Livro dos Mortos

Volume 1 - Capítulo 6

Livro dos Mortos

Várias horas depois, Tyron acordou e se encontrou deitado no chão, todo seu corpo rígido e dolorido por ter descansado no chão duro de madeira. Acima dele os tesouros dos seus pais brilhavam em seus lugares afixados nas paredes, mas ele não se importava com eles. O influxo de status que recebeu o havia mudado para sempre. Ele se maravilhou com a mudança, com a forma como sua mente parecia mais afiada e clara, seu corpo mais resistente e até mesmo seus pensamentos mais firmes e seguros.

Para alguém que passou apenas para o nível 2, ele ganhou muitos atributos, muito mais do que o normal. Sua Classe já oferecia muitos pontos apenas em seu estado inicial, cinco pontos estavam acima da média, claro, mas seis da sua Subclasse era algo inédito. Ele pensou mais sobre isso enquanto se levantava do chão.

Considerando que ainda não sabia como subir o nível de Anátema, ou pelo menos, as ideias que tinha eram todas ruins, fazia sentido que as recompensas fossem altas. Ele não sairia profanando locais sagrados ou procurando membros queridos da comunidade recentemente falecidos para ressuscitá-los como mortos-vivos. A ideia era ser discreto, não irritar todo mundo na cidade e sair sem deixar rastros. Enquanto se levantava e se recompunha, Tyron organizou seus pensamentos e tentou se acalmar. Ele leu sobre esse tipo de sentimento, a euforia que vinha do primeiro aumento de nível.

Os status de um humano cresciam naturalmente conforme envelhecia, mas sempre era tão lento que era difícil de perceber a diferença quando mudavam. Após receber sua primeira Classe e receber três ou quatro pontos de status de uma vez, a sensação era incrível. Depois de receber incríveis onze pontos, assim como duas habilidades novas, não era de se admirar que ele tivesse sido incapaz de permanecer consciente.

Normalmente, uma pessoa preferiria se manter discreta depois de uma mudança tão dramática em seu corpo e capacidades, permitindo que se ajustasse ao seu novo normal, mas Tyron rejeitou essa linha de raciocínio. Ele não tinha tempo para ir devagar, hoje à noite era outra chance para ele testar suas novas habilidades e ele não a desperdiçaria.

Ele se certificou de destruir o papel do ritual coberto com suas informações de Status antes de sair do cômodo, queimando o papel até as cinzas usando uma das armas encantadas com chamas de seu pai que estava na parede. Meticulosamente, reuniu as cinzas e as espalhou na lareira. Como não morava muito ali, não havia brasa no momento, mas em breve consertaria isso. Assim que o resquício do papel fosse espalhado entre o resto de lenha, ninguém suspeitaria do ritual que ele realizou.

Como era o início da tarde, Tyron correu para fazer seus preparativos para à noite. Reuniu o que seus pais haviam deixado para ele, normalmente muito mais do que ele precisava, mas se sentiu grato pela atitude descuidada deles em relação ao dinheiro. Com o dinheiro em maços, correu para o mercado para adquirir o que precisava. A cidade ainda estava sofrendo com a noite de folia anterior quando caminhou pelas ruas de paralelepípedos. As pessoas caminhavam devagar, cuidando de suas dores de cabeça causadas pela ressaca e, mais de uma vez, ele foi forçado a evitar o caminho para não pisar nas manchas suspeitas no chão.

Ele estava um pouco temeroso de que o mercado não estaria aberto, mas ficou agradavelmente surpreso de encontrar as barracas e lojas funcionando. Fez suas compras sem problemas, recusando-se a parar e pechinchar, para o grande desapontamento dos comerciantes. Eles aumentavam sua proficiência muito mais rápido com pechinchas vigorosas e era considerado rude não dar a eles a oportunidade de demonstrar suas habilidades, mas ele não queria desperdiçar qualquer segundo.

Assim que chegou em casa ele colocou os bens na mesa, separando a lenha que havia pegado de trás da pousada do seu tio e acendendo o fogo imediatamente. Ele observou a madeira queimar e crepitar com satisfação, antes de prosseguir para o seu próximo projeto. O açougueiro trocava ossos com frequência, normalmente comprados para animais de estimação roerem e coisas do tipo, mas ficou um pouco surpreso quando o jovem Tyron pediu a carcaça inteira de um cordeiro. O garoto não vivia sozinho? Talvez estivesse fazendo uma celebração depois de ter recebido sua Classe, ou dando as boas-vindas aos pais? Eles ficariam muito felizes de ver um filho tão prestativo.

