esposa enquanto se vestia no escuro, por hábito se guiando mais com as mãos do que com os olhos. Assim que seus pés estavam firmemente plantados em suas botas, foi acordar as crianças de suas camas. Elas piscaram como corujas quando ele se abaixou e as sacudiu gentilmente antes de saírem de suas camas e se prepararam para o dia. Ele sorriu e acenou de aprovação quando seus dois meninos e uma garota o encontraram do lado de fora alguns minutos depois. O mais jovem tinha dez, era importante que eles aprendessem bons hábitos na juventude, para que estivessem preparados para qualquer Classe e futuro que escolhessem.
Então, assim como havia feito com seu irmão quando era mais jovem, ele os liderou nas tarefas matinais da fazenda, cuidando dos animais, abrindo os portões, varrendo, limpando, ordenhando, orientando os peões quando chegavam, inspecionando as ferramentas e um milhão de outras tarefas minúsculas, mas importantes que mantinham a fazenda funcionando suavemente. Nunca havia tempo suficiente para terminar tudo, mas, de acordo com a tradição da família, se você trabalhasse duro, chegaria muito perto.
Quando o sol subiu no horizonte a família já havia trabalhado várias horas e o Prefeito recolheu a crianças e as levou para dentro, onde a Sra. Arryn já havia se levantado e preparado um café da manhã farto.
— Muito trabalho hoje? — Merryl perguntou.
Ele resmungou.
— Muito, como sempre. Os Magos de Água chegam à cidade hoje e você sabe quanta confusão isso sempre causa.
As crianças sorriram brilhantemente com as palavras dele e compartilharam sorriso animados ao redor da mesa. Observar os Magos de Água trabalharem nos campos era uma atração anual. Os Magos poderiam conjurar jatos de água enormes que disparariam no céu, fazendo chover sobre as plantações ou os combinavam para encher os reservatórios.
Com um olhar pesaroso nas crianças, Merryl caminhou até atrás do marido e massageou os ombros dele.
— Não se esforce demais, querido. — Ela avisou, sabendo que seria inútil. — Há muito trabalho.
Ele sorriu e segurou as mãos delas.
— Sou resistente como ossos de montanha, mulher, pare de reclamar.
Ele apertou as mãos dela em um gesto rápido de carinho, antes de se virar e se levantar do seu assento. Pegou outra fatia do pão fresco e a untou com bastante manteiga, enquanto voltava para o quarto.
— Não se esqueça que as crianças têm aulas hoje. — Ele disse enquanto trocava suas roupas de trabalho para algo considerado remotamente respeitável. Ele poderia ter a Subclasse Prefeito, mas ainda era um Fazendeiro, droga. Ele se recusava a se vestir como um sujeito qualquer da cidade para serviços oficiais. Assim que ficou pronto, despediu-se da sua família e selou seu cavalo para a viagem até a cidade.
Depois de uma cavalgada curta e monótona, amarrou o cavalo no estábulo do lado de fora da cidade e caminhou com passos rápidos até a prefeitura. Uma grande descrição para uma construção relativamente modesta que abrigava alguns escritórios, a sala de registros e o cofre para coleta de impostos.
— Bom dia, Prefeito. — Uma voz rouca o cumprimentou no instante que entrou pela porta.
O Prefeito não mudou seu ritmo enquanto caminhava em direção à sua mesa, acenando para que o capitão dos marechais o seguisse.
— Primeiro, me chame de Jiren. — Ele disse. — Trabalhamos juntos há oito anos, Markus. Quando você planeja abandonar as formalidades?
Ele se acomodou atrás da sua mesa e suspirou quando notou a pilha generosa de papéis organizada em uma pilha arrumada, aguardando sua atenção. Ririta claramente já havia chegado nesta manhã. Como uma cidade com tantas vacas como pessoas poderia produzir tanta papelada?
— Ainda preciso daquela lista do senhor, Prefeito. — Markus disse, recusando-se a ceder ao seu respeito pelo cargo de Prefeito, não importava o quanto a família Arryn quisesse o contrário.
Jiren pensou por um momento, depois esticou a mão para o lado e abriu uma gaveta. De dentro dela, removeu uma folha de papel coberta com sua própria letra caprichada e funcional.
— Aqui está, Markus. Cada criança que pareceu de alguma forma suspeita durante a cerimônia. Não sei por que você não confia em sua própria lista, não é como se eu não tivesse trabalho suficiente para fazer este ano.
Ele gesticulou com a mão para a pilha de papéis com que tinha que lidar e passou os olhos pela lista mais uma vez. Provavelmente, todos aqueles nove eram de crianças que ficaram sobrecarregadas com a situação ou que imaginariam que alguns conseguiriam uma ótima Classe de “Exterminadores de Deuses dos Céus” e acabaram sendo Pastores. Todos os anos, havia alguns Despertares desagradáveis para aqueles que desperdiçavam suas juventudes, ou indivíduos simplesmente infelizes com as Classes que receberam. O truque era separar aqueles que estavam apenas infelizes daqueles que buscariam infringir a lei.
Assim que estava para entregar a folha de papel para a mão estendida de Markus, ele hesitou.
— Só um segundo. — Ele disse. — Vou adicionar um nome.
Provavelmente não era nada. Definitivamente não era nada, mas não custava manter um pouco de atenção extra no garoto. Seus pais lançavam uma sombra enorme em Foxbrigde, sendo os únicos Exterminadores de alto nível de toda a província. Ele, sem dúvida, teria grandes expectativas por sua Classe. Jiren conseguia se recordar do choque no rosto do pobre garoto quando ele voltou a si. Rosto pálido e suando, mãos apertando a Pedra do Despertar com força. Havia visto isso muitas vezes.
— Apenas para ter certeza. — Ele disse enquanto escrevia o nome: “Tyron Steelarm” abaixo do último nome na folha antes de entregá-la.
Markus passou os olhos pela lista e assobiou quando viu o nome no fim da lista.
— Puuuta merda. — Ele arrastou e balançou a cabeça. — Se realmente trouxermos esse garoto aqui, o que você acha que acontecerá, Prefeito?
O Prefeito nem queria pensar nisso. Algumas vezes, era difícil conciliar Magnin e Beory com suas reputações. O casal era humilde, cheio de risadas e era um prazer interagir com ele sempre que os encontrava. Porém, isso não significava que não pudessem enterrar Foxbridge em uma avalanche de violência, se quisessem.
— Não chegará a isso. — Ele disse firmemente. — Só quero ficar de olho nele. Há muita pressão sobre o garoto e não quero que ele faça algo estúpido e arruíne seu futuro enquanto seus pais estão fora da cidade. Só isso.
…