Com o coração cheio de sentimentos calorosos, o açougueiro o entregou o produto enquanto Tyron analisava criticamente a estrutura óssea.

Com a carcaça na mesa da cozinha, Tyron sentia-se ansioso para começar a trabalhar. Primeiro, meticulosamente inspecionou cada centímetro do antigo cordeiro, passando as mãos e olhos por cada tendão, cutucando e mexendo nos ossos e articulações enquanto tentava compreender o que sua habilidade Avaliação de Cadáver dizia.

Como o corpo estava incompleto, faltando-lhe a cabeça, pés e vísceras, não era possível ressuscitar um zumbi adequadamente, mesmo que fosse um humano. Até mesmo animar a cintura exigiria um esforço monumental, do qual o Necromante em formação tinha certeza de que não era capaz. Não foi por isso que o comprou, de qualquer maneira. Satisfeito por ser capaz de aprender o que podia, Tyron abriu a sala dos troféus mais uma vez e saiu com uma adaga reluzente em mãos. De todas as lâminas naquela sala, ele estava confiante de que esta era a mais afiada. Ele sabia disso, pois havia testado a maioria delas ao longo dos anos, quando seus pais estavam fora.

A Avaliação de Cadáveres havia feito tudo o que podia, agora era hora de ‘Preparação de Cadáver’ subir ao palco.

Pela próxima hora, Tyron fez um curso intensivo de açougue enquanto tentava remover o máximo de carne dos ossos que conseguia. Era um trabalho cansativo e seu corpo dolorido ainda não havia se recuperado dos esforços da noite passada, protestando ferozmente enquanto ele trabalhava. Era um trabalho duro. Se o açougueiro pudesse ver a pilha miserável de carne cortada e desfiada que amontoou ao lado do esqueleto, teria chorado pelo trabalhado malfeito com a faca e pelo desperdício. Suas mãos e mangas estavam vermelhas devido ao trabalho, mas Tyron ficou satisfeito com o resultado. Parou por um momento para respirar fundo e limpou o suor de sua testa, manchando seu rosto sem perceber e pensou no próximo passo.

Durante o ritual ele aprendeu uma nova habilidade: Costura Óssea. Com o conhecimento básico que recebeu em sua cabeça, sabia para que servia, mas ele queria praticar antes de tentar com restos humanos. Um zumbi necessitava de um pouco de carne para ser ressuscitado, quanto mais fresco o corpo, melhor o zumbi seria. O motivo para isso, como Tyron compreendia, era que a magia fornecida atuava como o catalisador que permitiria a criatura utilizar a carne apodrecida para se mover, suprindo a diferença quando a carne não estivesse apta para a tarefa. Quanto mais velho e ressecado o corpo era, mais ineficiente o zumbi se tornaria, exigindo mais do Necromante para se mover.

Um esqueleto era diferente. Ele não tinha carne, na verdade, quanto menos tecido orgânico estivesse conectado ao osso, melhor, já que isso interferiria com a magika. Em vez disso, a habilidade Costura Óssea fornecia os meios para o morto-vivo se mover por conta própria. Pelo que ele conseguiu interpretar da habilidade após acordar, era algo semelhante à uma costura mágica. Ao tecer fios de magika o Necromante era capaz de juntar as articulações e fornecer o “tendão” que permitia a criatura se mover. Quanto melhor a qualidade do fio e quanto mais habilidosa a “costura”, melhor o esqueleto conseguiria se mover.

Se Tyron fosse ressuscitar um esqueleto humano, não queria fazer um trabalho ruim nele. Isso seria desrespeitoso. Já que faria isso, se estava correndo o risco de se infiltrar no cemitério de novo, então ele queria que seu próximo lacaio fosse mais promissor e útil do que o primeiro.

‘Pobre Sra. Jessup, ela merecia mais.’

O encantamento era simples, quase um truque; era muito curto. Tyron teve sucesso ao conjurá-lo em sua primeira tentativa e admirou os pontos brilhantes de luz que apareceram na ponta dos seus dedos. Olhou para a bagunça de ossos animais na mesa, respirou fundo e começou a trabalhar. Depois de duas horas de trabalho árduo e doloroso nos dedos, ele desistiu e caiu de cara na mesa.

Utilizar a técnica nos ossos de cordeiro era mais do que difícil. Sua compreensão rudimentar era projetada para uso em humanos, ou restos humanoides, não cordeiros, o que se mostrou um desafio imediato. Ele esperava que isso fosse um problema e não se surpreendeu com o quão mal seu fio se ajustava ao cordeiro. O que o surpreendeu foi a descoordenação dos seus dedos ao criar o fio em primeiro lugar. Seu talento Mão Firme certamente o ajudou a se manter firme e ágil quando necessário, mas a destreza necessária nos dedos para enrolar os fios de magika uns nos outros de forma adequada era algo que ele carecia.

— Puta merda. — Ele xingou, massageando as costas de sua mão direita com o polegar da esquerda. — Isso arde para caralho.

Ele estava sentado na mesa, trabalhando com uma mão após a outra, com uma carranca pensativa na face. Ele precisaria considerar comprar algum tipo de habilidade de costura? Talvez isso fosse mais semelhante a tocar um instrumento?

Ele havia visto bardos viajantes e menestréis se apresentarem na pousada do seu tio, tocando uma variedade de instrumentos musicais. O alaúde ou a harpa poderia funcionar, ambos movimentos extremamente rápidos e precisos em ambas as mãos. Ele estava para se levantar do seu assento e voltar para a sala de troféus para comprar uma Habilidade musical, quando se recompôs e acalmou seus nervos.

— É a euforia. — Ele disse para si próprio. — Apenas relaxe. Sem decisões apressadas.

Ele ainda não havia se ajustado ao seu novo corpo e mente. Ele se sentia tonto e desequilibrado. Precisava pensar cinco vezes antes de fazer qualquer plano ou escolhas dos quais não podia voltar atrás. Comprar uma habilidade para tocar alaúde? Não era a hora. Tyron se forçou a ficar sentado na mesa por cinco minutos, respirando fundo e lentamente. Quando decidiu que estava calmo o suficiente foi recolher o desperdício do seu trabalho. A braçada de restos mutilados precisaria ser jogada no lixo em algum momento, provavelmente depois de escurecer e os ossos ele poderia guardar para que praticasse mais amanhã, mas ele tinha que escondê-los em lugar onde não fedesse muito. O porão era o lugar ideal para isso. Embora fosse apertado lá embaixo, era frio e, mesmo se fossem encontrados, os ossos não pareceriam tão deslocados entre as outras comidas armazenadas nas prateleiras ali.

Depois de terminar ele se deu ao trabalho de esfregar a mesa, e agora se arrependia de não ter utilizado um pano para cobrir a superfície dela. Guardar segredos não fazia parte da sua vida até então. Ele não tinha nada a esconder e ninguém de quem se esconder. Ele mesmo poderia reconhecer que era um péssimo mentiroso em ocultar informações, algo que não poderia se dar ao luxo. Talvez em mais quatro dias ele desistisse da sua Classe e continuasse a viver como um aleijado honesto, mas se não, precisaria aprender a como não revelar suas atividades.

E rápido.

Como um dia havia se passado, fazia vinte e quatro horas desde que Tyron havia se tornado um Necromante e faltavam apenas quatro dias até ser forçado a tomar sua decisão final. Até lá, aprenderia o máximo que pudesse.

Enquanto limpava a bagunça Tyron considerou brevemente a outra habilidade que havia aprendido: Perfure o Véu.

Supostamente, ela o permitia se comunicar com uma entidade chamada de Abismo, um dos três grupos responsáveis por conceder a desagradável Subclasse “Anátema” a ele. Seria uma mentira dizer que não estava curioso, mas muitos mais que curioso, estava com medo. Ele não sabia nada sobre esse “Abismo” ou o que ele queria. Não estava disposto a conjurar um feitiço ou ritual quando não estivesse confiante de que sabia o que poderia acontecer. Nesse caso, ele não sabia nada sobre o que ocorreria e, a menos que estivesse realmente desesperado, não recorreria a essa medida.

Pelo resto da tarde, Tyron continuou discreto, recuperando-se e se preparando para a excursão noturna. A única vez que saiu de casa foi quando decidiu mostrar seu rosto na Pousada para uma refeição. Se ele se escondesse em casa e não mostrasse muito seu rosto, apenas faria sua família se preocupar e ficar de olho nele, algo que preferia evitar. Era muito melhor aparecer, comer uma refeição quente e dar a impressão de que estava superando seu “desapontamento” de forma gradual.

A pousada estava aquecendo quando ele chegou no início da noite. O jantar foi servido e os clientes estavam começando a chegar. Alguns se preparavam para continuar a festa da noite anterior, outros apenas procuravam uma refeição quente antes de se recolherem para uma noite tranquila. Uma mistura saudável de locais e viajantes ocupavam as mesas, murmúrios baixos de conversa deram espaço para uma atmosfera confortável quando Tyron abriu a porta.

Para um homem que passou a maior parte da sua juventude esmagando o rosto das pessoas com um pedaço de metal endurecido, Worthy Steelarm sabia como criar uma atmosfera agradável. O fogo crepitava alegremente, as mesas brilhavam de tão limpas e, mesmo nesta hora relativamente cedo, braseiros estavam acesos na sala para criar uma cena calorosa e confortável. Como esperava, seu tio estava de olho na porta e o cumprimentou alegremente antes mesmo que ele conseguisse fechá-la atrás dele.

— Ho! Meu sobrinho favorito retornou, duas vezes em um dia! Deve ser minha personalidade charmosa! — O grande homem sorriu.

Tyron suspirou e foi até o bar. Enquanto passava pelas mesas, escaneou através do cômodo e ficou aliviado por não ver nenhum dos seus amigos presentes. Depois de se encontro mais cedo com Elsbeth, ele não queria ter mais experiências com seus amigos. Só podia imaginar quão insuportável Rufus havia se tornado. E Laurel… quem sabia o que Laurel pensava?

— Provavelmente tem mais a ver com a comida da tia Meg. — Tyron disse.

Seu tio agarrou o peito, fingindo sentir dor.

— Você me machucou, sobrinho. Pensar que meus cuidados valeram menos que uma panela de ensopado.

— Para ser honesto, você já experimentou o ensopado?

Worthy permaneceu em silêncio por um instante.

— É um ensopado muito bom. — Ele admitiu.

Uma risada veio da cozinha atrás dele, seguida instantes depois pela própria Meg com uma colher de madeira na mão e vestida em um avental, ela parecia exatamente a esposa rechonchuda do dono da pousada.

— Você me escutou vindo. — Ela acusou o marido com um sorriso enquanto o cutucava com a colher. — Sabe que teria que comer pão velho e ossos se dissesse algo ruim sobre minha comida.

O Martelador de alto nível fingiu ser desajeitado enquanto se defendia dos ataques da colher de sua esposa.

— Eu nunca sonharia falar mal da sua comida. Ei! Você poderia… pare com isso, mulher!

Finalmente cansado das cutucadas incessantes, as mãos do dono da pousada se tornaram um borrão e, de repente, Meg se encontrou sem colher. Despreocupada, ela deu de ombros antes de exibir um sorriso brilhante do seu sobrinho.

— É bom te ver de novo, Tyron. Espero que esteja pronto para um banquete! Fiz uma porção extra hoje à noite.

Olhando para o casal desajeitado, o jovem percebeu que aquele gesto alegre foi meio natural e meio fingido para ajudá-lo a se sentir melhor. Ele sentiu sua garganta apertar enquanto suas emoções ameaçavam surgir. Seus tios eram boas pessoas e era difícil enganá-los. Por um instante sentiu que deveria se abrir para eles, revelar a situação e confiar nos conselhos deles, mas algo o impediu.

Ele forçou um sorriso.

— Obrigado, tia Meg. Eu adoraria comer algo.

A Chefe sorriu calorosamente e pegou de volta sua colher do marido, antes de voltar para a cozinha e servir uma tigela para ele. Worthy apenas riu e deu de ombros defensivamente.

— E pensar que eu costumava caçar bestas e monstros para viver. Agora, sou intimidado na minha própria pousada.

— E você nunca esteve tão feliz. — Tyron disse a ele.

— Sim, isso é verdade. — Worthy sorriu amplamente antes de esticar a mão para bagunçar o cabelo do sobrinho. — Não se preocupe sobre o que você me disse mais cedo, rapaz. — Ele disse. — Assim que seus pais chegarem em casa, trabalharemos no melhor caminho para você. Seja lá o que você queira ser, sua mãe saberá como fazer acontecer. Aquela mulher sabe mais sobre a Classe Martelador do que eu mesmo!

Tyron olhou para baixo e engoliu o caroço em sua garganta antes de assentir. Felizmente seus parentes lhe deram algum espaço assim que colocaram a comida à sua frente e ele comeu às pressas antes de limpar a bagunça e sair em silêncio. No fundo, não queria contar a verdade para sua família, pois, assim que o fizesse, a decisão do que fazer a seguir não pertenceria apenas a ele. O máximo possível, ele queria tomar as escolhas que decidiriam seu futuro por conta própria. Recusava-se a abrir mão desse controle.

Talvez os Deuses estivessem certo sobre ele, afinal.

Comentários